Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Epistola IV.
A levantar a Deos o coração,
Crendo bem que as que vós despedireis,
No sangue Sarraceno as tingireis.
Ascanio, (se trazer me he concedido
Entre santos exemplos hum profano)
Rei do Imperio, despois tão conhecido,
De Roma, e só reliquia do Troiano,
Vingou com setta e ânimo atrevido {225}
As soberbas palavras de Numano;
E logo foi dalli remunerado
Com louvores de Apollo, e celebrado.
Assi vós, Rei, que fostes segurança
De nossa liberdade, e que nos dais
De grandes bens certissima esperança;
Nos costumes, e aspecto que mostrais,
Concebemos segura confiança
Que Deos, a quem servis e venerais,
Vos fara vingador dos seus revéis,
E os premios vos dará que mereceis.
Estes humildes versos, que pregão
São destes vossos Reinos com verdade,
Recebei com benigna e Real mão,
Pois he devida a Reis benignidade.
Tenhão (se não merecem galardão)
Favor sequer da Regia Magestade:
Assi tenhais de quem ja tendes tanto,
Com o nome e reliquia, favor santo.
EPISTOLA IV.
Senhora, s'encobrir por algum'arte
Pudera esta occasião de meu tormento,
Não creias que chegára a declarar-te
Este meu perigoso pensamento.
Mas por mais que te offenda, não sou parte
No crime de tamanho atrevimento: {226}
Elle he d'amor; e delle fui forçado
A que te declarasse o meu cuidado.
Se merece castigo a confiança
Com que descubro agora o que padeço,
Aqui prompto me tens; toma a vingança
Que por tão grave culpa te mereço.
Bem me podes negar toda esperança,
Mas eu não desistir deste comêço;
Porque tempo e Fortuna não são parte
Para deixar hum'hora só de amar-te.
Ja que ver-te os meus olhos alcançárão,
Descansem neste bem com alegria,
Pois ja com ver os teus tanto ganhárão,
Quanto, estando sem vê-los, se perdia.
Que glória querem mais, se a ver chegárão
Aquella pura luz que vence ao dia?
Qual mor bem ha no mundo que querer-te,
Se não ha mais que ver despois de ver-te?
Minhas dores mortaes, bella Senhora,
Tirárão a virtude ao soffrimento;
E fazendo-se mais em qualquer hora,
Levando vão traz ti meu pensamento:
Porém soberbos vejo desde agora,
Por a causa gentil de seu tormento,
Minha alma, meu desejo, meu sentido,
Porque á tua belleza se hão rendido.
A par de tua rara formosura
Se desconhece o mor merecimento;
A tua claridade torna escura
Do sol a clara luz em hum momento.
Se Zeuxis ao formar bella figura, {227}
A vista em ti pudera pôr attento,
Mais alto original houvera achado
Para admirar o mundo co'o traslado.
Aquelles qu'escrevêrão mil louvores
De formosura, graça e gentileza,
Todos forão, Senhora, huns borradores
De tua perfeitissima belleza.
Agora se vê claro em teus primores
Qu'em ti s'esmerou mais a natureza;
E qu'erão os seus cantos prophecias
Do que havias de ser em nossos dias.
Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta
Em mi o não render-te amante a vida,
E se deixar d'amar glória tão alta
Era digno da pena mais crescida.
Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta
Co'o castigo de culpa assi atrevida:
E quando della caia, maior glória
Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia. {228}