O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 5 de 50

Páginas do PDF

O Palhaço e o Psicanalista

Aprendendo a Escutar

3 Aprendendo a escutar

 

Se de médico e louco todo mundo tem um pouco, de psicanalista e palhaço todo mundo tem um pedaço.

Um lado, associado ao psicanalista, de bom ouvinte, inteligente e conselheiro e o outro, mais bocó e amigo, que costuma aparecer inesperadamente fazendo rir sem que se saiba direito por quê.

Este livro resulta do encontro entre esses dois lados disparatados de olhar para o mesmo problema: como escutar os outros? Depois do encontro na Carandá Vivavida e na Casa do Saber, passamos a nos encontrar periodicamente, sem margaritas, mas com algumas garrafas de vinho. Reconfirmamos a ideia inicial de que a parte do psicanalista no palhaço e a parte palhaço do psicanalista têm em comum praticar a escuta como uma espécie de brincadeira séria que transforma as pessoas. É isso que chamamos de escuta lúdica, que consideramos como uma antessala para a escuta empática. Apoiamos nisso nossas pesquisas ao longo de anos de convivência e encontros com pais, alunos, empresários, pacientes e público, de teatro de rua e psicanalítico em geral. Somos ambos escutadores profissionais. Escuta é nosso ganha-pão cotidiano. Nossas trajetórias nos tornaram faladores, palestrantes e escritores, mas a arte comum que praticamos é muito mais a da escuta. A escuta das pessoas em seus mundos, em meio à alegria e miséria, passando do sofrimento para a capacidade de mudar o mundo e a nós mesmos. Freud, pai da psicanálise, dizia que ela é a arte de transformar o sofrimento neurótico em miséria ordinária; e um bobo da corte, pai de todos os palhaços, poderia dizer que a arte do palhaço é transformar a miséria ordinária em preciosa experiência de vida.

Escutar com qualidade é algo que se aprende. Depende de alguma técnica e exercício, mas também, e principalmente, de abertura e experimentação. É uma arte difícil de dominar porque seus efeitos visíveis acontecem no outro em tempo real e segundo as leis do improviso: o riso, a metamorfose do humor, a mudança de atitude com relação a si mesmo, ao mundo e aos outros. O escutador está interessado em produzir esses efeitos no outro, no nosso caso, analisantes em particular e o público em geral. Certa vez, perguntei ao meu filho de 9 anos o que ele queria ser quando crescer e ele me disse que queria criar uma escola para ensinar as pessoas a contar piada e a encontrar graça na escola. De fato, na escola não se ensina como modular o humor, como criar alterações nos estados de espírito ou o que Freud chamava de técnica do chiste. São Tomás de Aquino disse que, se você quer entender o que são metáforas e alegorias, não procure nos livros, vá a uma feira livre. É, portanto, ouvindo as pessoas no mercado, com suas vozes e confusões criativas, assim como pela observação de como as pessoas contam piadas, que aprendemos a escutar o outro.

Palhaços e psicanalistas concordam que a arte da escuta do outro começa pela possibilidade de escutar a si mesmo. Chatos e neuróticos são caracterizados pela pouca atenção às suas próprias palavras, daí o desprezo ou a indiferença pelos efeitos que elas causam nos outros. Chatos e arrogantes sempre colocam o que eles queriam dizer e as suas boas intenções à frente do que o outro realmente ouviu. Eles acham que a escuta é uma questão de telepatia e não de atenção à realidade das palavras. Por isso, o psicanalista deve necessariamente fazer sua própria análise, e o palhaço passa por uma profunda experiência existencial em sua formação ao longo de sua prática. Ambas são práticas que exigem uma posição ética peculiar, um lugar social um tanto deslocado, como que a representar o que ainda não pode ser representado, por uma dada forma de vida ou por certa época cultural.

Este livro é a partilha e a tentativa de transmitir o que aprendemos sobre a complexa arte da escuta. Ele baseia-se em nossas experiências, nossos testemunhos, casos e em algumas generalizações.

Embora este não seja um manual do tipo “faça como eu”, ou um guia prático do bom escutador, você vai encontrar aqui alguns conselhos, dicas semipreciosas e regras de ação que esperamos que não sejam levadas demasiadamente a sério. Acreditamos profundamente na

autoajuda, quase tanto quanto Brás Cubas[2] acreditava que tinha descoberto o emplastro universal para curar a hipocondria. Talvez a autoajuda seja realmente a única forma de ajuda. Mas acreditamos também muito no humor, e este começa por não se levar a sério demais.

Lição 1: Ninguém se torna psicanalista ou palhaço seguindo regras piamente. Lição 2: Não acredite demais no que psicanalistas e palhaços dizem por aí. Eles são sempre

um tanto falastrões, charlatões, envolvidos que estão em um ofício de alta precariedade e baixa previsibilidade: às vezes escutar dá certo, às vezes não dá muito certo e às vezes dá errado. Escutar é uma arte que envolve risco.

Para dar algum ar de reverência e credibilidade ao que estamos dizendo, criamos uma doutrina que denominamos pomposamente de Os quatro “agás” da escuta. São quatro palavras que exprimem as quatro atitudes ou lugares que um bom escutador deve cultivar e habitar e que serão detalhadas ao longo de nosso livro:

1. Hospitalidade.

2. Hospital.

3. Hospício. [3]

4. Hospedeiro.

Você não precisa decorar a ordem de aparição, nem se confundir com as palavras parecidas, mas esteja preparado para a repetição delas neste livro. Essas palavras compõem as atitudes ou disposições básicas para uma boa escuta. Há também escutadores, profissionais ou amadores, que são melhores em cada uma delas. Descobrir qual o seu biotipo escutador preferencial e em qual deles você não vai tão bem assim pode ser um começo de conversa.

Faz parte da referida doutrina, em seu parágrafo primeiro, versículo 16, “agoramente” criado, acreditar que a gente pouco ensina ao outro, mas é inevitável que o outro aprenda mesmo assim. Ou seja: nós não escrevemos este livro com a pretensão de legislar regras cuja obediência criará um escutador. Muito menos faremos avaliações e métricas para deixar você ter a satisfação de ganhar alguma coisa e avaliar-se mais uma vez.

Trata-se, antes de tudo, de um convite para que você leia nossas histórias e discuta o que nos parecem grandes erros básicos dos não escutadores. Talvez assim você possa descobrir a sua própria forma de escutar, a partir do seu próprio estilo, com seus dotes e limitações. Essa é uma lição mais importante do que parece porque, em geral, as pessoas já aprenderam certas coisas sobre como devem escutar e frequentemente isso funciona como uma espécie de camisa de força que não estimula nem coloca o problema básico e primeiro: como você, nos seus termos, com a sua história e do seu jeito, pode encontrar um modo de escutar os outros que lhe seja próprio e autêntico. É por essa regra e por esse motivo que a escuta começa pela escuta de si. Não apenas do que você gostaria de ver e de encontrar em si, mas com toda extensão real que aí existe, incluindo vozes indesejáveis, sentimentos inadequados, sinais contraproducentes e mensagens enigmáticas. Escutar-se como um vaso apolíneo de perfeição pode trazer uma satisfação momentânea, mas, a médio prazo, terá que enfrentar as consequências indesejáveis de que o outro nem sempre te devolverá essa imagem de polida perfeição ou de imperfeição dominada na qual você se compraz ou se martiriza. Escutar-se é desconhecer-se, despir-se do conhecido e das inúmeras versões que fazemos e refazemos de nós mesmos, a que a psicanálise chama de narcisismo.

Começamos nossa pequena viagem pelo reino da escuta com duas vozes separadas, como elas estavam quando nos encontramos inicialmente: Thebas e Christian.

No começo, acreditamos, vai ser fácil distinguir quem é quem, mas esperamos que chegue o momento em que você comece a perceber alterações de estilo, de tom e de abordagem, que se misturam mais e mais a cada capítulo, já a partir deste começo. A hora que você não conseguir distinguir mais onde está falando o palhaço e onde está o psicanalista, nós teremos alcançado nosso objetivo.

Esse exercício composicional que moldou a feitura deste livro não é um acaso. Ele corresponde ao modo como entendemos a escuta. Como uma pequena viagem, na qual deixamos, hospitaleiramente, que a voz do outro ecoe em nós mesmos, para em seguida ler sentidos intrusivos e imprevistos, perguntando e investigando a fonte de nossos problemas e inquietudes, tal como se estivéssemos em um hospital. Quando a loucura do hospício particular de cada um puder vir à luz, ser reconhecida e recriada, poderemos em seguida brincar de vivê-la mais uma vez ao contarmos a história desta viagem para tantos outros. É assim que escutar o outro torna-nos hospedeiros de um vírus, portadores de uma experiência que se completa quando a passamos adiante, como uma boa piada que uma vez bem contada nos impulsiona a contá-la para outras pessoas.

Vamos lá? Então, escuta só…