O Palhaço e o Psicanalista
Os Quatro “Agás” da Escuta
16 Os quatro “agás” da escuta
Estamos insistindo em como a escuta começa por uma espécie de renúncia a exercer o poder, tanto do lado do psicanalista quanto do palhaço. E o poder existe e se repete em discursos
cotidianos. Na série de YouTube, [13] Fala que eu não te escuto , Cláudio Thebas percorre ruas e áreas de comércio fazendo perguntas do tipo: “Como eu faço para chegar ao banco mais próximo para cometer um assalto?”, ou “Quero colocar uma bomba nesta loja, como faço para chegar lá?”, ou ainda “Quero fazer uma ataque terrorista em tal lugar, fica para a direita ou para a esquerda?”. As pessoas respondem educadamente indicando caminhos e até os lugares mais favoráveis para os crimes anunciados. Tudo isso porque elas não estão escutando exatamente o que foi dito. Muitos são atendentes, porteiros e funcionários que estão bastante acostumados a dar informações, e cuja função é exatamente essa. O circuito de falas que se repete e organiza nosso cotidiano como um fluxo funcional torna-se tão rápido e eficaz quanto “menos” nos escutamos. Esperamos ter ficado claro até aqui que escutar dá trabalho, toma tempo e envolve riscos.
Note como frequentemente conjugamos a palavra “escutar” junto com “parar”, por exemplo: “Parei para escutar o que eles estavam dizendo”, ou “Foi naquele momento que ‘caiu a ficha’ do que estava acontecendo”. “Cair a ficha” é uma expressão que remonta aos tempos em que havia telefones públicos chamados “orelhões”. Para fazer uma ligação era necessário inserir uma ficha. O procedimento era: erguer o telefone do gancho, inserir a ficha, digitar os números do telefone desejado e… esperar. Quando a pessoa atendia do outro lado da linha, ouvíamos um barulho característico da “ficha caindo” no receptáculo de armazenagem. Se o outro não atendesse a ligação, você colocava o gancho no lugar e a ficha voltava para você, fazendo outro tipo de som, muito mais metálico.
Por que essa expressão se consagrou e sobreviveu à existência real de orelhões? Porque ela capta com acuracidade o momento-chave em que a escuta depende de uma ligação que é “sancionada”, o que é indicado por um momento, por um instante de “suspensão” do fluxo. As pessoas do Fala que eu não te escuto estavam presas ao discurso antecipatório que marca e dá agilidade ao cotidiano, mas também o esvazia de interações significativas. Outro aspecto decisivo da experiência é que, nessa repetição de sentidos antecipados, referendamos relações de poder. Já sabemos quem você é, pela forma como se veste, pelo carro que dirige, pela forma como usa as palavras. E se já sabemos quem você é, sabemos também o que você vai dizer e como devemos nos comportar: obedecendo.
A verdadeira escuta é um ato político, porque ela suspende os lugares constituídos para colocar todo centro e poder nas palavras que estão efetivamente sendo ditas, independentemente de quem as está pronunciando. Quando as práticas feministas insistem na importância da interrupção da fala da mulher pelo homem (manterrupting), do silenciamento, na desclassificação (gaslighting), na tradução ou apropriação de ideias (bropriating), na determinação do sentido da conversa (mansplaining) que os homens habitualmente impõem às
mulheres, elas estão denunciando exatamente isso. É daí que veio a noção de “lugar de fala”,[14] ou da expressão “de um ponto de vista feminista”, como uma forma de acentuar e exagerar fenômenos de poder ligados às antecipações de sentido que fazemos, inclusive quando nos autorizamos a falar pelo outro e a nos apropriarmos do sentido do que ele diz.
Por isso, queremos pensar também o que seria o “lugar de escuta”, que possui uma condição de base homóloga, a saber, a vulnerabilidade. Este é o ponto de partida para as quatro modalidades de escuta que apresentamos aqui:
1. Hospitalidade: acolher o que o outro diz na sua linguagem e no seu tempo próprio.
2. Hospital: cuidar do que se disse, como se cuida da relação entre os que se encontram
debilitados.
3. Hospício: permitir ser quem se é, abrindo-se ao estrangeiro, em nós e no outro, com todas as
incoerências e contradições.
4. Hospedeiro: carregar, compartilhar e transmitir a experiência vivida.
Vulnerabilidade promove conexão. Se por um lado eu abro minhas portas para que o outro me habite, por outro também revelo que o mais precioso nessa jornada é encontrar igualmente um ponto de parada, uma clareira, um lugar onde, ainda que por pouco tempo, possamos nos “hospedar”. Hospedar é acolher, receber, sentir satisfação em dar guarida ao viajante exausto ou ao guerreiro ferido.
Paul Grice,[15] grande estudioso da arte da conversação dizia que há dois princípios que deveriam presidir as trocas de palavras. O primeiro é o princípio da caridade, por meio do qual concedemos ao outro e a nós, que o sentido e o significado do que se quer dizer é difícil de ser obtido. A caridade significa, nesse contexto, a disposição para desculpar e tolerar que o que foi dito se comporta sempre a mais ou a menos do que se quis dizer. A caridade é a atitude de reparação constante desse problema estrutural. O segundo princípio indica a atitude de contribuição ou de acréscimo ao que foi dito. Acrescentar informação, dizer algo novo, contribuir para o avanço da série de ditos pronunciados nos remete ao aprimoramento da construção compartilhada de sentido.
Desses dois princípios, o linguista americano extrai oito regras conversacionais, que uma vez
seguidas por todos nos levariam ao aumento da concórdia e ao mútuo entendimento:[16]
1. Faça sua contribuição tão informativa quanto for exigido (para os objetivos atuais da
conversa).
2. Não faça sua contribuição mais informativa do que é exigido.
3. Não diga o que você acredita ser falso.
4. Não diga aquilo para o qual lhe faltam indícios adequados.
5. Evite a obscuridade de expressão.
6. Evite a ambiguidade.
7. Seja breve (evite prolixidade).
8. Seja organizado.
Percebe-se por essa enumeração sumária que palhaços e psicanalistas vivem da corrupção sistemática e metódica de quase todas as oito regras. Eles adoram ambiguidades, inversões e confusões. Desorganizam nosso discurso e nosso planejamento. Falam coisas verdadeiras que são falsas e outras falsas que parecem profundamente verdadeiras. Especulam e criam mundos dos quais eles não sabem e enigmas que podem ser obscuros ou aparentemente descessários. Desdenham da potência das informações como instrumento para transformar vidas e pessoas. Mas há uma regra que ambos respeitam: a brevidade e a concisão. Falar demais é o primeiro princípio de quem não está escutando.
Contudo, psicanalistas e palhaços estão de acordo com os dois princípios gerais: caridade e contributividade. São esses dois princípios que se reúnem na noção de escuta hospitaleira.
Hospitalidade compreende, portanto, certa abertura para a generosidade, assim como o hospedeiro quer se multiplicar, viralizar e generalizar a experiência obtida. Grice não parece ter dado tanta importância ao fato de que há motivos pelos quais, em certos momentos, a troca de palavras não se reduz ao fluxo de informações. A troca de palavras tem um efeito secundário de cura ou de reconstrução e procede de um desentendimento irredutível entre nós e a linguagem, que aqui estamos chamando de “loucura pessoal do homem são”, ou nosso hospício íntimo.
Se você quer começar a ampliar a sua escuta, mas acha que não é muito bom com as palavras, comece convidando pessoas para sua casa, para jantares, festas ou reuniões, a pretexto de qualquer coisa. Aprender a receber alguém e deixar o outro em casa, na sua casa, é o começo e a origem para a escuta hospitaleira. Perceba como os princípios que um bom anfitrião deve seguir são análogos aos de quem quer escutar o outro: não impor suas regras, oferecer o melhor, interessar-se genuinamente pelo outro esforçar-se e empenhar-se para deixa-lo à vontade. Cuidado nessa hora. Se o hóspede confundir empenho com esforço pode passar a acreditar que “está dando muito trabalho” e sua hospedagem lhe será um peso. A função hospedeira da escuta exige distinção entre atenção e sufocamento, liberdade e abandono.
Uma das formas de acolher a nossa vulnerabilidade e compartilhá-la com outro é experimentá-la como uma insuficiência do saber. Isso se mostra, na prática do diálogo, por meio da alternância do silêncio e do vazio, da fala e da escuta, do consenso e do dissenso, da aproximação e do distanciamento do outro. A relação do palhaço, seja com uma plateia numerosa, ou com apenas uma pessoa, se dá nesse movimento de contração e expansão. Uma pulsação que não é dele, nem do outro, mas dos dois. Os linguistas descrevem essa alternância entre quem fala e quem escuta como “troca de turno”. O turno marca o ritmo da conversa, e é uma passagem que nós fazemos espontaneamente, a partir de certas dicas, do tipo, um olhar, uma pausa, uma pergunta. O turno pode ser cedido espontaneamente, mas, em uma conversa mais tensa, pode ser disputado. Quando o turno é objeto de antagonismo declarado, surgem exclamações ou queixas como “deixa eu falar!”. Esse tipo de sinal pode indicar que você não está sendo um bom anfitrião. Em vez de trabalhar para deixar o outro “sentir-se em casa”, servir seu melhor prato e oferecer sua melhor cama, você quer que o convidado siga as regras da casa. Em vez de deixá-lo livre para se interessar pelo que bem quiser, você quer impor uma visita guiada ao museu. Em vez de deixá-lo descobrir os encantos do lugar no seu próprio tempo e ritmo, você quer impor um roteiro, baseado na sua experiência, não na de seu hóspede. Como diz
o rabino Nilton Bonder,[17] escutar seja, talvez, o maior gesto de hospitalidade.
Ser hospitaleiro requer o cultivo de um silêncio interno. Esse silêncio pode acontecer de várias maneiras, mas sempre terá o feitio de um parêntese ou de uma descontinuidade. É assim que passamos da hospitalidade para o hospital, nesse intervalo da vida no qual podemos cuidar de nós mesmos. Fins de semana podem ser como hospitais para a rotina devoradora de almas. Férias são um hospital para a renovação de sonhos ou para a elaboração de pesadelos. No início, os hospitais não eram lugares de medicina, cura ou tratamento, mas de retiro espiritual, onde se ia para morrer e refletir sobre a finitude da vida. Hospitais são lugares de cuidado e silêncio, de meditação e parada. Depois de acolher o outro, a escuta deve tratar, colocar em cima da mesa de cirurgia, trazer à luz, colocar em questão o diagnóstico da situação e investigar o que nos inquieta no mal-star.