O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 11 de 50

Páginas do PDF

O Palhaço e o Psicanalista

O Hospital da Escuta Viajante

9 O hospital da escuta viajante

 

Além de jogar e representar, a arte da escuta exige as qualidades que se espera de um bom viajante. Há pessoas que viajam com um roteiro fixo em que qualquer contratempo é sentido como uma ameaça. Há outras que tiram tantas fotografias para lembrar-se depois, que conseguem se evadir do agora e não vivem o que define a essência da viagem, que é a arte do encontro contingente. Viajar é redescobrir-se outro, naquele país novo e diferente, e que nos tornará outros quando voltarmos para nosso lugar. Ora, entrar em contato com o desconhecido sem se sentir ameaçado por ele é o que esperamos de alguém disposto a nos ouvir e se surpreender com o que dizemos, como se fosse uma viagem feita com palavras.

Imagine alguém que pense a viagem como um deslocamento físico que tem um ponto de partida e outro de chegada. Imagine que essa pessoa faça planos muito minuciosos. Que leia e se informe detalhadamente de todos os lugares aonde irá, de tudo o que terá que comer e de visitar. Imagine agora que tudo saiu exatamente como planejado, e ao final tirou nota 10. Tudo correu tão perfeitamente conforme o esperado que podia até mesmo ter contado a viagem passo a passo para seu amigo antes de ter embarcado. As fotos que tirou são exatamente aquelas que queria tirar, por ter visto os lugares que viu dos mesmos ângulos que tinha estudado.

Avaliação final: a viagem foi chata. Só falta querer repassar as fotos para os amigos como se fosse uma aula. Da próxima vez, considere ler um bom livro em casa, pois vai te levar a uma viagem mais interessante.

Mas a estrutura da viagem depende do seu ponto de retorno. E o lugar de retorno, no qual a viagem termina ou se interrompe, é o parêntese da vida, o hospital para onde vamos restabelecer forças depois de uma longa jornada. Damos o nome de “restaurante” para lugares que servem comida porque inicialmente esses estabelecimentos tinham uma dupla função: albergagem e restauração de peregrinos.

A Alemanha é a terra de meu pai e de meus e avós paternos e maternos. A terra da qual tinha ouvido falar tantas vezes na escola alemã em que estudei. Sem querer ou planejar, sentia que já sabia mais ou menos como as coisas seriam. Tinha até um maço de notas (marcos alemães, na época) que minha avó me dera como um presente simbólico. Vindo da Holanda, cruzei a fronteira e desci para abastecer o carro e, na hora de pagar, saquei garbosamente o maço de notas. O atendente olhou meio rindo, meio suspeito para mim dizendo que eu devia estar de sacanagem. Pânico. Será que eu tinha entendido certo “aquela” palavra? Coloquei o tipo de gasolina errado? Percebendo minha vulnerabilidade, ele piedosamente esclareceu que há uns vinte anos ninguém usava aquelas notas. Elas foram recolhidas e talvez algum banco pudesse trocá-las, mas que ali ele precisava de dinheiro “de verdade”. Eu gani algo como “perdão, mil desculpas… é que eu sou brasileiro”. Ele, percebendo a fila se formar atrás de mim, rosnou de volta: “E daí que você é brasileiro? Eu sou turco”.

Saí do posto de gasolina meio desarvorado com a falta de hospitalidade, e envergonhado com minha atrapalhação. Depois disso, ri de mim mesmo. Afinal, de onde eu tirei a ideia de que os alemães seriam receptivos, acolhedores e compreensivos, ainda mais com quem estava atrapalhando o funcionamento das coisas. De onde tinha vindo a fantasia de que eu diria “brasileiro” e alguém do outro lado diria: “Bem-vindo! Estávamos esperando por você! (Há uns vinte anos)”.

Lição maior: não é só você que está viajando. Visto pelo ângulo certo, o outro é tão estrangeiro quanto você.

Depois disso senti-me imediatamente em casa… Mas agora de outro jeito. Descobri que viajar é sair do lugar, principalmente dos lugares imaginários e geralmente confortáveis onde nos colocamos e antecipamos os outros.

Entrei no carro e disse para minha esposa: “Vamos em frente!”. Enquanto segurava corajosamente o mapa, e avançávamos na direção de um daqueles entroncamentos quíntuplos de pontes, estradas e pedágios, com aspecto de monstro de seriado japonês, feitos de lixo e poluição, prestes a ganhar vida própria (e pisar em alguns carros). Abri o mapa ainda mais e ele pegou uma rajada de vento, voando janela afora. Perdidos. Sem dinheiro. Em meio a um nó de estradas de alta velocidade, com o narcisismo abalado pelo ataque otomano e diante do Godzila, que agora movia seu primeiro dedo mínimo rumo a Munique.

Do ponto de vista da eficácia prática de viajar, o que acabei de contar é uma sucessão de desastres. Foram vividos como tal e até hoje prefiro evitar aquela área. Mas, do ponto de vista do processo, essa sucessão de contingências me deixou a mais vigorosa lembrança sobre o que seria reencontrar uma terra imaginária. O resultado foi ruim, mas a experiência foi boa, deu uma boa história. É isso que um escutador quer extrair das pessoas, o processo, a experiência, para além ou para aquém dos resultados e seus fins. A viagem se completa com a história que fazemos dela, ou seja, quando conseguimos passá-la para outro que não estava lá, e dessa forma reconstruir e reparar nossa própria experiência. A viagem se completa quando nós a escutamos. Quando a escutamos nos tornamos parte de outras histórias; nesse caso, de meus ancestrais, mas agora de vocês que estão lendo este livro.

É a história que se conta e que se impõe aos fatos dos quais ela é composta. É o valor de memória dos encontros que se sobrepuja à eficiência do planejamento. Por isso aprender a escutar é aprender a errar, no duplo sentido de enganar-se, voltar atrás e corrigir-se, mas também de errar no sentido da errância, do perambular sem destino, como Moisés errou quarenta anos no deserto antes de achar a terra prometida. Muitas vezes chamamos de “jogar conversa fora”, mas que para o escutador é só um pretexto para “jogar palavras para dentro”.

Escutar é abrir-se para a experiência, acolhendo a vulnerabilidade e a contingência na qual ela nos coloca. Escutar é jogar, representar e viajar.