Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 23 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Glosa do Soneto 194.

Escrita no papel da natureza;

Escreve estas palavras de tristeza:

Natercia, Nympha bella, por quem vivo

Em tal tormento, tempo algum me olhou;

Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo

Daquelle brando olhar que m'enganou,

O amor tornava em desamor esquivo;

E d'hum tormento tal a outro passou.

Em cousas tão sujeitas a mudança

Nunca ponha ninguem sua esperança.

Para dar proveitosos desenganos

Dos enganos que são de Amor effeitos,

E dos dous sexos publicar, humanos,

A origem das mudanças de seus peitos;

Estas letras aqui por longos anos

Digão a corações a amar sujeitos

Em peito varonil, que de ventura,

Em peito feminil, que de natura...

Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado

Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,

Não podendo seguir o começado,

Porque a alma ja do corpo lhe sahia.

Tres vezes, com accento mal formado,

Para exemplo futuro repetia:

Amantes, entendei que a mór belleza

Somente em ser mudavel tem firmeza. {232}

 

GLOSA DO SONETO 194.

Cá nesta Babylonia adonde mana

Hypocrisia, engano e falsidade;

Cá donde ousada toda carne humana

A todo arbitrio vive da vontade;

Cá donde enrouqueceo da Lusitana

Musa o furor heroico e suavidade;

Cá donde se produz por cega via

Materia a quanto mal o mundo cría;

Cá donde o puro Amor não tẽe valia,

Porque Baccho o tẽe hoje desterrado;

Cá donde a frecha d'ouro não feria,

Senão cabello preto e alfenado;

Cá donde a loura trança não se via,

Nem o rosto de sangue matizado;

Cá donde nada val a glória humana,

Que a mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá donde o mal se affina, o bem se dana,

Se algum a terra em si quer produzir;

Cá donde a falsa gente Mahometana

A glória toda funda em adquirir;

Cá donde multiplica a mão tyrana,

Professa em mais crescer, matar, mentir;

Cá donde o fazer bem he villania,

E póde mais que a honra a tyrannia;

Cá donde a errada e cega Monarchia

De fabulosas leis está vivendo,

E á fôrça d'hum amor engrandecia

O nefando Alcorão em qu'está crendo; {233}

Cá donde nada val a Poesia,

E s'está da lei della escarnecendo;

Cá donde a fidalguia Mahometana

Cuida qu'um nome vão a Deos engana.

Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza