Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 48 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena IV.

MERCURIO.

Mira el encantador

Como se lastima y llora, {366}

Y fuese tomar ahora

La forma de mi Señor,

Para engañar mi Señora.

Pues esperad, y no os vais,

Por un espacio pequeño;

Verná quien representais,

Y él os hará que volvais

El falso gesto á su dueño.

AMPHITRIÃO.

Vae, velhaco, e chama cá

Esse falso feiticeiro;

Que se elle lá dentro está,

Esta espada julgará

Qual de nós he o verdadeiro.

 

SCENA IV.

 

Amphitrião, Sosea e Belferrão.

 

BELFERRÃO.

Ora ninguem presumíra

Que tinhas tão pouco siso;

Pois vás achar d'improviso

Tão bem forjada mentíra,

Que me faz cahir de riso.

Hum moço, que alevantou

Tal graça, nunca nasceo:

Porque vos jura que achou

Que ou elle em dous se perdeo,

Ou de hum dous se tornou.

SOSEA.

Patron, que no burlo, no: {367}

En uno son dos unidos,

Y en dos cuerpos repartidos;

Yo soy él, y él es yo,

De un padre y madre nacidos.

BELFERRÃO.

Esse tu que lá estás,

Tão velhaco he como ti?

SOSEA.

Mas aun pienso que es mas:

Por delante y por detrás

Todo se parece á mí.

Y fue gran merced de Dios

Ayuntar á mí mas uno,

Que peor fuera de nos,

Si Dios me hiciera ninguno,

Que no de uno hacer dos.

BELFERRÃO.

Assi que, se te perdeste

Vieste a cobrar mais hum:

Mui gentil conta fizeste,

Pois que perdido soubeste

Que eras dous, sendo nenhum.

SOSEA.

Pues teneis por abusion

Verdad tan clara, y tan rasa,

Aunque pone admiracion;

Quiera Dios, que allá en casa

No halleis otro Patron.

AMPHITRIÃO.

O Patrão, que fui buscar,

Parece que vejo vir: {368}

Não sei quem o foi chamar;

Mas que me ha de aproveitar

Se me não querem abrir?

Ah Belferrão!

BELFERRÃO.

Ah Senhor!

Ja sinto que fui culpado;

Porque quem he convidado,

Se tão vagaroso for,

Merece não ser chamado.

AMPHITRIÃO.

A vós quem vos convidou?

BELFERRÃO.

Sósea, por mandado seu.

AMPHITRIÃO.

Disso, Patrão, não sei eu;

Que Sósea ja me negou,

E ja se não dá por meu.

E se alguem vos foi dizer

Qu'eu vos chamo á minha mesa;

Mal vos dara de comer

Quem de todo lhe he defesa

A casa, e mais a mulher.

BELFERRÃO.

Quem he esse tão ousado,

Que vos isso faz, Senhor?

AMPHITRIÃO.

Sósea, creio que enganado

Por algum encantador,

Que a honra me tẽe roubado. {369}

BELFERRÃO.

Se elle aqui comigo vem,

Isso como póde ser?

AMPHITRIÃO.

Ah! que a íra que vou ter,

Tão cega a vista me tem,

Que mo não deixava ver.

Porque razão, cavalleiro,

Não me abris quando vos mando?

Vós fazeis-vos chocarreiro?

SOSEA.

Yo Señor? y como? y cuando?

AMPHITRIÃO.

Quereis-lo saber primeiro?

Esperae, dir-se-vos-ha,

Mas será por outro son.

SOSEA.

Ah Señor Amphitrion,

Porque matándome está,

Sin delito, y sin razon?

AMPHITRIÃO.

Agora que vos eu dou

Me chamais Amphitrião,

E para me abrirdes não?

BELFERRÃO.

Este moço em que peccou?

Porque pena sem razão?

Não mais por amor de mi.

AMPHITRIÃO.

Não, que não sou seu Senhor;

Eu sou hum encantador. {370}

Não o dizeis vós assi,

Ladrão, perro, enganador?

SOSEA.

Porque fuy presto á llamar

Por su mandado al Patron,

Me quiere ahora matar?

AMPHITRIÃO.

Quem vo-lo mandou buscar?

SOSEA.

Si no hay otro Amphitrion,

Vuestra merced sin dudar.

AMPHITRIÃO.

Eu te mandei?

SOSEA.

Si Señor,

Si otro no.

AMPHITRIÃO.

Outro ha aqui,

Por quem tu zombes de mi?

Pois só desse encantador

Me quero vingar em ti.

SOSEA.

Oh Júpiter, á quien bramo

Por su bondad que me vala!

Pues porque Sósea me llamo,

Yo mismo, y despues mi amo,

Me dieron venida mala! {371}