Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 55 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena VII.

 

Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea.

 

AURELIO.

Oh estranha novidade!

Oh cousa para não crer!

BELFERRÃO.

Venho cego de verdade,

Que não puderão soffrer

Meus olhos a claridade.

SOSEA.

Oh triste, que vengo ciego

Con rayos, y con visiones!

Y destas encantaciones,

Si nuestra casa arde en fuego,

Han se de arder mis colchones.

AURELIO.

Vamos a Amphitrião

Contar-lhe cousas tamanhas.

AMPHITRIÃO.

Que vai lá? que cousas vão? {381}

AURELIO.

Maravilhas tão estranhas,

Que me treme o coração.

Porque aquelle homem, que assi

Tantos enganos teceo,

Como era cousa do Ceo,

Tanto qu'eu appareci,

Logo desappareceo.

E em desapparecendo

Com ruido grande e horrendo,

Toda a casa allumiou;

E de arte nos inflammou,

Que nos vimos acolhendo

Do raio que nos cegou.

Estes acontecimentos

Não são de humana pessoa.

Vós ouvis a voz que soa?

Escutae, estae attentos;

Vejamos o que pregôa.

JUPITER, de dentro.

Amphitrião, qu'em teus dias

Vês tamanhas estranhezas,

Não t'espantem phantasias,

Que ás vezes grandes tristezas

Parem grandes alegrias.

Jupiter sou manifesto

Nas obras de admiração,

Que por mi causadas são:

Quiz-me vestir em teu gesto,

Por honrar tua geração.

Tua mulher parirá {382}

Hum filho de mi gerado,

Que Hercules se chamará,

O mais valente e esforçado,

Que no mundo se achará.

Com este, teus successores

Se honrarão de serem teus;

E dar-lhe-hão os escriptores,

Por doze trabalhos seus,

Doze milhões de louvores.

E dessa illustre fadiga

Colherás mui rico fruito:

Enfim, a razão me obriga

Que tão pouco delle diga,

Porque o tempo dirá muito. {383}

{385}