Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena V.
O que vós valeis me avisa,
Mas o qu'eu peno m' engana.
SCENA V.
Solina e Filodemo.
SOLINA.
Tomado estais vós agora,
Senhor, co'o furto nas mãos.
FILODEMO.
Solina, minha Senhora,
Quantos pensamentos vãos
Me ouvirieis lançar fóra? {395}
SOLINA.
Oh Senhor, quão bem que sôa
O tanger de quando em quando!
Bem sei eu huma pessoa,
Que haja huma hora, e boa,
Que vos está escutando.
FILODEMO.
Por vida vossa, zombais?
Quem he? quereis-mo dizer?
SOLINA.
Não o haveis vós de saber,
Bofé se me não peitais.
FILODEMO.
Dar-vos-hei quanto tiver,
Para taes tempos como estes.
Quem tivera voz dos Ceos,
Pois escutar me quizestes!
SOLINA.
Assi pareça eu a Deos,
Como lhe vós parecestes.
FILODEMO.
A Senhora Dionysa
Quer-se ja alevantar?
SOLINA.
Assi me veja eu casar,
Como despida em camisa
Se ergueo por vos escutar.
FILODEMO.
Em camisa levantada!
Tão ditosa he minha estrella?
Ou mo dizeis refalsada? {396}
SOLINA.
Pois bem me defendeo ella
Que vos não dissesse nada.
FILODEMO.
Se pena de tantos annos
Merecer algum favor,
Para cura de meus dannos
Fartae-me desses engannos,
Que não quero mais de Amor.
SOLINA.
Agora quero eu fallar
Neste caso com mais tento;
Quero agora perguntar:
E de siso his vós tomar
Hum tão alto pensamento?
Certo he minha maravilha,
Se vós isto não sentis
Bem: vós como não cahis
Que Dionysa qu'he filha
Do Senhor a quem servis?
Como? Vós não attentais
Os Grandes, de qu'he pedida?
Peço-vos que me digais
Qual he o fim que esperais
Neste caso, em vossa vida.
Que razão boa, ou que côr
Podeis dar a esta affeição?
Dizei-me vossa tenção.
FILODEMO.
Onde vistes vós amor
Que se guie por razão? {397}
Se quereis saber de mi
Que fim, ou de que theor
O pretendo em minha dor;
S'eu neste amor quero fim,
Sem fim me atormente Amor.
Mas vós com gloria fingida
Pretendeis de m'enganar,
Por assi mal me tratar:
Assi que me dais a vida
Somente por me matar.
SOLINA.
Eu digo-vos a verdade.
FILODEMO.
Da verdade fujo eu,
Porque se o Amor me deu
Pena de tal qualidade,
Assaz me custa do meu.
SOLINA.
Fólgo muito de saber
Que sois amante tão fino.
FILODEMO.
Pois mais vos quero dizer,
Que ás vezes no imaginar
Não ouso de m' estender.
Na hora que imaginei
Na causa de meu tormento,
Tamanha gloria levei,
Que por onças desejei
De lograr o pensamento.
SOLINA.
Se me vós a mi jurardes {398}
De me terdes em segredo
Huma cousa... mas hei medo
De logo tudo contardes.
FILODEMO.
A quem?
SOLINA.
Áquelle enxovedo.
FILODEMO.
Qual?
SOLINA.
Aquelle mao pezar,
Que ant'hontem comvosco hia.
Quem se fosse em vós fiar!
O que vos disse o outro dia,
Tudo lhe fostes contar.
FILODEMO.
Que lhe contei?
SOLINA.
Ja lh'esquece?
FILODEMO.
Por certo qu'estou remoto.
SOLINA.
Hi, que sois hum cesto roto.
FILODEMO.
Esse homem tudo merece.
SOLINA.
Vós sois muito seu devoto.
FILODEMO.
Senhora, não hajais medo:
Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. {399}
SOLINA.
Senhor, o homem sisudo,
Se em taes cousas tẽe segredo,
Saiba que alcançará tudo.
A Senhora Dionysa
Crede que mal vos não quer:
Não vos posso mais dizer.
Isto tende por balisa
Com que vos saibais reger.
Qu'em mulheres, se attentais,
O querer está visibil;
E se bem vos governais,
Não desespereis do mais,
Porque, emfim, tudo he possibil.
FILODEMO.
Senhora, póde isso ser?
SOLINA.
Si, que tudo o mundo tem:
Olhae não o saiba alguem.
FILODEMO.
E que maneira hei de ter
Para crer tamanho bem?
SOLINA.
Vós, Senhor, o sabereis;
E ja que vos descobri
Tamanho sogredo aqui,
Huma mercê me fareis
Em que me vai muito a mi.
FILODEMO.
Senhora, a tudo me obrigo
Quanto for em minha mão. {400}
SOLINA.
Pois dizei a vosso amigo
Que não gaste tempo em vão,
Nem queira amores comigo.
Porque eu tenho parentes,
Que me podem bem casar;
E mais que não quero andar
Agora em boca de gentes
A quem s'elle vai gabar.
FILODEMO.
Senhora, mal conheceis
O que vos quer Duriano:
Sabei-o, se o não sabeis,
Qu'em sua alma sente o dano
Do pouco que lhe quereis;
E que outra cousa não quer,
Que ter-vos sempre servida.
SOLINA.
Pola sua negra vida,
Isso havia eu bem mister.
FILODEMO.
Vós sois desagradecida!
SOLINA.
Si, que tudo são enganos
Em tudo quanto fallais.
FILODEMO.
Não quero que me creais:
Crede o tempo; que ha dous anos
Que vos serve, e inda mais.
SOLINA.
Senhor, bem sei que m'engano; {401}
Mas a vós, como a irmão,
Descubro este coração:
Sabei que a Duriano
Tenho sobeja affeição.
Olhae que lhe não digais
Isto que vos aqui digo.
FILODEMO.
Senhora, mal me tratais:
Inda que sou seu amigo,
Sabei que vosso sou mais.
SOLINA.
E ja que vos confessei
Aquestas fraquezas minhas,
Que ha tanto que de mi sei;
Fazei vós nas cousas minhas
O qu'eu nas vossas farei.
FILODEMO.