Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Elegia VIII.
Porém, pois mo negais, de todo engeito
A palma, qu'he ventura; e na parreira,
Qu'he'sperança perdida, me deleito.
Entretanto co'a flor da laranjeira,
Qu'he desafio duro e arriscado,
Posso arguir da hora derradeira.
Ja não se quer deter o meu cuidado
Com a romãa descanso: a brevidade
Das maravilhas só tẽe desejado.
E vós, ovelhas minhas, sem piedade
Vos apartae de mi, se algum desejo
Tendes de ter do pasto mais vontade.
Se muita de me verdes em vós vejo,
Toda a minha de ver-vos hei perdido
Á força do poder d'amor sobejo.
Lograe do Tejo o placido ruido;
Sós lograe estas veigas florecidas:
Pois se perde o pastor vosso querido,
Não gosteis de com elle ser perdidas. {190}
ELEGIA VIII.
Belisa, unico bem desta alma triste,
Descanso singular de minha vida,
Throno donde o poder d'Amor consiste;
Formosa fera, a quem está rendida
D'Amor a que he mais livre liberdade,
Ganhada mais, se mais por ti perdida;
Quão contrário parece na beldade,
Que os corações captiva com brandura,
Alguma nódoa haver de crueldade!
Quão contrário parece em formosura,
Que deixa muito atraz quanto he humano,
Esquiva condição, ou alma dura!
Quão mal parece em quem só co'hum engano
Póde dar vida ao coração sujeito,
Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!
Quão mal parece que hum amor perfeito
Não seja d'outro igual remunerado,
Inda que seja, acaso, contrafeito!
Quão mal parece estar desesperado
Quem tanto por ti soffre e tẽe soffrido,
Devendo estar de penas alliviado!
Porém peor parece quem rendido
Não for a hum parecer que tudo rende,
Por mais qu'em seu rigor viva offendido.
E inda peor parece quem defende
O ser essa belleza sempre amada,
Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.
Se quem te mostra amor te desagrada,
Só pódes pretender o não ser vista, {191}
Mas não despois de vista o ser deixada.
Quão mal sabe o valor de tua vista
Quem cuida que o que della acaso alcança
Póde achar coração que lhe resista!
Quão bem pareceria huma esperança
Ja concedida a meu amor ardente,
Não sempre huma mortal desconfiança!
Se hum padecer por ti constantemente
Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
Inda esperar pudera o ser contente.
Mas eu temo que aquella immensa chama
Com que a teu bello imperio me levaste,
Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.
Se a Olympica belleza assi imitaste,
Que brandamente move hum amor puro,
Porque tão dura condição tomaste?
Qual elevado, qual soberbo muro
Este mal, que m'occupa o pensamento,
Contado, não tornára menos duro?
Tu, qu'es a causa só de meu tormento,
Tu, que somente podes gloriar-me,
Queres que as minhas queixas leve o vento?
Tu, que me pagarias com matar-me,
Inda a morte me negas vezes tantas?
Ai, que me deras vida em morte dar-me!
Usa piedade, tu, que o mundo espantas
Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
Se acaso a vê-lo brandos os levantas.
Estende-se na terra o negro manto,
E á noute dá alegria a luz alheia;
Mas nos meus olhos tristes dura o pranto. {192}
Torna a manhãa despois alegre e cheia
Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;
Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.
Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,
Mas amor he vital que dentro arde,
E por a luz dos olhos salta fóra.
Como inda a morte quer que mais aguarde?
Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.
Mas ja por mais que corra virá tarde.
Nem no supremo trance de ti 'spero
Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto
Queiras, crua, entender quanto te quero.
Ai! se volveres esse bello rosto
Ao lugar triste em que morrer me vires,
Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,
Não quero de ti, não, que alli suspires,
Nem que de dar-me a morte te arrependas,
Mas que os olhos de ver-me então não tires.
Assi nunca pastor a quem te rendas,
Te faça conhecer o que me fazes,
Para que com teu mal meu mal entendas!
Como ja agora não te satisfazes
Das penas deste amor, que por querer-te,
De teu merecimento são capazes?
Pois quem com outro merito render-te
Presume, (oh raro monstro de belleza!)
Muito mais longe está de merecer-te.
Este si, que merece a grã crueza
Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
Pois diante de ti, de si se preza.
Se cuidas que com isto desbaratas {193}
O meu constante amor, porque não viva,
Elle mais vive quando mais me matas.
Se o dar-me morte tens por glória altiva,
Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
A matar mais de branda que d'esquiva.
S'esta alma tua julgas por indina
Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
Do descoberto mal a faze dina.
Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
A poder reduzir-te a ser piedosa?
Ou m'acaba de todo, ou me responde.
Mas por mais que te mostres rigorosa,
Deixar meu pensamento m'he impossivel,
Igualmente que a ti não ser formosa.
E por mais qu'esta dor seja terrivel,
Somente o contemplar a causa della,
Inda que a faz maior, a faz soffrivel
Porém chegando a não poder soffrê-la,
Perdendo a vida; quando a morte chame,
Não perderei o gôsto de perdê-la.
He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
Mas vê tu se te illustra, quando offensa
Minha mortal o teu valor se chame.
Bem vês que huma beldade tão immensa