Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Acto Quarto.
SCENA I.
Jupiter, Alcmena e Sosea.
JUPITER.
Grão desconcêrto tẽe feito
Amphitrião com Alcmena!
Qualquer delles tẽe direito:
Eu sou o que venço o preito,
E ambos págão a pena.
Quero-me ir lá desfazer
Tão trabalhosa demanda,
Por nos tornarmos a ver;
Porque, emfim, quem muito quer
Com qualquer desculpa abranda.
E pois ja que a affeição
Ha de mudar tão asinha,
Quero ir alcançar perdão
Da culpa, que sendo minha,
Parece d'Amphitrião.
ALCMENA.
Parece que torna cá
Amphitrião, que ja se hia:
Não sei a que tornará.
Senão se lhe peza ja
Dos enganos que tecia.
JUPITER.
Senhora, não haja error
Que tantos males me faça, {358}
Porque se o contrário for,
Pequeno será o amor,
Que manencória desfaça.
E pois com tanta alegria
De tantos perigos vim,
Pezar-me-ha se achar no fim,
Que huma leve zombaria
Vos possa aggravar de mim.
ALCMENA.
Com palavras de deshonra
Não se ha de tratar quem ama;
Nem zombaria se chama,
Por exprimentar a honra,
Pôr em tal perigo a fama.
Bem tive eu para mim,
Que era aquillo experiencia.
JUPITER.
Errei no que commetti:
Bem me basta a penitencia
De quanto me arrependi.
E se fiz algum error,
Com que vosso amor se mude
De quem vo-lo tẽe maior;
Não exprimentei virtude,
Mas exprimentei amor.
Que se com caso tão vário
Folguei de vos agastar,
Foi amor accrescentar;
Porque ás vezes hum contrário
Faz seu contrário avisar.
Daqui vem, que a leve mágoa {359}
Firmeza e affeições augmenta,
Como bem se vê na frágoa,
Onde o fogo se accrescenta,
Borrifando-o com pouca ágoa.
Se hum mal grande se alevanta
N'hum coração que maltrata,
A affeição se desbarata;
Porque onde a ágoa he tanta
O fogo d'amor se mata.
E pois tive tal tenção,
Perdoae, Senhora, a culpa
Deste vosso coração.
ALCMENA.
Não se alcança assi perdão
D'erro que não tẽe desculpa.
JUPITER.
Ora pois assi tratais
Quem em tanto risco pôs
O amor que vós negais,
Eu m'ausentarei de vós
Onde mais me não vejais.
Que, pois desculpa não tem
Coração que tanto quer,
Vou-me; que não será bem
Que quem vós não podeis ver,
Que possa mais ver ninguem.
Se algum'hora meu cuidado
Vos der dor, em que pequena;
Peço-vos, pois fui culpado,
Que vos não peze da pena
De quem vos foi tão pezado. {360}
E despois que a desventura
Puzer este coração
Debaixo da sepultura,
As letras na pedra dura
Vossa dureza dirão.
Isto vos hei de dizer,
Que m'ensinou minha dor:
Se quizerdes leda ser,
Nunca exprimenteis amor
Em quem vo-lo não tiver.
Deixae-me ir; não me tenhais.
ALCMENA.
Amphitrião, não choreis!
Amphitrião!
JUPITER.
Que quereis,
Ou para que nomeais
Homem, que ver não podeis?
ALCMENA.
Amphitrião, s'eu causei
Com manencória pequena
Cousa, com que o magoei;
Eu quero cahir na pena
Dessa culpa que lhe dei.
JUPITER.
Sempre serei magoado
Se vossa má condição
Me não perdôa o passado.
ALCMENA.
Perdôo, e peço perdão
De lhe não ter perdoado. {361}
SOSEA.
No le perdone, Señora,
Hasta que con devocion
Tambien me pida perdon;
Que bien se me acuerda ahora
Que me ha llamado ladron.
JUPITER.
Sósea?
SOSEA.
Señor.
JUPITER.
Vae buscar
O Piloto Belferrão;
Dir-lhe-has, se desembarcar,
Que me parece razão
Que venha hoje cá cear.
SOSEA.
Si, Señor, voy á la hora.
JUPITER.