Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena VII.
DIONYSA.
Tudo isso cuido, e vi
Mil vezes miudamente;
Mas estas mostras assi
São desculpas para mi,
E não para toda a gente.
SOLINA.
O seu moço vejo vir
A nós, seu passo contado:
Este he muito para ouvir,
Que diz que me quer servir
D'amores esperdiçado. {432}
SCENA VII.
Vilardo, Solina e Dionysa.
VILARDO.
Senhora, o Senhor seu pae,
Mesmo de Vossa Mercê,
Ja lá para casa vae:
Por isso, Senhora, andae,
Que elle me mandou n'hum pé;
E diz que fosse jantar
Vossa Mercê mesmamente.
SOLINA.
E ja veio do pomar?
DIONYSA.
Oh quem pudéra escusar
De comer, nem de ver gente!
(Nenhuma côr de verdade
Tenho do que m'elle manda.)
VILARDO.
S'ella sem vontade anda,
Eu lh'emprestarei vontade,
Empreste-m'ella a vianda.
SOLINA.
Va, Senhora, por não dar
Mais em que cuidar á gente.
DIONYSA.
Irei, mas não por jantar;
Que quem vive descontente
Mantem-se de imaginar.
VILARDO.
Pois tambem cá minhas dores {433}
Me não deixão comer pão;
Nem come minha affeição
Senão sopadas d'amores,
E mil postas de paixão.
Das lagrimas caldo faço,
Do coração escudella;
Esses olhos são panella
Que coze bofes e baço,
Com toda a mais cabedella.