O Palhaço e o Psicanalista
A Marginalidade dos Palhaços
4 A marginalidade dos palhaços
Quando se fala em palhaço, duas imagens costumam vir logo à cabeça. Palhaço, infelizmente, é aquele de quem muitos têm medo. Ele pega alguém da plateia para ridicularizar, faz grosserias, piadas inconvenientes. Crianças têm medo de palhaços. Filmes de terror exploram impiedosamente nossas fantasias infantis sobre tal figura. Esses palhaços malvados existem em nosso imaginário e, felizmente, são a minoria na realidade. Neste exato instante em que você está lendo estas palavras, milhares de palhaços em todo o mundo estão em hospitais, campos de batalha, campos de refugiados, escutando pessoas, relacionando-se verdadeiramente com elas, buscando, por meio do afeto e do humor, amenizar a dor daqueles que estão passando por situações trágicas e delicadas. Dessa imagem, inferimos por que a comédia é uma espécie de tratamento para a tragédia. Um tratamento que não nega nem destitui a existência do pior, mas que faz com ele uma espécie de inversão de sentido. Assim, introduzimos que o horizonte do que o palhaço escuta é a tragédia da vida, a sua realidade mais extensa de miséria e impotência, de pequenez e arrogância, de pobreza e desencontro que se mostra sempre como uma repetição insensata. O palhaço é um realista, mas não um pessimista. Ele mostra a realidade exagerando as deformações que criamos sobre ela. Primeira lição a tirar disso para a arte da escuta. Escutar o outro é escutar o que realmente ele diz, e não o que nós, ou ele mesmo, gostaria de ouvir. Escutar o que realmente alguém sente ou expressa, e não o que seria mais agradável, adequado ou confortável sentir. Escutar o que realmente está sendo dito e pensado, e não o que nós ou ele deveríamos pensar e dizer.
A segunda imagem sobre o palhaço o coloca no picadeiro. Falou circo, pensamos logo em palhaços. No entanto, eles são muito anteriores à existência desse tipo de espetáculo itinerante. Acreditamos que palhaços são anteriores à existência de qualquer espetáculo, enquanto forma organizada de arte. Palhaços têm uma espécie de função social, pois eles condensam e sintetizam a possibilidade dada pela linguagem e pela coabitação humana de imaginar e viver, a partir do mundo dado, um outro mundo possível. Com alguma facilidade, a gente consegue imaginar um grupo de ancestrais nossos, lá no tempo “das cavernas”, rindo de um membro do bando mais desajeitado numa caçada ou se atrapalhando ao tentar apanhar frutas. Esse momento foi quando descobrimos que podemos ser diferentes de nós mesmos. Nesse momento, inventou-se a ficção, o “como se”, o “era uma vez”.
Lembremos agora que o palhaço vem com a máscara, com o nariz falso, com as roupas exageradas ou inadequadas. Todos esses signos de que alguém pode ser um personagem diferente de si mesmo: um adulto que é ainda uma criança, uma criança que já é um idoso, um estrangeiro que é familiar, um desajeitado forasteiro que não entende a língua, por isso é mudo. Todos os traços do palhaço mostram uma profunda afinidade entre a ficção e a verdade das coisas. Afinal, a verdade sobre nós mesmos é que inventamos mentiras. A verdade sobre nós mesmos é que nós nos enganamos, criamos ilusões, nos orientamos por fantasias e nos deixamos levar por enganos que são apenas respostas à força de nossos desejos. Segunda descoberta decorrente da arte da escuta. Escutar é uma pesquisa sobre a verdade do que está sendo dito. Verdade entendida aqui como relação entre aquele que diz e o que ele diz. Verdade que tem uma estrutura de ficção, e não de correspondência com o mundo e a ordem das coisas. A “verdade” que se opõe, mas que é feita também da “brincadeira”. Como quando se ouve que “é brincando que se fala as grandes verdades”. Quando alguém coloca uma roupa maltrapilha, um sapato gigante, sai correndo atrás de um carro e se coloca em posições sucessivamente ridículas, nós olhamos para a cena e rimos. Por quê? Porque vemos naquele personagem a verdade sobre nós mesmos: infantis, iludidos, humanos ridículos e limitados. Quando rimos do palhaço, rimos de nós mesmos porque escutamos por meio dele a verdade sobre nós. Por isso, cuidado ao xingar os outros de “palhaço”, porque além de dizer que está o usando para se divertir, você está revelando que ele porta um fragmento de verdade que você mesmo não consegue suportar.
Esse exercício de imaginação nos traz um importante aprendizado: o palhaço não interpreta um personagem. Ele é. E ele é de uma forma que coloca em questão a relação entre o real e a verdade. O palhaço acolhe a vida como ela é, em toda a extensão de sua miséria e com toda a ficção que ela comporta. Vem do palhaço a arte da hospitalidade e a função de ser hospedeiro daquilo que o mundo não consegue ver ou suportar.
A compreensão disso é fundamental para se entender de onde vem o riso que o palhaço nos provoca. Dos humoristas, nós rimos das piadas. Dos palhaços, nós rimos deles. De como eles são tontos. De como eles são atrapalhados. De como são desajeitados. Mas rimos também de como eles, nessa atrapalhação toda, revelam como todos nós somos, fomos ou seremos assim atrapalhados, desajeitados e tontos.
Os dangas eram pigmeus, trazidos do interior da África e, no antigo Egito, dançavam para fazer os faraós rirem. Os bobos da corte e os bufões da Idade Média eram gente torta e esquisita, em geral estrangeiros, que podiam dizer certas verdades aos reis, justamente porque estavam à margem da disputa social pelo poder. A figura e a função do palhaço têm íntima relação com os diferentes e desviantes em geral: os loucos, os bêbados, os mancos, os anões.
No início do Renascimento, tanto no Oriente quanto no Ocidente, eles participavam da corte, assistindo a intrigas palacianas e acompanhando as peripécias reais, mas em posição de exterioridade, como uma espécie de consultores neutros. Neutros porque não eram considerados inteiramente “como nós”, não inteiramente “humanos”. Essa distância é uma condição imprescindível para a escuta. Sabemos intuitivamente que “alguém de fora”, deslocado, estrangeiro, meio sem lugar ou sem interesses diretos no problema, nos oferece um retrato mais parcimonioso e claro do que quem está vivendo a situação por “dentro”. Somos frequentemente sufocados pelo excesso de interioridade, em uma mesma rede de problemas, de pessoas e de olhares que são repetidos em forma circular e pouco transformativa. Disso emerge uma consideração sobre a prática da escuta. Ela exige que nos coloquemos ao mesmo tempo em uma posição muito distante e muito próxima do outro.
Tornar-se palhaço é encontrar esse lugar de estrangeiro no interior de uma situação familiar. Mas é também encontrar o conhecido dentro do estrangeiro. O estrangeiro que habita cada um de nós. Essa capacidade de olhar de fora – mesmo estando dentro – cria um novo jeito de admirar o outro, de “estranhá-lo”, de encontrar nele algo que ele mesmo não está vendo. Colocado dessa maneira, o palhaço pode ser apresentado como uma espécie de diplomata e de solucionador de problemas entre dois mundos: o mundo de dentro e o mundo de fora, o mundo do “nós” e o mundo do “eles”.
Os antropólogos chamam a condição de alguém que habita essa zona intermediária ou de transição entre duas ou mais culturas de “marginal”. Aquela pessoa que nasce em uma cultura, que aprende seus costumes, sua língua e regras e depois disso viaja ou emigra para outro país, outra cidade ou outra região, torna-se com o tempo um marginal. Ele pertence aos dois mundos, mas não pertence definitivamente a nenhum deles. Quando chega nessa outra cultura, ele pode se adaptar, aprender os costumes e a língua, mas sempre será percebido e se sentirá, em parte, alguém que “não é daqui”. Nessa posição de distância relativa, ele consegue ver e escutar coisas que aqueles que são nascidos e criados ali, que se identificam plenamente com seus lugares sociais, não conseguem. Mesmo que regresse à sua cultura original, terá passado tanto tempo fora que perdeu uma parte da história. Fica assim meio deslocado em sua própria família ou cultura de origem. Esse é o marginal. Esse é o palhaço.
Nós tendemos a naturalizar nossa própria cultura. Tomá-la como centro do mundo. Achar que tudo nela sempre foi assim e assim continuará sendo. Mas quando a criança chega a este mundo, ela não se comporta imediatamente como parte dele. Ela estranha o mundo, como estranha a própria mão quando descobre que ela é “sua”. Quando desiste de perguntar “por quê?”, sua perplexidade declina e ela se torna um de “nós”. O palhaço, assim como o bom escutador, é alguém que recupera a arte de se espantar com o mundo e com os outros, por isso ele é tão frequentemente retratado como alguém ingênuo e que ainda “não sabe das coisas”.
Pois bem, o palhaço é como um estrangeiro que chega em uma situação e começa a se comportar de forma imprópria. Ele faz aquelas perguntas ou toma aquelas atitudes que adoramos ver as crianças fazerem, pois revelam a estrutura de verdade de uma situação. Ele nos lembra que, um dia, todos nós perguntamos por que as coisas são assim, em vez de simplesmente “seguir o fluxo da repetição cotidiana”. Se o palhaço nos devolve à perplexidade, revelando afinal quem nós somos e como somos, ele nos informa também que a arte de escutar é meio oposta à arte de entender. Seria mais justo descrevê-la como a arte metódica e cuidadosa de desentender os outros, de perguntar por que mesmo A leva a B e B leva a C, quando isso está claro e cristalino para quem fala, mas não se escuta.
Por entender menos a cultura onde ele está, por ser meio inadaptado, o palhaço tende a escutar melhor esta mesma cultura, agindo como um potencial transformador. Mais ou menos como quando vamos à casa de alguém e vemos certas coisas problematicamente fora de lugar, mas que o dono da casa não consegue perceber, simplesmente porque se acostumou a ver ordem onde não existe.
Isso vale para culturas, para países, idades da vida, posições sociais ou de gênero, mas também empresas, se as considerarmos como subculturas. Não à toa as corporações se valem tanto de consultores externos, coachings e mentories, palestras motivacionais e outros recursos necessários para tirar as pessoas do modo de escuta na qual elas parecem congeladas e absortas como zumbis, repetindo seus próprios costumes. Essas intervenções funcionam como
Departamentos dos Bobos da Corte[4] terceirizados.
Na Idade Média, os palhaços eram esses estrangeiros, muitas vezes anões ou pessoas com deformidades, que nunca poderiam aspirar uma posição na administração ou no governo. Aqui vai outra lição prática: o palhaço tem que estar em uma posição marginal ou periférica com relação aos interesses, para poder escutar e fazer rir melhor. Ele deve aparecer como uma criança – que diz que o rei está nu – ou como um errante, sem lugar, justamente porque faz a função de crítica do poder instituído. Daí que a irreverência e a ironia, ainda que aparentemente involuntárias, estejam em sua atitude básica. É como se ele não entendesse as regras, como se ele falasse outra língua. Nessa posição, ele consegue observar melhor a comédia e a tragédia dos interesses humanos.
Os bufões eram os únicos que estavam autorizados a rir do rei. Podiam fazer isso justamente porque suas pretensões de poder estavam suspensas. Enquanto todos estão representando seus personagens, lutando para se tornar protagonistas ou antagonistas da peça da vida, os bobos da corte apenas são o que são. Pessoas de verdade, gente cooptada das ruas para entreter as cortes e o clero. Suas piadas exploram o valor crítico da sua inadequação. Eles não estão ali apenas para fazer espetáculos para os outros dormirem ou esquecerem as coisas como elas são, mas para inventarem ou revelarem a verdade da situação que realmente está ali.
Os bobos mais astutos (e viva ao paradoxo!) percebiam então que tinham de estar profundamente conectados ao instante presente para tirar proveito cômico das situações cotidianas, apontado aquilo que os “de dentro” não conseguiam ver.
Como fazer isso?
Escutando, escutando e escutando.