Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Elegia II.
Não póde tanto bem chegar tão cedo:
Porque primeiro a vida acabará,
Que se acabe tão aspero degredo.
Mas essa triste morte que virá,
S'em tão contrário estado me acabasse,
Est'alma assi impaciente adonde irá?
Que se ás portas Tartaricas chegasse,
Temo que tanto mal por a memoria
Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
Que se a Tantalo e Ticio for notoria
A pena com que vai, e que a atormenta, {160}
A pena que lá tẽe, terão por glória.
Essa imaginação, emfim, me augmenta
Mil mágoas no sentido, porque a vida
De imaginações tristes se contenta.
Que pois de todo vive consumida,
Porque o mal que possue se resuma,
Imagina na glória possuida.
Até que a noite eterna me consuma,
Ou veja aquelle dia desejado
Em que a Fortuna faça o que costuma;
Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
ELEGIA II.
Aquella que d'amor descomedido
Por o formoso moço se perdeo,
Que só por si d'amores foi perdido;
Despois que a deosa em pedra a converteo
De seu humano gesto verdadeiro,
A última voz só lhe concedeo.
Assi meu mal do proprio ser primeiro
Outra cousa nenhũa me consente,
Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
E se huma pouca vida, estando ausente,
Me deixa Amor, he porque o pensamento
Sinta a perda do bem d'estar presente.
Senhor, se vos espanta o soffrimento
Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, {161}
Furto este breve espaço a meu tormento.
Porque quem tẽe poder para soffrê-lo,
Sem se acabar a vida co'o cuidado,
Tambem terá poder para dizê-lo.
Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
Mas n'alma minha triste e saudosa
A saudade escreve, e eu traslado.
Ando gastando a vida trabalhosa,
E esparzindo a contínua soidade
Ao longo d'huma praia soidosa.
Vejo do mar a instabilidade,
Como com seu ruido impetuoso
Retumba na maior concavidade.
De furibundas ondas poderoso,
Na terra, a seu pezar, está tomando
Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
Ella, como mais fraca, lh'está dando
As concavas entranhas, onde esteja
Sempre com som profundo suspirando.
A todas estas cousas tenho inveja
Tamanha, que não sei determinar-me,
Por mais determinado que me veja.
Se quero em tanto mal desesperar-me,
Não posso, porque Amor e saudade
Nem licença me dão para matar-me.
Ás vezes cuido em mi, se a novidade
E estranheza das cousas, co'a mudança,
Poderião mudar huma vontade.
E com isto figuro na lembrança
A nova terra, o novo trato humano,
A estrangeira progenie, a estranha usança. {162}
Subo-me ao monte que Hercules Thebano
Do altissimo Calpe dividio,
Dando caminho ao mar Mediterrano;
D'alli'stou tenteando adonde vio
O pomar das Hesperidas, matando
A serpe que a seu passo resistio.
Estou-me em outra parte figurando
O poderoso Anteo, que derribado
Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;
Porém do Herculeo braço sobjugado,
No ar deixando a vida, não podendo
Dos soccorros da mãe ser ajudado.
Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
Nem com as armas tão continuadas,
D'amorosas lembranças me defendo.
Todas as cousas vejo demudadas,
Porque o tempo ligeiro não consente
Qu'estejão de firmeza acompanhadas.
Vi ja que a Primavera, de contente,
Em variadas côres revestia
O monte, o campo, o valle, alegremente.
Vi ja das altas aves a harmonia,
Que até duros penedos convidava
A algum suave modo d'alegria.
Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
E que, de muito cheio de firmeza,
Hum mal por mil prazeres não trocava.
Tal me tẽe a mudança e estranheza,
Que se vou por os prados, a verdura
Parece que se sécca de tristeza.
Mas isto he ja costume da ventura; {163}
Porque aos olhos que vivem descontentes,
Descontente o prazer se lhes figura.
Oh graves e insoffriveis accidentes
De Fortuna e d'Amor! que penitencia
Tão grave dais aos peitos innocentes!
Não basta examinar-me a paciencia
Com temores e falsas esperanças,
Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
Trazeis hum brando espirito em mudanças,
Para que nunca possa ser mudado
De lagrimas, suspiros e lembranças.
E s'estiver ao mal acostumado,
Tambem no mal não consentis firmeza,
Para que nunca viva descansado.
Ja quieto m'achava co'a tristeza;
E alli não me faltava hum brando engano.
Que tirasse desejos da fraqueza.
Mas vendo-me enganado estar ufano,
Deo á roda a Fortuna; e deo comigo
Onde de novo chóro o novo dano.
Ja deve de bastar o que aqui digo,
Para dar a entender o mais que calo
A quem ja vio tão aspero perigo.
E se nos brandos peitos faz abalo
Hum peito magoado e descontente,
Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
Não quero mais senão que largamente,
Senhor, me mandeis novas dessa terra;
Que alguma dellas me fara contente.
Porque se o duro Fado me desterra
Tanto tempo do bem, que o fraco esprito {164}
Desampare a prisão onde s'encerra;
Ao som das negras ágoas do Cocito,
Ao pé dos carregados arvoredos
Cantarei o que n'alma tenho escrito.