Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena V.
Sou por ella esperdiçado.
Preza-se d'humas seguras;
E eu não quero mais Frandes:
Dou-lhe trela ás travessuras,
Porque destas coçaduras
Se fazem as chagas grandes.
Qu'estas, que andão sempre á vela,
Estas vos digo eu que coço;
Porque de firmes na sella,
Crem que falsão a costella,
E ficão pelo pescoço.
Que quando estas damas tais
Me cachão, então recacho.
Mas disto agora nó mais.
Quero-me ir daqui ao cais
Ver se algumas novas acho.
SCENA V.
Jupiter e Mercurio.
JUPITER.
Oh grande e alto destino!
Oh potencia tão profana!
Que a setta d'hum menino
Faça que meu ser divino
Se perca por cousa humana!
Que m'aproveitão os ceos,
Onde minha essencia mora
Com tanto poder, se agora {311}
A quem me adora por deos,
Sirvo eu como a senhora?
Oh quão estranha affeição!
Quem em baixa cousa vai pôr
A vontade e o coração,
Sabe tão pouco d'Amor,
Quão pouco Amor de razão.
Mas que remedio hei de ter
Contra mulher tão terribil,
Que se não póde vencer?
MERCURIO.
Alto Senhor, teu poder
O difficil faz possibil.
JUPITER.
Tu não vês qu'esta mulher
Se preza de virtuosa?
MERCURIO.
Senhor, tudo póde ser;
Que para quem muito quer,
Sempre a affeição he manhosa.
Seu marido está ausente
Na guerra, longe daqui;
Tu, qu'es Jupiter potente,
Tomarás sua fórma em ti;
Que o farás mui facilmente.
E eu me transformarei
Na de Sósea, criado seu;
E ao arraial me irei,
Onde logo saberei
Como se a batalha deu.
E assi poderás entrar, {312}
Em lugar de seu marido;
E para que sejas crido,