Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Filodemo,
COMEDIA.
ACTO PRIMEIRO.
SCENA I.
Filodemo e Vilardo.
FILODEMO.
Moço Vilardo?
VILARDO.
Ei-lo vae.
FILODEMO.
Fallae era má, fallae,
E sahi cá para a sala.
O villão como se cala!
VILARDO.
Pois, Senhor, sahi a meu pae,
Que quando dorme não fala.
FILODEMO.
Trazei cá huma cadeira:
Ouvis, villão? {388}
VILARDO.
Senhor, sim.
(Se m'ella não traz a mim.
Vejo-lh'eu ruim maneira.)
FILODEMO.
Acabae, villão ruim.
Que moço para servir
Quem tẽe as tristezas minhas!
Quem pudesse assi dormir!
VILARDO.
Senhor, nestas manhãzinhas
Não ha hi senão cahir:
Por demais he trabalhar
Qu'este somno se me ausente.
FILODEMO.
Porque?
VILARDO.
Porque ha d'assentar
Que se não for com pão quente,
Não ha de desaferrar.
FILODEMO.
Ora hi pelo que vos mando,
Villão feito de fermento. Sahe Vilardo.
Triste do que vive amando
Sem ter outro mantimento,
Qu'estar só phantasiando!
Só hũa cousa me desculpa
Deste cuidado que sigo,
Ser de tamanho perigo,
Que cuido que a mesma culpa
Me fica sendo castigo. {389}
Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante
FILODEMO.
Ora quero praticar
Só comigo hum pouco aqui;
Que despois que me perdi,
Desejo de me tomar
Estreita conta de mi.
Vae para fóra, Vilardo.
Torna cá: vae-me saber
Se se quer ja lá erguer
O Senhor Dom Lusidardo,
E vem-mo logo dizer. Vai-se o moço.
Ora bem, minha ousadia,
Sem azas, pouco segura,
Quem vos deo tanta valia,
Que subais a phantasia
Onde não sobe a ventura?
Por ventura eu não nasci
No mato, sem mais valer,
Que o gado ao pasto trazer?
Pois donde me veio a mi
Saber-me tão bem perder?
Eu, nascido entre pastores,
Fui trazido dos currais,
E d'entre meus naturais
Para casa dos Senhores,
Donde vim a valer mais.