Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Scena II.
BROMIA.
Que nunca se vio prazer,
Senão quando não se espera.
E por tanto não devia
De ter triste a phantasia;
Porque Vossa Mercê creia,
Que o prazer sempre salteia
Quem delle mais desconfia.
Eu tenho no coração,
Do Senhor Amphitrião
Venha hoje alguma nova:
Não receba alteração,
Que a verdadeira affeição
Na longa ausencia se prova.
ALCMENA.
Dizei logo a Feliseo
Que chegue muito apressado
Ao caes, e busque mêo
De saber se algum recado
Do porto Persico vêo:
E mais lhe haveis de dizer,
(Isto vos dou por offício)
D'alguma nova saber,
Em quanto eu vou fazer
Aos Deoses o sacrificio. {303}
SCENA II.
BROMIA.
Saudades de minh'ama,
Chorinhos e devoções,
Sacrificios e orações,
Me hão de lançar n'huma cama,
Certamente.
Nós mulheres de semente
Somos sedenho mui tosco:
Com qualquer vento que vente,
Queremos forçadamente
Que os Deoses vivão comnosco.
Quero Feliseo chamar,
E dizer-lhe aonde ha de ir.
Mas elle como me vir,
Logo ha de querer rinchar,
De travesso.
Eu que de zombar não cesso,
Por ficar com elle em salvo,
Lanço-lhe hum e outro remêsso;
Aos seus furto-lhe o alvo;
E então elle fica avesso.
Porque o melhor destas danças,
Com huns vindiços assi,
He trazê-los por aqui
Ó cheiro das esperanças,
Por viver.
Ha-os homem de trazer
Nos amores assi mornos,
Só para ter que fazer; {304}
E despois ao remetter
Lançar-lhe a capa nos cornos.
Feliseo, se estais á mão,
Chegae cá, vem como hum gamo:
Bem sei que não chamo em vão.