O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 40 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

A Abominável Arte de Não Escutar os Outros

38 A abominável arte de não escutar os outros

 

Antes que você continue, um alerta: este capítulo contém cenas fortes e possivelmente revoltantes. Se você tem problemas no coração, sugerimos que vá direto ao capítulo seguinte, onde voltaremos a ser fofos, simpáticos e inteligentes. Nada disso será encontrado aqui. Nas próximas linhas, descreveremos seres abomináveis que habitam este mundo em que vivemos. Seres que não escutam verdadeiramente o outro, que impedem que a empatia aconteça e que agem como uma espécie de polícia permanente contra a escuta. Você poderá ficar chocado ao perceber que muitos deles habitam sua família, seu trabalho, seu círculo de amizades. Mas a pior notícia vem agora: é provável que vários deles habitem você mesmo.

Não diga que não avisamos… com vocês: Os abomináveis seres desescutadores!

1. Abominável Clone

Este ser abominável é fácil de ser reconhecido, pois ele sempre inicia as frases dizendo: “Se eu fosse você…”. Esta criatura se notabiliza por realmente acreditar que tem a solução que você está procurando. O que ele não entende é que, se ele fosse você, ele teria a sua mãe, o seu pai, teria vivido as suas experiências. Ou seja: se ele fosse você, ele faria exatamente as coisas que você já faz e teria as mesmas dúvidas que você já tem.

“Se eu fosse você, mandava ela pastar e arrumava outra namorada.”

Repare no custo zero no conselho e inobservância geral de que “ela” é a pessoa mais importante para você naquele momento. Repare como o Clone parece corajoso ao dizer algo contundente, mas na verdade ele está recomendando, na maior parte das vezes, a covardia e a evasão. Se seu chefe é inoportuno, arrume outro emprego. Está ruim no Brasil? Mude para a Nova Zelândia.

2. Abominável Meu Pior é Melhor Ninguém supera esta criatura no quesito “me ferrei”. Conte a ele que quebrou o dedo e ele terá fraturado a perna. Seu carro quebrou? O meu capotou dez vezes. Separou do marido? Que sorte… o meu tentou me matar. Diz a lenda que, no fundo, ele tem o desejo altruísta de te mostrar que você não está tão mal assim e com isso levantar seu astral. Mas pode ser que seja só um pessimista mesmo e queira ser o centro das atenções. De uma forma ou de outra, se você precisa que alguém te escute, este não é o Meu Pior é Melhor.

3. Abominável Polyana

Este ser simplesmente se recusa a reconhecer que a vida pode ser cheia de buracos sem sentido e de sofrimentos para os quais não há solução prática possível. O sofrimento do outro torna-se assim uma espécie de acidente, que pode ser resolvido com uma pequena mudança de perspectiva. Esta criatura, no fundo, não está te ouvindo porque ela também não está se ouvindo.

“Choveu no dia do passeio? Que ótimo, assim podemos ficar em casa e colocar a conversa em dia.”

“Perdeu o emprego? Melhor, outro virá com mais realizações e que justificará como você é especial.”

Esta criatura acredita que para que tudo “dê certo” e a “gente seja feliz” basta estarmos juntos e pensarmos as mesmas coisas. Concentrada que está em manter o alto-astral e seu largo sorriso, ela não consegue perceber que suas atitudes apenas encurtam a conversa com quem está sofrendo e querendo partilhar isso em detalhes.

A Abominável Polyana tem o seu oposto e equivalente no Abominável Meu Pior é Melhor que sempre está resmungando e enfatizando que a vida é só feita de buracos, imperfeições e que no final nada vai dar certo. No fundo, o pessimista é um preguiçoso que sabe que, como a vida acaba mal, basta apostar no pior que você sempre ganha.

Procurando uma espécie de tendência generalizante, positiva ou negativa, para o sentido das coisas, estes dois Abomináveis estão simplesmente se recusando a enfrentar o fato muito mais difícil de que há coisas que não têm sentido e que a vida é uma combinação incerta e indecidível entre as duas tendências.

4. Abominável… e Eu?

Muitas vezes confundido com o Abominável Meu Pior é Melhor, esta criatura, no entanto, costuma aparecer nos momentos em que você está feliz. Só que não se conforma muito com isso.

“Meu! Nessas férias eu fui para a Itália!”

“E eu? Fui para a Itália, Noruega e um terceiro país a sua escolha!”

5. Abominável Homem IBGE

Sempre a par das mais recentes estatísticas, este ser abominável acredita que, para que você fique bem, basta saber que tem alguém pior.

“Oi, estou meio triste… meu filho repetiu de ano.”

“Você sabe quantas crianças no Brasil tem a oportunidade de frequentar uma escola?”

Ou:

“Meu… estou tão chateada, bati o carro.”

“Você sabia que apenas 6% da população mundial tem carros próprios?”

6. Abominável Incriminadora

Facilmente encontrada, esta criatura é famosa por encerrar as frases com o abominável “bem que eu te avisei”. Ela tem a convicção de que pode te ajudar botando você mais para baixo ainda. Parece acreditar que no fundo do poço tem uma mola que vai te jogar para cima e com isso você terá uma súbita tomada de consciência. Mas a única tomada que vem à sua consciência é a da parede mesmo: vontade de tomar um choque de tanta culpa.

“Tô superdeprê… a Neide me deixou…”

“Também… Você arranja cada mulher… bem que eu te avisei…”

7. Abominável Homem Muito Empático

Nos anos 1960, os monstros da TV sempre eram frutos da superexposição a algum material radioativo ou poluição. Já o Abominável Homem Muito Empático é uma criatura moderna, surgida recentemente, e dizem ser fruto de excessiva exposição a livros e cursos de comunicação não violenta. O mais provável, no entanto, é que ele tenha, sim, feito algum curso, mas ainda não entendeu direito a coisa.

“Oi! Acabei de comprar essa bicicleta!”

“Você quer falar mais sobre esse lugar de pedalada…?” (com olhar acolhedor) Este ser também é fácil de ser reconhecido, pois normalmente encerra as conversas com um longo abraço e dizendo: “Gratidão…”

8. A Abominável Mulher Telepata

Esta criatura acredita possuir dons de clarividência e por isso não considera ser necessário te escutar até o fim da frase. Por essa razão, em algumas regiões, ela também é conhecida como Rouba Pausa.

“Oi, tudo bem? Acredita que ontem eu…”

“Já sei, foi jantar fora.”

“Não, não… ontem eu…”

“Foi dormir cedo, né? Tava cansado…”

“Não! Ontem eu estava querendo falar com você, mas continua difícil.”

O pior é quase sempre o que fica da “conversa” para Mulher Telepata não é o que você falou, mas aquilo que ela teria “adivinhado”: “Então tchau, abração. Você fez bem de jantar fora, é bom para se distrair.”

9. Abominável Homem das Cavernas

O par perfeito da Mulher Telepata é o Homem das Cavernas. Por razões ainda não totalmente desvendadas pela ciência, este ser tem o hábito de se retirar para sua caverna sempre que se sente contrariado, seja por uma perturbação qualquer do ambiente, do cotidiano ou do que ele teria esperado para a continuidade da conversa. Recluso em seu mutismo, ele reage mais e mais defensivamente, sempre que tentamos algum contato. Esse comportamento levou alguns estudiosos a chamá-lo também de “Abomimado” (abo-mimado) Homem das Cavernas. Quando ativa seu modo zumbi, ele tem a capacidade de hibernar com olhos abertos e responder em modo automático, mostrando-se indiferente e ausente em qualquer situação.

“Vamos sair hoje?”

“Claro.”

“Acho que prefiro ficar.”

“Tudo bem.”

“Mas na verdade tínhamos que visitar a Maria no hospital.”

“Hum… hum…”

“Mas, afinal, o que você quer fazer?”

“Hum… hum, tudo bem… faz aí…”

10. Abominável Leitor de Caras e Bocas

Enquanto a Mulher Telepata “advinha” o que você vai falar, o Leitor de Gestos, “escaneia” e “decifra” seus micromovimentos. A peculiaridade desta criatura é que, enquanto todas as outras escutam de menos, ela escuta de mais. Está sempre um tempo a frente de seu interlocutor. O lado mais desagradável deste intrusivo ser é que ele presume, age e reage como se você tivesse sempre o mais perfeito domínio de todos os seus estados de ânimo, modalidades de lembrança e percepção perfeita de si. Muitas vezes estamos tristes ou introspectivos sem um motivo aparente. O bom escutador veria aqui um momento para ajudar o outro a encontrar suas próprias palavras. O Leitor de Caras e Bocas não consegue tolerar esse vazio de palavras e sentimentos, descarregando adivinhações que muitas vezes substituem esse momento de solidão por um rádio transmissor mental instalado no cérebro alheio.

Você lavando louça:

“Por que você está com essa cara? Aconteceu alguma coisa…”

“Nada… tô aqui pensando na vida.”

“Eu fiz alguma coisa?”

“Não, não… é que…”

“Eu te conheço, quando você mexe o dedo assim ó, é que tem coisa, pode falar. É a louça? É isso? Puxa vida, o que custa lavar a louça?”

“Me deixa em paz! Não tem nada de errado com a louça!”

“Ah, eu sabia que você estava bravo comigo. Agora me diz: que foi que eu te fiz?”

11. Abominável Homem Categorizador

Este ser abominável, possui um igualmente abominável “Menu de Categorias”. Para ele, as pessoas são apenas tipos humanos que repetem roteiros mais ou menos predefinidos. Segundo o seu menu, uma pessoa sempre é alguma coisa que se enquadra ali e isso torna-se muito mais importante do que o que ela faz ou efetivamente diz. Essa criatura pode ser encontrada nas variantes “preconceituoso” ou “meramente limitado”. Em ambos os casos, tudo que alguém diz será traduzido e reduzido ao fato de que aquela pessoa apresenta um traço que a define e coletiviza. O processo inverso também acontece, ou seja, qualquer coisa dita é reduzida à geografia mental que o sujeito está praticando: “Acho que o país está cada vez pior.”

“Você só diz isso porque é esquerdista.”

“Mas minhas amigas estão muito preocupadas.”

“Mulheres são nervosas assim mesmo.”

“Mas os jornais e as pesquisas estão mostrando isso.”

“Esta turma está toda comprada.”

12. O Abominável Google-Man

Você conhece alguém que acha que sabe tudo? De qualquer assunto? De qualquer questão? Cuidado, provavelmente ele é um self em expansão permanente. Este ser abominável considera-se o senhor de todas as soluções e de todas as respostas. Orgulha-se de sua memória, de suas viagens e de seus números.

A vida sexual das abelhas norte-africanas? Ele sabe.

A ordem social da Polinésia agrícola em 1932? Ele sabe.

A receita de um trivial bolo de fubá, ok, você até pode saber, mas a receita da vó dele é que é a ver-da-dei-ra receita de bolo de fubá.

Possuidor de tantos saberes e certezas, é claro que ele julga saber também as soluções para todos os seus problemas. Que, aliás, por serem soluções óbvias, não merecem que a gente perca tempo falando disso: “Brigou com a namorada? Manda flor. Mulher não resiste a um buquê. Mas como eu ia falando mesmo…”

Google-Man possui poderes de tornar o outro “onisilente”, ou seja, calá-lo em sua insignificante ignorância. Ele também é famoso por ser um predador com um bote certeiro. Nas raras vezes em que você estiver conseguindo falar, ele estará ali, à espreita, e quando você der uma breve pausa numa vírgula mais acentuada, pronto! Ele dará o bote dizendo “Sei, sei”, e mudará de assunto para contar da viagem incrível que fez no fim de semana.

Quando este ser abominável ocupa um lugar de liderança – pai, mãe, gestor, diretora –, aí a coisa complica. Um líder que não escuta, cria uma equipe muda: “Falar para quê, se ele já sabe tudo?”.

Não à toa que nos lugares frequentados por este ser sempre exista alguém bufando e pensando: Ai, meu Deus do Self!