Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena VI.
DURIANO.
Dae-me hum abraço
Em sinal do que quereis. {426}
SOLINA.
Tá, que o não levareis.
DURIANO.
De quantos serviços faço
Nenhum pagar me quereis?
SOLINA.
Pagar-vos-hão algum'hora,
Que isso a mi tambem me toca;
Mas agora hi-vos embora.
DURIANO.
Essas mãos beijo, Senhora,
Em quanto não posso a boca.
SCENA VI.
Solina que traz a almofada, e Dionysa.
SOLINA.
Ja Vossa Mercê dirá
Qu'estive muito tardando.
DIONYSA.
Bem vos detivestes lá.
Bofé que estava cuidando
Em não sei que.
SOLINA.
Que será?
Aqui somos. (Quanté agora
Está ella transportada.)
DIONYSA.
Que rosnais vós lá, Senhora?
SOLINA.
Digo que tardei lá fóra {427}
Em buscar esta almofada.
Que estava ella agora só
Comsigo phantasiando?
DIONYSA.
Bofé que estava cuidando
Qu'he muito para haver dó
Da mulher que vive amando.
Que hum homem póde passar
A vida mais occupado:
Com passear, com caçar,
Com correr, com cavalgar,
Fórra parte do cuidado.
Mas a coitada
Da mulher sempre encerrada,
Que não tẽe contentamento,
Não tẽe desenfadamento,
Mais que agulha e almofada?
Então isto vem parir
Os grandes erros da gente:
Forão mil vezes cahir
Princezas d'alta semente.
Lembra-me que ouvi contar
De tantas affeiçoadas
Em baixo e pobre lugar,
Que as que agora vão errar
Podem ficar desculpadas.
SOLINA.
Senhora, a muita affeição
Nas Princezas d'alto estado
Não he muita admiração;
Que no sangue delicado {428}
Faz amor mais impressão.
Mas deixando isto á parte,
Se m'ella quizer peitar,
Prometto de lhe mostrar
Huma cousa muito d'arte,
Que lá dentro fui achar.
DIONYSA.
Que cousa?
SOLINA.
Cousa d'esprito.
DIONYSA.
Algum panno de lavores?
SOLINA.
Inda ella não deo no fito?
Cartinha sem sobre-escripto,
Que parece ser de amores.
DIONYSA.
Essa he a boa ventura?
SOLINA.
Bofé que mo pareceo.
DIONYSA.
E essa donde nasceo?
SOLINA.
No meu cesto da costura:
Não sei quem m'alli meteo.
DIONYSA.
Mostrae-ma; não hajais medo,
Mana. Eu que vos descobri...
SOLINA.
E se ella vem para mi,
Logo quer ver meu segredo? {429}
Não a veja: vá-se d'hi.
Ei-la-ahi.
DIONYSA.
Cuja será?
SOLINA.
Não sei certo cuja he.
DIONYSA.
Si; sabeis.
SOLINA.
Não sei, bofé.
DIONYSA.
Ora a carta mo dirá.
SOLINA.
Pois leia Vossa Mercê.
Abre Dionysa a carta, e lê-a.
Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.
SOLINA.
Quanta parvoice diz! {430}
DIONYSA.
Ora muito boa está!
Como vós, mana, sois má!
Não sejais vós tão biliz;
Que bem vos entendo ja.
Cuja he?
SOLINA.
E eu que sei?
DIONYSA.
Pois quem o sabe?
SOLINA.
O démo.
DIONYSA.
Certo que he de quem temo;
Que os ditos que nella achei
São todos de Filodemo.
Este homem, que atrevimento
He este que foi tomar?
Qual será seu fundamento?
Que mil vezes me faz dar
Mil voltas ao pensamento.
Não entendo delle nada.
Mas inda qu'isto he assi,
Disso que delle entendi,
Me sinto tão alterada,
Que me arreceio de mi.
Eu inda agora não creio
Que he verdade este amor;
Mas praza a Deos, se assi for,
Que inda este meu arreceio
Se não converta em temor. {431}
SOLINA.
Ja vós, ja sêdes,
Peixes, nas redes.
Senhora, quem mais confia,
Mais asinha a cahir vem:
Natural he o querer bem;
Que o amor n'alma se cria,
Sem o sentir quem o tem.
Filodemo, no que ouvi,
Tẽe-lhe sobeja affeição;
E postoque o creia assi,
Ou eu sonhei, ou ouvi.
Que era d'alta geração.
Logo na phisionomia,
Nas manhas, artes e geito,
Mostra mui grande respeito:
Nem tão alta phantasia
Não se põe em baixo peito.