Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 68 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena V.

 

Solina e Duriano.

 

SOLINA, com a almofada.

Aqui anda passeando

Duriano, e só comsigo

Pensamentos praticando:

Daqui posso estar notando

Com quem sonha, se he comigo.

DURIANO.

Ah quão longe estará agora

Minha Senhora Solina

De saber que estou bem fóra

De ter outra por senhora,

Segundo o amor determina!

Porém se determinasse

Minha bem-aventurança

Que de meu mal lhe pezasse. {419}

Até que nella tomasse

Do que lhe quero vingança!...

SOLINA.

(Comigo sonha por certo.

Ora quero-me mostrar,

Assi como por acêrto:

Chegar-me-hei mais ao perto,

Por ver se me quer fallar.)

Sempre esta casa ha d'estar

Acompanhada de gente,

Que não possa homem passar!

DURIANO.

Á traição vindes tomar

Quem ja feridas não sente?

SOLINA.

Logo me a mi parecia

Que era elle o que passeava.

DURIANO.

E eu mal adivinhava

Que me viesse este dia,

Que ha tantos que desejava.

Se huns olhos por vos servir,

Com o amor que vos conquista,

Se atrevêrão a subir

Os muros da vossa vista,

Que culpa tẽe quem vos vir?

E se esta minha affeição,

Que vos serve de giolhos,

Não fez êrro na tenção,

Tomae vingança nos olhos,

E deixae o coração. {420}

SOLINA.

Ora agora me vem riso.

Assi que vós sois, Senhor,

De siso meu servidor?

DURIANO.

De siso não, porque o siso

Me tẽe tirado o amor.

Porque o amor, se attentais,

N'hum tão verdadeiro amante

Não deixa siso bastante;

Senão se siso chamais

A doudice tão galante.

SOLINA.

Como Deos está nos Ceos,

Que se he verdade o que temo,

Que fez isto Filodemo.

DURIANO.

Mas fê-lo o démo; que Deos

Não faz mal tanto em extremo.

SOLINA.

Bem. Vós, Senhor Duriano,

Porque zombareis de mim?

DURIANO.

Eu zombo?

SOLINA.

Eu não m' engano.

DURIANO.

S' eu zombo, inda em meu dano

Vejais vós mui cedo a fim.

Mas vós, Senhora Solina,

Porque me querereis mal? {421}

SOLINA.

Sou mofina.

DURIANO.

Oh! real.

Assi que minha mofina

He minha imiga mortal.

Dias ha qu'eu imagino

Qu'em vos amar e servir

Não ha amador mais fino;

Mas sinto que de mofino

Me fino sem o sentir.

SOLINA.

Bem derivais: quanté assi

Á popa o dito vos veio.

DURIANO.

Vir-me-ha de vós, porque creio

Que vós fallais dentro em mi,

Como esprito em corpo alheio.

E assi que em estas piós

A cahir, Senhora, vim;

Bem parecerá entre nós,

Pois vós andais dentro em mim,

Que ande eu tambem dentro em vós.

SOLINA.

He bem: que fallar he esse?

DURIANO.

Dentro na vossa alma, digo,

Lá andasse, e lá morresse!

E se isto mal vos parece,

Dae-me a morte por castigo. {422}

SOLINA.

Ah mao! Como sois malvado!

DURIANO.

Mas vós como sois malvada,

Que de hum pouco mais de nada

Fazeis hum homem armado,

Como quem 'stá sempre armada!

Dizei-me, Solina, mana.

SOLINA.

Qu'he isso? Tirae lá a mão:

Oh! vós sois mao cortezão.

DURIANO.

O que vos quero m'engana,

Mas o que desejo não.

Não ha aqui senão paredes,

As quaes não fallão, nem vem.

SOLINA.

Está isso muito bem.

Bem: e vós, Senhor, não vêdes

Que poderá vir alguem?

DURIANO.

Que vos custão dous abraços?

SOLINA.

Não quero tantos despejos.

DURIANO.

Pois que farão meus desejos,

Que querem ter-vos nos braços,

E dar-vos trezentos beijos?

SOLINA.

Olhae que pouca vergonha!

Hi-vos d'hi, boca de praga. {423}

DURIANO.

Eu não sei certo a que ponha

Mostrardes-me a triaga,

E virdes-me a dar peçonha.

SOLINA.

Ora ide rir á feira,

E não sejais dessa laia.

DURIANO.

Se vêdes minha canseira,

Porque lhe não dais maneira?

SOLINA.

Que maneira?

DURIANO.

A da saia.

SOLINA.

Por minha alma, hei de vos dar

Meia duzia de porradas.

DURIANO.

Oh que gostosas pancadas!

Mui bem vos podeis vingar,

Qu'em mim são bem empregadas.

SOLINA.

Ao diabo, que o eu dou.

Como me doeo a mão!

DURIANO.

Mostrae cá, minha affeição,

Que essa dor me magoou

Dentro no meu coração.

SOLINA.

Ora hi-vos embora asinha. {424}

DURIANO.

Por amor de mi, Senhora,

Não fareis huma cousinha?

SOLINA.

Digo que vades embora.

Que cousa?

DURIANO.

Esta cartinha.

SOLINA.

Que carta?

DURIANO.

De Filodemo

A Dionysa vossa ama.

SOLINA.

Dizei, que tome outra dama,

E dê os amores ao démo.

DURIANO.

Não andemos pola rama.

Senhora, (aqui para nós)

Que sentis della com elle?

SOLINA.

Grandes alforges sois vós!

Pois hi-lhe dizer que appelle.

DURIANO.

Fallae, que aqui 'stamos sós.

SOLINA.

Qualquer honesta se abala,

Como sabe que he querida.

Ella he por elle perdida:

Nunca n'outra cousa falla. {425}

DURIANO.

Ora vou-lhe dar a vida.

SOLINA.

E eu não lhe disse ja

Quanta affeição lh'ella tem?

DURIANO.

Não se fia de ninguem,

Nem crê que para elle ha

No mundo tamanho bem.

SOLINA.

Dir-vos-hia de mim lá

O que lh'eu disse zombando?

DURIANO.

Não disse, por S. Fernando!

SOLINA.

Ora ide-vos.

DURIANO.

Que me va!

E mandais que torne? Quando?

SOLINA.

Quando eu cá vir lugar,

Vo-lo mandarei dizer.

DURIANO.

Se o quizerdes buscar,

Não vos deve de faltar,

Se não faltar o querer.

SOLINA.

Não falta.