Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 63 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena VII.

Que a Senhora Dionysa,

Por me ouvir, se fosse erguer

Da sua cama em camisa!

E diz que mal me não quer.

Não queria maior gloria;

Mas o que mais posso crer,

Que nem para lhe esquecer

Lhe passo pela memoria.

Mas ter Solina tambem

Em Duriano o intento,

He levar-me a lenha o vento;

Porque s'ella lhe quer bem,

Para bem vai meu tormento.

Mas foi-se este homem perder

Neste tempo, de maneira,

Por huma mulher solteira,

Que não me atrevo a fazer

Que hum pequeno bem lhe queira.

Porém far-lhe-hei hum partido, {403}

Porqu'ella não se querelle:

Que se mostre seu perdido,

Inda que seja fingido,

Como lh'outrem faz a elle.

E ja que me satisfaz,

E tanto nisto se alcança,

Dê-lhe fingida esperança:

Do mal que lhe outrem faz,

Tomará nella vingança.

 

SCENA VII.

 

VILARDO só.

Ora boa está a cilada

De meu amo com sua ama,

Que se levantou da cama

Por ouvi-lo! Está tomada:

Assi a tome má trama.

E mais crede que quem canta,

Ainda descantará;

E quem do leito, onde está,

Por ouvi-lo se levanta,

Mor desatino fará.

Quem havia de cuidar,

Que dama formosa e bella

Saltasse o demonio nella,

Para a fazer namorar

De quem não he igual della?

Que me dizeis a Solina?

Como se faz Celestina, {404}

Que por não lhe haver inveja

Tambem para si deseja

O que o desejo lh'ensina!

Crede que se me alvoróço,

Que a hei de tomar por dama;

E não será grão destrôço,

Pois o amo quer a ama,

Que a moça queira o moço.

Vou-me; que vejo lá vir

Venadoro, apercebido

Para a caça se partir:

E voto a tal, que he partido

Para ver e para ouvir.

Que he razão justa e rasa

Que seu folgar se desconte

Em quem arde como brasa;

Que se vai caçar ao monte,

Fique outrem caçando em casa.