O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 10 de 50

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O Palhaço e o Psicanalista

O Pacto da Escuta Hospitaleira

8 O pacto da escuta hospitaleira

 

Como o palhaço, nos colocamos no ponto de vista do outro reconhecendo a beleza e inteireza da vida que se apresenta diante de nós. Admitindo que nelas as coisas estão como estão em função de suas próprias causas, motivos e razões. Partimos assim da hipótese de que naquela vida nós é que somos o estrangeiro, que precisa descobrir as regras daquela cultura, não é aquela forma de vida que tem que nos dar satisfações ou justificar-se segundo nossos critérios.

Como o palhaço nos ocupamos de ler o sofrimento e a miséria dos outros, trazendo-os para nós mesmos e criando com eles alguma graça. O psicanalista não é apenas afetado cognitivamente pelo que seu paciente diz, mas também em seu corpo, em sua presença, ou no juízo mais íntimo do seu ser. Neste ponto, em que compartilhamos o dito e o semidito, no qual reconhecemos profundamente e sem meias-voltas os afetos piores e melhores, as certezas, mas também as indeterminações, que a escuta do analista e do palhaço ultrapassam a mera simpatia, criando a intimidade necessária para formar a empatia.

Assim, o pacto de acolhimento e hospedagem do outro é o começo da escuta. Se não conseguimos nos fidelizar na busca pela “interessância” do outro, a buscar o ponto de vista no qual a viagem se tornará enriquecedora para ambos, provavelmente a relação de escuta se transformará em outra coisa: persuasão, exibição, concorrência ou animosidade, quando não educação e obediência.

Como palhaços, brincamos a sério com os outros, devolvendo um fragmento de verdade que eles mesmos nos mostraram sem perceber. Nossa escuta não apenas acolhe e sanciona, ela também enigmatiza, questiona e critica. Como o bufão, que é capaz de dizer certas coisas para o rei, ou como Sancho Pança, que ajuda Dom Quixote dentro da sua viagem fantástica, o palhaço e o psicanalista oferecem palavras e presenças. Aqui, a escuta é hospitaleira. A escuta psicanalítica é, antes de tudo, parte da ética do cuidado, uma forma de permitir que o sujeito se escute e, a partir disso, cuide de si. Essa não é apenas uma técnica de gerência baseada na submissão a uma disciplina de procedimentos. Já dissemos anteriormente neste livro ninguém vira psicanalista ou palhaço seguindo regras piamente.

Podemos dizer que a escuta envolve um contrato, cuja cláusula primeira é o acolhimento. Como todo contrato, este cria uma espécie de regra mutuamente consentida entre os participantes, regra que pode ser suspensa e suprimida a qualquer momento. Nos primeiros contatos de escuta, forma-se, assim, uma espécie de pacto, de acerto ou combinado, que pode ser, inclusive, transgredido, no andar da escutação.

1. Sentir o que o outro sente, assumir a perspectiva dele, segundo sua própria língua e suas

próprias razões. Se não houver empatia (Einfüllung) entre analista e analisante, é melhor procurar outro. Para criar empatia, nessa situação, dependemos de uma autoridade suposta, mas principalmente da confiança que se estabelecerá nos primeiros momentos do tratamento. Isso nunca é certo e controlável, sendo nossa tarefa trabalhar para criar as condições favoráveis para que isso aconteça. Para ser bem executado, é preciso sair de si, não se levar demasiadamente a sério e orientar-se para aquela posição que seu paciente (ou sua plateia) requer. Uma dificuldade típica do iniciante nesta matéria é ficar tão intensamente dedicado ao cumprimento de seu papel, a comportarse com um bom psicanalista (ou bom palhaço), a cumprir as expectativas “criadas por si mesmo”, que deixa de se preocupar com o que é realmente importante, ou seja, o outro.

2. Reagir com prontidão, em atenção ao tempo e cuidando das contingências de um encontro

sem roteiro. A melhor escuta deve deixar o interlocutor o mais livre que puder na relação com as palavras. Se ele associa livremente, nós devemos nos esforçar por manter uma escuta equiflutuante, sem foco específico, mas atenta para ser capturada por um detalhe dissonante ou por uma variação de intensidade na fala. Ou seja, não basta colocar-se no ponto de vista do outro, é preciso também admitir que o outro não sabe tudo sobre si, que ele não tem os problemas e as soluções bem-postos em sua cabeça, afinal, se ele tivesse, não estaria te procurando.

3. Criar junto com o outro e deixar-se afetar pelo outro. Deixar-se levar, compartilhando, ainda

que provisoriamente, não só suas opiniões e ideias, mas principalmente o que há de estranho no outro, suas incertezas e confusões, suas incoerências e descaminhos. Brincar é a nossa aprendizagem para a criação. Ouvir é uma faculdade sensorial e passiva, escutar exige receptividade, mas é, sobretudo, uma atividade. Infelizmente, dizemos que alguém é surdo tanto quando apresenta um distúrbio auditivo, quanto quando não consegue apreender e receber o que o outro diz. Escutar é uma disposição a reverberar, pontuar, ecoar, tencionar ou participar da fala do outro. O bom escutador é leitor de textos e de pessoas, alguém que

se interessa por entrar na vida alheia porque ela é um desafio de leitura, como um bom livro ou filme que, ao procurarmos ler ou assistir, enriquecemos. Um bom escutador é como um bom editor, ele pode mudar um ponto para reticências ou exclamação, o parágrafo pode dividir ou reunir duas ideias, a vírgula cria um tempo de respiração, às vezes um sinônimo muda tudo. Ele pode até sugerir um novo título para o capítulo, ou sentenciar o corte de uma frase em duas. Mas ele não é o autor do livro e deve respeitar a palavra final deste no aclaramento interrogativo do que está sendo dito, antes de interpor outra colocação.

4. O quarto tempo da escuta é o dizer. Esse dizer tem algumas exigências consagradas pela

prática clínica, por exemplo: acompanhar o tempo da relação de fala (timing), buscar certa concisão pela qual a intervenção mínima trará o máximo efeito e, principalmente, algum efeito de surpresa ou descoberta. O dizer do psicanalista e do palhaço corta e edita, entende e desentende, recria o dito em outra forma, de tal maneira que, no final, encontramos naquilo que foi dito algo a mais ou a menos do que se “queria dizer”. Quando isso acontece, a escuta completa-se em um tempo de leitura. Ler no outro os efeitos do seu dizer. Ler em si os efeitos do seu dizer sobre o outro. Pode ser uma fala oracular ou enigmática, pode ser uma denúncia intempestiva ou um silencio que ressoa e critica o humor de uma situação. Aqui o modelo segue a simplicidade do gesto do palhaço, que quer agradar, mas não emular, que busca o aplauso, mas não a aprovação banal e gratuita. O tempo da leitura é o tempo pelo qual a experiência se tornará memória. É aquela conversa depois do filme, aquele relato depois da viagem, aquela história que contamos depois da festa, como que a arrumar o lugar de cada coisa e de cada detalhe para que a coisa possa ficar bem guardada dentro de nós, antes de seguirmos viagem.