Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 9 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia IV.

Os trabalhos do sol, que não repousa;

E porque nos dá lũa a luz alhêa,

Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:

E como tão depressa o ceo rodêa;

E como hum só os outros traz comsigo;

E se he benigna ou dura Cytherêa.

Bem mal póde entender isto que digo,

Quem ha de andar seguindo o fero Marte;

Que sempre os olhos traz em seu perigo.

Porém seja, Senhor, de qualquer arte,

Pois postoque a Fortuna possa tanto,

Que tão longe de todo o bem me aparte;

Não poderá apartar meu duro canto

Desta obrigação sua, em quanto a morte

Me não entrega ao duro Radamanto;

Se para tristes ha tão leda sorte. {172}

 

ELEGIA IV.

 

Despois que Magalhães teve tecida

A breve historia sua, que illustrasse

A Terra Santa Cruz, pouco sabida;

Imaginando a quem a dedicasse,

Ou com cujo favor defenderia

Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;

Tendo nisto occupada a phantasia,

Lhe sobreveio hum somno repousado,

Antes que o sol abrisse o claro dia.

Em sonhos lhe apparece todo armado

Marte, brandindo a lança furiosa,

Com que fez quem o vio todo enfiado;

Dizendo em voz pezada e temerosa:

Não he justo que a outrem se offereça

Obra alguma que possa ser famosa,

Senão a quem por armas resplandeça

No largo inundo com tal nome e fama,

Que louvor immortal sempre mereça.

Disse assi: quando Apollo, que da flama

Celeste guia os carros, de outra parte

Se lhe presenta, e por seu nome o chama,

Dizendo: Magalhães, postoque Marte

Com seu terror t'espante, todavia

Comigo deves só de aconselhar-te.

Hum Varão sapiente, em quem Thalia

Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,

Defender tuas obras poderia. {173}

He justo que a escriptura na prudencia

Ache só defensão; porque a dureza

Das armas he contrária da eloquencia.

Assi disse: e tocando com destreza

A cithara dourada, começou

A mitigar de Marte a fortaleza.

Mas Mercurio, que sempre costumou

Pacificar porfias duvidosas,

Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,

Determina compor as perigosas

Opiniões dos deoses inimigos

Com suaves razões e ponderosas.

E disse: Bem sabemos dos antigos

Heroes, e dos modernos, que provárão

De Belona os gravissimos perigos,

Como tão bem mil vezes concordárão

As armas com as letras; porque as Musas

A muitos na milicia acompanhárão.

Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas

Guerras o estudo deixão grande espaço;

Que as armas jamais delle são escusas.

N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;

Aquella rege e ensina; est'outra fere:

Mais co'o saber se vence, que co'o braço.

Pois, logo, hum Varão grande se requere,

Que com teus dões (Apollo) illustre seja,

E de ti (Marte) palma e glória espere.

Este vos darei eu, em quem se veja

Saber e esfôrço no sereno peito,

Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.

Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, {174}

Todas nove nos braços o tomárão,

Criando-o co'o seu leite no seu leito:

As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;

Inclinação divina lh'influírão

Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.

Daqui nos exercidos o seguírão

Das armas no Oriente, onde primeiro

Hum soldado gentil instituírão.

Alli taes provas fez de Cavalleiro,

Que, de Christão magnanimo e seguro,

A si mesmo venceo por derradeiro.

Despois, ja Capitão forte e maduro,

Governando toda a Aurea Chersoneso,

Lhe defendeo co'o braço o debil muro.

Porque vindo a cercá-la todo o pêso

Do poder dos Achens, que se sustenta

De alheio sangue, em furia todo acceso;

Este só que a ti, Marte, representa,

O castigou de sorte, que vencido

De ter quem vivo fique se contenta.

E logo qu'este Reino defendido

Deixou, segunda vez com maior glória

Para o ir governar foi elegido.

Mas não perdendo ainda da memoria

Os amigos o seu govêrno brando,

Os imigos o damno da victoria;

Huns com amor intrinseco esperando

Estão por elle, e os outros congelados

O estão com frio medo receando.

Vêde pois se serião debellados

Por seu claro valor, se lá tornasse, {175}

E dos Indicos mares degradados.