Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 28 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Scena II.

BROMIA.

Que nunca se vio prazer,

Senão quando não se espera.

E por tanto não devia

De ter triste a phantasia;

Porque Vossa Mercê creia,

Que o prazer sempre salteia

Quem delle mais desconfia.

Eu tenho no coração,

Do Senhor Amphitrião

Venha hoje alguma nova:

Não receba alteração,

Que a verdadeira affeição

Na longa ausencia se prova.

ALCMENA.

Dizei logo a Feliseo

Que chegue muito apressado

Ao caes, e busque mêo

De saber se algum recado

Do porto Persico vêo:

E mais lhe haveis de dizer,

(Isto vos dou por offício)

D'alguma nova saber,

Em quanto eu vou fazer

Aos Deoses o sacrificio. {303}

 

SCENA II.

 

BROMIA.

Saudades de minh'ama,

Chorinhos e devoções,

Sacrificios e orações,

Me hão de lançar n'huma cama,

Certamente.

Nós mulheres de semente

Somos sedenho mui tosco:

Com qualquer vento que vente,

Queremos forçadamente

Que os Deoses vivão comnosco.

Quero Feliseo chamar,

E dizer-lhe aonde ha de ir.

Mas elle como me vir,

Logo ha de querer rinchar,

De travesso.

Eu que de zombar não cesso,

Por ficar com elle em salvo,

Lanço-lhe hum e outro remêsso;

Aos seus furto-lhe o alvo;

E então elle fica avesso.

Porque o melhor destas danças,

Com huns vindiços assi,

He trazê-los por aqui

Ó cheiro das esperanças,

Por viver.

Ha-os homem de trazer

Nos amores assi mornos,

Só para ter que fazer; {304}

E despois ao remetter

Lançar-lhe a capa nos cornos.

Feliseo, se estais á mão,

Chegae cá, vem como hum gamo:

Bem sei que não chamo em vão.