O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 47 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

Teoria da Escuta

45 Teoria da escuta

 

Estabeleci para mim, já há algum tempo, duas condições para tomar alguém em análise e assentir que aquele paciente se tornou um analisante, dando por iniciada a análise. A primeira delas é que possamos ficar em silêncio. Um silêncio que não seja vazio nem ocupado; que não seja falta de assunto nem corrosão de angústia. Um silêncio que jamais me fará pensar o que eu digo agora? – premido pelo sentimento de que preciso dizer alguma coisa. Por isso, o manejo do tempo e do silêncio, que discutimos neste livro é tão importante.

A segunda condição é que aquele candidato a análise resista ao meu tipo peculiar de humor e ironia. Ele não precisa se inclinar ao gracejo, mas apenas sinalizar que não ficará ofendido se eu não o levo demasiadamente a sério e se não me levo demasiadamente a sério naquele espaço. Se podemos brincar, podemos analisar. Assim como a frase já discutida neste livro: se a gente brinca junto, a gente fica amigo.

Aprender a arte da interpretação psicanalítica envolve três habilidades que o palhaço tem por vocação: o humor com as palavras, o cômico com os gestos e a graça com o espírito. Foi desses três elementos que tiramos a ideia de escuta lúdica desenvolvida neste livro. Não é que toda intervenção, que é basicamente um retorno do que se escuta, tenha que ser feita de forma engraçada ou espirituosa. Há intervenções que exigem um tom grave e uma forma séria, outras que só podem ser feitas sob o tom da cumplicidade ou do sussurro, quase que sopradas ao ouvido do analisante.

Ocorre que a estrutura da interpretação é homóloga à estrutura do chiste e esta é análoga ao que chamamos aqui de escuta lúdica. Aquele que se especializa na posição da escuta deve falar pouco, ou pelo menos espera-se que fale menos do que aquele que fala. Por isso, suas intervenções devem ter por objetivo abrir a fala do sujeito, permitindo que o discurso prossiga ganhando em qualidade e potência transformativa.

Notemos que tais características é o que se espera de uma boa piada: que ela seja breve, traga alguma surpresa, crie um efeito de intimidade ou de aproximação entre quem conta e quem escuta, bem como trabalhe com deformações e peculiaridades calculadas da linguagem. A piada é uma coisa pragmática, se riu ela aconteceu, se não riu era um projeto de piada, uma intenção de piada. Assim também é como na palhaçaria, ela depende em tudo dos efeitos que cria.

No entanto, a piada é uma elaboração posterior de uma atividade muito mais extensa e primária do que a brincadeira. A piada é uma espécie de brincadeira que sobreviveu ao lento recalque de certas disposições que temos quando criança:

1. A atitude de curiosidade diante do outro e do mundo.

2. A propensão a se espantar e a admirar o mundo.

3. A inclinação a explorar usos e sentidos não óbvios das coisas e dos outros.

4. A facilidade para ligar-se aos outros e ensinar nossa forma de brincar.

Notou como essas disposições retomam a nossa teoria dos quatro “agás”? Não é uma coincidência. Como nosso assunto é a escuta podemos privilegiar a estrutura da piada, mas no fundo ela é apenas uma atividade que condensa e sintetiza no adulto uma de suas formas de brincar. Por isso, dizemos que psicanalistas e palhaços têm a escuta lúdica em comum.

Um dos manuais mais simples, escrito por Freud, sobre a arte de escutar é Chistes e sua

relação com o inconsciente [54] . Nesse livro, Freud tenta estudar e classificar todas as formas de piadas, anedotas e gracejos verbais que podem existir, bem como descrever as suas diferentes técnicas de composição. O chiste, ou seja, o “dito espirituoso” ou a piada conforme se queira traduzir a expressão alemã Witz é sempre um processo social, que depende eminentemente da sua “paróquia” para obter os resultados pragmáticos que o definem enquanto tal, ou seja, o efeito de prazer, satisfação ou gozo que ele causa na plateia. Todos sentimos que é muito mais fácil contar uma piada quando se está entre amigos, por isso esquecemos que as piadas são também a forma como fazemos amigos. Será que é a paróquia ou o picadeiro que faz a piada ser contagiosa ou é a piada, ou a palhaçada, que cria o sentimento de que temos algo em comum?

O palhaço, assim como o psicanalista, é um mestre na criação da intimidade entre estranhos.

Ao contrário de sonhos e lapsos, piadas envelhecem. E uma piada velha é o signo de que você não pertence mais ao seu próprio tempo. Muitas das interpretações propostas por Freud, em 1910, a seus pacientes seriam sofríveis para os pacientes de hoje. Outras tantas micaretas lacanianas tornaram-se gastas e inatuais, como a gola roullê e o charuto torcido que Lacan gostava de usar em 1960.

Essa eficácia temporal do humor tem a ver com a própria afinidade entre a palhaçada e o tempo no qual ela se dá. Há piadas que entram na moda, outras que saem, outras que voltam à moda, geralmente com pequenas adaptações. As brincadeiras infantis são bem menos flutuantes, muitas delas tão simples como o peek-aboo (esconder e reaparecer), o esconde-esconde, o andar na linha, as brincadeiras intermediárias de “como se”, aquelas como ou de ficar tonto no gira-gira são imemoriais. Os tipos de brincadeira e as funções de linguagem são os elementos que usamos para variar a escuta, como numa dança, num trajeto de sedução amoroso ou em uma situação crítica como uma reunião de trabalho.

Se o chiste é o malabarismo das palavras, o palhaço acrescenta a isso seu próprio corpo. Um processo social que passa de boca em boca sem origem, posse ou propriedade. Nós, os leigos, temos cada qual um repertório maior ou menor de piadas, uma abertura maior ou menor ao palhaço, geralmente repassamos alguma nova quando ela nos chega, dando um pouco a mais de vida para quem nos cerca. Muitos confundem a palhaçada com a gracinha que adoramos ver nossas crianças praticarem.

Geralmente, isso acontece em um sistema de trocas espontâneo que se forma quando alguém conta uma piada que funciona, criando um laço de afinidade entre os envolvidos. O humorista profissional é como o ginecologista, que trabalha onde os outros se divertem. Uma espécie de vampiro que, incapaz de gozar duas vezes com a mesma piada, simplesmente a repetindo mentalmente para si, passa a piada adiante e obtém um “fragmento de gozo” (Genusstück) ao se identificar com o riso de seu interlocutor, até a escala de massa.

Toda a arte da interpretação em psicanálise assemelha-se à arte do chiste, e ainda que este se diferencie do cômico e do humor, guarda com aquela uma relação íntima. O chiste é um processo muito mais temporal do que o sonho ou o lapso e o ato falho, tanto que exige um tempo peculiar de realização que se situa entre a decisão soberana de contar um sonho e o caráter radicalmente não antecipável de um ato falho. Ou seja, posso escolher contar um sonho no início ou no fim da sessão; posso modalizar o momento em que o conto esclarecendo os personagens e detalhes que nele tomarão figura e presença; posso, inclusive, escolher não contar o sonho que tive. Algo exatamente contrário ocorre com o lapso. Ele nos flagra e nos revela sem aviso, nele não há decisão senão do inconsciente, ele cria seu próprio tempo e sua própria acontecência.

Palhaços são o protótipo do que pode ser a arte para o psicanalista. Sendo assim, só posso concordar com a ideia de que o humor é “uma performance artística”. Nem sempre isso vem de uma aptidão e de um treinamento especializado, mas, se de fato podemos notar um traço comum entre os grandes palhaços, é essa capacidade de se aproximar vivamente das coisas grandes e pequenas da vida, com uma mistura de intensa afetação e largo distanciamento. Às vezes, isso vem da observação crítica sobre o mundo, da melancolia produtiva, de um ceticismo espontâneo, que pude encontrar, nos poucos casos de humoristas profissionais que pude atender.

Tenho que concordar com a tese de que a análise tem mais ligação com tornar vidas mais interessantes do que tornar pessoas mais felizes. A felicidade permite voltarmos à distinção entre o chiste, o cômico e o humor. O chiste é um trabalho de linguagem verbal, ele convida a uma compressão e síntese das ideias em uma fórmula concisa e reveladora, como no caso de uma piada, ou de um Witz (dito espirituoso, máxima, ditado popular ou provérbio). O cômico é um gênero narrativo. Ele decorre de um humor que vai sendo construído a partir de certos personagens. Uma das fórmulas mais conhecidas do cômico é a disputa baseada em um mal-entendido. No cômico rimos do personagem que escorrega na casca de banana, rimos da miséria e da tolice do outro porque ela revela nossa própria tolice, que fica assim projetada no semelhante, e por isso nos sentimos aliviados.

O humor é uma modalidade de compartilhamento de sentimentos, emoções e afetos que condiciona nosso sistema de aspirações e expectativas. O humor envolve certa gramática da temporalidade, seja ela o tempo lento do depressivo, o tempo acelerado do maníaco, o tempo instantâneo da angústia ou do suspense expectante ou, inversamente, do tédio da repetição indefinida.

Não é só o infortúnio da graça do personagem engraçado que contam aqui, mas tudo o que diz respeito à voz, ao tempo de decepção e surpresa causado no interlocutor, que faz um tratamento imaginário do simbólico. Finalmente, o humor, como foi tematizado mais ao final da obra de Freud, é o melhor antídoto contra o supereu, essa fonte e origem da voz punitiva e da instância de observação vigilante da qual falamos anteriormente.

Quero crer que um bom palhaço, ou que pelo menos um palhaço versátil, assim como um psicanalista, deve ter recursos para o chiste, para o cômico e para o humor. Diria que o entrelaçamento dos três é o que se quer designar por essa noção vaga de timing. Sim, o tempo no humor e na psicanálise requer uma técnica, um timing da relação com o público, que, por sua vez, depende das expectativas que o outro tem em relação ao ator específico. “A piada de mesa de bar não funciona no teatro porque é uma questão de timing”, assim como uma piada perfeita para um analisante pode levar a efeitos trágicos em outro. Não posso mais que repetir aqui a tese lacaniana de que o manejo da transferência em análise é o manejo do tempo, incluindo-se, mas não se reduzindo, ao corte de interrupção da sessão.

Assim, como palhaço precisa ler seu público a cada sessão, o psicanalista tem pela frente um pequeno diagnóstico da “situação”. Ora, é em algo análogo que nossos colegas insistem quando ressaltam a importância do público, da tendência de recepção, das circunstâncias imediatas, para além do previsto e roteirizado. É preciso, a cada vez, perceber qual é a moeda neurótica em circulação naquela sessão. E “tentar descobrir o que é o meu humor naquela linguagem”.

No livro dos chistes há um fator que Freud talvez não deu muita importância: o risco. Contar uma piada é um atentado contra o seu narcisismo. Isso pode terminar mal. Em geral, os piores e mais inaptos palhaços são os que não conseguem arriscar com atos, palavras e pensamentos. O risco da queda no vazio é nosso grande companheiro inseparável da boa clínica e do bom picadeiro. Quando nos sentimos seguros demais, geralmente é porque deixamos nossa enunciação se fechar, como nesta ótima crítica feita ao comediante: ele colocou um ponto-final e julgou, isso resolveu sua indignação.

O palhaço, assim como o psicanalista não deveria sentenciar o outro, pois, entre outras coisas, isso daria um destino corretivo para sua indignação, que é uma das formas do espanto. Uma forma que trabalhamos para deixar em aberto. Assim também o analista trabalha com sua indignação, como mistura de curiosidade e espanto, para escutar seus analisantes.

Quando berramos, murmuramos ou sopramos palavras e gestos, delicada ou brutalmente, na orelha dos outros, ele devia saber que nós não “falamos alto no teatro [analítico] por causa da velhinha da última fila”, mas porque, assim como os comediantes, não devemos deixar ninguém dormir. Assim como os palhaços e psicanalistas, sempre ouvimos pela primeira vez, ainda que o outro se repita.

A participação do corpo, a presença do humor comum e a compaixão ficam pouco representadas quando olhamos para a separação mais tradicional entre a empatia e a simpatia.

Portanto, quando dizemos que há uma afinidade baseada em identificações, só podemos concluir que disso decorre simpatia, mas, afinal, é a simpatia dos grupos e gostos entre si, das identidades e das orientações, políticas, éticas e estéticas que têm nos levado a um estado de obscurantismo. A proximidade por identificação produz conflitos por oposição simples, cuja a solução é a eliminação do ponto de vista do outro. Nada mais natural do que evocar a empatia nesse contexto. Ela seria o antídoto natural contra a intolerância, a perseguição de estrangeiros, imigrantes e todos os que estariam “em excesso no mundo”, e cuja eliminação tornaria tudo mais fácil.

Ao contrário da simpatia, que acontece de forma espontânea, a empatia costuma exigir empenho, trabalho e dedicação. Dependendo do caso, boas doses de suor, paciência, coragem para conhecer bem de perto o mais íntimo das experiências de dor e sofrimento. Tanto trabalho só se justifica caso se tenha algo anterior e essencial, que é o desejo genuíno de escutar o outro. E isso não significa ter o desejo de vir a concordar com ele.

Percebemos assim que a empatia se forma na relação de despojamento de si, hospitalidade ao outro, reconhecimento da divisão e do conflito do outro na relação conosco e destino, criação ou invenção que a empatia torna possível. A simpatia e a tolerância pelo outro, a capacidade de nos colocarmos no seu lugar, ou de nos refletirmos nele como um espelho são condições necessárias, mas insuficientes para caracterizar a experiência da empatia. A empatia não é apenas um circuito amoroso ou de mútua compreensão, ela é uma forma de fazer coisas juntos, uma maneira de compartilhar a ação, não apenas os sentimentos.

A empatia não é apenas reconciliação, mas conflito produtivo e trabalho criativo com a diferença. Entre a humanidade e a inumanidade, em cada um de nós, escuta empática que envolve a perda de nossas aparências, o reconhecimento de nossas incoerências e a partilha de nossas contradições.

Aqueles que querem uma empatia barata, feita de gostos que eu quero pagar, que deixam nossas crianças a salvo do sexo e da brutalidade, são aqueles que querem criar cordeiros sem conflitos. Cordeiros para os quais a empatia será impossível.

A escuta empática, na relação com o outro e a escuta lúdica, na relação com os fins são as duas teses que apresentamos neste livro. Elas foram apresentadas a partir de casos e de técnicas que podem favorecer seu uso, mas nunca deveriam ser seguidas como uma obediência que perderia a condição fundamental dessas duas abordagens da escuta: a autenticidade.