Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Epistolas.
EPISTOLA I.
Quem póde ser no mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão exprimentado, ou tão discreto,
Tão fóra, emfim, de humano entendimento,
Que ou com público effeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juizo quasi incerto,
Ver e notar do mundo o desconcêrto?
Quem ha que veja aquelle que vivia
De latrocinios, mortes e adulterios,
Que ao juizo das gentes merecia
Perpétua pena, immensos vituperios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,
Em alteza d'estados triumphante,
Que por livre que seja não s'espante?
Quem ha que veja aquelle, que tão clara
Teve a vida, qu'em tudo por perfeito
O proprio Momo ás gentes o julgára,
Inda quando lhe visse aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bom somente avara,
O reprime, e lhe nega seu direito, {211}
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja exprimentado?
Democrito dos deoses proferia
Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.
Segredo algum será da phantasia,
De qu'eu achar não posso claro indicio.
Que se ambos vem por não cuidada via
A quem os não merece, he grande vício
Em deoses sem-justiça e sem-razão.
Mas Democrito o disse, e Paulo não.
Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto
Novamente no mundo se mostrasse,
Que por livre que fosse e mui experto,
Não era d'espantar se m'espantasse.
Mas que se ja de Socrates foi certo
Que nenhum grande caso lhe mudasse
O vulto, ou de prudente, ou de constante,
Exemplo tome delle, e não m'espante.
Parece a razão boa; mas eu digo
Deste uso da Fortuna tão damnado
Que quanto he mais usado e mais antigo,
Tanto he mais estranhado e blasphemado.
Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo
Não dá á Fortuna tempo limitado,
Não he para causar mui grande espanto,
Que mal tão mal olhado dure tanto?
Outro espanto maior aqui m'enleia,
Que com quanto Fortuna tão profana
Com estes desconcertos senhoreia,
A nenhuma pessoa desengana.
Não ha ninguem, que assente, nem que creia {212}
Este discurso vão da vida humana,
Por mais que philosophe, nem qu'entenda,
Que algum pouco do mundo não pretenda.
Diogenes pisava de Platão
Com seus sordidos pés o rico estrado,
Mostrando outra mais alta presumpção
Em desprezar o fausto tão prezado.
Diogenes, não vês que extremos são
Esses que segues, de mais alto estado?
Pois se de desprezar te prezas muito,
Ja pretendes do mundo fama e fruito.
Deixo agora Reis grandes, cujo estudo
He fartar esta sêde cubiçosa
De querer dominar e mandar tudo,
Com fama larga e pompa sumptuosa.
Deixo aquelles que tomão por escudo
De seus vicios e vida vergonhosa
A nobreza de seus antecessores,
E não cuidão de si que são peores.
Aquelle deixo, a quem do somno esperta
O grão favor do Rei que serve e adora,
E se mantẽe dest'aura falsa e incerta,
Que de corações tantos he senhora.
Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta
Por s'encher de thesouros de hora em hora,
Doentes desta falsa hydropesia,
Que quanto mais alcança, mais queria.
Deixo outras obras vãas do vulgo errado,
A quem não ha ninguem que contradiga,
Nem de outra cousa alguma he governado,
Que d'huma opinião e usança antiga. {213}
Mas pergunto ora a Cesar esforçado,
Ora a Platão divino, que me diga,
Este das muitas terras em que andou,
Aquelle de vencê-las, que alcançou?
Cesar dirá: Sou digno de memoria:
Vencendo povos varios e esforçados,
Fui Monarca do mundo; e larga historia
Ficará de meus feitos sublimados.
He verdade: mas esse mando e glória,
Lograste-o muito tempo? Os conjurados
Bruto e Cassio dirão que, se venceste,
Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.
Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo
Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
Só por ver e escrever em alto estilo
Da natural sciencia e muitas artes.
O tempo he breve, e queres consumi-lo,
Platão, todo em trabalhos? e repartes
Tão mal de teu estudo as breves horas,
Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?
Pois quanto des que vive ja apartada
A alma desta prisão terreste e escura;
Está em tamanhas cousas occupada,
Que da fama, que fica, nada cura.
E se o corpo terreno sinta nada,
O Cynico dirá se por ventura
No campo, onde lançado morto estava,
De si os cães, ou as aves enxotava.
Quem tão baixa tivesse a phantasia,
Que nunca em mores cousas a metesse,
Qu'em só levar seu gado á fonte fria, {214}
E mungir-lhe do leite que bebesse,
Quão bem-aventurado que sería!
Que por mais que a Fortuna revolvesse,
Nunca em si sentiria maior pena,
Que pezar-lhe de a vida ser pequena.
Veria erguer do sol a roxa face,
Veria correr sempre a clara fonte,
Sem imaginar a ágoa donde nace,
Nem quem a luz occulta no Horizonte.
Tangendo a frauta donde o gado pace,
Conheceria as hervas do alto monte,
Em Deos creria simples e quieto,
Sem mais especular algum secreto.
D'hum certo Trasilao se lê e escreve
Entre as cousas da velha antiguidade,
Que perdido grão tempo o siso teve
Por causa d'huma grave enfermidade;
E em quanto, de si fóra, doudo esteve,
Tinha por teima, e cria por verdade,
Qu'erão suas, das naos que navegavão,
Quantas no porto Píreo ancoravão.
Por hum Senhor mui grande se teria,
(Além da vida alegre que passava)
Pois nas que se perdião não perdia,
E das que vinhão salvas se alegrava.
Não tardou muito tempo, quando hum dia
Huncrito, seu irmão, que ausente estava,
Á terra chega; e vendo o irmão perdido,
Do fraternal amor foi commovido.
Aos Medicos o entrega, e com aviso
O faz estar á cura refusada. {215}
Triste! que por tornar-lhe o antigo siso
Lhe tira a doce vida descansada.
As hervas Apollineas d'improviso
O tornão á saude ja passada.
Sisudo Trasilao, ao charo irmão
Agradece a vontade, a obra não.
Porque despois de ver-se no perigo
Do trabalho a que o siso o obrigava,
E despois de não ver o estado antigo,
Que a louca presumpção lhe apresentava:
Oh inimigo irmão, com côr de amigo!
Para que me tiraste (suspirava)
Da mais quieta vida e livre em tudo,
Que nunca pôde ter nenhum sisudo?
Por qual Senhor algum eu me trocára,
Ou por qual algum Rei de mais grandeza?
Que me dava que o mundo se acabára,
Ou que a ordem mudasse a natureza?
Agora me he penosa a vida chara;
Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.
Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso
Que na doudice só consiste o siso.
Vêdes aqui, Senhor, bem claramente
Como a Fortuna em todos tẽe poder,
Senão só no que menos sabe e sente;
Em quem nenhum desejo póde haver.
Este se póde rir da cega gente;
Neste não póde nada acontecer;
Nem estara suspenso na balança
Do temor mao, da perfida esperança.
Mas se o sereno Ceo me concedêra {216}
Qualquer quieto, humilde e doce estado,
Onde com minhas Musas só vivêra,
Sem ver-me em terra alheia degradado;
E alli outrem ninguem me conhecêra,
Nem eu conhecêra outro mais honrado,
Senão a vós, tambem como eu contente;
Que bem sei que o serieis facilmente:
E ao longo d'huma clara e pura fonte,
Qu'em borbulhas nascendo, convidasse
Ao doce passarinho, que nos conte
Quem da chara consorte o apartasse;
Despois, cobrindo a neve o verde monte,
Ao gasalhado o frio nos levasse,
Avivando o juizo ao doce estudo,
Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.
Cantára-nos aquelle, que tão claro
O fez o fogo da árvore Phebêa,
A qual elle em estylo grande e raro
Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;
Tangêra-nos na frauta Sanazaro,
Ora nos montes, ora por a arêa;
Passára celebrando o Tejo ufano
O brando e doce Lasso Castelhano.
E comnosco tambem se achára aquella,
Cuja lembrança, e cujo claro gesto
N'alma somente vejo, porque nella
Está em essencia puro e manifesto;
Por alta influição de minha estrella
Mitigando o rigor do peito honesto,
Entretecendo rosas nos cabellos,
De que tomasse a luz o sol em vellos; {217}
E em quanto por Verão flores colhesse,
Ou por Inverno ao fogo accommodado,
O que de mi sentíra nos dissesse,
De puro amor o peito salteado;
Não pedíra então eu, que Amor me désse
Do insano Trasilao o doudo estado;
Mas que alli me dobrasse o entendimento,
Por ter de tanto bem conhecimento.
Mas por onde me leva a phantasia?