Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 3 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Sextina II.

Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,

Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.

Testimunhas serão a tinta e penna, {152}

Qu'escrevêrão de tão molesta vida

O menos que passei, e o mais que fallo.

Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!

Pois se d'hum pensamento em outro passo,

Vejo tão triste genero de vida,

Que se lhe não valerem tanto os olhos,

Não posso imaginar qual seja a penna

Qu'esta pena traslade com que vivo.

N'alma tenho contino hum fogo vivo,

Que se não respirasse no que fallo,

Estaria ja feita cinza a pena;

Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,

O temperão com lagrimas os olhos:

Com que, se foge, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;

Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;

E juntamente passo gloria e pena.

 

SEXTINA II.

 

A culpa de meu mal só tẽe meus olhos,

Pois que derão a Amor entrada n'alma,

Para que perdesse eu a liberdade.

Mas quem póde fugir a huma brandura,

Que despois de vos pôr em tantos males,

Dá por bens o perder por ella a vida?

Assaz de pouco faz quem perde a vida

Por condição tão dura e brandos olhos;

Pois de tal qualidade são meus males, {153}

Que o mais pequeno delles toca n'alma.

Não s'engane com mostras de brandura

Quem quizer conservar a liberdade.

Roubadora he de toda liberdade

(E oxalá perdoasse á triste vida!)

Esta que o falso Amor chama brandura,

Ai meus antes imigos, que meus olhos!

Que mal vos tinha feito esta vossa alma,

Para vós lhe fazerdes tantos males?

Cresção de dia em dia embora os males;

Perca-se embora a antigua liberdade;

Transforme-se em Amor esta triste alma;

Padeça embora esta innocente vida;

Que bem me págão tudo estes meus olhos,

Quando de outros, se os vem, vem a brandura.

Mas como nelles póde haver brandura,

Se causadores são de tantos males?

Engano foi d'Amor, porque meus olhos

Dessem por bem perdida a liberdade.

Ja não tenho que dar senão a vida,

Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.

Que póde ja'sperar quem a sua alma

Captiva eterna fez d'huma brandura,

Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?

Forçado me he gritar nestes meus males,

Olhos meus: pois por vós a liberdade

Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.

Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,