O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 39 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

Os Quatro Tempos da Escuta Lúdica

37 Os quatro tempos da escuta lúdica

 

A empatia pode partir de vários afetos, como a compaixão ou a piedade, o temor ou a admiração, a identificação ou a simpatia. Mas ela só se mostra como “empatia” de fato quando deixa de ser uma disposição favorável a viajar junto e se realiza em uma jornada de palavras. Escutar como se fosse a primeira vez, estar presente e hospitaleiro ou deixar a função poética trabalhar também são condições que favorecem para que a escuta empática se combine com a escuta lúdica, mas isso só acontece quando de fato acontece. Jogo é jogo, treino é treino. As situações de escuta podem ser decompostas em quatro tempos, conforme a seguir...

1. Abertura

As primeiras comunicações de contato, cuidado ou contrato, o circuito das perguntas-respostas, os desenlaces ou cortes e as repetições. A arte da escuta é difícil de aprender porque, na maior parte do tempo, não prestamos muito atenção à linguagem. Achamos que o que importa é que o outro nos entenda. Preferimos substituir a atenção nas palavras efetivamente ditas e pronunciadas pelas antecipações que fazemos sobre pessoas, seus tipos e nossos preconceitos. Pessoas desse tipo só podem falar X, só podemos esperar coisas X de alguém que é Y. O mais difícil no escutar é ater-se realmente ao que foi dito, e não apenas ao que você já estava esperando ouvir.

Freud[45] insistia que o psicanalista deve prestar muita atenção às primeiras comunicações do paciente. A primeira vez que ele fala de um assunto, a primeira vez que ele fala na sessão, a primeira vez que ele exterioriza um determinado afeto ou modo de ser. A primeira vez que se escuta algo inaugura uma novidade que faz uma espécie de marca na história daquela relação. Uma relação rica e complexa é uma relação que tem muitos inícios e reinícios, na qual se consegue criar novas “primeiras vezes”.

2. Perguntas e respostas Por isso, a maior parte do tempo produtivo de uma boa conversa se dá em torno da troca de perguntas, da reformulação de um problema para uma forma melhor de apresentá-lo. É o que se pode chamar de trabalho de variação de perspectivas. Ver as coisas de perto, de muito perto. Depois ver as coisas de longe, de muito longe. Ver as coisas no tempo curto, depois no tempo longo, depois ainda no tempo longínquo da eternidade. Os filósofos antigos recomendavam duas práticas que nós esquecemos: observar as estrelas e manter uma pequena atividade manual, do tipo polir lentes (como o filósofo Espinoza fazia). A regulação da distância é um processo espontâneo que determina o ritmo da troca de turno, uma troca que fazemos de modo imperceptível quando alternamos a fala de um e a fala de outro. Aqui a tendência é de que quem fala mais tende a querer mais espaço de fala e quem fala menos, a recuar. É por isso que muitas sessões de análise acontecem com um quase silêncio do lado do psicanalista, mas a sensação de um diálogo fervoroso do lado do analisante. É que o analisante está perguntando e respondendo, falando e ouvindo, contracenando consigo mesmo. Uma ética do bem dizer, como a da psicanálise, pede que comecemos por nos retirar no lugar de parceiro imaginário do ciclo pergunta-resposta, e caminhemos para o lugar no qual nós ajudamos, em pontos estratégicos, a introduzir uma pequena diferença nesse diálogo interno, uma diferença que ao mesmo tempo ensina o analisante a escutar o outro, de uma outra maneira.

Olhar as estrelas tem a ver com mudar o nosso tamanho, perceber-se pequeno diante da imensidão cósmica. Polir lentes convida a perceber as pequenas variações que só podemos alcançar olhando as coisas de muito perto, entendendo que elas mudam de feição conforme a escala que aplicamos. Outro ponto importante na arte de formular e reformular as perguntas é nos permitir olhar as coisas de frente. Muitas vezes nos recusamos olhar o outro de frente e nos dedicamos a excluí-lo de nosso mundo apenas e tão somente porque ele é o portador ou representante de notícia ruins. Isso significa olhar as coisas por trás, fugindo, temendo o lugar onde elas podem nos levar. Por fim, fica claro que as boas perguntas são evitadas porque ficamos com medo da verdade, principalmente da verdade que nós já intuímos de alguma maneira. Por isso a arte das perguntas e respostas e uma espécie de jogo, uma atividade lúdica semelhante a brincar com fogo. Esporte para corajosos.

3. Repetição

O terceiro aspecto mais ou menos óbvio sobre a fala entre pessoas é que elas se repetem. Mas elas não se repetem para dizer pela primeira vez o que foi esquecido na segunda, ou seja, no início, elas se repetem para lembrar e para esquecer.

Considerando as infindáveis maneiras de dizer algo, com toda a poesia e a literatura que os humanos foram capazes de criar, com as variedades culturais e históricas, com as nuances linguísticas, teatrais e retóricas, sem falar nos momentos únicos de ver e perceber a si mesmo, ao outro e ao mundo, o fato mais exasperante sobre pessoas é que elas se repetem incrivelmente na forma de dizer e de escutar. Quanto mais repetição, menor o tamanho do mundo de alguém e maior o volume proporcional de seu ego. Quando a repetição é percebida pelos interlocutores, dizemos que a conversa “não sai do lugar”. Nesse momento, é muito comum encontrar uma explicação: “o outro não me escuta”. Por isso continuo a repetir, às vezes uma oitavas acima, depois duas oitavas e finalmente gritando exasperadamente, simplesmente para que ele escute o que dizemos, o que seria a solução mais simples e óbvia para tudo. O que não percebemos é que, ao agir assim, nós mesmos estamos praticando a repetição que queremos que o outro interrompa. É como alguém fazendo caretas diante de um espelho e achando chato o que vê pela frente.

Considere então que, antes de aumentar o volume, é possível agir sobre a estrutura da repetição que está em curso. Às vezes isso pode ser feito pela intromissão de um silêncio inesperado, ali onde o outro já espera a sua reação de “bate e pronto”. Outras vezes é possível introduzir um terceiro na relação: outra pessoa, um livro, a Wikipédia ou o Google. Outro caminho é evitar comentar a fala do outro, interpretando-a como já sabida, e pedir mais esclarecimentos, detalhando e traduzindo o que foi dito uma vez em novos exemplos e variações. Mas quase sempre vale a pena dizer para si mesmo: Não é ele que não me escuta, mas sou eu quem não está sabendo dizer isso direito. Eventualmente estamos presos em um lugar onde o outro não pode escutar.

Perceber-se que uma repetição discursiva é um sinal de que você já não é mais um “escutador amador” e está se profissionalizando. A maior parte das pessoas não consegue fazer isso. Saber o quê, por que e quando exatamente se está a repetir dá muito trabalho, mas esse é o tipo de trabalho que é recompensado pela abertura para novos modos de escuta. A graça da arte da escuta é que ela não precisa sempre trabalhar com inícios frescos em que cada tema é abordado pela primeira vez. Em geral, isso termina em uma extensão pequena de conversa que precisa, justamente, reciclar interlocutores em vez de verticalizar temas. Há um antídoto básico e universal para a repetição: o corte. Pequenas varrições permitem que o sujeito se escute repetindo. Essa é a melhor maneira de criar certa perturbação incomodativa, que será o motor e a gasolina para a mudança e para aumentar o desejo de dizer melhor, de dizer bem aquilo que só se esboça como pensamento, afeto, imagem ou argumento.

Quando superou a fase da disputa por nocaute sobre quem tem mais razão ou autoridade, quando começou a perceber o circuito reflexo de repetições, na qual as pessoas tendem a apenas dizer mais alto e mais exasperadamente o que já disseram antes, você alcançou a extensão e dignidade do problema da escuta. Quando as pessoas não se escutam mais porque estão possuídas pela certeza sobre quem é o outro e o que ele quer, chegou o momento do que verdadeiramente chamamos de conversa. Isso tem uma estrutura baseada no reconhecimento mútuo de que há algo que não sabemos. Esse momento de paixão da ignorância é fundamental para a chegada das boas perguntas e das respostas provisórias e hipotéticas que elas convocam. O

filósofo Ludwig Wittgenstein[46] dizia que quando conseguimos formular bem uma verdadeira pergunta ela quase se dissolve por si mesma. Ele também reformulou a tarefa da filosofia afirmando que ela, no fundo, é apenas uma espécie de terapêutica da linguagem, um exercício para evitar falsos problemas e tratar verdadeiros problemas por meio de novas formulações.

4. Corte

O quarto e último problema estrutural na situação de escuta é o corte, ou seja, decidir quando a conversa acaba, ou o corte parcial, que vai mudando o tema ou forma da conversa encadeando uma coisa na outra. Antes de toda escuta está o silêncio e depois dela o que vem? Outro tempo de silêncio. Claro que quando a coisa não fica muito bem resolvida, ou também quando ela cumpre sua função e nos põe para pensar ou cria uma questão, continuamos conversando mesmo depois que o encontro “em presença” terminou. São os diálogos do insone, as preparações e retomadas entre amantes e negociantes, que ficam como que a ensaiar o que vão dizer “na próxima vez”. Receita certa para impedir-se de escutar o outro “pela primeira vez”, disposição tão importante para ganhar profundidade na escuta e evitar simplesmente escutar o que já se ouviu tantas vezes, daquele ou de outro como aquele. Alguns chamam essa repetição de fala vazia, de falação ou de “ocupação mútua para esquecer, adiar ou negar as coisas importantes da vida”.

O tempo da interrupção ou do corte, como dizem os psicanalistas, é muito importante porque ele decide retrospectivamente o sentido do que foi dito, e também abre para o que ficou por dizer. Há conversas que passam do ponto e nos fazem esquecer o que foi dito de fundamental porque outras coisas e palavras se sucedem, sem que o silêncio tenha feito seu trabalho. Não é à toa que dizemos que as pessoas brigam para ter “a última palavra”, como se quem fosse dela tivesse ganhado o jogo.