O Palhaço e o Psicanalista

Christian Dunker, Cláudio Thebas · Capítulo 42 de 50

Páginas do PDF

O Palhaço e o Psicanalista

Escutando Classes, Gêneros, Raças e Outras Diversidades

40 Escutando classes, gêneros, raças e outras

diversidades

 

Escutar é reconhecer e reconhecer é instrumento fundamental de transformação, subjetiva e política. Mas o que significa, de fato, reconhecer? Há tantas formas de dizer que algo é importante, relevante ou admirável sem que isso realmente altere muita coisa na relação que mantemos com o outro, com o mundo e com nós mesmos. Por isso o modelo de escuta que existe para palhaços e psicanalistas é um modelo muito pragmático e simples: se o público ri, ou se emociona, deu certo, senão, deu errado. Mas pode não ser bem assim. Se o paciente altera seu discurso, deu certo, se ele continua no mesmo lugar, apesar de tecer elogios e louvores a você, deu errado. Psicanalistas não são colecionadores de troféus, assim como os palhaços não são meros contadores de risadas em busca de riso fácil. É preciso ter muita escuta e experiência para detectar se a resposta é ouro ou ouro dos tolos. Você obedece a seu chefe, mas por dentro acha que ele está errado. Você aplaude aquela peça de teatro, mas no íntimo sabe que não gostou ou não entendeu nada do que se passou. Você diz que seu amigo é ótimo e tem talentos e aptidões incríveis, mas no fundo você não acha bem isso. Você responde que vai dar tudo certo para aquela amiga que te liga, porque ela está desesperadamente pedindo para ouvir isso, mas não é o que você realmente pensa. Muitas plateias vão ao teatro tão determinadas a rir que darão gargalhadas mesmo se o teto cair ou alguém enfartar na terceira fileira. Boa parte do tempo sentimos e praticamos atos de falso reconhecimento.

Não são exatamente mentiras, mas manipulações do circuito da escuta envolvendo o meio simbólico pelo qual ela se efetua, o ato real que a realiza e a posição imaginária como somos reconhecidos. Quanto mais estamos expostos a tais acomodações, mais nos sentimos incertos quanto à nossa identidade e ao nosso valor. Isso nos faz demandar ainda mais reconhecimento, nos expondo cada vez mais à confirmação ilusiva do que queremos ouvir, e ao ódio pela falsidade do que o outro nos diz.

Mas existe outro lado dessa crise estrutural de reconhecimento. São as situações nas quais reconhecer significa excluir, rebaixar, diminuir ou invisibilizar. Nesses casos existe uma espécie de bloqueio primário da escuta e consequentemente da experiência de reconhecimento. Nessas situações o outro conta mais pela sua identidade de grupo do que por sua singularidade. Como se as pessoas que achamos “gente como a gente” fossem mais diferentes entre si, ao passo que os outros, que não são “como nós” são todos mais ou menos iguais entre eles. Esse efeito é devastador porque pode acumular identidades que excluímos de nossas expectativas de representação e de reconhecimento.

A teoria da interseccionalidade, os diferentes feminismos, a teoria Queer, os estudos de gênero e as novas teorias críticas têm mostrado como a opressão social é cumulativa e como nossas representações sociais estão excessivamente impregnadas da projeção de que o “ser humano” é, no fundo, alguém branco, homem, heterossexual, cis-gênero e de classe média ou alta. É com essa entidade, que não é neuro divergente, nem surdo nem cego, nem sofre de dificuldades cognitivas ou motoras, nem tem doenças crônicas incapacitantes, nem é indígena, nem mora na periferia, nem sofre com sua estrangeiridade, nem é egresso do sistema penal, nem é dependente químico, nem é vítima de violência doméstica ou de Estado, nem está desempregado ou sofre de algum transtorno mental. Esperamos que uma enumeração exaustiva como essa tenha servido para exemplificar como nossa escuta “básica” apoia-se em uma expectativa de igualdade entre as pessoas que não corresponde a realidade social real. Mas se tivéssemos expandindo nossa enumeração perceberíamos que a única regra de universalidade aqui parece ser a de que todos nós fazemos parte de um grupo de exceção. Inadequados, “inaceitos”, inadmissíveis, tortos, esquisitos. Somos todos palhaços e bufões. Ainda assim, alguns são mais exceções do que outros. A dissolução dessas identidades de exceção é uma tarefa política de maior magnitude, mas enquanto isso não acontece tais diferenças precisam ser reconhecidas e a escuta é o instrumento fundamental pelo qual esse reconhecimento pode evoluir do nível cotidiano para o nível comunitário e daí para o institucional e jurídico. Reconhecer tais diferenças não é só um problema moral, que alivia o sofrimento imediato daqueles que estão excluídos, mas parte de um trajeto de transformação social, que precisa progredir mais rapidamente.

Portanto, um desafio maior e imediato para nosso tempo é como escutar, realmente, o outro quando ele aparece no contexto da diferença de classe, de gênero ou de raça? A primeira regra aqui é evitar regras, pois se soubéssemos exatamente como fazer isso a situação não seria esta, na qual nos encontramos, de segregação e desigualdade social. Mais do que em outras circunstâncias aqui se mostra fundamental a prática da escuta como renúncia à gramática de reconhecimento, ou seja, a língua moral que cada um de nós pratica e espontaneamente atribui aos outros que são “como nós”. Mais do que nunca, aqui a escuta deve contar com a possibilidade de desapossamento de si e dobrar-se a recolher não só o que o outro diz, mas a forma como o outro quer e precisa se reconhecido. Quanto mais o traço de classe, gênero ou raça aparece como um conjunto de antecipações que formamos sobre o outro, logo de convicções e suposições, menos somos efetivamente capazes de escutar aquele que está diante de nós, com seu sofrimento singular, com sua história única, que é também expressão de um coletivo. Mas essa expressão ou representação deve emergir a partir do outro e não ser pré-codificada a partir da gramática de reconhecimento estabelecida por quem escuta.

Dois discursos se cruzam desafiando aquele que se dispõe a escutar a segregação social. Primeiro há o discurso antropológico da diversidade. Nesse caso, as pessoas são reconhecidas em função de sua excepcionalidade em relação à uniformidade. Aqui podemos reconhecer alguém diferente como exótico, incomum e atraente porque confirma ou porque enriquece minha própria diversidade. O segundo discurso lê a excepcionalidade como diferença sociológica. Nesse caso, ela representa o oposto de igualdade diante a lei, ela representa uma distribuição não equitativa do capital econômico, social e cultural que mantém a diferença como hierarquia social. Frequentemente o enaltecimento da diversidade, que existe entre os seres humanos, está a serviço da manutenção da naturalização das diferenças de oportunidades, de equidade salarial e de direitos.

A escuta atravessada por identidades de alta valência política torna-se assim mais complexa porque ela envolve e explicita dois níveis de reconhecimento, que estão sempre presentes, mas que nesses casos se tornam incontornáveis, ou seja, o nível em que escutamos aquele um que fala e o nível em que negociamos a gramática geral de reconhecimento que queremos expandir e sancionar para o conjunto de nossas relações. Ou seja, não se trata apenas deste um pelo qual podemos nutrir apreço e gratidão, familiaridade ou simpatia, mas de participar de sua demanda de generalização de outra gramática de reconhecimento, que possa acolher mais e maiores exceções.

Em função dessa condição, colocar-se no lugar do outro, ver o mundo segundo sua perspectiva, pode ser confundido com apropriar-se de sua fala e de suas reinvindicações, de sua cultura ou de seu modo de expressão, espoliando-o inclusive de seus recursos de resistência e reinvindicação. Colocar-se no lugar do outro, hospitaleiramente, neste caso, é deixar-se ensinar pelo outro, deixar-se conduzir pelo outro, sem que isso signifique obediência e submissão. Deixar-se afetar pelo corpo do outro, nesses casos, é experimentar seu sofrimento como “seu” sofrimento, e não como piedade, culpa ou compaixão projetada desde nossa posição de supostamente médico no hospital. Retornar nossa loucura misturada com a do outro significará, nesses casos, o reconhecimento de que há estados informulados de sofrimento aos quais nossos nomes não cabem com justeza. Por fim, nos prestarmos a ser hospedeiros dessa diferença é também uma tarefa de engajamento coletivo em uma transformação real porque nosso reconhecimento terá sido, então, real.