Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Oitavas.
GLOSA DO SONETO 14.
Despois que a clara Aurora a noite escura
Com novo resplandor foi desfazendo,
E Phebo por os montes e espessura
Os seus dourados raios estendendo;
Se buscava nos valles a verdura
O manso gado a luz serena vendo,
Quando a férvida sésta ja abrazava,
Todo animal da calma repousava.
Ja por fugir do sol o fogo ardente,
As sombras os rebanhos vão buscando;
Os tenros cabritinhos juntamente
Apos as mansas mães hião saltando;
Tangendo as suas frautas docemente
Os pastores, estavão enganando
A grã chamma solar qu'então ardia;
Só Liso o ardor della não sentia.
Tristes lembranças tanto o traspassavão,
Que a dura sésta nelles só passava;
O tempo qu'em prazer outros gastavão,
Em celebrar seu mal elle o gastava;
As festas que com jogos celebravão,
Elle com suspirar as celebrava: {229}
Nada buscava mais, mais não queria
Que o repouso do fogo em qu'elle ardia.
Os repetidos jogos dos pastores,
As lutas entre a rama repetidas,
Em nada lhe divertem suas dores;
Mas antes n'alegria as vê crescidas.
Como o repouso roubão os amores
Ás almas que para elles são nascidas,
Elle, todo o repouso qu'esperava,
Consistia na Nympha que buscava.
Com o chôro, que ja corria em fio
Por o pallido rosto, augmenta as fontes,
Que levão ágoa estranha ao claro rio
Que os valles vai regando entre altos montes.
Com suspiros a quem o ecco pio
Responde de apartados horizontes,
Os ventos parecia qu'enfreava,
Os montes parecia que abalava.
Que ás queixas de seus doces pensamentos
Se movessem os montes mais constantes,
Se parassem os mais veloces ventos,
Qu'estavão, que corrião circumstantes,
Bem se devia á dor de seus tormentos,
E inda que fosse em peitos de diamantes;
Que hum peito de diamante abrandaria
O triste som das mágoas que dizia.
Porém elle as dizia a outro peito,
Mais, que diamante, inexpugnavel, duro:
A fé lh'encarecia, a que sogeito
O tinha em pena eterna o amor puro;
Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, {230}
Quanto mais offendido, mais seguro:
A Nympha mais segura tudo ouvia,
Mas nada o duro peito commovia.
As lástimas aqui tanto crescêrão,
Que s'em montes de Hircania s'escuitárão,
Tigres nos seios seus mover puderão,
E pedras nos seus cumes abrandárão.
Mas se no peito as tristes vozes dérão
Daquella fera humana que buscárão,
Elle d'as admittir se retirava;
Que na vontade de outro pôsto estava.
Desenganado ja da triste sorte,
De que mal fino amor se desengana,
Com a desperança só de sua morte
Aquellas penas últimas engana.
Deixando na espessura o claro Norte,
Para elle de outra luz mais soberana,
A hum valle aberto então sahir procura,
Cansado ja de andar por a espessura.
Deixando as suas cabras que pascessem
Naquelle verde prado as frescas flores;
Porque os Satyros leves o soubessem,
E os sylvestres Faunos amadores;
Tambem porque os pastores o entendessem,
Todo o processo e fim de seus amores
Escreveo (sem em nada haver mudança)
No tronco d'huma faia por lembrança.
Por lembrança no tronco d'huma faia,
Que vai sahindo ao ceo de puro altiva
Na verde, prateada e aurea praia,
Por onde o claro Tejo se deriva; {231}
Porque tambem ao ceo sua dor saia
Sôbre aquella corrente fugitiva,