Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena VII.
Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.
AURELIO.
Oh estranha novidade!
Oh cousa para não crer!
BELFERRÃO.
Venho cego de verdade,
Que não puderão soffrer
Meus olhos a claridade.
SOSEA.
Oh triste, que vengo ciego
Con rayos, y con visiones!
Y destas encantaciones,
Si nuestra casa arde en fuego,
Han se de arder mis colchones.
AURELIO.
Vamos a Amphitrião
Contar-lhe cousas tamanhas.
AMPHITRIÃO.
Que vai lá? que cousas vão? {381}
AURELIO.
Maravilhas tão estranhas,
Que me treme o coração.
Porque aquelle homem, que assi
Tantos enganos teceo,
Como era cousa do Ceo,
Tanto qu'eu appareci,
Logo desappareceo.
E em desapparecendo
Com ruido grande e horrendo,
Toda a casa allumiou;
E de arte nos inflammou,
Que nos vimos acolhendo
Do raio que nos cegou.
Estes acontecimentos
Não são de humana pessoa.
Vós ouvis a voz que soa?
Escutae, estae attentos;
Vejamos o que pregôa.
JUPITER, de dentro.
Amphitrião, qu'em teus dias
Vês tamanhas estranhezas,
Não t'espantem phantasias,
Que ás vezes grandes tristezas
Parem grandes alegrias.
Jupiter sou manifesto
Nas obras de admiração,
Que por mi causadas são:
Quiz-me vestir em teu gesto,
Por honrar tua geração.
Tua mulher parirá {382}
Hum filho de mi gerado,
Que Hercules se chamará,
O mais valente e esforçado,
Que no mundo se achará.
Com este, teus successores
Se honrarão de serem teus;
E dar-lhe-hão os escriptores,
Por doze trabalhos seus,
Doze milhões de louvores.
E dessa illustre fadiga
Colherás mui rico fruito:
Enfim, a razão me obriga
Que tão pouco delle diga,
Porque o tempo dirá muito. {383}
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