Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 21 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Epistola IV.

A levantar a Deos o coração,

Crendo bem que as que vós despedireis,

No sangue Sarraceno as tingireis.

Ascanio, (se trazer me he concedido

Entre santos exemplos hum profano)

Rei do Imperio, despois tão conhecido,

De Roma, e só reliquia do Troiano,

Vingou com setta e ânimo atrevido {225}

As soberbas palavras de Numano;

E logo foi dalli remunerado

Com louvores de Apollo, e celebrado.

Assi vós, Rei, que fostes segurança

De nossa liberdade, e que nos dais

De grandes bens certissima esperança;

Nos costumes, e aspecto que mostrais,

Concebemos segura confiança

Que Deos, a quem servis e venerais,

Vos fara vingador dos seus revéis,

E os premios vos dará que mereceis.

Estes humildes versos, que pregão

São destes vossos Reinos com verdade,

Recebei com benigna e Real mão,

Pois he devida a Reis benignidade.

Tenhão (se não merecem galardão)

Favor sequer da Regia Magestade:

Assi tenhais de quem ja tendes tanto,

Com o nome e reliquia, favor santo.

 

EPISTOLA IV.

Senhora, s'encobrir por algum'arte

Pudera esta occasião de meu tormento,

Não creias que chegára a declarar-te

Este meu perigoso pensamento.

Mas por mais que te offenda, não sou parte

No crime de tamanho atrevimento: {226}

Elle he d'amor; e delle fui forçado

A que te declarasse o meu cuidado.

Se merece castigo a confiança

Com que descubro agora o que padeço,

Aqui prompto me tens; toma a vingança

Que por tão grave culpa te mereço.

Bem me podes negar toda esperança,

Mas eu não desistir deste comêço;

Porque tempo e Fortuna não são parte

Para deixar hum'hora só de amar-te.

Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,

Descansem neste bem com alegria,

Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,

Quanto, estando sem vê-los, se perdia.

Que glória querem mais, se a ver chegárão

Aquella pura luz que vence ao dia?

Qual mor bem ha no mundo que querer-te,

Se não ha mais que ver despois de ver-te?

Minhas dores mortaes, bella Senhora,

Tirárão a virtude ao soffrimento;

E fazendo-se mais em qualquer hora,

Levando vão traz ti meu pensamento:

Porém soberbos vejo desde agora,

Por a causa gentil de seu tormento,

Minha alma, meu desejo, meu sentido,

Porque á tua belleza se hão rendido.

A par de tua rara formosura

Se desconhece o mor merecimento;

A tua claridade torna escura

Do sol a clara luz em hum momento.

Se Zeuxis ao formar bella figura, {227}

A vista em ti pudera pôr attento,

Mais alto original houvera achado

Para admirar o mundo co'o traslado.

Aquelles qu'escrevêrão mil louvores

De formosura, graça e gentileza,

Todos forão, Senhora, huns borradores

De tua perfeitissima belleza.

Agora se vê claro em teus primores

Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;

E qu'erão os seus cantos prophecias

Do que havias de ser em nossos dias.

Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta

Em mi o não render-te amante a vida,

E se deixar d'amar glória tão alta

Era digno da pena mais crescida.

Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta

Co'o castigo de culpa assi atrevida:

E quando della caia, maior glória

Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. {228}