Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 46 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Acto Quarto.

 

 

SCENA I.

 

Jupiter, Alcmena e Sosea.

 

JUPITER.

Grão desconcêrto tẽe feito

Amphitrião com Alcmena!

Qualquer delles tẽe direito:

Eu sou o que venço o preito,

E ambos págão a pena.

Quero-me ir lá desfazer

Tão trabalhosa demanda,

Por nos tornarmos a ver;

Porque, emfim, quem muito quer

Com qualquer desculpa abranda.

E pois ja que a affeição

Ha de mudar tão asinha,

Quero ir alcançar perdão

Da culpa, que sendo minha,

Parece d'Amphitrião.

ALCMENA.

Parece que torna cá

Amphitrião, que ja se hia:

Não sei a que tornará.

Senão se lhe peza ja

Dos enganos que tecia.

JUPITER.

Senhora, não haja error

Que tantos males me faça, {358}

Porque se o contrário for,

Pequeno será o amor,

Que manencória desfaça.

E pois com tanta alegria

De tantos perigos vim,

Pezar-me-ha se achar no fim,

Que huma leve zombaria

Vos possa aggravar de mim.

ALCMENA.

Com palavras de deshonra

Não se ha de tratar quem ama;

Nem zombaria se chama,

Por exprimentar a honra,

Pôr em tal perigo a fama.

Bem tive eu para mim,

Que era aquillo experiencia.

JUPITER.

Errei no que commetti:

Bem me basta a penitencia

De quanto me arrependi.

E se fiz algum error,

Com que vosso amor se mude

De quem vo-lo tẽe maior;

Não exprimentei virtude,

Mas exprimentei amor.

Que se com caso tão vário

Folguei de vos agastar,

Foi amor accrescentar;

Porque ás vezes hum contrário

Faz seu contrário avisar.

Daqui vem, que a leve mágoa {359}

Firmeza e affeições augmenta,

Como bem se vê na frágoa,

Onde o fogo se accrescenta,

Borrifando-o com pouca ágoa.

Se hum mal grande se alevanta

N'hum coração que maltrata,

A affeição se desbarata;

Porque onde a ágoa he tanta

O fogo d'amor se mata.

E pois tive tal tenção,

Perdoae, Senhora, a culpa

Deste vosso coração.

ALCMENA.

Não se alcança assi perdão

D'erro que não tẽe desculpa.

JUPITER.

Ora pois assi tratais

Quem em tanto risco pôs

O amor que vós negais,

Eu m'ausentarei de vós

Onde mais me não vejais.

Que, pois desculpa não tem

Coração que tanto quer,

Vou-me; que não será bem

Que quem vós não podeis ver,

Que possa mais ver ninguem.

Se algum'hora meu cuidado

Vos der dor, em que pequena;

Peço-vos, pois fui culpado,

Que vos não peze da pena

De quem vos foi tão pezado. {360}

E despois que a desventura

Puzer este coração

Debaixo da sepultura,

As letras na pedra dura

Vossa dureza dirão.

Isto vos hei de dizer,

Que m'ensinou minha dor:

Se quizerdes leda ser,

Nunca exprimenteis amor

Em quem vo-lo não tiver.

Deixae-me ir; não me tenhais.

ALCMENA.

Amphitrião, não choreis!

Amphitrião!

JUPITER.

Que quereis,

Ou para que nomeais

Homem, que ver não podeis?

ALCMENA.

Amphitrião, s'eu causei

Com manencória pequena

Cousa, com que o magoei;

Eu quero cahir na pena

Dessa culpa que lhe dei.

JUPITER.

Sempre serei magoado

Se vossa má condição

Me não perdôa o passado.

ALCMENA.

Perdôo, e peço perdão

De lhe não ter perdoado. {361}

SOSEA.

No le perdone, Señora,

Hasta que con devocion

Tambien me pida perdon;

Que bien se me acuerda ahora

Que me ha llamado ladron.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Señor.

JUPITER.

Vae buscar

O Piloto Belferrão;

Dir-lhe-has, se desembarcar,

Que me parece razão

Que venha hoje cá cear.

SOSEA.

Si, Señor, voy á la hora.

JUPITER.