O Palhaço e o Psicanalista
Diálogo, Elogio ou Julgamento
12 Diálogo, elogio ou julgamento
O prefixo grego dia, presente em “diálogo”, remete a “atravessar”. Como em diâmetro. A linha ou medida que atravessa o círculo. Logos, do grego, “conhecimento” ou “significado”, mas também “discurso” e “razão”. Assim, dia-logo quer dizer o “significado que atravessa”. Dialogar é, portanto, empenhar-se para que o significado do que o outro diz e do que o outro sente chegue até você.
Nosso entendimento comum identifica muito a escuta com o diálogo. Quando há diálogo as pessoas se escutam, colocam-se no lugar do outro e fazem a palavra passar de um lado para o outro, de tempos em tempos, o que os linguistas chamam de passagem de turno. Tem gente que quer ficar com a bola só para si, prejudica o diálogo porque não passa o turno. Tem gente que se assusta quando está com a bola, por isso fala para se livrar dela, nem sempre respeitando o tempo e a extensão do que queria dizer, o que também prejudica o diálogo. Há outras pessoas que, enquanto o outro está com a bola, saem da situação, ocupando-a com falsas interjeições (como “hum, hum” ou “entendo”), quando, em verdade, não se dedicam a receber com cuidado e atenção o que o outro está falando. Tudo se passa então como se já soubesse o que o outro vai dizer. Vemos assim que, ao contrário do senso comum, um bom diálogo acontece quando as pessoas não se “entendem” perfeitamente, ou seja, quando se estranham dizendo o que dizem, ou estranham o que o outro disse.
Um erro de principiante na arte da escuta é achar que quando estamos escutando ao mesmo tempo nos comunicamos perfeitamente, em uma espécie de “conexão” pela qual as palavras se tornam prescindíveis, porque a informação flui por uma espécie de canal mental de circulação direta. Ao contrário, nessas situações o que muito frequentemente acontece é cada um aceitar, cuidar e trocar turnos em volta do mal-entendido. É por isso que um psicanalista como Jacques Lacan dizia que o equívoco é a essência da comunicação. Quando não há equívoco não há escuta. Isso não ressoa perfeitamente como a arte do palhaço e suas trapalhadas, equívocos e desentendimentos?
Vamos imaginar uma situação. Você adora cães e, batendo papo com alguém, essa pessoa diz o contrário, que ela os detesta. A partir do seu referencial, provavelmente você vai julgá-la com os mais variados adjetivos: insensível, chata, desumana etc. A conversa pode acabar por aí. Mas… Você pode optar pelo diálogo e perguntar por que ela não gosta de cachorros. E então ela te explica que quando tinha 3 anos, o cachorro da vizinha a mordeu na perna e ela levou vinte
pontos. Neste exato instante aconteceu o diálogo.[11] Ou seja, o significado do não gostar te atravessou, evitando que você, que já estava julgando o outro por chatice e insensibilidade, evite sentenciá-lo injustamente.
O diálogo traz para o seu tribunal interno, antes composto somente pela sua promotoria e por um juiz não muito imparcial (você mesmo), a parte que faltava no julgamento: a voz do outro. Escutar o outro presume que ele possui suas razões, seus motivos e está determinado por certas causas. Você não consegue se impedir de julgar? Então o faça bem-feito. Observe que, nos tribunais, o réu sempre tem o direito de apresentar sua versão. Se você quer manter o julgamento no horizonte, que tal levar em conta o ponto de vista do outro? A maior parte dos juízos que firmamos são mais rápidos do que deveriam, mais reativos e, portanto, mais defensivos.
Uma variante importante do diálogo é o debate. Do francês antigo, debatre, significa “lutar”. Junção do prefixo de, ou seja, “completamente”, com batre, “bater, golpear”. Como em embrater, “bater contra, cravar”. A etimologia da palavra diz tudo. Debater é lutar, golpear, bater completamente. Esse modelo de conversa supõe, portanto, que o outro é um adversário, um oponente que precisa ser derrotado. Em vésperas de eleições, nunca assistimos na TV a um “Diálogo dos Candidatos” em que eles pudessem trocar experiências e aprender uns com os outros, visando um bem maior, o qual sempre será o coletivo. O que vemos é um ringue em que um candidato procura golpear o outro, visando o bem individual: a sua eleição. Em culturas competitivas como a nossa, esse é o modo de conversa vigente. Gastamos boa parte da nossa energia no esforço por convencer o outro do nosso ponto de vista, por ter a última palavra, por “se sair melhor”, por “sair por cima”. Daí que sejam tão comuns o uso de expressões do tipo “eu vou além”, “mais que isso”, “não é bem assim”.
Associamos o diálogo à cooperação, e a construção e o debate ao antagonismo e à competição. Esses dois polos da fala possuem seu correlato em termos de escuta: há uma atitude mais compreensiva da escuta, que se orienta para a construção de sentidos compartilhados e uma escuta mais adversativa, em que o ouvinte a tenciona, desequilibra ou descompleta o sentido proposto. Enquanto a escuta compreensiva é vertical, aceitando profundamente o dito como dito, o dado como dado, a escuta adversativa amplia a dinâmica horizontal da conversa. Se a escuta compreensiva explora o assentimento por meio de um “sei” ou de um “entendo”, a escuta adversativa introduz um “mas”, ou um “por outro lado”. Quando sentimos que o assunto está prestes a morrer é possível que falte adversatividade. Quando percebemos que a conversa é infinita e não vamos chegar a lugar algum, provavelmente é porque há excesso de adversatividade. Um escutador medíocre deixa perceber que todos os elogios e razões que ele atribui ao outro, e que ele coloca antes do “mas”, são falsos e hipócritas. Um bom escutador encontra razões realmente inusitadas para compartilhar com o outro a própria adversidade, deixando claro que ela é uma contradição que pode não estar acontecendo entre uma e outra pessoa, mas nas coisas mesmas. Que um e outro têm pontos de vista distintos, mas a própria realidade é indiferente a esses pontos de vista e ela pode ser adversativa para ambos.
Se você tem uma tendência para juiz ou promotor, se acha que isso é muito arraigado para ser alterado, considere a possibilidade de exercer sua função com maior rigor, ou seja, escute longamente as provas dos dois lados, os testemunhos, as dúvidas, as evidências da perícia, escute o advogado de defesa, considere o direito de pedir vistas. Revendo todos os passos da acusação, convoque as testemunhas oculares, acolha todas as informações com todo o tempo e parcimônia científica que o caso merece. Não dispense as “oitivas”, como são chamadas as sessões dedicadas a ouvir os envolvidos em um caso.
Então o que estamos vendo é que o julgamento pode ser um modelo metafórico para a experiência de escuta, desde que não o identifiquemos com a emissão de pareceres e sentenças, mas com o lento e tantas vezes interminável processo que envolve constituir um advogado, formalizar uma queixa, traduzir essa queixa em uma linguagem pública e universal, estabelecer um foro, convocar testemunhas, criar o diálogo entre promotor e defesa, convocar jurados, especialistas, deixar que eles falem longamente, até que, enfim, e depois disso, alguma conclusão emerja.
Perceba que um julgamento presume uma estrutura dialogal: primeiro fala a acusação, depois a defesa, segue-se a réplica, daí a tréplica. Consulte seus arquivos. Fale com colegas e verifique a jurisprudência. Não se esqueça de ler os chamados “romances policiais” da literatura, para comparar casos reais conexos e exemplos raros que a ficção explorou ad nauseam. Tudo isso para nunca, nunca mesmo, sentenciar antes do devido processo.