Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 12 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia VII.

Porque despois do corpo sepultado,

Prisão onde s'encerra o fraco esprito,

Eternamente chora o seu cuidado.

E das escuras ágoas do Cocito

A rapida corrente refreando,

Celebra o lindo gesto n'alma escrito.

Lá se está co'os favores recreando;

E se foi desprezado, lá padece,

As duras esquivanças lamentando.

Nem dos avaros olhos lá s'esquece,

Que de formoso verde a terra esmaltão,

Por não ver os do triste qu'endoudece.

Assi que os desfavores nunca faltão,

Até despois da morte perseguindo

Hum triste coração que desbaratão.

Triste de quem em vão lhe vai fugindo!

 

[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido

por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo: e se a verdadeira lição não he:

Porque, cruel menino, o premio partes

De modo que es tyranno, quando o negas,

E injusto e desigual, quando o repartes?

não podemos adivinhar qual seja. Nota dos Editores.

 

ELEGIA VII.

Ao pé d'hum'alta faia vi sentado,

N'hum valle deleitoso e bem florido,

A Almeno, pastor triste e namorado.

Outro no mundo póde haver nascido

Mui queixoso de Amor; porém não tanto,

Como este amante, por amar perdido.

Ja Venus hia recolhendo o manto {186}

Escuro com que a terra se mostrava,

Para ajudar d'Almeno o triste pranto.

Apollo sôbre os montes derramava

Seus dourados cabellos, que fazião

Ao triste inda mais triste do qu'estava.

As flores por o prado s'estendião.

E das que finas mais erão as côres,

Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.

Ja guiavão seus gados os pastores,

Que, deixando-os no campo deleitoso,

Com ellas praticavão só d'amores.

Mas era esta alegria hum perigoso

Estado para Almeno entristecido;

E por isso a deixava pressuroso,

Buscando outro lugar: contra Cupido

Claramente exclamava, e o arguia

De contrário, d'astuto e fementido.

De quando em quando a frauta que tangia.

Numeros dava ao ar tão docemente,

Que as aves provocava a melodia.

Cego assi desta dor, deste accidente,

Com os olhos em lagrimas banhados,

Postos no ceo, dizia tristemente:

Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,

Porque mos déste tu para offender-te,

Quando livre vivia nestes prados?

Não vês quanto me negas merecer-te

O bem que me mostravas, se deixasse

Ferir meu coração para soffrer-te?

Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?

Ou qual me has promettido, que hajas dado? {187}

Ou qual déste, que muito não custasse?

Mostra-me quem puzeste em tal estado,

Que pudesse viver de ti contente,

Ou quem de ti não fosse lastimado?

Inimigo cruel de toda a gente,

Ja não quero teu bem, só meu mal quero;

Se de ti nem meu mal se me consente.

Inda que de teus bens ja desespéro,

Não desprézo dos males o tormento;

Antes o prezo mais, quando he mais fero.

Arrebatado deste pensamento

Hia o triste pastor com hum contino

Pranto, que lhe avivava o sentimento.

Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,

Qu'era de Amor plantado; e parecendo

Lhe está menos humano que divino.

Nelle a dor sua esteve suspendendo:

Porém não, como cervo, está ferido,

Reparo ao mal que leva pretendendo.

Apparecia o sítio tão florído,

Que provocava a não vulgar espanto,

Entre huns altos ulmeiros escondido.

D'hum crystallino orvalho tinha o manto,

Quando entrou nelle o misero pastor,

E as tenções explicou neste seu canto.

Ó bellas rosas, vós que sois amor,

He por dita humildade, ou he baixeza,

O ter apar de vós murta, que he dor?

Papoulas conversais, que são tristeza!

Não desprezais o cardo, que he tormento!

Admittis a hortelãa, sendo crueza! {188}

Dos goivos longe vejo o sentimento;

Dos jasmins perto estou vendo o perigo;

Dos malmequeres vejo o soffrimento.

Deste me temerei como inimigo;

Mas traz por armas salva, que he razão:

Com ella acabará tambem comigo.

As minhas vem a ser huma affeição,

Que são os puros cravos misturados

Co'a vontade sujeita, que he limão.

Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!

Ai crespa mangerona, que es prazer!

Vós sós devieis adornar os prados.

Não pódem dous oppostos juntos ser:

Onde se põe giesta, que he lembrança,

Junto do rosmaninho, que he 'squecer?

Bem peza do leve álamo a mudança;

Do roxo goivo anima o pensamento

Do cypreste odorifero a esperança.

O trevo, que he sentido apartamento,

Cérca o mangericão, que se interpreta

Memoria a quem offende o esquecimento.

Mais importuna que o jardim de Creta,

A ameixieira a flor está soltando:

A segurelha vejo, que he discreta.

As hervas que daqui irei tomando,

São a pura cecem, qu'he saudade;

Cravos, medo de ver qual de amor ando.

E, de ter mui perdida a liberdade,

Tomarei madresylva entendimento;

Legação tomarei, porqu'he verdade.

Marmeleiro me dá arrependimento: {189}

Por a salva, que he gôsto, tomarei

Coentro opposto ao meu contentamento.

Conhecimento firme nunca achei,

Que violetas são; e, quando o houvera,

Qual meu damno então fôra, bem o sei.

Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera

Ver-vos aqui menor, pois sois victória,

Que de mi alcançou chamma severa!

Mas se quereis que tenha alguma glória,

Por galardão d'amar e ser sujeito,

Perderei de tormentos a memoria.