Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Elegia III.
E por entre estes horridos penedos
A quem negou Natura o claro dia,
Entre tormentos asperos e medos,
Com a trémula voz, cansada e fria,
Celebrarei o gesto claro e puro,
Que nunca perderei da phantasia.
O Musico de Thracia, ja seguro
De perder sua Eurydice, tangendo
Me ajudará ferindo o ar escuro.
As namoradas sombras, revolvendo
Memorias do passado, me ouvirão;
E com seu chôro o rio irá crescendo.
Em Salmonêo as penas faltarão,
E das filhas de Belo juntamente
De lagrimas os vasos s'encherão.
Que se amor não se perde em vida ausente,
Menos se perderá por morte escura:
Porque, emfim, a alma vive eternamente,
E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
ELEGIA III.
O poeta Simonides fallando
Co'o Capitão Themistocles hum dia,
Em cousas de sciencia praticando; {165}
Hum'arte singular lhe promettia,
Qu'então compunha, com que lh'ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde tão subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria
Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama e gloria
Quem dava regra contra o esquecimento,
Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitão claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia
Do passado as lembranças por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia)
Pois tanto em teu engenho te confias,
Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum'arte, qu'em meus dias
Me não lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!
S'este excellente dito ponderado
Fosse por quem se visse estar ausente,
Em longas esperanças degradado;
Oh como bradaria justamente,
Simonides, inventa novas artes;
Não midas o passado co'o presente!
Que se he forçado andar por várias partes
Buscando á vida algum descanço honesto,
Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
E se o duro trabalho, he manifesto
Que por grave que seja, ha de passar-se
Com animoso esprito e ledo gesto;
De que serve ás pessoas o lembrar-se {166}
Do que se passou ja, pois tudo passa,
Senão d'entristecer-se e magoar-se?
S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
Não como quiz Pythagoras na morte,
Mas como quer Amor na vida escassa;
E s'este Amor no mundo está de sorte,
Que na virtude só d'hum lindo objecto
Tẽe hum corpo, sem alma, vivo e forte;
Onde este objecto falta, qu'he defecto
Tamanho para a vida, que ja nella
M'está chamando á pena a dura Alecto;
Porque me não criára a minha Estrella
Selvatico no mundo, e habitante
Na dura Scythia, e no mais duro della?
Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
Homem fôra formado de diamante;
Porque a cerviz ferina e inhumana
Não submettêra ao jugo e dura lei
Daquelle que dá vida quando engana.
Ou em pago das ágoas qu'estilei,
As que passei do mar, forão do Lete,
Para que m'esquecêra o que passei.
Porque o bem que a esperança vãa promette,
Ou a morte o estorva, ou a mudança,
Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,
No mal, do bem passado he triste e dura,
Pois nasce aonde morre a esperança.
E se quizer saber como se apura
Em almas saudosas, não s'enfade {167}
De ler tão longa e misera escriptura.
Soltava Eolo a redea e liberdade
Ao manso Favonio brandamente,
E eu a tinha ja sôlta á saudade.
Neptuno tinha pôsto o seu tridente;
A proa a branca escuma dividia,
Com a gente maritima contente.
O côro das Nereidas nos seguia;
Os ventos, namorada Galatêa
Comsigo socegados os movia.
Das argenteas conchinhas Panopêa
Andava por o mar fazendo mólhos,
Melanto, Dinamene, com Ligea.
Eu, trazendo lembranças por antolhos,
Trazia os olhos n'ágoa socegada,
E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.
A bem-aventurança ja passada
Diante de mi tinha tão presente,
Como se não mudasse o tempo nada.
E com o gesto immoto e descontente,
Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
Por não mostrar meu mal a toda a gente,
Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
Em puro amor tivestes, e inda agora
Da memoria o não tendes esquecido;
Se por ventura fordes algum'hora
Adonde entra o grão Tejo a dar tributo
A Tethys, que vós tendes por Senhora;
Ou ja por ver o verde prado enxuto,
Ou ja por colher ouro rutilante,
Das Tagicas areias rico fruto; {168}
Nellas em verso erotico e elegante
Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
Póde ser que algum peito se quebrante.
E contando de mi memorias tristes,
Os pastores do Tejo, que me ouvião,
Oução de vós as mágoas que me ouvistes.
Ellas, que ja no gesto m'entendião,
Nos meneios das ondas me mostravão
Qu'em quanto lhes pedia consentião.
Estas lembranças, que me acompanhavão
Por a tranquillidade da bonança,
Nem na tormenta triste me deixavão.
Porque chegando ao Cabo da Esperança,
Comêço da saudade que renova,
Lembrando a longa e aspera mudança;
Debaixo estando ja da estrella nova
Que no novo Hemispherio resplandece,
Dando do segundo axe certa prova;
Eis a noite com nuvens s'escurece;
Do ar subitamente foge o dia;
E todo o largo Oceano s'embravece.
A máchina do mundo parecia
Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
Em serras todo o mar se convertia.
Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
Sonoras tempestades levantavão,
Das naos as velas concavas rompendo.
As cordas co'o ruido assoviavão;
Os marinheiros, ja desesperados,
Com gritos para o ceo o ar coalhavão.
Os raios por Vulcano fabricados {169}
Vibrava o fero e aspero Tonante,
Tremendo os Polos ambos de assombrados.
Amor alli, mostrando-se possante,
E que por algum medo não fugia,
Mas quanto mais trabalho, mais constante;
Vendo a morte presente, em mi dizia:
Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
Nada do que passei me lembraria.
Emfim, nunca houve cousa que mudasse
O firme amor intrinseco daquelle
Em quem alguma vez de siso entrasse.
Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
Que nunca amor se affina, nem se apura,
Em quanto está presente a causa delle.
Dest'arte me chegou minha ventura
A esta desejada e longa terra,
De todo pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaidade em nós s'encerra,
E nos proprios quão pouca; contra quem
Foi logo necessario termos guerra.
Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,
E que o Rei da Pimenta lhe tomára,
Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
Com huma grossa armada, que juntára
O Viso-Rei, de Goa nos partimos
Com toda a gente d'armas que se achára.
E com pouco trabalho destruimos
A gente no curvo arco exercitada:
Com morte, com incendios os punimos.
Era a Ilha com ágoas alagada,
De modo que se andava em almadias: {170}
Emfim, outra Veneza trasladada.
Nella nos detivemos sós dous dias,
Que forão para alguns os derradeiros,
Pois passárão da Estyge as ondas frias.
Qu'estes são os remedios verdadeiros
Que para a vida estão apparelhados
Aos que a querem ter por cavalleiros.
Oh Lavradores bem-aventurados!
Se conhecessem seu contentamento,
Como vivem no campo socegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento;
Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;
Mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vem o mar irado, a noite escura,
Por ir buscar a pedra do Oriente;
Não temem o furor da guerra dura.
Vive hum com suas árvores contente,
Sem lhe quebrar o somno repousado
A grã cobiça d'ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado,
E da formosa côr de Assyria tinto,
E das torçaes Attalicos lavrado;
Se não tẽe as delicias de Corinto,
E se de Pario os marmores lhe faltão,
O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
Se suas casas de ouro não s'esmaltão,
Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
Onde os cabritos seus comendo sáltão.
Alli lhe mostra o campo várias côres;
Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
Alli se affina o canto dos pastores. {171}
Alli cantára Tityro e Sileno.
Emfim, por estas partes caminhou
A sãa Justiça para o ceo sereno.
Ditoso seja aquelle que alcançou
Poder viver na doce companhia
Das mansas ovelhinhas que criou!
Este bem facilmente alcançaria
As causas naturaes de toda cousa;
Como se gera a chuva e neve fria: