Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 19 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Epistola II.

Porqu'imagino em bem-aventuranças,

Se tão longe a Fortuna me desvia,

Qu'inda me não consente as esperanças?

Se hum novo pensamento Amor me cria

Onde o lugar, o tempo, as esquivanças

Do bem me fazem tão desamparado,

Que não póde ser mais qui'maginado?

Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou

Contra mi, porque mais me magoasse:

Amor a hum vão desejo me obrigou,

Só para que a Fortuna mo negasse.

O tempo a tal estado me chegou;

E nelle quiz que a vida se acabasse;

Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;

Que até da muita vida me receio.

 

EPISTOLA II.

 

Como nos vossos hombros tão constantes

(Principe illustre e raro) sustenteis {218}

Tantos negocios arduos e importantes,

Dignos do largo Imperio, que regeis;

Como sempre nas armas rutilantes

Vestido, o mar e a terra segureis

Do pirata insolente, e do tyrano

Jugo do potentissimo Othomano;

E como com virtude necessaria,

Mal entendida do juizo alheio,

Á desordem do vulgo temeraria

Na santa paz ponhais o duro freio;

Se com minha escriptura longa e vária

Vos occupasse o tempo, certo creio

Que com vagante e ociosa phantasia

Contra o commum proveito peccaria.

E não menos sería reputado

Por doce adulador, sagaz e agudo,

Que contra meu tão baixo e triste estado

Busco favor em vós que podeis tudo,

Se contra a opinião do vulgo errado

Vos celebrasse em verso humilde e rudo.

Dirão, que com lisonja ajuda peço

Contra a miseria injusta que padeço.

Porém, porque a verdade póde tanto

No livre arbitrio, (como disse bem

Ao Rei Dario o moço sabio e santo,

Que foi reedificar Hierusalem)

Esta m'obriga a qu'em humilde canto,

Contra a tenção que a plebe ignara tem,

Vos faça claro a quem vos não alcança;

E não de premio algum vil esperança.

Romulo, Baccho e outros que alcançárão {219}

Nomes de semideoses soberanos,

Em quanto por o mundo exercitárão

Altos feitos, e quasi mais que humanos,

Com justissima causa se queixárão

Que não lhes respondêrão os mundanos

Favores do rumor justos e iguaes

A seus merecimentos immortaes.

Aquelle, que nos braços poderosos

Tirou a vida ao Tingitano Anteo,

E a quem os seus trabalhos tão famosos

Fizerão Cidadão do claro ceo;

Achou que a má tenção dos invejosos

Não se doma, senão despois que o véo

Se rompe corporal: porque na vida

Ninguem alcança a glória merecida.

Pois logo, se Barões tão excellentes

Forão do baixo vulgo molestados,

O vituperio vil das rudas gentes,

He louvor dos Reaes, e sublimados.

Quem no lume dos vossos Ascendentes

Poderá pôr os olhos, que abalados

Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores

Vossos passados, Reis e Imperadores?

Quem verá aquelle Pae da Patria sua,

Açoute do soberbo Castelhano,

Que o duro jugo só, co'a espada nua,

Removeo do pescoço Lusitano,

Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua

Memoria causará, se não m'engano,

Que qualquer teu menor tanto s'estime,

Que nunca possa ser senão sublime? {220}

Nisto não fallo mais, porque conheço

Que da materia se me baixa o engenho.

Mas, pois a dizer tudo m'offereço,

E dias ha que no desejo o tenho,

Sendo vós de tão alto e illustre preço,

A vida fostes pôr n'hum fraco lenho,

Por largo mar e undosa tempestade,

Só por servir á Regia Magestade.

E despois de tomar a redea dura

Na mão, do povo indomito qu'estava

Costumado a larguezas, e á soltura

Do pezado govêrno que acabava;

Quem não terá por santa e justa cura,

Qual do vosso conceito s'esperava,

A tão desenfreada enfermidade

Applicar-lhe contrária qualidade?

Não he muito, Senhor, se o moderado

Govêrno se blasphema e se desama;

Porque o povo á largueza costumado,

Á lei serena e justa, dura chama.

Pois o zelo em virtude só fundado

De salvar almas da Tartarea flama

Com a ágoa salutifera de Christo,

Poderá por ventura ser malquisto?

Quem quizesse negar tão grã verdade,

Qual he o seu effeito santo e pio;

Negue tambem ao sol a claridade,

E certifique mais que o fogo he frio.

Se o successo he contrário da vontade

Nas obras que são boas, e ha desvio; {221}

Está nas mãos dos homens comettellas,

E nas de Deos está o successo dellas.

Sei eu, e sabem todos que os futuros

Verão por vós o Estado accrescentado,

Serão memoria vossa os fortes muros

Do Cambaico Damão bem sustendado:

Da ruina mortal serão seguros,

Tendo todo o alicerce seu fundado

Sôbre orfãas amparadas com maridos,

E pagos os serviços bem devidos.

Quãmanha infamia ao Principe he perder-se

Pouco do Estado seu, que inteiro herdou,

Tanto por glória grande deve ter-se

Se accrescentado e próspero o deixou.

Nunca consentio Roma ennobrecer-se

Com triumphos alguem, se não ganhou

Provincia com que o Imperio s'augmentasse,

Por maiores victorias qu'alcançasse.

Póde tomar o vosso nome dino

Damão, por honra sua clara e pura,

Como ja do primeiro Constantino

Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura.

E tu, Rei, que no Reino Neptunino,

Lá no seio Gangetico a Natura

Te aposentou, de ser tão inimigo

Deste Estado não ficas sem castigo.

Bem viste contra ti nadantes aves

Cortar a espumosa ágoa navegando;

Ouviste o som das tubas, não suaves,

Mas com temor horrifero soando;

Sentiste os golpes asperos e graves {222}

Do Lusitano braço nunca brando.

Não soffreste o grão brado penetrante,

Que os trovões imitava do Tonante.

Mas antes dando as costas e a victoria

Á Bragancez ventura não corrido,

Déste bem a entender quão grande glória

He de tal vencedor o ser vencido.

Quem faz obras tão dignas de memoria

Sempre será famoso e conhecido,

Onde os altos juizos o estimarem,

Qu'estes sós tẽe poder de fama darem.

Não vos temais, Senhor, do povo ignaro,

Tão ingrato a quem tanto faz por elle;

Mas sabei qu'he signal de serdes claro

O ser agora tão malquisto delle.

Themistocles, da patria sua amparo,

O forte e liberal Cimon, e aquelle

Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo,

Testimunhas serão de quanto digo.