Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena IV.
MERCURIO.
Mira el encantador
Como se lastima y llora, {366}
Y fuese tomar ahora
La forma de mi Señor,
Para engañar mi Señora.
Pues esperad, y no os vais,
Por un espacio pequeño;
Verná quien representais,
Y él os hará que volvais
El falso gesto á su dueño.
AMPHITRIÃO.
Vae, velhaco, e chama cá
Esse falso feiticeiro;
Que se elle lá dentro está,
Esta espada julgará
Qual de nós he o verdadeiro.
SCENA IV.
Amphitrião, Sosea e Belferrão.
BELFERRÃO.
Ora ninguem presumíra
Que tinhas tão pouco siso;
Pois vás achar d'improviso
Tão bem forjada mentíra,
Que me faz cahir de riso.
Hum moço, que alevantou
Tal graça, nunca nasceo:
Porque vos jura que achou
Que ou elle em dous se perdeo,
Ou de hum dous se tornou.
SOSEA.
Patron, que no burlo, no: {367}
En uno son dos unidos,
Y en dos cuerpos repartidos;
Yo soy él, y él es yo,
De un padre y madre nacidos.
BELFERRÃO.
Esse tu que lá estás,
Tão velhaco he como ti?
SOSEA.
Mas aun pienso que es mas:
Por delante y por detrás
Todo se parece á mí.
Y fue gran merced de Dios
Ayuntar á mí mas uno,
Que peor fuera de nos,
Si Dios me hiciera ninguno,
Que no de uno hacer dos.
BELFERRÃO.
Assi que, se te perdeste
Vieste a cobrar mais hum:
Mui gentil conta fizeste,
Pois que perdido soubeste
Que eras dous, sendo nenhum.
SOSEA.
Pues teneis por abusion
Verdad tan clara, y tan rasa,
Aunque pone admiracion;
Quiera Dios, que allá en casa
No halleis otro Patron.
AMPHITRIÃO.
O Patrão, que fui buscar,
Parece que vejo vir: {368}
Não sei quem o foi chamar;
Mas que me ha de aproveitar
Se me não querem abrir?
Ah Belferrão!
BELFERRÃO.
Ah Senhor!
Ja sinto que fui culpado;
Porque quem he convidado,
Se tão vagaroso for,
Merece não ser chamado.
AMPHITRIÃO.
A vós quem vos convidou?
BELFERRÃO.
Sósea, por mandado seu.
AMPHITRIÃO.
Disso, Patrão, não sei eu;
Que Sósea ja me negou,
E ja se não dá por meu.
E se alguem vos foi dizer
Qu'eu vos chamo á minha mesa;
Mal vos dara de comer
Quem de todo lhe he defesa
A casa, e mais a mulher.
BELFERRÃO.
Quem he esse tão ousado,
Que vos isso faz, Senhor?
AMPHITRIÃO.
Sósea, creio que enganado
Por algum encantador,
Que a honra me tẽe roubado. {369}
BELFERRÃO.
Se elle aqui comigo vem,
Isso como póde ser?
AMPHITRIÃO.
Ah! que a íra que vou ter,
Tão cega a vista me tem,
Que mo não deixava ver.
Porque razão, cavalleiro,
Não me abris quando vos mando?
Vós fazeis-vos chocarreiro?
SOSEA.
Yo Señor? y como? y cuando?
AMPHITRIÃO.
Quereis-lo saber primeiro?
Esperae, dir-se-vos-ha,
Mas será por outro son.
SOSEA.
Ah Señor Amphitrion,
Porque matándome está,
Sin delito, y sin razon?
AMPHITRIÃO.
Agora que vos eu dou
Me chamais Amphitrião,
E para me abrirdes não?
BELFERRÃO.
Este moço em que peccou?
Porque pena sem razão?
Não mais por amor de mi.
AMPHITRIÃO.
Não, que não sou seu Senhor;
Eu sou hum encantador. {370}
Não o dizeis vós assi,
Ladrão, perro, enganador?
SOSEA.
Porque fuy presto á llamar
Por su mandado al Patron,
Me quiere ahora matar?
AMPHITRIÃO.
Quem vo-lo mandou buscar?
SOSEA.
Si no hay otro Amphitrion,
Vuestra merced sin dudar.
AMPHITRIÃO.
Eu te mandei?
SOSEA.
Si Señor,
Si otro no.
AMPHITRIÃO.
Outro ha aqui,
Por quem tu zombes de mi?
Pois só desse encantador
Me quero vingar em ti.
SOSEA.
Oh Júpiter, á quien bramo
Por su bondad que me vala!
Pues porque Sósea me llamo,
Yo mismo, y despues mi amo,
Me dieron venida mala! {371}