Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 6 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegias

 

 

ELEGIA I.

 

O sulmonense Ovidio desterrado

Na aspereza do Ponto, imaginando

Ver-se de seus Penates apartado;

Sua chara mulher desamparando,

Seus doces filhos, seu contentamento,

De sua Patria os olhos apartando;

Não podendo encobrir o sentimento,

Aos montes ja, ja aos rios se queixava

De seu escuro e triste nascimento.

O curso das estrellas contemplava,

E aquella ordem com que discorria

O ceo e o ar, e a terra adonde estava.

Os peixes por o mar nadando via,

As feras por o monte procedendo

Como o seu natural lhes permittia.

De suas fontes via estar nascendo

Os saudosos rios de crystal,

Á sua natureza obedecendo.

Assi só, de seu proprio natural

Apartado, se via em terra estranha,

A cuja triste dor não acha igual. {158}

Só sua doce Musa o acompanha

Nos soidosos versos qu'escrevia,

E nos lamentos com que o campo banha.

Dest'arte me figura a phantasia

A vida com que morro, desterrado

Do bem qu'em outro tempo possuia.

Aqui contemplo o gôsto ja passado,

Que nunca passará por a memoria

De quem o traz na mente debuxado.

Aqui vejo caduca e debil glória

Desenganar meu êrro co'a mudança

Que faz a fragil vida transitoria.

Aqui me representa esta lembrança

Quão pouca culpa tenho; e m'entristece

Ver sem razão a pena que m'alcança.

Que a pena que com causa se padece,

A causa tira o sentimento della;

Mas muito doe a que se não merece.

Quando a roxa manhãa, dourada e bella,

Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,

E torna a seus queixumes Philomela;

Este cuidado, que co'o somno atalho,

Em sonhos me parece; que o que a gente

Por seu descanso tẽe me dá trabalho.

E despois de acordado cegamente,

(Ou, por melhor dizer, desacordado,

Que pouco acôrdo logra hum descontente)

Daqui me vou, com passo carregado,

A hum outeiro erguido, e alli m'assento,

Soltando toda a redea a meu cuidado.

Despois de farto ja de meu tormento, {159}

Estendo estes meus olhos saudosos

Á parte donde tinha o pensamento.

Não vejo senão montes pedregosos;

E sem graça e sem flor os campos vejo,

Que ja floridos víra, e graciosos.

Vejo o puro, suave e rico Tejo,

Com as concavas barcas, que nadando

Vão pondo em doce effeito o seu desejo.

Humas com brando vento navegando,

Outras com leves reinos brandamente

As crystallinas ágoas apartando.

D'alli fallo com a ágoa que não sente

Com cujo sentimento est'alma sae

Em lagrimas desfeita claramente.

Ó fugitivas ondas, esperae;

Que pois me não levais em companhia,

Ao menos estas lagrimas levae.

Até que venha aquelle alegre dia

Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.

Mas tanto tempo, quem o passaria?