Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 22 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Oitavas.

 

 

GLOSA DO SONETO 14.

 

Despois que a clara Aurora a noite escura

Com novo resplandor foi desfazendo,

E Phebo por os montes e espessura

Os seus dourados raios estendendo;

Se buscava nos valles a verdura

O manso gado a luz serena vendo,

Quando a férvida sésta ja abrazava,

Todo animal da calma repousava.

Ja por fugir do sol o fogo ardente,

As sombras os rebanhos vão buscando;

Os tenros cabritinhos juntamente

Apos as mansas mães hião saltando;

Tangendo as suas frautas docemente

Os pastores, estavão enganando

A grã chamma solar qu'então ardia;

Só Liso o ardor della não sentia.

Tristes lembranças tanto o traspassavão,

Que a dura sésta nelles só passava;

O tempo qu'em prazer outros gastavão,

Em celebrar seu mal elle o gastava;

As festas que com jogos celebravão,

Elle com suspirar as celebrava: {229}

Nada buscava mais, mais não queria

Que o repouso do fogo em qu'elle ardia.

Os repetidos jogos dos pastores,

As lutas entre a rama repetidas,

Em nada lhe divertem suas dores;

Mas antes n'alegria as vê crescidas.

Como o repouso roubão os amores

Ás almas que para elles são nascidas,

Elle, todo o repouso qu'esperava,

Consistia na Nympha que buscava.

Com o chôro, que ja corria em fio

Por o pallido rosto, augmenta as fontes,

Que levão ágoa estranha ao claro rio

Que os valles vai regando entre altos montes.

Com suspiros a quem o ecco pio

Responde de apartados horizontes,

Os ventos parecia qu'enfreava,

Os montes parecia que abalava.

Que ás queixas de seus doces pensamentos

Se movessem os montes mais constantes,

Se parassem os mais veloces ventos,

Qu'estavão, que corrião circumstantes,

Bem se devia á dor de seus tormentos,

E inda que fosse em peitos de diamantes;

Que hum peito de diamante abrandaria

O triste som das mágoas que dizia.

Porém elle as dizia a outro peito,

Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:

A fé lh'encarecia, a que sogeito

O tinha em pena eterna o amor puro;

Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, {230}

Quanto mais offendido, mais seguro:

A Nympha mais segura tudo ouvia,

Mas nada o duro peito commovia.

As lástimas aqui tanto crescêrão,

Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,

Tigres nos seios seus mover puderão,

E pedras nos seus cumes abrandárão.

Mas se no peito as tristes vozes dérão

Daquella fera humana que buscárão,

Elle d'as admittir se retirava;

Que na vontade de outro pôsto estava.

Desenganado ja da triste sorte,

De que mal fino amor se desengana,

Com a desperança só de sua morte

Aquellas penas últimas engana.

Deixando na espessura o claro Norte,

Para elle de outra luz mais soberana,

A hum valle aberto então sahir procura,

Cansado ja de andar por a espessura.

Deixando as suas cabras que pascessem

Naquelle verde prado as frescas flores;

Porque os Satyros leves o soubessem,

E os sylvestres Faunos amadores;

Tambem porque os pastores o entendessem,

Todo o processo e fim de seus amores

Escreveo (sem em nada haver mudança)

No tronco d'huma faia por lembrança.

Por lembrança no tronco d'huma faia,

Que vai sahindo ao ceo de puro altiva

Na verde, prateada e aurea praia,

Por onde o claro Tejo se deriva; {231}

Porque tambem ao ceo sua dor saia

Sôbre aquella corrente fugitiva,