Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena III.
Por ventura sou eu grou?
Sempre hei d'estar vigiando? Sahe.
FILODEMO.
Ah Senhora, que podeis
Ser remedio do que peno,
Quão mal ora cuidareis
Que viveis e que cabeis
N'hum coração tão pequeno!
Se vos fosse apresentado {392}
Este tormento em que vivo,
Crerieis que foi ousado
Este vosso, de criado
Tornar-se vosso captivo?
SCENA III.
Filodemo e Vilardo.
VILARDO.
Ora eu creio, se he verdade
Qu'estou de todo acordado,
Que meu amo he namorado;
E a mi dá-me na vontade
Que anda hum pouco abalado.
E se tal he, eu daria
Por conhecer a donzella
A ração d'hoje este dia;
Porque a desenganaria,
Somente por ter dó della.
Havia-lhe perguntar:
Senhora, de que comeis?
Se comeis d'ouvir cantar,
De fallar bem, de trovar,
Em boa hora casareis.
Porém se vós comeis pão,
Tende, Senhora, resguardo;
Qu'eis-aqui está Vilardo,
Qu'he como hum camaleão,
Por isso, bus, fazei fardo.
E se vós sois das gamenhas, {393}
E houverdes d'attentar
Por mais que por manducar,
Mi cama son duras peñas,
Mi dormir siempre es velar.
A viola, Senhor, vem
Sem primas, nem derradeiras:
Mas sabe o que lhe convem?
Se quer, Senhor, tanger bem,
Ha de haver mister terceiras.
E se estas cantigas vossas
Não forem para escutar,
E quizerdes espirar;
Ha mister cordas mais grossas,
Porque não possão quebrar.
FILODEMO.
Vae para fóra.
VILARDO.
Ja venho.
FILODEMO.
Qu'eu só desta phantasia
Me sostenho e me mantenho.