O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 24 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

Cuidado ou Controle?

22 Cuidado ou controle?

 

A jornada da escuta é a jornada do agora rumo ao amanhã passando pelo ontem. Não acontece num futuro idealizado, nem se apoia no que poderíamos ter projetado dela anteriormente. Escutar é uma experiência que se renova a cada encontro. Justamente por isso, quando estamos presos ao capítulo anterior de nossa minissérie interior, não conseguimos escutar muito bem nem ao outro nem a nós mesmos. Para o educador espanhol Jorge Larrosa Bondía, experiência é algo que acontece quando estamos em nós:

Em espanhol, para nos referirmos à experiência, dizemos: lo que nos passa. Ou seja, somos atravessados pela experiência. Em francês, o sujeito da experiência é um ponto de chegada: ce que nous arrive. É preciso então sermos anfitriões, estarmos abertos a hospedá-la. E, em português, em italiano e em inglês, onde a experiência soa como “aquilo que nos acontece, nos sucede”, ou happen to us, o sujeito da experiência é sobretudo um espaço onde tem lugar os acontecimentos. É, portanto, incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem

nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre.[23]

Fazer da escuta uma “experiência” é deixar que as palavras e os corpos nos cheguem, nos afetem, nos atravessem. Requer estarmos vulneráveis e disponíveis para a aventura. Voltando à palavra “experiência”, aprendemos que carrega em si as lições para viagem, do latim experiri: “experimentar, provar”. Periri: vem de periculum “perigo”. E raiz per, que se relaciona com a

ideia de “travessia”.[24] O mesmo radical aparece em “pirata” (peirates), como signo daquele que não tem um lugar fixo no mundo, mas é um viajante depossuído, que vai pegando o sapato dos

outros, deixados ou tomados por aí.[25]

A viagem da escuta é, portanto, a experiência do risco, do perigo e da travessia: não temos como antecipar os rumos da viagem que se abre quando o outro começa a se abrir. Poderíamos chamar de “desencontrole” a nau que nos transporta nessa jornada rumo ao desconhecido, e de “cuidado” a força que nos encoraja a embarcar e a suportar as incertezas da viagem.

Velejadores que partem para grandes viagens estudam minuciosamente suas rotas, preveem alimentação adequada para os longos dias no mar, preparam-se física e mentalmente e, sobretudo, cuidam um dos outros, atentando sempre para que cada um cuide si. Todas essas precauções constantes e em série municiam o viajante com a quantidade de ordem suficiente para ele poder, não só suportar como também desfrutar do caos que se avizinha. Podemos dizer, que uma verdadeira aventura deve acontecer de forma caórdica (caos + ordem). Enquanto o cuidado atua no fluxo, a abertura para a desordem nos conecta com o aqui e o agora. Em uma conversa, assim como numa viagem, a quantidade de controle é inversamente proporcional à qualidade do encontro. Em última instância, onde há excesso de controle já não há encontro, nem cuidado nem escuta.

Vamos olhar um pouco mais de perto para esses dois primos, tão distantes quanto diferentes, cuidado e controle:

1. O cuidado olha para o todo como uma situação aberta que comporta um espaço de

indeterminação produtiva. Se tudo der errado, mesmo assim a experiência terá valido a pena, pois o processo foi vivido de maneira interessante e intensa. O controle olha para você mesmo como uma situação fechada, em que imprevisibilidade e risco podem ser mitigados por um esquema de determinação. Se tudo der errado, o processo todo terá sido uma perda de tempo e de dinheiro. Às vezes, isso acontece também quando tudo dá certo.

2. O cuidado é feito com uma espécie de silêncio de fundo. Ele envolve a consideração de

que existe um espaço vazio deixado para que aquele que é cuidado o ocupe e faça bom uso dele, se for o caso. Deixar esse espaço vazio, esse tempo que cabe ao outro, é uma condição essencial da escuta. Alguns podem descrever isso como uma atitude de espera em reserva, ou seja, de disponibilidade para que o outro finalmente cuide de si e liberte-se de nós, prescindindo inclusive de nossos cuidados. Cuidar de si começa com a capacidade de escutar-se. Aquele que quer cuidar do outro “apesar do outro”, porque imagina que sabe o que é melhor para o outro, porque tem valores e convicções que acha que tornarão o outro melhor, está cuidando do outro sem ajudá-lo a cuidar de si, gerando dependência. Na verdade, deveria se chamar controle ou governo de si sobre o outro. Muitos falsos cuidadores estão, antes de tudo, tentando governar no outro o que não conseguem dominar em si mesmos.

3. O controle vem sempre com um excesso de palavras. Tipicamente ele aparece como

aquela voz que fica narrando o jogo da vida enquanto ela acontece: “errou”, “acertou”, “faça melhor na próxima”, “desvie disso”, “faça aquilo”, “como pude errar esta bola”. Dessa maneira, a vida cria uma espécie de duplicata, um eco da experiência como demanda

de controle. Existem as experiências, os encontros, os sucessos e os fracassos, que já são por si só bastante difíceis de enfrentar, mas além disso há essa controladora voz da consciência, esse juiz ininterrupto de nós mesmos que não cansa de auto-observar, julgando punitivamente as inadequações. Contudo, o controle não é uma atitude ruim em si. Adoramos controlar coisas e queremos ser controlados em muitas situações. A luta pelo “controle remoto” será sempre uma disputa por quem escolhe a música ou o filme e faz valer sua proposta. Mas a atitude de controle torna-se uma experiência indesejável quando o outro é colocado no lugar de instrumento, sem o seu óbvio consentimento e satisfação. Quando lidamos com o outro, como se este fosse uma extensão de nós mesmos, o outro começa a ser tratado como coisa ou como objeto, o que cedo ou tarde embrutecerá aquele que assim se relaciona com os outros. É nesse sentido específico que o controle é um modo de relação muito simples e pouco criativo, pois, a rigor, para controlar ou ser controlado pelos outros não precisamos escutar, basta ouvir, codificar e decodificar ordens e mensagens.