Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 11 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia VI.

Oh que doce fingir! que doce cacha!

Assi que ponho ja no soffrimento

A parte principal de minha glória,

Tomando por melhor todo tormento.

Se sinto tanto bem só co'a memoria {177}

De ver-vos, linda Dama, vencedora;

Que quero eu mais que ser vossa victoria?

Se tanto a vossa vista mais namora,

Quanto eu sou menos para merecer-vos;

Que quero eu mais que ter-vos por senhora?

Se procede este bem de conhecer-vos,

E consiste o vencer em ser vencido,

Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?

S'em meu proveito faz qualquer partido,

Só na vista d'huns olhos tão serenos,

Que quero eu mais ganhar que ser perdido?

Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,

A merecer não chegão seu tormento,

Que quero eu mais, que o mais não seja menos?

A causa, pois, m'esforça o soffrimento;

Porque, a pezar do mal que me resiste,

De todos os trabalhos me contento;

Que a razão faz a pena alegre, ou triste.

 

ELEGIA VI.

Entre rusticas serras e fragosas,

Compostas d'asperissimos rochedos,

De salitradas lapas cavernosas;

Onde gretando os humidos penedos

Orvalhados de neve branca e fria,

Brotando estão de si mil arvoredos;

Huma floresta fez verde e sombria

A natureza experta, que rodeia, {178}

Como elevado muro, a serrania.

Neste formoso sítio se recreia

O lascivo Cupido entre as boninas,

Que sempre hum brando Zephyro meneia.

Da candida cecem, das clavellinas,

Da salva, mangerona e das mosquetas,

Das rubicundas flores hyacinthinas,

Muitas capellas tece, que de setas

Lhe servem contra peitos de donzellas,

A quem d'inveja traz sempre inquietas.

Não são d'huma só côr as flores bellas;

Que humas esmalta verde, outras rosado,

Entre as azues crescendo as amarellas.

Dos agrestes loureiros rodeado,

Faz o valle huma sombra deleitosa,

Quando apparece o sol mais levantado.

E por cima da relva bem graciosa

As gottas de crystal quasi imitando

Estão do aljofar puro a luz formosa.

As crystallinas fontes, que brotando

Por entre alvos seixinhos se derivão,

Das árvores os troncos vão banhando.

Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão

O formoso pastor que se perdeo,

Preso das falsas mostras que o captivão,

Cresce a por cuja causa s'esqueceo

A linda Cytherêa de Vulcano,

Quando presa d'Amor se lhe rendeo.

Na brancura do rosto soberano,

Inda as crueis feridas apparecem

Do javali cerdoso e deshumano. {179}

As rosas que de sangue resplandecem,

As candidas boninas marchetadas,

Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.

Do matutino orvalho rociadas,

As flores rutilantes e cheirosas

Estão como por cima prateadas.

Os humidos botões abrindo as rosas,

Que os agudos espinhos vão cercando,

No prado se vem rindo deliciosas.

A mellifera abelha, susurrando

Por cima das boninas que rodeia,

Está co'o som das ágoas concertando.

Do trémulo regato a branda areia

De jacinthos se cobre e de vieiras,

Qu'encrespão da corrente a branca veia.

Os álamos s'abração co'as videiras

De sorte, que s'enxérga escassamente

Se são os cachos seus, se das parreiras;

E pendendo por cima da corrente,

Outro formoso bosque debuxando

Estão no fundo della brandamente.

Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando

Do perfido cunhado a crueldade,

Mágoas em melodias transformando.

A solitaria rôla com soidade

Desfaz o rouco peito, ja cansada

De que não move a morte a piedade.

A domestica Progne anda banhada

No sangue de seus filhos, em vingança

Da triste Philomela profanada.

De competir co'o merlo não descança {180}

O garrulo calhandro, qu'enrouquece

Por não perder callado a confiança.

Em quanto o pobre ninho ajunta e tece

O sonoro canario, modulando

Engana a grave pena que padece.

Alguns versos s'escuta derramando

O vário pintasirgo, tão saudaveis,

Que produzem memorias d'amor brando.

Por os direitos troncos ha notaveis

Epigrammas; alguns d'antigua historia,

Que contra o duro tempo são duraveis.

Huns de cruel tormento, outros de glória,

Conforme a liberdade do qu'escreve,

Estranhos casos mostrão á memoria.

O que neste lugar contente esteve,

Contente declarou seu pensamento,

E os prazeres tambem que nelle teve.

Mas outros, declarando o sentimento

Que dos olhos destila tristes ágoas,

Deixárão mil lembranças de tormento.

Abrazando-se alguns em vivas frágoas,

Escrevêrão do bosque em muitas partes

Gostos d'Amor agora, agora mágoas.

Porque, cruel menino, o premio partes

A quem serás[2] tyranno se lho negas, {181}

E injusto e desigual, se lho repartes?

Porqu'enganas as almas que tão cegas

Arrastas apos ti, de error captivas?

Porque a crueis rigores as entregas?

Para que contra hum peito assi t'esquivas,

Que humilde se sujeita a teu cuidado,

Com enganos de sombras fugitivas?

Levas, como a menino, hum pobre a nado,

N'huma apparencia falsa embevecido,

Quando co'os braços corta o mar inchado.

Querendo-se tornar, vê-se perdido;

Ja grita que se affoga; e tu zombando,

Da praia entre os penedos escondido!

O triste, que conhece ir-se affogando,

No meio da arriscada zombaria

Por divino soccorro está clamando.

Mas eu de que m'espanto, se dizia

Hum sabio que d'enganos se temesse

O que tomasse a hum cego tal por guia?

Nunca nelle a firmeza permanece;

Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;

Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.

Anda co'os corações sempre em hum jôgo;

Humas vezes os faz de pedra fria,

Outras os faz de neve, outras de fogo.

Tornando ao bosque meu que descrevia,

Despois de ter contado da frescura

Que nelle tão pomposa apparecia,

Referir quero agora huma aventura

Que nelle ao vão Narciso aconteceo,

Digna de se chorar com mágoa pura. {182}

Castigo foi que o moço mereceo

Por se mostrar esquivo com aquella,

Qu'em viva pedra Juno converteo.

Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,

Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,

Quando ella mais se abraza, mais congela.

E quando a fraca Nympha mais de siso

Mostrava hum signal certo de firmeza,

Então se provocava o moço a riso.

Ja d'huma profundissima tristeza

A descora o rigor que a consumia.

Como diz desfavor mal com belleza!

O gelado pastor folgava e ria;

Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,

Por não a contentar s'entristecia.

He tal o seu rigor, que não consente

Que seja o gôsto proprio festejado;

Antes disso se mostra descontente.

Mas o cego Cupido, d'affrontado,

Em vingança da fé que desprezou,

Fez que fosse de si mesmo enganado.

Casualmente hum dia se chegou

A beber n'huma fonte crystallina,

Que de si nova sêde lhe causou.

Vendo a sua figura peregrina

Que a fonte dentro em si representava,

Se perdeo por imagem tão divina.

Como ja, d'enlevado, não cuidava

Nos enganos que a sombra lhe fazia,

Vendo o formoso rosto, suspirava.

Por as avaras ágoas se metia; {183}

E quanto mais molhava os tenros braços,

Então mais vivamente o fogo ardia.

Vendo-se assi prender em duros laços,

Ao sentimento obriga a paciencia,

Dando, fóra de si, ao vento abraços.

Embevecido todo n'apparencia,

Sem saber de cuidado o que sentia,

Não fez ao doce engano resistencia.

Ao ver-se longe mais, mais perto via

O peregrino gesto; e se chegava,

Então para mais longe lhe fugia.

Vendo, emfim, como em tudo o remedava

Cahio no torpe engano que tivera,

A tempo que de si ja preso estava.

A belleza que a tantas morte dera,

De si mesma se abraza e se captiva.

Quão longe então de si ver-se quizera!

Ella se abranda propria; ella se esquiva;

E sendo ella somente a que se amava,

Ella se chama ingrata e fugitiva.

A formosura, pois, que namorava,

Com tal difficuldade era seguida,

Qu'estando dentro em si, mui longe estava.

A solitaria Nympha, qu'escondida

Ja nas cavernas concavas se via,

Dos males que lhe ouvio foi commovida.

Das namoradas mágoas que dizia

O namorado moço, ella somente

Os ultimos accentos repetia.

Elle vendo-se estar alli presente,

As crystallinas ágoas accusava {184}

De que ellas o fazião descontente.

Outras vezes á fonte, quando a olhava,

Ja cego, e sem juizo, agradecia

A figura que dentro lhe mostrava.

Mas vendo qu'ella em nada se dohia

De seu grave tormento, grita e chora.

Quanto erra quem de sombras se confia!

Ja lhe pede que saia para fóra.

Ignorando que sempre fóra esteve

A belleza que nelle proprio mora.

Despois que longo espaço se deteve

Nestes queixumes seus tão lastimosos,

Que com tão longo ser, julgou por breve;

Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,

Do valle se despede e da espessura,

Dando soluços da alma vagarosos.

Entregue na vontade da ventura,

Ou, por melhor dizer, de seus enganos,

Ao centro se arrojou da fonte pura.

Dest'arte feneceo em tenros anos

Narciso, dando exemplo á formosura

De que tema, se he tal, tambem seus danos.

Sentimento mostrou da sorte dura

O namorado Jupiter, mudando

Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.

Aquellas claras ágoas rodeando,

Onde por seus amores se perdeo,

Está despois da morte acompanhando.

Tanto no seu engano procedeo,

Que não sabe na morte inda apartar-se

Dos erros que na vida commetteo. {185}

Bem póde o coração desenganar-se,

Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,

Não costuma na morte resfriar-se.