Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena III.
Feliseo e Bromia.
FELISEO.
Chamais-me? tambem vos chamo;
Porém eu ouço, e vós não:
Senhora, que me matais,
Se vós ja nunca me ouvis,
Ou me ouvis, e vos callais,
Dizei: porque me chamais
Se me vós a mim fugis?
BROMIA.
Eu vos fujo?
FELISEO.
Fugis, digo,
De dar a meus males cabo.
BROMIA.
Sabei que desse perigo
Não fujo como de imigo,
Fujo como do diabo.
FELISEO.
Dae ao demo essa tenção,
Usae antes de cortês,
Cahi vós nesta razão. {305}
BROMIA.
Do p'rigo fogem os pés,
Do diabo o coração.
FELISEO.
Dizeis-me que nessa briga
Do meu coração fugis.
BROMIA.
Ainda qu'eu isso diga...
FELISEO.
Ah minha doce inimiga!
Bem sinto que me sentis.
Mas para que me chamais?
BROMIA.
Manda-vos minha Senhora
Que chegueis daqui ao cais,
E algumas novas saibais
D' Amphitrião nesta hora.
FELISEO.
Quem as não sabe de si,
D'outrem como as sabera?
BROMIA.
Não as sabeis vós de mi.
FELISEO.
Má trama venha por ti,
Duna feiticeira má!
Porque não me ólhas direito,
Cadella, que assi me cortas?
BROMIA.
Porque vos quero dar portas;
Que s'eu olhar d'outro geito,
Trarei cem mil vidas mortas. {306}
FELISEO.
E pois para que me andais
Enganando ha cem mil annos?
BROMIA.
Dou-vos vida com enganos.
FELISEO.
Nesses enganinhos tais
Acho crueis desenganos.
BROMIA.
Quant'esses vos quero eu dar:
Vós cuidais que estais na sella?
Pois podeis-vos descer della;
Qu'eu nunca vos pude olhar.
FELISEO.
Jogais comigo á panella?
Tendes-me ha tanto captivo,
E desenganais-me agora?
Tudo isto he o que privo.
Assi que he isso, Senhora,
Dochelo morto, dochelo vivo?
Se me vós desenganais
No cabo de tantos annos,
Direi, se licença dais,
Dais-me vida com enganos,
Desenganos, ja chegais.
Mas se isso havia de ser,
Dizei, má desconhecida,
Destêrro de meu viver,
Que vos custava dizer
Amor, vae buscar tua vida? {307}
BROMIA.
Zombais? Fallais-me coprinhas?
FELISEO.
Rir-vos-heis se vem á mão:
Copras não, mas isto são
Ansias y pasiones minhas
Dos bofes e coração.
BROMIA.
Is-vos fazendo d'huns sengos.....
FELISEO.
Perdóneme Dios si peco.
BROMIA.
Nesses dentinhos framengos
Conheço que sois hum pêco
De todos quatro avoengos.
FELISEO.
Tudo vos levo em capelo,
Ja qu'estais tanto em agraço.
Porém, fallando singelo,
A furto desse mao zêlo,
Quereis-me dar hum abraço?
BROMIA.
Ora digo que não posso
Usar comvosco de fero:
Tomae-o.
FELISEO.
Ja o não quero,
Porque esse abraço vosso,
Sabei que he engano mero.
BROMIA.
Oh! vós sois d'huns sensabores... {308}
Abraço pedis assim?
S'eu remango d'hum chapim...
FELISEO.
Tudo isso são favores:
Zombae, vingae-vos de mim.
BROMIA.
Vós de furioso touro
As garrochas não sentis.
FELISEO.
Vedes, com isso sé mouro:
Quando cuido que sois ouro,
Acho-vos toda ceitis.
BROMIA.
Emfim, sanha de villão
Vos fez perder hum bom dia.
FELISEO.
Jagora o eu tomaria;
Quereis-mo dar?
BROMIA.
Ora não.
Cocei-vos eu todavia.
FELISEO.
Pois, Senhora, a quem vos ama
Sois tão desarrazoada,
Quero tomar outra dama;
Que não digão os d'Alfama
Que não tenho namorada.
BROMIA.
Deixae-me.
FELISEO.
Vós me deixais. {309}
BROMIA.
Deixae-me.
FELISEO.
Zombais de mi?
BROMIA.