Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 59 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena III.

Por ventura sou eu grou?

Sempre hei d'estar vigiando? Sahe.

FILODEMO.

Ah Senhora, que podeis

Ser remedio do que peno,

Quão mal ora cuidareis

Que viveis e que cabeis

N'hum coração tão pequeno!

Se vos fosse apresentado {392}

Este tormento em que vivo,

Crerieis que foi ousado

Este vosso, de criado

Tornar-se vosso captivo?

 

SCENA III.

 

Filodemo e Vilardo.

 

VILARDO.

Ora eu creio, se he verdade

Qu'estou de todo acordado,

Que meu amo he namorado;

E a mi dá-me na vontade

Que anda hum pouco abalado.

E se tal he, eu daria

Por conhecer a donzella

A ração d'hoje este dia;

Porque a desenganaria,

Somente por ter dó della.

Havia-lhe perguntar:

Senhora, de que comeis?

Se comeis d'ouvir cantar,

De fallar bem, de trovar,

Em boa hora casareis.

Porém se vós comeis pão,

Tende, Senhora, resguardo;

Qu'eis-aqui está Vilardo,

Qu'he como hum camaleão,

Por isso, bus, fazei fardo.

E se vós sois das gamenhas, {393}

E houverdes d'attentar

Por mais que por manducar,

Mi cama son duras peñas,

Mi dormir siempre es velar.

A viola, Senhor, vem

Sem primas, nem derradeiras:

Mas sabe o que lhe convem?

Se quer, Senhor, tanger bem,

Ha de haver mister terceiras.

E se estas cantigas vossas

Não forem para escutar,

E quizerdes espirar;

Ha mister cordas mais grossas,

Porque não possão quebrar.

FILODEMO.

Vae para fóra.

VILARDO.

Ja venho.

FILODEMO.

Qu'eu só desta phantasia

Me sostenho e me mantenho.