Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 24 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

A Santa Ursula.

Da Lusitana gente se perdeo;

E do grão Sebastião toda a grandeza

Irreparavelmente se abateo;

Cá donde algum mentir não he baixeza,

E os meritos esmola (assi cresceo

Da cobiça mortal a semrazão)

Co'o esfôrço e saber, pedindo vão.

Ás portas da cobiça e da vileza

Estes netos de Agar estão sentados

Em bancos de torpissima riqueza,

Todos de tyrannia marchetados.

He do feio Alcorão summa a largueza

Que tẽe para que sejão perdoados

De quantos erros commettendo estão

Cá neste escuro cáos de confusão.

Cumprindo o curso estou da natureza,

Illustre Dama, neste labyrintho;

Mas quem usa comigo mais crueza,

He tua condição, que n'alma sinto.

Acabe-se algum dia tal tristeza,

E este sentido mal qu'em versos pinto:

E pois n'alma he sentido e coração,

Ve se m'esquecerei de ti, Sião. {234}

 

A SANTA URSULA.

 

D'huma formosa virgem desposada,

Que d'outras onze mil, tambem formosas,

Entrou no claro Olympo acompanhada,

Com corôas de lyrios e de rosas;

De Christo Esposo seu tão namorada,

Que delle as quiz fazer todas esposas;

Amor, vida e martyrio cantar quero,

Fiado no favor que della espero.

Alcança, Ursula bella, (que diante

De tão bello esquadrão foste por guia)

De teu suave Amor, que de ti cante

O seu amor que no teu peito ardia.

Meu verso para ti mais se levante,

Ó Christifera, ó heroica companhia;

Tanto se mostre aqui mais soberano,

Quanto o divino Amor excede o humano.

E vós, unica Mãe e Virgem pura,

Pois sois das que tal ordem escolhêrão,

Que fostes, sois, sereis guarda segura

Da pureza que a Deos offerecêrão;

Neste canto me dae melhor ventura

Do que atégora as Musas vãas me derão:

Vossas servas serão de mi servidas,

Cantadas suas mortes, suas vidas.

Serenissima Infante, produzida

Do grão Tronco Real, sublime Planta;

No titulo, nas obras e na vida, {235}

Retrato natural de Ursula Santa,

Desta virgem, tambem de Reis nascida,

Ouvi com ledo rosto o que se canta;

Dae o sentido hum pouco a tal sogeito:

Não lhe tire seu preço o meu defeito.

No tempo que Ciriáco se sentava

Na Cadeira de Pedro pescador,

De que com sãa doutrina apascentava

As Ovelhas de Christo, Bom Pastor;

Teve Bretanha hum Rei, que professava

A Lei que deo no mundo o Redemptor,

Justo e temente ao Ceo, pio e devoto,

Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.

De virtudes hum novo exemplo e raro,

Em idade e belleza florecia

Ursula, por quem Noto era mais claro,

Que por todo o poder que possuia;

Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro,

Com quem todas as graças repartia;

Prudente, honesta e docta a maravilha,

De tão ditoso pae ditosa filha.

Aquella que por o ar com ligeireza

As pennas de mil azas abre e cerra,

E que com velocissima presteza

Com outros tantos pés corre por terra;

Aquella, que de sua natureza

Não cuida em quanto diz se acerta ou erra,

E d'huma em outra boca se derrama:

Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;

Hia por todo o mundo divulgando

Extremos desta virgem soberana, {236}

Aquella formosura celebrando

Com que Amor cego a tanta vista engana:

Mais hia a d'alma sua publicando,

Porqu'era mais divina do que humana:

Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto,

Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.

Ouvidos seus louvores, muitas vezes

Desejou desta virgem fazer nora

Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes,

Idolatras então, cegos agora.

Ó povo cego e leve! as torpes fezes

Aparta do ouro puro e lança fóra,

Torna-te ao teu pastor, perdido gado!

Ólha que vás sem elle mal guiado.

Hum filho deste Rei (de quem dizia

Que ser de Ursula sogro desejava)

Movido do rumor que della ouvia,

Ja dentro no seu peito a namorava.

Alli seu amor, delle, lhe offrecia;

Alli por o amor della suspirava.

Suspira elle por ella; ella suspira

Tambem por outro amor que nunca vira.

Mandou o Rei Inglez Embaixadores

Com pompa Regia e lustre sumptuoso,

(Do grande Reino seu grandes Senhores)

A Noto, Rei não tanto poderoso.

Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores

Ardia toda do celeste Esposo)

Para esposa do filho, que sabia

Que ja d'amores della todo ardia.

O Rei Bretão se achava descontente {237}

Com a nova embaixada de Inglaterra:

Receia que se nella não consente,

O gentio lhe mova cruel guerra:

Porque sendo mais rico e mais potente,

Assi no largo mar, como na terra,

Quando desprezos visse de seu rôgo,

Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.

Sôbre este não errado pensamento

Do medo de perder seu senhorio,

Novo discurso tinha e novo intento,

Com que se achava mais medroso e frio.

Estranhava o fazer ajuntamento

Da catholica filha co'hum gentio;

Pois nem a Lei de Christo o permittia,

Nem Ursula fiel o admittiria.

Estando o pae em tal angústia pôsto,

Divinamente a filha ja inspirada,

Lhe assegurava com sereno rosto

Que consentir podia na embaixada;

Dizendo que se o Inglez levava gôsto

D'ella com seu herdeiro ser casada,

Primeiro lhe mandasse dez donzellas,

Do Reino as mais illustres, as mais bellas.

Que mil daria a cada virgem destas,

E que a ella outras mil tambem daria,

Todas de claro sangue, e em vista honestas.

(Dest'arte a conta de onze mil fazia)

Que por trez annos dilação nas festas,

Além do ja pedido, lhe pedia;

E naos e mantimentos, porque todas

Fossem com ella a Roma antes das bodas. {238}

Alli sua pureza e virgindade

Queria com solemne e sacro voto

Consagrar á divina Potestade,

Que o ceo e a terra fez de proprio moto.

E que deixasse a vãa gentilidade

Seu filho, para genro ser de Noto,

Para que neste espaço doutrinado

Fosse na Fé de Christo, e baptizado.

Com estas condições Ursula disse

Ao charo pae, que, a ser dellas contente,

Podia responder; e despedisse

A proposta daquelle Rei potente:

Ou porque ouvindo-as elle desistisse,

Podendo-se acceitar difficilmente;

Ou porque, quando as virgens concedesse,

Comsigo a seu Senhor onze mil désse.

Oh Divino saber, quão soberano

Conselho he sempre o teu! quão remontado!

Oh quanto o mor saber te cede humano,

Por mais que de razões vá mais ornado!

Ja dos idolos deixa o cego engano

O Principe, da virgem namorado;

Ja terno pede ao pae quanto ella pede;

Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.

Ja para ti, ó virgem bella e branda,

Com huma singular velocidade,

Juntar se via d'huma e d'outra banda

De feminil nobreza tenra idade.

As naos apparelhar o Rei ja manda;

Ja nellas se recolhe a Virgindade; {239}

Ja dão para Bretanha ao vento velas.

O coração do noivo vai com ellas.

Ja vem a tomar porto onde esperava

Ursula alvoroçada em grã maneira;

Que para as receber alli se achava,

Como senhora não, mas companheira.

Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava,

A de Christo quão pura e verdadeira.

Ja se baptiza huma e outra Dama;

Damas Ursula ja do ceo lhes chama.

A Fama, que não sabe repousar,

Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha;

A gente que concorre não tẽe par,

Por ver a nunca vista maravilha.

Outros vem por servir e acompanhar

A Virgem de Rei nora, de Rei filha.

Movem-se muitos Bispos de Bretanha;

Pantalo em vida e morte os acompanha.

Por ti, deixando o Reino, co'a familia

E quatro filhas suas, s'embarcou,

Juliana, Victoria, Aurea, Babilia;

(Hum filho tinha mais que mais levou)

Gerasina, Rainha de Sicilia,

E com devido amor te acompanhou;

Qu'he justo que comtigo vão Rainhas,

Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.

Ja se partem as bellas peregrinas,

As mãos ao claro Empyreo levantadas;

Ja rompem, ja, por ondas crystallinas

As naos de formosura carregadas.

Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, {240}

Fostes de tal belleza navegadas?

Nunca, despois que a terra descobristes,

A tal frota por vós caminho abristes.

Com vento sempre igual, com mar bonança,

Sem perigos alguns, sem algum pejo,

Ceyla forão tomar, porto de França,

Onde pouca demora fazer vejo.

O coração da virgem não descança,

Saudosa do fim de seu desejo;

Manda que levem ferro, soltem linho

Que leve por o mar o negro pinho.

O vento nova posse vai tomando

Das virgens que lhe são encommendadas:

Com tal prosperidade vão voando,

Que ja deixão atraz ondas salgadas:

Ja nas doces do Rheno estão entrando,

Onde tẽe suas vidas limitadas:

Huma cidade vem á lingua da ágoa,

Que de vê-las morrer não teve mágoa.

Ah Colonia cruel, que não t'encobres

A tão formosos olhos, que seguros

As altas tôrres vião que descobres,

Lustrosos edificios, fortes muros!

Permitte o largo Ceo que fama cobres

De ser tão dura mãe de peitos duros?

Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro

Virão abrir sem dor com impio ferro!

Estando neste porto a bella Armada

Tomando o necessario mantimento,

Para poder seguir sua jornada,

E dar terceira vez o treu ao vento; {241}

Sendo parte da noite ja passada,

A virgem lá no seu retrahimento,

Quando estava dormindo toda a frota,

A Christo orou assi, branda e devota:

Amor, divino Amor, Amor suave,

Amor, que amando vou toda rendida;

Com quem não ha na vida pena grave,

Sem quem glória real não ha na vida;

Amor, que do meu peito tens a chave,

Amor, de cujo amor ando ferida,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que d'amor cheio e de brandura,

D'amor enches est'alma saudosa;

Amor, sem cujo amor e formosura,

Não póde nunca haver cousa formosa;

Amor, com cujo amor anda segura

Huma vida tão fraca e duvidosa,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que por amor te dispuzeste

A restaurar o mundo errado e triste;

Amor, que por amor do ceo desceste;

Amor, que por amor á Cruz subiste;

Amor, que por amor a vida déste;

Amor, que por amor a glória abriste,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que mais e mais sempre te augmentas

No coração que lá comtigo trazes;

Amor, que d'amor puro te sustentas {242}

No fogo em que tu mesmo arder me fazes;

Amor, que sem amor não te contentas,

De tudo com amor te satisfazes,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que com amor me captivaste;

(Se livre póde ser quem não captivas)

Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste

As esperanças d'antes fugitivas:

Amor, que suspirando m'ensinaste

A derramar por ti lagrimas vivas,

Quando verei, Amor, o que desejo,

Para que veja, Amor, o que não vejo?

Quando verei hum dia em que offereça

Por ti ao cruel ferro o peito forte,

E cercada de virgens appareça

Na tua soberana e eterna Corte;

Onde lá cada huma te mereça,

Cá passando comigo a propria morte;

E todas dando o sangue juntas, todas

Celebremos comtigo eternas bodas?

Faze-me ja, Senhor, esta vontade

Que tenho de te ver, que sempre tive,

Des que me deo lugar a tenra idade,

E lume de razão nesta alma vive.

Não queiras, meu Amor, que a saudade

Sem tal bem a mi só da vida prive;

Que se muito se alarga este destêrro,

Por ella irei a ti, não por o ferro.

Desata o meu espirito saudoso,

Do nó mortal em que se vai detendo, {243}

Primeiro que tres vezes pressuroso

O sol os doze Signos vá correndo.

Espaço he que tomei, meu doce Esposo,

Para outro esposo meu ir entretendo:

Mas a meu amor crendo, de ti creio

Que acabes com a vida o meu receio.

Inda neste fervente e justo rôgo

Ursula suspirando procedia,

Quando d'hum resplandor como de fogo

Divina voz ouvio, que assi dizia:

Ó virgem, que soubeste fazer jôgo

Do que no mundo tẽe maior valia,

Entende que da volta que fizeres,

Aqui quero que seja o que tu queres.

Tanto que tal resposta do Ceo teve,

Não quiz do que esperava perder hora:

Ja lhe parece larga a noite breve,

E que ja tarda muito a bella aurora.

Em descobrindo Apollo o carro leve,

Do porto de Colonia sahio fóra.

Ja Basilêa em breve tempo toma:

E a pé d'alli partirão para Roma.

O Pastor summo, Ciriáco santo,

As sahe a receber, e as acompanha

Com gôzo espritual, com grande espanto

De ver em tal idade fé tamanha.

Dizer se póde mal, mal cuidar quanto

Se goza o Real sangue de Bretanha,

Os veneraveis Templos visitando

Daquelles que tambem foi imitando.

Na propria noite deste proprio dia {244}

Que Roma ver as virgens mereceo,

A quem de Pedro a Barca então regía

Revelou o que rege a terra e ceo

Que martyrio tambem receberia

Onde Ursula co'as mais o recebeo:

Deixa contente o grão Pontificado,

Desejoso de ser martyrizado.

Por mais que todo o Clero soffre mal

Mover-se por aquellas Estrangeiras,

Movido da Vontade divinal

O bom Pastor se vai com as Cordeiras.

Hum Arcebispo leva, hum Cardeal:

Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras,

De Luca, Ravicana e de Ravenna:

Mauricio me ficava ja na penna.

Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão,

Com tão formoso sol tantas estrellas,

Ja as ancoras debaixo acima tirão,

E de cima ja abaixo soltão vellas.

Estas naos lá adiante outras naos vírão,

Que fazendo-se vem na volta dellas;

Conhecêrão-se logo as duas frotas:

Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.

Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra,

Vinha de Ursula bella o bello esposo,

Que reinar não queria ja na terra,

Do ceo ja namorado e saudoso.

Do seu primeiro amor venceo a guerra

A fôrça d'outro amor mais poderoso:

Amando ja em seu Deos a esposa bella,

Para o poder achar, buscava a ella. {245}

A mãe, ja convertida, traz comsigo;

O pae, ja Christão feito, fallecêra,

Com que soube evitar o grão castigo

Que, morrendo Gentio, não soubera.

Amor celeste, como aqui não digo

O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!)

Por meio d'huma virgem foste meio

Com que gente copiosa a Christo veio.

Vinha mais nesta nova companhia

Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado;

Florencia, qu'em belleza florecia,

Como flor em jardim bem cultivado.

Tambem a frota Bispos dous trazia,

Hum Marcello, Clemente outro chamado:

O primeiro ja em Grecia bago teve;

Do segundo o Bispado não s'escreve.

Outra Virgem viuva alli mais vinha,

Que desposada sendo em tenra idade,

Antes das bodas enviuvado tinha,

E promettida a Christo a castidade.

Esta do mesmo Rei era sobrinha,

Filha da Imperatriz da grã cidade,

Onde por culpa nossa, ou pouca dita,

Seu throno agora tẽe o fero Scita.

Estes, que adverte repetida historia

Deixárão só por Deos altos Estados,

Com outros, de que he menos a memoria,

Forão divinamente amoestados

Que todos, para entrar juntos na glória,

Ao côro virginal fossem juntados, {246}

Com quem na terra Martyres serião,

E no ceo para sempre reinarião.

Sería estranho o gôzo que sentírão

Aquellas bem nascidas almas santas,

Quando juntas alli todas se vírão

De partes tão remotas, e de tantas.

Sem estorvos, que d'antes o impedírão,

As duas, mais que todas, bellas plantas

Alli abraços se dão sem algum pejo,

Ambas conformes ja n'hum só desejo.

Alli faria o Rei acatamento

A quem deixou da Barca o grão govêrno;

E elle, conforme a seu merecimento,

Responderia com amor paterno.

Não faltaria em tal recebimento

Prazer exterior, prazer interno;

Inda que nos estados differentes,

Todos serião huns em ser contentes.

O vento as brancas velas não enchia,

Corria o frio Rheno então mais quedo;

Antes para Colonia não corria,

Porque as virgens não fossem lá tão cedo.

Parece que ja claro conhecia

(Oh côro virginal, sereno e ledo!)

Que lá vos esperava a impia morte.

Agora, ó Musa, conta de que sorte.

Aquelle que na fórma de serpente

Deixou aos dous primeiros enganados,

Invejoso de ver que tanta gente

Se convertia á Lei dos Baptizados;

No caração entrou manhosamente {247}

De dous gentios Principes damnados,

Da soberba Romãa Cavaleria,

Por encurtar a Fé que s'estendia.

A Fama os assegura com certeza

Que a virgem a Colonia ja voltava,

Com toda a casta juvenil belleza

Que por amor do Ceo peregrinava.

Fizerão avisar com grã presteza

A hum parente, que Julio se chamava,

Soberbo Capitão dos Hunnos feros;

Que todos para todas forão Neros.

Eis logo o cego Principe gentio,

Com gente innumeravel de seu mando,

A praia a tomar vem do mesmo rio

Por onde as virgens vinhão navegando.

Ja descobrem aquelle, este navio

Os qu'estão do mais alto atalaiando:

Ás armas veloz corre o bruto povo,

Por de novo as tingir no sangue novo.

Vindo a frota a surgir junto do muro,

Onde lhe parecia estar segura,

(Oh virgens que buscais? lugar seguro

Adonde vos espera a sepultura!)

Entra com mão armada o povo duro

Por esta peregrina formosura:

Ja começa a provar os aços fortes;

Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.

Ja nu todas as virgens offrecião

O delicado collo, o tenro peito:

Era para caber quantas cahião,

Todo largo lugar lugar estreito. {248}

Do puro sangue os rios que corrião,

Outro vermelho mar ja tinhão feito.

Tu só, Córdula, á morte t'escondeste;

Mas despois a buscaste e recebeste.

Ciriáco o primeiro, bem constante,

A vida ao ferro offrece sem espanto:

O moço Rei Inglez cahio diante

Daquelles castos olhos que amou tanto.

Espera, brando esposo, hum breve instante;

Espera a tua doce esposa, em tanto

Que outro Amor outro golpe lhe prepara;

E juntos entrareis na Patria chara.

Em qual terra, ó crueis, em qual cidade,

Entre quaes gentes mais a furor dadas,

Se não usou d'amor e de piedade

Com formosas donzellas desarmadas?

Como belleza tanta e tal idade

Vos deixou arrancar vossas espadas?

Ah lobos carniceiros, tigres bravos,

Filhos da crueldade, d'ira escravos!

De quantos animaes sustenta a terra

Nunca tanta crueza foi usada;

Inda que tenhão huns com outros guerra,

Nunca do macho a femia he lastimada:

Anda a cerva co'o cervo por a serra,

A novilha do touro acompanhada,

Á leoneza o leão defender preza:

Vós sós quebrais as leis da natureza?

Puderão outros olhos por ventura

De lagrimas divinas escusar-se,

Vendo, cuberta ja de névoa escura, {249}

A luz de tantos bellos apagar-se?

Vendo a purpurea rosa, a cecem pura

Em tão formosas faces descorar-se?

As tranças d'ouro vendo, espedaçadas,

Por debaixo dos pés andar pizadas?

Na fôrça desta furia accesa e brava

O Tyranno cruel a vista ergueo

Á virgem, qu'invencivel animava

As almas que juntára para o Ceo.

Assi ja envolta em sangue como andava,

Da sua formosura se venceo;

E com doces razões, que Amor ensina,

A vencê-la d'amor se determina.

Fingindo se arrepende do passado,

(E de fingi-lo se arrepende azinha)

Sua vida lhe offrece e seu Estado,

Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha.

O seu amor lhe pede confiado;

O seu amor que dado a seu Deos tinha:

Pede-lhe o seu amor; antes não seu,

Porque ja dado o havia a quem lho deu.

Usa de mil lisonjas, mil enganos,

Por conseguir o seu desejo bruto.

A flor logra (dizia) de teus anos,

Colhe d'essa belleza o doce fruto:

Não dês materia nova a novos danos,

Não pagues verde á morte o seu tributo:

Olha que tens em mi (não são cautelas)

Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.

Não faças mentirosa a natureza

Que dá d'amor em ti grande esperança. {250}

Que se póde alcançar d'essa belleza,

Se ja piedade della não s'alcança?

Aos tigres, aos leões deixa a braveza,

E deixa aos meus soldados a vingança.

Se por ver-me cruel queres ser crua,

Ja te vingas de mi em cousa tua.

Volve esses olhos ja com mais brandura;

Esses olhos, d'Amor doce morada:

Delles não faça em mi a formosura,

O qu'em tantos ja fez a minha espada.

Se queres derribar minha ventura,

Que delles estar vejo pendurada,

Acabarei de ver quão pouca tenho,

Pois donde a matar vim a morrer venho.

Como do rôgo meu não te aproveitas,

Quando o teu risco a me rogar te obriga?

Ou não conheces bem a quem engeitas,

Ou m'engeitas por mais que seja e diga.

Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas?

Mais proprio era chamar-te dura imiga.

Mas não consente Amor nome tão duro

Em parecer tão brando e tão seguro.

Os raios desses olhos ja serenos

Enxuguem desse rosto as puras rosas;

O triste suspirar ja sôe menos

Nestas concavidades saudosas.

Não fação grande mal males pequenos;

Que não soffre esperanças vagarosas

Quem anda costumado em seus amores

A medir por seu gôsto seus favores.

Que gôsto podes ter de maltratar-me, {251}

Vendo-me do passado arrependido?

Attenta que mais ganhas em ganhar-me,

Do que neste destrôço tens perdido.

Se queres insistir em desprezar-me,

Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido.

Não me declaro mais, porque não quero

Que o medo faça o que d'amor espero.

Ah perfido amador! deixa o teu êrro.

Não vês quanto enganado e cego andas?

Aquella a quem não vence o duro ferro,

Como a podem vencer palavras brandas?

Manda a sua alma ja deste destêrro,

Com essas que a seu doce Esposo mandas.

Não a detenhas mais em teus amores,

Se dobrar-lhe não queres suas dores.

Vendo o cruel, emfim, que o que dizia,

Tomava a bella virgem por affronta,

E que quanto d'amor mais se accendia,

Ella delle fazia menos conta;

No concavo arco que na mão trazia,

Huma setta embebeo d'aguda ponta,

E o peito lhe passou de banda a banda.

Assi rendeo o esprito a virgem branda.

Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza;

As azas abre ja, ja a luz derrama;

Vôa com desusada ligeireza

Onde o teu Bem t'espera, onde te chama.

Verás baixa do mundo a mór alteza;

Verás qu'engana mais a quem mais ama;

E lá do teu Amor, cá suspirado,

O fructo colherás tão desejado. {252}

Em paz te vae, ó alma pura e bella,

Mais bella inda no sangue que verteste;

Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella

Formosa Região, alta e celeste.

Coroada de glória immortal, nella

Com Christo lograrás, a quem te déste

Com tantas e tão bem nascidas almas,

(Formosura do Ceo) onze mil palmas.

{255}