O Palhaço e o Psicanalista
Sete, Trinta e Oito, Cinquenta e Cinco (7-38-55)
33 Sete, trinta e oito, cinquenta e cinco (7-38-
55)
Na convocação para a Copa do Mundo de 2018, o técnico Tite justificou ter chamado o jogador do Grêmio de Porto Alegre, Pedro Geromel com o seguinte argumento: “Tecnicamente ele tem sido consistente, mas há fatores difíceis de explicar, coisas subjetivas que só quem está no dia a dia percebe. O olho no olho, as relações, a conduta, ele vai para a reserva e mantém a postura, a linguagem corporal”.
O fator decisivo para o zagueiro ter sido convocado foi, portanto, o que seu corpo “contou” para a comissão técnica: “Sou bom de relacionamento, estou junto, contem comigo”.
Sim, falamos com o corpo. Sim, escutamos o que nosso corpo fala. Se você quiser ser convocado para a seleção dos seus sonhos – um emprego, uma promoção, uma viagem com os amigos – tem que ter consciência de que sua expressão vai muito além das palavras: gestos, atitudes, posturas, olhares. Sua atitude de escuta não só de fala.
Na década de 1960, o cientista e psicólogo armênio Albert Mehrabian conduziu uma série de pesquisas que resultou na teoria conhecida como 7-38-55. Segundo essa teoria, quando comunicamos nossas emoções, 55% é transmitido por meio da nossa linguagem corporal, 38% pela nossa voz e apenas 7% vem do conteúdo da mensagem, palavras e seus significados. O melhor jeito de compreendermos essas três dimensões é lembrarmos de duas passagens com as nossas mães.
Cena um: Comunicação verbal: musicalidade das palavras
Você, criança, brincando no quarto e sua mãe te chamando lá longe. Seu nome é sempre o mesmo, mas pelo tom de voz dela você já sabia se era coisa boa ou não.
Cena dois: Comunicação corporal: a face.
Você, criança, brincando no quarto. Sua mãe surge na porta. Sem precisar dizer uma única palavra, você já sabe se ela tinha feito um bolo ou acabado de descobrir que você tinha quebrado o vaso chinês.
Segundo Mehrabian, em uma comunicação eficaz e significativa sobre as nossas emoções, essas três partes da mensagem precisam ser “congruentes”, caso contrário cria-se um ruído que pode confundir o receptor e levá-lo a interpretações errôneas sobre o que realmente está sendo comunicado. Exemplo:
Cena três: Desentendimento no trabalho.
Verbal: “Por mim já está tudo esclarecido. Não tenho nada contra você”.
Vocal: A voz é mais grave, mais baixa e controlada.
Corporal: Cabeça baixa, ombros fechados, braços cruzados, testa franzida.
Como entender o que realmente se passa com nosso interlocutor se a voz e a gestualidade de seu corpo parecem contradizer sua fala verbal?
Acreditamos que o aprendizado de como escutar os outros, passa fundamentalmente por aumentar a credibilidade do que estamos sentindo e hospedarmos a sensação de esquisitice que nos chega quando percebemos alguma dissonância entre os aspectos verbal, vocal e corporal da mensagem. Mas, sejamos sinceros, nem sempre é isso que fazemos. Muitas vezes passamos por cima dessas sensações que nos incomodam por acharmos (ou preferirmos achar?) que “foi impressão minha” e, no fundo, escolhemos nos fiar em um aspecto em detrimento do outro, geralmente em função do que estamos querendo escutar.
Entre confiar no dito ou no dizer, em geral, nos ensurdecemos ao desconcerto das outras vozes que nos chegam. Ignoramos que escutar se faz com todos os sentidos e não apenas com a nossa audição. Podemos, por exemplo, comer um prato de comida e aquilo não nos dizer nada. Por outro lado, há pratos que contam histórias. Um tempero que lembre a casa da avó, um cheiro que nos remeta às palavras do pai no almoço de domingo. Assim como podemos escutar com o olfato, ou com o paladar, nosso olhar nos ajuda a ler o que o outro está tentando nos dizer.
Mas atenção, quando nos encontramos com inconsistências, incoerências ou contradições tendemos a achar que a comunicação precisa melhorar de tal forma que a mensagem ou a demanda emerge com mais clareza. Ora, na maior parte do tempo essa é a exceção e não a regra. Ou seja, na maior parte do tempo escutar o outro é escutar essas dissonâncias e incongruências como a própria essência da mensagem, como diria Clarice Lispector: “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões eu amava. Não sabia
que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente”.[39]
Todo palhaço já passou por alguma situação em que percebe que a plateia está dizendo sim, mas gritando silenciosamente não. Pedimos, por exemplo, para o público fazer algum movimento rápido com os braços. Eles até fazem, mas com tônus zero, vozes fracas, movimentos vagarosos. A pior coisa que se pode fazer nesses casos é fingir que está tudo bem. Seguir adiante significa carregar a falta de conexão como um fardo para ambos os lados. A melhor saída para o palhaço nessas situações é expor o que está sentindo: “Gente… tô até com vergonha… tenho a impressão de que foi uma péssima proposta. Um senhor ali do fundo em vez de levantar o braço, levantou só o mindinho”. Ações assim costumam nos reconectar: “Que bom, o palhaço está percebendo o que estamos sentindo”.
Também quando as intervenções psicanalíticas são seguidas por um “eu sabia que você ia dizer isso” sentimos que estamos errando no tempo, na forma, e que não vai adiantar repetir aquilo sem modificar nosso dizer. É preciso acolher o fracasso de escuta, da mesma forma que o sucesso. Na verdade, com o tempo aprendemos que o senhor da conversa é a própria continuidade, e que, portanto, não devemos levar muito a sério elogios e críticas, principalmente se não se confirmam na sucessão dos acontecimentos. Isso acontece porque a representação que fazemos da situação é muito menos importante e eficaz no processo transformativo do que a realidade do encontro e dos acontecimentos. Pacientes inertes como uma pedra podem saudar progressos no tratamento, assim como analisantes que se declaram paralisados podem estar em meio a uma tempestade de mudanças não percebidas. O truque, nesse caso, consiste em dar razão e legitimidade à posição terceira no interior da comunicação. A posição terceira ou simbólica é aquela palavra, gesto ou voz que produz um sentido que ultrapassa as opiniões e as representações dos envolvidos no encontro. Mais ou menos como em uma partida de futebol, em que os comentaristas podem achar uma coisa ou outra, mas quem decide é a bola na rede.
Na relação palhaço-plateia, a melhor forma de conferir o que foi entendido quando a voz do outro nos diz uma coisa, no entanto o corpo outra, é sermos o mais sinceros possível. Sinceridade é diferente de franqueza. Franqueza leva em consideração o que você precisa dizer. E ponto-final. A sinceridade considera que há alguém do outro lado e que há, portanto, de se cuidar das palavras. Isso não tem nada a ver com “dourar a pílula,” fazer rodeios”. Tem a ver com o desejo de falar e ser escutado, com saber diferenciar crítica de ofensa. Tem a ver com abrir mão da
violência e não do que tem que ser dito.[40] Sinceridade, portanto, não é sincericídio e a prática da franqueza deve ponderar o quanto de verdade realmente importa para a situação, e qual é o limite em que o franco torna-se um cínico.