Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 14 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Elegia IX.

De vencer-me tẽe glória bem pequena,

Pois só render-me tomo por defensa.

Mas ja que amor tão puro me condena,

Contente fico assaz desta victoria;

Que não me dão meus males tanta pena,

Quanto o serem por ti me dá de glória. {194}

 

ELEGIA IX.

 

A vida me aborrece, a morte quero:

Será eterno o meu mal, segundo entendo,

Pois na mor esperança desespéro.

Sem viver vivo, por morrer vivendo

Por não verdes, Senhora, como eu vejo,

Quanto de mi por vós me ando esquecendo.

Seja-me agradecido este desejo;

Ingrata não sejais a quem vos ama

Com puro e honestissimo despejo.

A culpa que me pondes, ponde-a á fama,

Que pregôa de vós celeste vida

Que os corações d'amor divino inflama.

Humana, quando não agradecida,

Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,

Antes que a alma do corpo se despida.

Mas que posso eu fazer, pois ja não posso

Hum tormento domar tão forte e duro,

Homem formado só de carne e de osso?

Em minha fé segura me asseguro;

Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,

Se resulta d'amor sincero e puro.

Essa beldade santa me faz guerra;

Por ella hei de morrer, inda que veja

Tornar o brando rio em dura serra.

Que cousa tenho eu ja que minha seja?

Quem não deseja a vossa formosura,

Não póde assegurar que o ceo deseja.

De qu'eu sempre a deseje estae segura: {195}

Neste desejo meu nunca mudança

Hão de ver as mudanças da ventura.

A vida tenho posta na balança

Da glória singular, do damno esquivo;

Que o perdê-la por vós he mor bonança.

Se vos offendo, cuido que não vivo:

Olhae se muito mais que de offender-vos,

Das esperanças do viver me privo.

O que temo somente he só perder-vos;

O que quero somente he só adorar-vos;

O que somente adoro he só querer-vos.

Querer-vos sem deixar de venerar-vos;

Desejar-vos somente por servir-vos;

Por servir a amor vil não desejar-vos:

Somente ver-vos, e somente ouvir-vos

Pretendo; e pois somente isto pretendo,

Deveis a estes sentidos permittir-vos.

Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,

Como se fôra pouco isto somente!

Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?

Se o não merece o meu amor decente;

Se morte por amar-vos se merece,

Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.

Se vos aggrava quem por vós padece;

Se vos vẽe a offender quem vos quer tanto,

Quem desta sorte errou não desmerece.

Que quando os olhos da razão levanto

Ao ceo d'essa rarissima belleza,

De não morrer por ella só m'espanto.

Deixae-me contentar desta tristeza,

E fazer de meus olhos largo rio; {196}

Se algum póde abrandar vossa dureza.

Correndo sempre as lagrimas em fio,

Farei crescer as hervas por os prados,

Pois ja d'outra alegria desconfio.

No monte darei pasto a meus cuidados;

E serão de mi sempre entre os pastores

Esses divinos olhos celebrados.

Aprenderão de mi os amadores

Aquillo que se chama amor sublime,

Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.

E nenhum havera que a pena estime

Mais soberana por a causa della,

Que a que teve até então não desestime;