Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Glosa do Soneto 194.
Escrita no papel da natureza;
Escreve estas palavras de tristeza:
Natercia, Nympha bella, por quem vivo
Em tal tormento, tempo algum me olhou;
Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo
Daquelle brando olhar que m'enganou,
O amor tornava em desamor esquivo;
E d'hum tormento tal a outro passou.
Em cousas tão sujeitas a mudança
Nunca ponha ninguem sua esperança.
Para dar proveitosos desenganos
Dos enganos que são de Amor effeitos,
E dos dous sexos publicar, humanos,
A origem das mudanças de seus peitos;
Estas letras aqui por longos anos
Digão a corações a amar sujeitos
Em peito varonil, que de ventura,
Em peito feminil, que de natura...
Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado
Cahio ao pé da faia em qu'escrevia,
Não podendo seguir o começado,
Porque a alma ja do corpo lhe sahia.
Tres vezes, com accento mal formado,
Para exemplo futuro repetia:
Amantes, entendei que a mór belleza
Somente em ser mudavel tem firmeza. {232}
GLOSA DO SONETO 194.
Cá nesta Babylonia adonde mana
Hypocrisia, engano e falsidade;
Cá donde ousada toda carne humana
A todo arbitrio vive da vontade;
Cá donde enrouqueceo da Lusitana
Musa o furor heroico e suavidade;
Cá donde se produz por cega via
Materia a quanto mal o mundo cría;
Cá donde o puro Amor não tẽe valia,
Porque Baccho o tẽe hoje desterrado;
Cá donde a frecha d'ouro não feria,
Senão cabello preto e alfenado;
Cá donde a loura trança não se via,
Nem o rosto de sangue matizado;
Cá donde nada val a glória humana,
Que a mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá donde o mal se affina, o bem se dana,
Se algum a terra em si quer produzir;
Cá donde a falsa gente Mahometana
A glória toda funda em adquirir;
Cá donde multiplica a mão tyrana,
Professa em mais crescer, matar, mentir;
Cá donde o fazer bem he villania,
E póde mais que a honra a tyrannia;
Cá donde a errada e cega Monarchia
De fabulosas leis está vivendo,
E á fôrça d'hum amor engrandecia
O nefando Alcorão em qu'está crendo; {233}
Cá donde nada val a Poesia,
E s'está da lei della escarnecendo;
Cá donde a fidalguia Mahometana
Cuida qu'um nome vão a Deos engana.
Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza