Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Luís de Camões · Capítulo 5 de 93

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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Sextina IV.

Pois sem ti ja não posso ser contente,

Mal posso desejar sem ti a vida;

Sem ti ja ver não posso claro dia, {155}

Não posso sem te ver desejar vista;

Na tua vista só se via a glória,

Não ver a glória tua he ver meu damno.

Não via maior glória que meu damno,

Quando do damno meu eras contente:

Agora me he tormento a maior glória,

Que póde prometter-me Amor na vida,

Pois tornar-te não póde á minha vista,

Que só na tua achava a luz do dia.

E pois de dia em dia cresce o damno,

Nem posso sem tal vista ser contente,

Só com perder a vida acharei glória.

 

SEXTINA IV.

 

Sempre me queixarei desta crueza

Que Amor usou comigo quando o tempo,

A pezar de meu duro e triste fado,

A meus males queria dar remedio,

Em apartar de mi aquella vista,

Por quem me contentava a triste vida.

Levára-me, oxalá, traz ella a vida,

Para que não sentira esta crueza

De me ver apartado de tal vista!

E praza a Deos não veja o proprio tempo

Em mi, sem esperança de remedio,

A desesperação d'hum triste fado!

Porém ja acabe o triste e duro fado! {156}

Acabe o tempo ja tão triste vida,

Qu'em sua morte só tẽe seu remedio.

O deixar-me viver he mor crueza,

Pois desespéro ja d'em algum tempo

Tornar a ver aquella doce vista.

Duro Amor! se pagava só tal vista

Todo o mal que por ti me fez meu fado,

Porque quizeste que a levasse o tempo?

E se o assi quizeste, porque a vida

Me deixas para ver tanta crueza,

Quando em não vê-la só vejo o remedio?

Tu só de minha dor eras remedio,

Suave, deleitosa e bella vista.

Sem ti, que posso eu ver senão crueza?

Sem ti, qual bem me póde dar o fado,

Se não he consentir que acabe a vida?

Mas elle della me dilata o tempo.

Azas para voar vejo no tempo,

Que com voar a muitos foi remedio;

E só não vôa para a minha vida.

Para que a quero eu sem tua vista?

Para que quer tambem o triste fado

Que não acabe o tempo tal crueza?

Não poderão fazer crueza, ou tempo,

Fôrça de fado, ou falta de remedio,

Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida. {157}