Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Elegia XII. Acrostica.
Assi todos, emfim, Senhora, venhão
A confessar hum Deos crucificado,
E por nenhum respeito se detenhão.
E d'hum e d'outro o vício ja deixado,
O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
Seja por todo o mundo celebrado;
E respóndão os ceos: JESUS, MARIA.
ELEGIA XII. ACROSTICA.
Juizo extremo, horrifico e tremendo,
E Juiz sempiterno, alto e celeste,
Significará a terra, humedecendo.
Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
Como em carne vem Deos, para que o veja
Homem toda esta máchina terreste;
Rei justo, que dos corpos e almas seja
Juiz; e quando o mundo cego e inculto
Sôbre espinhos crueis deitado seja,
Todo vão simulacro e gentil culto
Ousará engeitar a gente; e guerra
Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.
Immensa luz, que as carnes desenterra,
Lançará fóra as portas vãas do Averno,
Hum Justo e outro alçando á santa terra. {209}
Outros, que são os maos, no fogo eterno
Deitará, descobrindo-se os segredos,
E sendo claro todo feito interno.
Desfeitos serão montes e penedos,
E será tudo pranto e estridor duro;
Obras de grande dor e tristes medos.
Será tornado o sol de todo escuro,
E destruida a máchina do mundo,
Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
Altos serão os valles, e em profundo
Lugar se abaterão os altos montes;
Vibrará mares vento furibundo:
Haverá só de chammas vivas fontes:
De trombeta tremenda som terribil,
Ouvido, fara pallidas as frontes.
Responderá dos maos gemido horribil. {210}