Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Epistola II.
Porqu'imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia,
Qu'inda me não consente as esperanças?
Se hum novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado,
Que não póde ser mais qui'maginado?
Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou
Contra mi, porque mais me magoasse:
Amor a hum vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna mo negasse.
O tempo a tal estado me chegou;
E nelle quiz que a vida se acabasse;
Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;
Que até da muita vida me receio.
EPISTOLA II.
Como nos vossos hombros tão constantes
(Principe illustre e raro) sustenteis {218}
Tantos negocios arduos e importantes,
Dignos do largo Imperio, que regeis;
Como sempre nas armas rutilantes
Vestido, o mar e a terra segureis
Do pirata insolente, e do tyrano
Jugo do potentissimo Othomano;
E como com virtude necessaria,
Mal entendida do juizo alheio,
Á desordem do vulgo temeraria
Na santa paz ponhais o duro freio;
Se com minha escriptura longa e vária
Vos occupasse o tempo, certo creio
Que com vagante e ociosa phantasia
Contra o commum proveito peccaria.
E não menos sería reputado
Por doce adulador, sagaz e agudo,
Que contra meu tão baixo e triste estado
Busco favor em vós que podeis tudo,
Se contra a opinião do vulgo errado
Vos celebrasse em verso humilde e rudo.
Dirão, que com lisonja ajuda peço
Contra a miseria injusta que padeço.
Porém, porque a verdade póde tanto
No livre arbitrio, (como disse bem
Ao Rei Dario o moço sabio e santo,
Que foi reedificar Hierusalem)
Esta m'obriga a qu'em humilde canto,
Contra a tenção que a plebe ignara tem,
Vos faça claro a quem vos não alcança;
E não de premio algum vil esperança.
Romulo, Baccho e outros que alcançárão {219}
Nomes de semideoses soberanos,
Em quanto por o mundo exercitárão
Altos feitos, e quasi mais que humanos,
Com justissima causa se queixárão
Que não lhes respondêrão os mundanos
Favores do rumor justos e iguaes
A seus merecimentos immortaes.
Aquelle, que nos braços poderosos
Tirou a vida ao Tingitano Anteo,
E a quem os seus trabalhos tão famosos
Fizerão Cidadão do claro ceo;
Achou que a má tenção dos invejosos
Não se doma, senão despois que o véo
Se rompe corporal: porque na vida
Ninguem alcança a glória merecida.
Pois logo, se Barões tão excellentes
Forão do baixo vulgo molestados,
O vituperio vil das rudas gentes,
He louvor dos Reaes, e sublimados.
Quem no lume dos vossos Ascendentes
Poderá pôr os olhos, que abalados
Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores
Vossos passados, Reis e Imperadores?
Quem verá aquelle Pae da Patria sua,
Açoute do soberbo Castelhano,
Que o duro jugo só, co'a espada nua,
Removeo do pescoço Lusitano,
Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua
Memoria causará, se não m'engano,
Que qualquer teu menor tanto s'estime,
Que nunca possa ser senão sublime? {220}
Nisto não fallo mais, porque conheço
Que da materia se me baixa o engenho.
Mas, pois a dizer tudo m'offereço,
E dias ha que no desejo o tenho,
Sendo vós de tão alto e illustre preço,
A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,
Por largo mar e undosa tempestade,
Só por servir á Regia Magestade.
E despois de tomar a redea dura
Na mão, do povo indomito qu'estava
Costumado a larguezas, e á soltura
Do pezado govêrno que acabava;
Quem não terá por santa e justa cura,
Qual do vosso conceito s'esperava,
A tão desenfreada enfermidade
Applicar-lhe contrária qualidade?
Não he muito, Senhor, se o moderado
Govêrno se blasphema e se desama;
Porque o povo á largueza costumado,
Á lei serena e justa, dura chama.
Pois o zelo em virtude só fundado
De salvar almas da Tartarea flama
Com a ágoa salutifera de Christo,
Poderá por ventura ser malquisto?
Quem quizesse negar tão grã verdade,
Qual he o seu effeito santo e pio;
Negue tambem ao sol a claridade,
E certifique mais que o fogo he frio.
Se o successo he contrário da vontade
Nas obras que são boas, e ha desvio; {221}
Está nas mãos dos homens comettellas,
E nas de Deos está o successo dellas.
Sei eu, e sabem todos que os futuros
Verão por vós o Estado accrescentado,
Serão memoria vossa os fortes muros
Do Cambaico Damão bem sustendado:
Da ruina mortal serão seguros,
Tendo todo o alicerce seu fundado
Sôbre orfãas amparadas com maridos,
E pagos os serviços bem devidos.
Quãmanha infamia ao Principe he perder-se
Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,
Tanto por glória grande deve ter-se
Se accrescentado e próspero o deixou.
Nunca consentio Roma ennobrecer-se
Com triumphos alguem, se não ganhou
Provincia com que o Imperio s'augmentasse,
Por maiores victorias qu'alcançasse.
Póde tomar o vosso nome dino
Damão, por honra sua clara e pura,
Como ja do primeiro Constantino
Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.
E tu, Rei, que no Reino Neptunino,
Lá no seio Gangetico a Natura
Te aposentou, de ser tão inimigo
Deste Estado não ficas sem castigo.
Bem viste contra ti nadantes aves
Cortar a espumosa ágoa navegando;
Ouviste o som das tubas, não suaves,
Mas com temor horrifero soando;
Sentiste os golpes asperos e graves {222}
Do Lusitano braço nunca brando.
Não soffreste o grão brado penetrante,
Que os trovões imitava do Tonante.
Mas antes dando as costas e a victoria
Á Bragancez ventura não corrido,
Déste bem a entender quão grande glória
He de tal vencedor o ser vencido.
Quem faz obras tão dignas de memoria
Sempre será famoso e conhecido,
Onde os altos juizos o estimarem,
Qu'estes sós tẽe poder de fama darem.
Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,
Tão ingrato a quem tanto faz por elle;
Mas sabei qu'he signal de serdes claro
O ser agora tão malquisto delle.
Themistocles, da patria sua amparo,
O forte e liberal Cimon, e aquelle
Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,
Testimunhas serão de quanto digo.