Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 16 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia XI.

Agora a vaidade dos mortaes,

Que tu tambem passáras se vivêras,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .{202}

 

ELEGIA XI.

 

Se quando contemplamos as secretas

Causas, por que este mundo se sustenta,

E o revolver dos ceos e dos planetas;

E se quando á memoria se presenta

Este curso do sol tão bem medido,

Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;

Aquelle effeito, tarde conhecido,

Da lua na mudança tão constante,

Que minguar e crescer he seu partido;

Aquella natureza tão possante

Dos ceos, que tão conformes e contrarios

Caminhão, sem parar hum breve instante;

Aquelles movimentos ordinarios,

A que responde o tempo, que não mente,

Co'os effeitos da terra necessarios;

Se quando, emfim, revolve subtilmente

Tantas cousas a leve phantasia,

Sagaz escrutadora e diligente;

Bem vê, se da razão se não desvia,

Aquelle unico Ser, alto e divino,

Que tudo póde, manda, move e cria.

Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;

Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,

Por mais que o difficulte humano atino:

Hum saber infinito, incomprehensibil;

Huma verdade que nas cousas anda,

Que mora no visibil e invisibil.

Esta potencia, emfim, que tudo manda, {203}

Esta Causa das causas, revestida

Foi desta nossa carne miseranda.

Do amor e da justiça compellida,

Por os erros da gente, em mãos da gente

(Como se Deos não fôsse) deixa a vida.

Oh Christão descuidado e negligente!

Pondera-o com discurso repousado;

E ver-te-has advertido facilmente.

Ólha aquelle Deos alto e increado,

Senhor das cousas todas, que fundou

O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;

Não do confuso caos, como cuidou

A falsa Theologia, e povo escuro,

Que nesta só verdade tanto errou;

Não dos atomos leves d'Epicuro;

Não do fundo Oceano, como Thales,

Mas só do pensamento casto e puro.

Ólha, animal humano, quanto vales,

Pois este immenso Deos por ti padece

Novo estylo de morte, novos males.

Ólha que o sol no Olympo s'escurece,

Não por opposição de outro Planeta;

Mas só porque virtude lhe fallece.

Não vês que a grande máchina inquieta

Do mundo se desfaz toda em tristeza,

E não por causa natural secreta?

Não vês como se perde a Natureza?

O ar se turba? o mar batendo geme,

Desfazendo das pedras a dureza?

Não vês que cahe o monte, a terra treme?

E que lá na remota e grande Athenas {204}

O docto Areopagita exclama e teme?

Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,

Por o mal em qu'eu só sou o culpado,

A tamanhas affrontas, tantas penas?

Por mi, Senhor, no mundo reputado

Por falso, e violador da sacra Lei?

A fama a ti se põe do meu peccado?

Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.

Pois como entre ladrões eu não padeço?

A pena a ti se dá do qu'eu errei?

Eu servo sem valor, tu immenso preço,

Em preço vil te pões, por me tirares

Do captiveiro eterno que mereço?

Eu por perder-te, e tu por me ganhares

Te dás aos soltos homens, que te vendem,

Só para os homens presos resgatares?

A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?

A ti summo Juiz, ante Juizes

Te accusão por o error dos que te offendem?

Chamão-te malfeitor; não contradizes:

Sendo tu dos Prophetas a certeza,

Dizem que quem te fere prophetizes.

Rim-se de ti; tu choras a crueza

Que sôbre elles virá: a gente dura,

Por quem tu vens ao mundo, te despreza.

O teu rosto, de cuja formosura

Se veste o ceo e o sol resplandecente,

Diante quem pasmada está a Natura,

Com cruas bofetadas da vil gente,

De precioso sangue está banhado,

Cuspido, atropellado cruelmente. {205}

Aquelle corpo tenro e delicado,

Sôbre todos os Santos sacrosanto,

A açoutes rigorosos desangrado;

Despois coberto mal d'hum pobre manto,

Que se pegava ás carnes magoadas

Para dobrar-lhe as dores outro tanto.

Magoavão-no as chagas não curadas,

Hum tormento causando-lhe excessivo

Ao despir por as mãos crueis e iradas.

As venerandas barbas de Deos vivo

De resplandor ornadas, s'arrancavão

Para desempenhar a Adão captivo.

Com cordas por as ruas o levavão,

Levando sôbre os hombros o trophéo

Da victoria qu'as almas alcançavão.

Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,

Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,

Que agora, como humano, enfraqueceo.

Ólha que o corpo afflicto do marteiro,

E dos longos jejuns debilitado,

Não póde ja co'o pêso do madeiro.

Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!

Essas quédas, que tanto vos magôão,

Supportae Cavalleiro sublimado.

Aquellas altas vozes, que lá sôão,

Dos Padres são, que o Limbo tẽe escuro,

E ja de louro e palma vos corôão.

Todos vos bradão que subais o muro

Da cidade infernal, e que arvoreis

Em cima essa bandeira mui seguro.

Oh Santos Padres! não vos apresseis; {206}

Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão

Essas duras prisões em que jazeis.

Aquellas mãos que o mundo edificárão,

Aquelles pés que pízão as estrellas,

Com durissimos pregos s'encravárão.

Mas qual será o humano qu'as querellas

Da angustiada Virgem contemplasse,

Sem se mover a dor e mágoa dellas?

E que dos olhos seus não destillasse

Tanta cópia de lagrimas ardentes,

Que carreiras no rosto sinalasse?

Oh quem lhe víra os olhos refulgentes

Convertendo-se em fontes, e regando

Aquellas faces bellas e excellentes!

Quem a ouvíra com vozes ir tocando

As estrellas, a quem responde o ceo,

Co'os accentos dos Anjos retumbando!

Quem víra quando o puro rosto ergueo

A ver o Filho, que na Cruz pendia,

Donde a nossa saude descendeo!

Que mágoas tão chorosas que diria!

Que palavras tão miseras e tristes

Para o ceo, para a gente espalharia!

Pois que sería, Virgem, quando vistes

Com fel nojoso, e com vinagre amaro

Matar a sêde ao Filho que paristes?

Não era este o licor suave e claro,

Que para o confortar então darieis

A quem vos era, mais que a vida, charo.

Como, Virgem Senhora, não corrieis

A dar as puras tetas ao Cordeiro, {207}

Que padecer na Cruz com sêde vieis?

Não era só, não, esse o verdadeiro

Poto, que vosso Filho desejava,

Morrendo por o mundo em hum madeiro;

Mas era a salvação que alli ganhava

Para o misero Adão, que alli bebia

Na fonte que do peito lhe manava.

Pois, ó pura e Santissima Maria,

Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto

A grave causa della o requeria;

D'essa Fonte sagrada e peito santo

M'alcançae huma gotta, com que lave

A culpa que me aggrava e pesa tanto.

Do licor salutifero e suave

M'abrangei, com que mate a sêde dura

Deste mundo tão cego, torpe e grave.

Assi, Senhora, toda criatura

Que vive e vivirá, e não conhece

A Lei de vosso Filho, a abrace pura;

O falsissimo herege, que carece

Da graça, e com damnado e falso esprito

Perturba a Santa Igreja, que florece;

O povo pertinaz no antiguo rito,

Que só o destêrro seu, que tanto dura,

Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;

O torpe Ismaelita, que mistura

As Leis, e com preceitos tão viciosos

Na terra estende a seita falsa e impura;

Os idolatras maos, supersticiosos,

Varios de opiniões e de costumes,

Levados de conceitos fabulosos; {208}

As mais remotas gentes, onde o lume

Da nossa Fé não chega, nem que tenhão

Religião alguma se presume;