Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 7 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia II.

Não póde tanto bem chegar tão cedo:

Porque primeiro a vida acabará,

Que se acabe tão aspero degredo.

Mas essa triste morte que virá,

S'em tão contrário estado me acabasse,

Est'alma assi impaciente adonde irá?

Que se ás portas Tartaricas chegasse,

Temo que tanto mal por a memoria

Nem ao passar do Lethe lhe passasse.

Que se a Tantalo e Ticio for notoria

A pena com que vai, e que a atormenta, {160}

A pena que lá tẽe, terão por glória.

Essa imaginação, emfim, me augmenta

Mil mágoas no sentido, porque a vida

De imaginações tristes se contenta.

Que pois de todo vive consumida,

Porque o mal que possue se resuma,

Imagina na glória possuida.

Até que a noite eterna me consuma,

Ou veja aquelle dia desejado

Em que a Fortuna faça o que costuma;

Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.

 

ELEGIA II.

Aquella que d'amor descomedido

Por o formoso moço se perdeo,

Que só por si d'amores foi perdido;

Despois que a deosa em pedra a converteo

De seu humano gesto verdadeiro,

A última voz só lhe concedeo.

Assi meu mal do proprio ser primeiro

Outra cousa nenhũa me consente,

Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.

E se huma pouca vida, estando ausente,

Me deixa Amor, he porque o pensamento

Sinta a perda do bem d'estar presente.

Senhor, se vos espanta o soffrimento

Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, {161}

Furto este breve espaço a meu tormento.

Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,

Sem se acabar a vida co'o cuidado,

Tambem terá poder para dizê-lo.

Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;

Mas n'alma minha triste e saudosa

A saudade escreve, e eu traslado.

Ando gastando a vida trabalhosa,

E esparzindo a contínua soidade

Ao longo d'huma praia soidosa.

Vejo do mar a instabilidade,

Como com seu ruido impetuoso

Retumba na maior concavidade.

De furibundas ondas poderoso,

Na terra, a seu pezar, está tomando

Lugar, em que s'estenda, cavernoso.

Ella, como mais fraca, lh'está dando

As concavas entranhas, onde esteja

Sempre com som profundo suspirando.

A todas estas cousas tenho inveja

Tamanha, que não sei determinar-me,

Por mais determinado que me veja.

Se quero em tanto mal desesperar-me,

Não posso, porque Amor e saudade

Nem licença me dão para matar-me.

Ás vezes cuido em mi, se a novidade

E estranheza das cousas, co'a mudança,

Poderião mudar huma vontade.

E com isto figuro na lembrança

A nova terra, o novo trato humano,

A estrangeira progenie, a estranha usança. {162}

Subo-me ao monte que Hercules Thebano

Do altissimo Calpe dividio,

Dando caminho ao mar Mediterrano;

D'alli'stou tenteando adonde vio

O pomar das Hesperidas, matando

A serpe que a seu passo resistio.

Estou-me em outra parte figurando

O poderoso Anteo, que derribado

Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;

Porém do Herculeo braço sobjugado,

No ar deixando a vida, não podendo

Dos soccorros da mãe ser ajudado.

Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,

Nem com as armas tão continuadas,

D'amorosas lembranças me defendo.

Todas as cousas vejo demudadas,

Porque o tempo ligeiro não consente

Qu'estejão de firmeza acompanhadas.

Vi ja que a Primavera, de contente,

Em variadas côres revestia

O monte, o campo, o valle, alegremente.

Vi ja das altas aves a harmonia,

Que até duros penedos convidava

A algum suave modo d'alegria.

Vi ja que tudo, emfim, me contentava,

E que, de muito cheio de firmeza,

Hum mal por mil prazeres não trocava.

Tal me tẽe a mudança e estranheza,

Que se vou por os prados, a verdura

Parece que se sécca de tristeza.

Mas isto he ja costume da ventura; {163}

Porque aos olhos que vivem descontentes,

Descontente o prazer se lhes figura.

Oh graves e insoffriveis accidentes

De Fortuna e d'Amor! que penitencia

Tão grave dais aos peitos innocentes!

Não basta examinar-me a paciencia

Com temores e falsas esperanças,

Sem que tambem me tente o mal de ausencia?

Trazeis hum brando espirito em mudanças,

Para que nunca possa ser mudado

De lagrimas, suspiros e lembranças.

E s'estiver ao mal acostumado,

Tambem no mal não consentis firmeza,

Para que nunca viva descansado.

Ja quieto m'achava co'a tristeza;

E alli não me faltava hum brando engano.

Que tirasse desejos da fraqueza.

Mas vendo-me enganado estar ufano,

Deo á roda a Fortuna; e deo comigo

Onde de novo chóro o novo dano.

Ja deve de bastar o que aqui digo,

Para dar a entender o mais que calo

A quem ja vio tão aspero perigo.

E se nos brandos peitos faz abalo

Hum peito magoado e descontente,

Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;

Não quero mais senão que largamente,

Senhor, me mandeis novas dessa terra;

Que alguma dellas me fara contente.

Porque se o duro Fado me desterra

Tanto tempo do bem, que o fraco esprito {164}

Desampare a prisão onde s'encerra;

Ao som das negras ágoas do Cocito,

Ao pé dos carregados arvoredos

Cantarei o que n'alma tenho escrito.