O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 4 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

O Começo: Versão do Psicanalista

2 O começo:

versão do psicanalista

 

Um exercício Zen tem relação com a realização

subjetiva de um vazio. Às vezes se realiza

por meio de uma palavra, de uma frase, uma zombaria,

um pontapé na bunda. É certo que essas espécies

de pantalonadas ou palhaçadas

somente fazem sentido com relação a uma longa

preparação subjetiva […]

JACQUES LACAN, O Seminário, Livro XIII:

O objeto da psicanálise, 1965

 

No começo dos anos 2000, uma companhia de teatro fez a nossa cabeça com uma ideia muito simples e irresistível. Eles pegavam brincadeiras, dessas que fazíamos quando criança, e aplicavam diretamente em escala de massa em um auditório lotado, digamos por quinhentas pessoas. Gente correndo pelas alamedas, subindo nas cadeias, descendo e subindo ao palco, às vezes divididos em grupos ou com cartazes envolvendo manifestação interativa em ato, com uma sensação bizarra de falta de roteiro. O grupo chamava Jogando no Quintal e não havia quem não se espantasse com a força da simplicidade do esquema proposto.

Aconteciam coisas incríveis sem ensaio, envolvendo, por exemplo, perguntar algo a algum anônimo na plateia e, logo em seguida, desenvolver uma tirada inesperada que não podia ter sido ensaiada. A coisa emanava na hora, era improvisação pura. Eu estava começando a dar aula de Clínica e Psicoterapia e acompanhava meus primeiros alunos em seus primeiros contatos com pacientes. Achava difícil explicar para eles como a gente adquire essa habilidade de escutar em tempo real, de arriscar com palavras, acolhendo e devolvendo o que a pessoa diz de forma a ajudá-la a se escutar melhor. Saí daquele quintal com a convicção de que tinha que tornar aquela peça obrigatória para eles.

Contato e improvisação, clown, peças no porão escuro da Pinacoteca do Estado ou então em uma sala de jantar de um semiteatro, no bairro do Bixiga ou na praça Roosevelt, dos Sátiros ou Parlapatões, estavam começando a se notabilizar pela cidade. Cláudio Thebas era um dos caras do Jogando no Quintal. Foi assim que meus amigos do mundo das editoras de livros infantis me falaram dele quando faturou um prêmio de literatura infantil.

Em outubro de 2017, quando nos preparávamos para fazer uma intervenção de escuta junto aos refugiados da construção da barragem de Belo Monte, espalhados pela cidade de Altamira, no Pará, alguém me falou de um grupo de palhaços paulistanos que havia feito o mesmo em 2011, quando a região serrana do Rio de Janeiro foi seriamente atingida pelas chuvas, deixando milhares de vítimas. O grupo se chamava Forças Amadas (sem r). E quem era um dos integrantes do grupo? Ele de novo, o tal do Cláudio Thebas. Pensei em contatá-lo para que ele pudesse me contar como havia sido a experiência, mas o corre-corre movido a urgências acabou impedindo que isso acontecesse.

Seis meses depois, cheguei em casa, vindo da Universidade de São Paulo (USP), em um daqueles dias que parece que instalaram uma colmeia de abelhas na sua cabeça. Um desses começos de noite em que você se lembra de Tom Wolfe narrando a ressaca do protagonista em Fogueira das vaidades. Seu cérebro foi serrado ao meio e substituído por uma rede de circuitos dando mau contato e com o disjuntor desligado. Dentro da sua cabeça há uma lava movente e no centro um ovo frito boiando. Cada vez que o ovo toca em uma das bordas, você toma um choque elétrico. Quando fica quietinho, a lava lá dentro se mexe, avisando que tem vida própria.

É uma hora perigosa para o casal. Desrespeitando avisos de “obras” e “mantenha distância”, ela veio com aquela conversa de trivela. “Sabe aquele grupo que eu te falei lá da escola?” Eu devia saber, mas obviamente não me lembrava. Confessar ou mentir? Tentar empate técnico: “Humm”. A bola passou. “Então, os pais estão conversando sobre paternidade… maternidade, é superlegal, você não acha?” Porteira que passa um boi, passa uma boiada. Mandei outro “Humm”. A bola passou de novo. Desta vez, começou um novelo de palavras e as abelhas começaram a entrar em eletrocussão voluntária com o ovo flutuante. Passei para a fase prática de leitura labial e as palavras dela viravam trilha sonora. Então veio o cruzado de esquerda bem no fígado: “Então, topa ir lá falar com eles?”. Quase caí da cadeira: “Mas justo eu?”. Ganhar tempo e se recompor é importante nessa hora. Veio a notícia fulminante: “É você, lá com o… Cláudio Thebas!”.

Foi a senha para a derrocada final e o massacre do Homem das Cavernas: “Mas como assim? Como que você nunca me disse que o Cláudio Thebas trabalha na sua escola?”.

Cinco semanas depois, eu batia o olho no tal Pokémon Lendário e na hora percebi por que o sujeito sabia fazer o que eu achava que ele sabia fazer: escutar. Tinha pais, bolo e biscoito, gente legal por todo lado, mas o cara era craque. Eu meio “serião” e ele “zoando” na rebatida. Branco e

Augusto,[1] Dedé e Didi, o Gordo e o Magro, um clássico da arte da comédia.

Quando você se sente escutado, você quer mais. E quando você acha que escuta, o outro quer mais também. Quando essas duas coisas acontecem, eu tenho para mim uma regra: avance para a próxima casa, mesmo que isso seja imprudente. Sou meio impulsivo na escuta e isso nem sempre me ajuda como psicanalista. Coloquei a ideia de darmos um curso juntos. Vi aquele olhar dele 90% em letras amarelas piscando “Mentiroso, diz isso para me agradar”. Mas vi também os 10% verdes dizendo: “Será mesmo que tem outro louco como eu por aí?”. O curso rolou e rolou mesmo. Sem muito preparo ou roteiro, mas ficou bom e o principal foi: brincando, a gente se entendeu. Fiquei intrigado com isso. O que é que nós sabíamos fazer sem saber direito como é que fazíamos? Resolvi dobrar a aposta e tentar descobrir o que sabíamos fazer de tão parecido na arte da escuta. Tinha algumas coisas óbvias: foco no outro, atenção ao tempo, cuidado com as palavras, inversão de perspectivas e violação calculada de expectativas. Mas o principal não estava claro.

E assim começou este livro.

No momento em que ele estava quase pronto, testamos a fórmula na inauguração do teatro na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM). Ali, eu estava jogando fora de casa. Era um palco de verdade, com umas 300 pessoas e nós de novo, sem roteiro e com o livro descosturado na cabeça. Na verdade, íamos testar o livro para ver se ele ficava de pé mesmo. Ali também aprendi que, quando a gente se escuta, surge uma espécie de confiança que faz da experiência de estar junto o centro de gravidade da história. A situação de vulnerabilidade ajuda muito a confiar no outro e torna a escuta mais aguda e decisiva. É assim também que o desejo de transmitir a escuta torna-se a tentativa de incluir mais gente na brincadeira.

Nunca me esquecerei do comentário de uma ex-aluna, que estava na plateia e, por coincidência, depois do curso de psicologia, havia se tornado atriz profissional e palhaça: “Chris, está tudo ótimo, funciona, mas na boa… o Thebas é melhor psicanalista do que você é palhaço”. Fui para casa pensando: Acho que ela tem razão. Preciso ser mais palhaço para me tornar melhor psicanalista. É o que estou aqui tentando.