Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 10 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia V.

Porqu'he justo que nunca lhe negasse

O conselho do Olympo alto e subido

Favor e ajuda com que pelejasse.

Aqui só póde ser bem dirigido

De Magalhães o estudo: este só deve

Ser de vós, claros deoses, escolhido.

Assi Mercurio disse; e em termo breve

Conformados se vem Apollo e Marte;

E voou juntamente o somno leve.

Acorda Magalhães, e ja se parte

A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,

Tudo o que nelle poz sciencia e arte.

Tẽe claro estylo, e engenho curioso,

Para poder de vós ser recebido,

Com mão benigna, de ânimo amoroso.

Pois se só de não ser favorecido

Hum alto esprito fica baixo e escuro;

Este seja comvosco defendido,

Como o foi de Malaca o debil muro.

 

ELEGIA V.

 

Aquelle mover de olhos excellente,

Aquelle vivo espirito inflammado

Do crystallino rosto transparente;

Aquelle gesto immoto e repousado,

Qu'estando n'alma propriamente escrito,

Não póde ser em verso trasladado; {176}

Aquelle parecer, que he infinito

Para se comprender d'engenho humano;

O qual offendo em quanto tenho dito;

Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,

E tanto a engrandecer-me a phantasia,

Que não vi maior glória que meu dano.

Oh bem-aventurado seja o dia

Em que tomei tão doce pensamento,

Que de todos os outros me desvia!

E bem-aventurado o soffrimento

Que soube ser capaz de tanta pena,

Vendo que o foi da causa o entendimento!

Faça-me quem me mata, o mal que ordena,

Trate-me com enganos, desamores;

Qu'então me salva, quando me condena.

E se de tão suaves desfavores

Penando vive hum'alma consumida,

Oh que doce penar! que doces dores!

E se huma condição endurecida

Tambem me nega a morte por meu dano,

Oh que doce morrer! que doce vida!

E se me mostra hum gesto lindo humano,

Como que de meu mal culpada se acha,

Oh que doce mentir! que doce engano!

E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,

Mostrando refrear o pensamento,