O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 28 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

O Táxi do Psicanalista

26 O táxi do psicanalista

 

É claro que há situações nas quais a escuta é prevista e delimitada como uma sessão de análise, embora hoje, felizmente, os psicanalistas também estejam experimentando cada vez mais colocar sua escuta em ação, em situações menos estruturadas do que o consultório com hora marcada. Se você quer atender certos adolescentes, considere caminhar com eles pelas ruas. Se quer realmente escutar pessoas internadas, arrisque-se a acompanhá-las em situações familiares. Há iniciativas chamadas “clínicas públicas de psicanálise” que acontecem na rua, em centros culturais ou praças.

Frequentemente sou procurado por pessoas que querem fazer terapia de vidas passadas. Quando me perguntam se eu faço esse tipo de tratamento (aliás, proibido pelo Conselho Federal de Psicologia), e quando estou disposto a uma aventura, eu digo que sim. A pessoa começa a falar e logo virá a pergunta: “Como chegamos às minhas vidas passadas?”. Ao que eu repondo: “Você já está falando sobre elas: sua infância, seus namoros passados, seus empregos que já se foram, tudo isso são suas vidas passadas, e, pior, várias delas estavam realmente esquecidas”.

Pois bem, em uma de minhas vidas passadas decidi que iria participar da Corrida de São Silvestre, que tradicionalmente acontecia à meia-noite, na virada do ano. As razões da decisão eram bem pouco comuns. Tinha levado um fora da garota pela qual estava apaixonado. Como é sabido, para um coração partido, datas como Natal, Ano-Novo e Carnaval tornam-se fúnebres. Toda aquela festa e diversão parece ter sido feita unicamente para te lembrar de que você é um miserável deixado para trás e excluído. Nesse contexto, veio-me essa brilhante ideia para suportar a virada de ano sozinho: “correr”.

Naquela época a largada era na avenida Brigadeiro Luís Antônio ladeira abaixo. E lá fui ladeira abaixo, empurrado pela emoção da largada. Eu me encontrava sozinho na temida subida da rua da Consolação quando percebi que tinha treinado muito pouco. Não pude desligar a escuta psicanalítica quando cheguei lá em baixo: lembrei-me da velha piada, desce a rua Augusta (onde antigamente ficavam os mal afamados bordéis de São Paulo) e sobre a rua da Consolação, (conhecida por seus cemitérios). O que é que eu estava fazendo ali? Recuperando o amor

perdido?[31]

Dei uma pequena risada interna quando vi o tamanho da tolice que estava fazendo. Isso foi suficiente para fazer meu fôlego, naquela época de fumante inveterado, sumir completamente. Não era uma daquelas fraquejadas recuperáveis com um pouco de calma, mas uma pane total, coração na boca (sempre ele atrapalhando), pernas bambas e o suor começando a ficar frio como uma capa de freezer.

Soltei então um fático e solitário palavrão, antes de dizer em alto e bom tom: “Não vai dar”.

Ouvi então, vindo atrás de mim, um comentário de um desconhecido: “Como é que não vai dar? Respira que dá!”. Levei um susto com o comentário vindo assim de um estranho. Estava aqui posta à prova minha capacidade “hospitalidade”. Talvez tenha sido a minha situação de dupla vulnerabilidade, talvez o rosto, que era simpático e sorria para mim, de tal maneira que contive meu impulso a dizer “Não se meta na vida alheia”, e resmunguei algo como “Será mesmo?”.

Obviamente, não estava fazendo uma consideração referencial sobre a quantidade de oxigênio disponível em minhas hemácias. Mas ele assumiu então proclamou o diagnóstico: “O cansaço é psicológico, não pensa nele que ele vai embora, eu sei o que eu estou dizendo”. Isso mesmo, naquela altura de minha humilhada existência, tinha que ouvir de um desconhecido sorridente que o cansaço é… psicológico.

Eu poderia ter trucado a autoridade do sujeito na matéria, mas preferi ser receptivo e como sempre seguir minha curiosidade patológica sobre pessoas: “Ah… psicológico. É mesmo?”. Ao que tive que ouvir: “Sabe, eu sou um tipo de psicólogo. Dirijo um táxi. Não sei por quê, mas talvez porque acham que nunca mais vão nos ver, ou por sermos desconhecidos, as pessoas começam a falar com a gente, sem vergonha como se fôssemos íntimos. No táxi a gente escuta as pessoas, e aprende muito. É tudo psicológico”. Concordei com a cabeça, porque naquela altura cada palavra custava o dobro: moral e fisicamente. Bandeira 2.

Ainda assim fiquei imediatamente interessado pelo tal taxista. Queria saber exatamente como eram as “corridas” e aventuras que ele tinha vivido com mulheres dando à luz no carro, gente bêbada chegando em casa errada e namorados rompendo e começando relações. O hospício completo emergia da sua fabulosa aptidão para cuidar, interpretar e entender a mente dos outros. Anos depois me lembrei dessa cena quando aceitei fazer uma entrevista com o cabeleireiro da primeira-dama cuja chamada era: “Aqueles que cuidam da cabeça dos outros”.

Éramos estranhos um ao outro. Mesmo assim meu momento de vulnerabilidade causada pela exaustão física e pela penúria amorosa foi sendo acolhido pelas palavras. Mesmo sendo ele quem falava, e falava sem parar, eu sentia que estava me escutando. À medida que ia escutando as histórias dele e, é claro, a maneira única como as contava, as energias foram voltando. Exatamente como ele tinha previsto. Talvez isso acontecesse porque eu não estava mais tão focado em mim e na perda de forças, mas nas palavras.

Quando chegamos à avenida Paulista levei um susto. “Não é que chegamos?” Ao que tive que ouvir: “Não te falei que era tudo psicológico? Tá vendo?”.

Juntos, pegando carona no táxi verbal dele, chegamos até a linha final. Nunca mais nos vimos, no entanto jamais me esqueci de sua escuta amiga e hospitalar. Escuta que só foi possível porque pudemos acolher um ao outro como hóspedes mútuos. Um encontro baseado na intrusão de um elemento imprevisto de um hospício a céu aberto, como oportunidade para alterar a estrutura da situação da vulnerabilidade em que eu me encontrava.

Isso me tornou hospedeiro dessa experiência que agora transmito a vocês.