Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 61 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena V.

O que vós valeis me avisa,

Mas o qu'eu peno m' engana.

 

SCENA V.

 

Solina e Filodemo.

 

SOLINA.

Tomado estais vós agora,

Senhor, co'o furto nas mãos.

FILODEMO.

Solina, minha Senhora,

Quantos pensamentos vãos

Me ouvirieis lançar fóra? {395}

SOLINA.

Oh Senhor, quão bem que sôa

O tanger de quando em quando!

Bem sei eu huma pessoa,

Que haja huma hora, e boa,

Que vos está escutando.

FILODEMO.

Por vida vossa, zombais?

Quem he? quereis-mo dizer?

SOLINA.

Não o haveis vós de saber,

Bofé se me não peitais.

FILODEMO.

Dar-vos-hei quanto tiver,

Para taes tempos como estes.

Quem tivera voz dos Ceos,

Pois escutar me quizestes!

SOLINA.

Assi pareça eu a Deos,

Como lhe vós parecestes.

FILODEMO.

A Senhora Dionysa

Quer-se ja alevantar?

SOLINA.

Assi me veja eu casar,

Como despida em camisa

Se ergueo por vos escutar.

FILODEMO.

Em camisa levantada!

Tão ditosa he minha estrella?

Ou mo dizeis refalsada? {396}

SOLINA.

Pois bem me defendeo ella

Que vos não dissesse nada.

FILODEMO.

Se pena de tantos annos

Merecer algum favor,

Para cura de meus dannos

Fartae-me desses engannos,

Que não quero mais de Amor.

SOLINA.

Agora quero eu fallar

Neste caso com mais tento;

Quero agora perguntar:

E de siso his vós tomar

Hum tão alto pensamento?

Certo he minha maravilha,

Se vós isto não sentis

Bem: vós como não cahis

Que Dionysa qu'he filha

Do Senhor a quem servis?

Como? Vós não attentais

Os Grandes, de qu'he pedida?

Peço-vos que me digais

Qual he o fim que esperais

Neste caso, em vossa vida.

Que razão boa, ou que côr

Podeis dar a esta affeição?

Dizei-me vossa tenção.

FILODEMO.

Onde vistes vós amor

Que se guie por razão? {397}

Se quereis saber de mi

Que fim, ou de que theor

O pretendo em minha dor;

S'eu neste amor quero fim,

Sem fim me atormente Amor.

Mas vós com gloria fingida

Pretendeis de m'enganar,

Por assi mal me tratar:

Assi que me dais a vida

Somente por me matar.

SOLINA.

Eu digo-vos a verdade.

FILODEMO.

Da verdade fujo eu,

Porque se o Amor me deu

Pena de tal qualidade,

Assaz me custa do meu.

SOLINA.

Fólgo muito de saber

Que sois amante tão fino.

FILODEMO.

Pois mais vos quero dizer,

Que ás vezes no imaginar

Não ouso de m' estender.

Na hora que imaginei

Na causa de meu tormento,

Tamanha gloria levei,

Que por onças desejei

De lograr o pensamento.

SOLINA.

Se me vós a mi jurardes {398}

De me terdes em segredo

Huma cousa... mas hei medo

De logo tudo contardes.

FILODEMO.

A quem?

SOLINA.

Áquelle enxovedo.

FILODEMO.

Qual?

SOLINA.

Aquelle mao pezar,

Que ant'hontem comvosco hia.

Quem se fosse em vós fiar!

O que vos disse o outro dia,

Tudo lhe fostes contar.

FILODEMO.

Que lhe contei?

SOLINA.

Ja lh'esquece?

FILODEMO.

Por certo qu'estou remoto.

SOLINA.

Hi, que sois hum cesto roto.

FILODEMO.

Esse homem tudo merece.

SOLINA.

Vós sois muito seu devoto.

FILODEMO.

Senhora, não hajais medo:

Contae-m'isso, e far-me-hei mudo. {399}

SOLINA.

Senhor, o homem sisudo,

Se em taes cousas tẽe segredo,

Saiba que alcançará tudo.

A Senhora Dionysa

Crede que mal vos não quer:

Não vos posso mais dizer.

Isto tende por balisa

Com que vos saibais reger.

Qu'em mulheres, se attentais,

O querer está visibil;

E se bem vos governais,

Não desespereis do mais,

Porque, emfim, tudo he possibil.

FILODEMO.

Senhora, póde isso ser?

SOLINA.

Si, que tudo o mundo tem:

Olhae não o saiba alguem.

FILODEMO.

E que maneira hei de ter

Para crer tamanho bem?

SOLINA.

Vós, Senhor, o sabereis;

E ja que vos descobri

Tamanho sogredo aqui,

Huma mercê me fareis

Em que me vai muito a mi.

FILODEMO.

Senhora, a tudo me obrigo

Quanto for em minha mão. {400}

SOLINA.

Pois dizei a vosso amigo

Que não gaste tempo em vão,

Nem queira amores comigo.

Porque eu tenho parentes,

Que me podem bem casar;

E mais que não quero andar

Agora em boca de gentes

A quem s'elle vai gabar.

FILODEMO.

Senhora, mal conheceis

O que vos quer Duriano:

Sabei-o, se o não sabeis,

Qu'em sua alma sente o dano

Do pouco que lhe quereis;

E que outra cousa não quer,

Que ter-vos sempre servida.

SOLINA.

Pola sua negra vida,

Isso havia eu bem mister.

FILODEMO.

Vós sois desagradecida!

SOLINA.

Si, que tudo são enganos

Em tudo quanto fallais.

FILODEMO.

Não quero que me creais:

Crede o tempo; que ha dous anos

Que vos serve, e inda mais.

SOLINA.

Senhor, bem sei que m'engano; {401}

Mas a vós, como a irmão,

Descubro este coração:

Sabei que a Duriano

Tenho sobeja affeição.

Olhae que lhe não digais

Isto que vos aqui digo.

FILODEMO.

Senhora, mal me tratais:

Inda que sou seu amigo,

Sabei que vosso sou mais.

SOLINA.

E ja que vos confessei

Aquestas fraquezas minhas,

Que ha tanto que de mi sei;

Fazei vós nas cousas minhas

O qu'eu nas vossas farei.

FILODEMO.