Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena VII.
Que a Senhora Dionysa,
Por me ouvir, se fosse erguer
Da sua cama em camisa!
E diz que mal me não quer.
Não queria maior gloria;
Mas o que mais posso crer,
Que nem para lhe esquecer
Lhe passo pela memoria.
Mas ter Solina tambem
Em Duriano o intento,
He levar-me a lenha o vento;
Porque s'ella lhe quer bem,
Para bem vai meu tormento.
Mas foi-se este homem perder
Neste tempo, de maneira,
Por huma mulher solteira,
Que não me atrevo a fazer
Que hum pequeno bem lhe queira.
Porém far-lhe-hei hum partido, {403}
Porqu'ella não se querelle:
Que se mostre seu perdido,
Inda que seja fingido,
Como lh'outrem faz a elle.
E ja que me satisfaz,
E tanto nisto se alcança,
Dê-lhe fingida esperança:
Do mal que lhe outrem faz,
Tomará nella vingança.
SCENA VII.
VILARDO só.
Ora boa está a cilada
De meu amo com sua ama,
Que se levantou da cama
Por ouvi-lo! Está tomada:
Assi a tome má trama.
E mais crede que quem canta,
Ainda descantará;
E quem do leito, onde está,
Por ouvi-lo se levanta,
Mor desatino fará.
Quem havia de cuidar,
Que dama formosa e bella
Saltasse o demonio nella,
Para a fazer namorar
De quem não he igual della?
Que me dizeis a Solina?
Como se faz Celestina, {404}
Que por não lhe haver inveja
Tambem para si deseja
O que o desejo lh'ensina!
Crede que se me alvoróço,
Que a hei de tomar por dama;
E não será grão destrôço,
Pois o amo quer a ama,
Que a moça queira o moço.
Vou-me; que vejo lá vir
Venadoro, apercebido
Para a caça se partir:
E voto a tal, que he partido
Para ver e para ouvir.
Que he razão justa e rasa
Que seu folgar se desconte
Em quem arde como brasa;
Que se vai caçar ao monte,
Fique outrem caçando em casa.