Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 30 de 50 · parte 3/3

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 30

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

h) Pode-se ser o juiz de seus semelhantes? Fé até o fim.

Lembra-te de que não podes ser o juiz de ninguém. Porque antes de julgar um criminoso, deve o juiz saber que é ele próprio tão criminoso quanto o acusado, e talvez mais que todos culpado do crime dele. Quando tiver compreendido isto, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isto pareça, é verdade. Porque se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso. Se podes encarregar-te do crime do acusado que julgas em teu coração, fá-lo imediatamente e sofre em seu lugar, quanto a ele, deixa-o ir sem censuras. E mesmo se a lei te instituiu juiz dele, tanto quanto é possível, faze também a justiça naquele espírito, porque, uma vez partido, condenar-se-á ele ainda mais severamente que o teu tribunal. Se ele se vai insensível a teu bom tratamento e zombando de ti, não fiques impressionado; é que a hora dele ainda não chegou, mas chegará; e, no caso contrário, um outro em lugar dele compreenderá, sofrerá, condenar-se-á, acusar-se-á a si mesmo, e a verdade será cumprida.

Crê firmemente nisto; é aí que repousam a esperança e a fé dos santos.

Não te canses de agir. Se te lembrares, à noite, antes de dormir, de que não cumpiste o que era preciso, levanta-te logo para cumpri-lo. Se os que te cercam, por malícia ou indiferença, recusam ouvir-te, põe-te de joelhos e pede-lhes perdão, porque, na verdade, é culpa tua se não querem escutar-te. Se não podes falar àqueles que estão envinagrados, serve-os em silêncio e na humildade, sem jamais desesperar. Se todos te abandonam e se te expulsam com violência, ao ficares sozinho, prosterna-te, beija a terra, rega-a com tuas lágrimas, e essas lágrimas darão frutos, ainda mesmo que 333

ninguém te veja, nem te ouça na tua solidão. Crê até o fim, mesmo que todos os homens se hajam desviado e tenhas ficado fiel sozinho; leva então tua oferenda e louva a Deus, por teres sido o único a manter a fé. E

se dois, tais como vós, se reúnem, então eis a plenitude do amor vivo, beijai-vos com efusão e louvai o Senhor, porque sua verdade cumpriu-se, ainda que apenas em vós dois.

Se tu mesmo pecaste e estás mortalmente aflito por isso, rejubila-te por um outro, por um justo, rejubila-te por ser ele, em compensação, um justo e não ter pecado.

Se estás indignado e aflito por causa da iniqüidade dos homens, a ponto de quereres vingar-te, teme acima de tudo esse sentimento; impõe-te o mesmo castigo que se fosses tu mesmo culpado do crime deles. Aceita esse castigo e suporta-o, teu coração se acalmará, compreenderás que tu também és culpado, porque terias podido esclarecer os celerados mesmo na qualidade de único justo, e não o fizeste. Esclarecendo-os, ter-lhes-ia mostrado um outro caminho, e o autor do crime não o teria talvez cometido, graças à luz. Se os homens ficarem mesmo insensíveis a essa luz, malgrado teus esforços, e negligenciarem sua salvação, fica firme e não duvides do poder da luz celeste; persuade-te de que, se não foram eles salvos agora, sê-lo-ão mais tarde. Senão, seus filhos serão salvos em lugar deles, porque tua luz não perecerá, mesmo se estiveres morto. O justo desaparece, mas a luz fica. Após a morte do salvador é que a gente se salva. O gênero humano repele seus profetas, massacra-os, mas os homens amam seus mártires e veneram aqueles que eles mesmos fizeram perecer.

É pela coletividade que trabalhas, pelo futuro que ages. Não procures recompensa jamais, porque tens já uma grande nesta terra: tua alegria espiritual, de que somente o justo partilha. Não temas nem os grandes nem os poderosos, mas sê sábio e sempre digno. Segue a medida, conhece os termos, instrui-te a este respeito. Retirado na solidão, reza. Prosterna-te com amor e beija a terra. Ama incansavelmente, insaciável mente, todos e tudo, procura esse êxtase e essa exaltação. Rega a terra de lágrimas de alegria, ama essas lágrimas. Não te envergonhes desse êxtase, ama-o, porque é um grande dom de Deus, concedido somente aos eleitos.

i) Do inferno e do fogo eterno. Consideração mística.

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Meus padres, pergunto a mim mesmo: "Que é o inferno?" Defino-o assim: "O sofrimento por não poder mais amar". Uma vez, no infinito do espaço e do tempo, um ser espiritual, pela sua aparição na terra, teve a possibilidade de dizer: "Eu sou e eu amo". Uma vez somente foi-lhe concedido um momento de amor ativo e vivo, para isso foi-lhe dada a vida terrestre, limitada no tempo; ora, esse ser feliz repeliu esse dom inestimável, nem o apreciou nem amou, considerou-o ironicamente, ficou a ele insensível. Tal ser, tendo deixado a terra, vê o seio de Abraão, entretém-se com ele como está dito na parábola de Lázaro e do mau rico, contempla o paraíso, pode elevar-se até o Senhor, mas o que o atormenta precisamente é que se apresenta sem ter amado, entra em contato com aqueles que amaram e cujo amor desdenhou. Porque tem uma clara noção das coisas e diz a si mesmo: "Agora tenho o conhecimento e, malgrado minha sede de amor, esse amor será sem valor, não representará nenhum sacrifício, porque a vida terrestre terminou e Abraão não virá aplacar —

ainda que com uma só gota de água viva — minha sede ardente de amor espiritual, que agora me abrasa, depois de tê-la desdenhado na terra. A vida e o tempo passaram agora. Daria com alegria minha vida pelos outros, mas é impossível, porque a vida que se podia sacrificar ao amor já decorreu, um abismo a separa da existência atual". Fala-se do fogo do inferno no sentido literal; temo sondar esse mistério, mas penso que, se houvesse mesmo verdadeiras chamas, os danados se regozijariam, porque esqueceriam nos tormentos físicos, ainda que por um instante, a mais horrível tortura moral. É impossível libertá-los dela, porque esse tormento está neles e não fora. E, se se pudesse, penso que mais desgraçados seriam ainda. Porque, mesmo se os justos do paraíso os perdoassem à vista de seus sofrimentos e os chamassem a si no seu amor infinito, não fariam senão aumentar-lhes esses sofrimentos, excitando neles essa sede ardente dum amor correspondente, ativo e grato, doravante impossível. Na timidez de meu coração, penso, no entanto, que a consciência dessa impossibilidade acabaria por aliviá-los, porque, tendo aceitado o amor dos justos sem poder a ele corresponder, sua humilde submissão criaria uma espécie de imagem e de imitação desse amor ativo e desdenhado por eles na terra... Lamento, irmãos e amigos, não poder formular claramente isto.

Mas infelizes daqueles que se destruíram a si mesmos, infelizes dos suicidas! Penso que não pode haver mais infelizes do que eles. É um pecado, dizem-nos, orar a Deus por eles, e a Igreja aparentemente os 335

repudia, mas meu pensamento íntimo é que se poderia rezar por eles também. O amor não haveria de irritar o Cristo. Toda a minha vida tenho rezado em meu coração por esses infortuna-dos, confesso-vo-lo, meus padres, e ainda agora.

Oh! há no inferno seres que permanecem soberbos e intratáveis, malgrado seu conhecimento incontestável e a contemplação da verdade inelutável; há-os terríveis, que se tornaram totalmente presa de Satanás e de seu orgulho. São mártires voluntários que não podem satisfazer-se com o inferno. Porque são eles próprios malditos, tendo amaldiçoado Deus e a vida. Nutrem-se de seu orgulho irritado como um esfomeado no deserto se poria a sugar seu próprio sangue. Mas são insaciáveis por todos os séculos dos séculos e repelem o perdão. Amaldiçoam Deus que os chama e quereriam que Deus se aniquilasse, ele e toda a sua criação. E arderão eternamente no fogo de sua cólera, terão sede da morte e do nada. Mas a morte fugirá deles...

*

Aqui termina o manuscrito de Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov.

Repito-o: está incompleto e fragmentário. As informações biográficas, por exemplo, só abarcam a primeira juventude do stáricts Aproveitaram de seu ensino e de suas opiniões para resumi-los num todo, coisas ditas evidentemente em várias ocasiões e em várias vezes. As afirmativas do stáricts nas suas derradeiras horas não são precisas, dá-se somente uma idéia do espírito e do caráter dessa conversação, comparados com extratos de outras lições, no manuscrito de Alieksiéi Fiódorovitch. O fim do stáriets sobreveio duma maneira verdadeiramente inesperada, porque, muito embora todos os assistentes daquela derradeira noite se dessem conta de que sua morte se aproximava, não se podia imaginar que ela ocorresse tão subitamente; pelo contrário, como já o observamos, seus amigos, vendo-o tão disposto e loquaz naquela noite, acreditaram numa melhora sensível, ainda que passageira. Cinco minutos antes de sua morte, não se podia ainda nada prever. Sentiu de repente uma dor aguda no peito, empalideceu, apoiou suas mãos no coração. Todos se reuniram solícitos em torno dele; sorrindo, malgrado seus sofrimentos, escorregou de sua cadeira, pôs-se de joelhos, prosternou-se com a face inclinada para o chão, estendeu os braços, depois, como em êxtase, beijando a terra e 336

rezando (ele próprio o havia ensinado), entregou suavemente, alegremente, sua alma a Deus. A notícia de sua morte espalhou-se logo no eremitério e alcançou o mosteiro. Os íntimos do defunto e os designados pela sua posição procederam ao amortalhamento, segundo o antigo rito, e a comunidade reuniu-se na igreja. Antes do dia, tornou-se a notícia conhecida na cidade, constituindo-se o assunto de todas as conversas: muitas pessoas dirigiram-se ao mosteiro. Mas falaremos disto no livro seguinte; digamos somente, por antecipação, que durante aquele dia ocorreu um acontecimento tão inesperado e, segundo a impressão que produziu entre os monges e na cidade, a tal ponto estranho e desconcertante, que até agora, após tantos anos, se guardou em nossa cidade a mais viva recordação daquele dia movimentado...

TERCEIRA PARTE

LIVRO VII

ALIÓCHA

I

O ODOR DELETÉRIO

O corpo do Padre Zósima foi preparado para a inumação segundo o rito estabelecido. Não se lavam os monges e os ascetas falecidos, o fato é notório. "Quando um monge é chamado ao Senhor (lê-se no Grande Ritual), o irmão preposto ao encargo esfrega-lhe o corpo com água morna, traçando previamente, com a esponja, uma cruz sobre a fronte do morto, sobre o peito, mãos, pés e joelhos e nada mais. " Foi o Padre Paísi quem levou a cabo essa operação. Em seguida, revestiu o defunto com o hábito monástico e envolveu-o numa capa, fendendo-a um pouco, como está prescrito, para lembrar a forma da cruz. Puseram-lhe na cabeça um capuz terminado por uma cruz de oito braços, ficando o rosto coberto por um véu negro, e nas mãos um ícone do Salvador. O cadáver, assim vestido, foi posto pela manhã num ataúde preparado desde muito tempo. Decidiu-se deixá-lo por todo aquele dia no quarto grande que servia de salão. Como 337

pertencesse o defunto à categoria de ieromonakh, convinha ler em sua intenção não o Saltério, mas o Evangelho. Depois do ofício dos mortos, o Padre Iósif começou a leitura; quanto ao Padre Paísi, que queria substituí-lo em seguida pelo resto do dia e da noite, estava no momento muito ocupado e inquieto, bem como o superior do eremitério. Verificava-se, com efeito, entre a comunidade e os leigos que acorreram em multidão, algo de extraordinário, uma agitação inaudita, inconveniente mesmo, uma expectativa febril. Os dois religiosos faziam tudo quanto estava a seu alcance para acalmar os espíritos superexcitados. Quando clareou suficientemente, viram-se chegar fiéis trazendo consigo seus doentes, sobretudo as crianças, como se só estivessem à espera daquele momento, aguardando uma cura imediata, que não podia tardar em operar-se, segundo a crença deles. Foi somente então que se verificou a que ponto todos tinham o hábito de considerar o defunto stáriets, ainda quando vivo, como um verdadeiro santo. E os recém-chegados estavam longe de pertencer todos ao baixo povo. Aquela ansiosa expectativa dos crentes, que se manifestava abertamente, com uma impaciência quase imperiosa, parecia escandalosa ao Padre Paísi e ultrapassava suas previsões.

Encontrando religiosos bastante emocionados, falou-lhes assim: "Essa expectativa frívola e imediata de grandes coisas não é possível senão entre os leigos e não convém a nós". Mas não lhe davam ouvidos, e o Padre Paísi percebia isto com inquietação, se bem que ele próprio (se não se quer nada ocultar), embora reprovando esperanças demasiado prontas, que achava frívolas e vãs, partilhava delas secretamente, no fundo de seu coração, quase no mesmo grau, do que se dava conta. No entanto, certos encontros lhe desagradavam bastante e excitavam dúvidas nele, por uma espécie de pressentimento. Foi assim que, na multidão que se aglomerava na cela, notou com repugnância (e censurou-se por isso imediatamente) a presença de Rakítin e do religioso de Obdorsk, que se retardava no mosteiro. Todos dois pareceram de súbito suspeitos ao Padre Paísi, embora não fossem os únicos a respeito. No meio da agitação geral, o monge de Obdorsk movimentava-se mais que todos, viam-no por toda parte fazendo perguntas, de ouvido à escuta, cochichando com ar misterioso. Parecia impaciente e como que irritado pelo fato de não se ter ainda produzido o milagre de há muito esperado. Quanto a Rakítin, encontrava-se desde bem cedo no eremitério, como se soube mais tarde, seguindo instruções da Senhora Khokhlakova. Assim que essa mulher, 338

boa, porém desprovida de caráter e que não tinha acesso ao ascetério, soube, ao despertar, da notícia, foi tomada de tal curiosidade que enviou imediatamente Rakítin com a missão de tudo observar e mantê-la ao corrente por escrito, mais ou menos a cada meia hora, de tudo quanto acontecesse. Tinha ela Rakítin na conta de um rapaz duma piedade exemplar, tão insinuante era ele e tanto sabia fazer-se valer aos olhos de todos, contanto que encontrasse nisso o mínimo lucro. Como o dia se anunciasse belo, numerosos fiéis comprimiam-se em torno dos túmulos; a maior parte agrupava-se em torno da igreja, outros disseminavam-se aqui e ali. O Padre Paísi, que dava volta pelo ascetério, pensou de repente em Aliócha, a quem não via desde muito tempo. Avistou-o no mesmo instante, no canto mais afastado, perto da cerca, sentado sobre a tumba dum religioso, morto havia muitos anos e famoso pelo seu ascetismo.

Estava de costas para o eremitério, de frente para a cerca, e o monumento quase o dissimulava. Ao aproximar-se, viu o Padre Paísi que ele havia ocultado seu rosto nas mãos e chorava amargamente, com o corpo sacudido pelos soluços. Observou-o um instante.

— Basta de choro, caro filho, basta, meu amigo — disse ele por fim com simpatia. — Por que chorar? Rejubila-te, pelo contrário. Ignoras, pois, que este dia é um dia sublime para ele? Pensa somente no lugar onde ele se encontra agora, neste minuto!

Aliócha olhou o monge, descobrindo seu rosto molhado de lágrimas como o de um menininho, mas voltou-se imediatamente e tornou a cobrir o rosto com as mãos.

— Talvez tenhas razão em chorar — declarou o Padre Paísi, com ar pensativo. — Foi o Cristo quem te enviou essas lágrimas. "Tuas lágrimas de enternecimento são apenas um repouso da alma e servirão para distrair-te o coração", acrescentou ele consigo mesmo, pensando com afeto em Aliócha. Apressou-se em afastar-se, sentindo que também ele iria chorar, se o olhasse. Entretanto, o tempo decorria, sucediam-se as cerimônias fúnebres. O Padre Paísi substituiu o Padre Iósif junto do ataúde e prosseguiu a leitura do Evangelho. Mas antes das 3 horas da tarde ocorreu aquilo de que já falei no fim do livro precedente, um acontecimento tão inesperado, tão contrário à esperança geral que, repito-o, nossa cidade e seus arredores dele se lembram até agora com um interesse extraordinário. Acrescentarei que me repugna quase falar desse 339

acontecimento escandaloso, no fim dos mais vulgares e naturais, e tê-lo-ia decerto passado em silêncio, se não tivesse influído de maneira decisiva sobre a alma e o coração do principal, embora futuro, herói de minha narrativa, Aliócha, nele provocando uma espécie de revolução que lhe agitou a razão, mas o fortaleceu definitivamente para um fim determinado.

Quando, ainda antes do amanhecer, o corpo do stáriets foi posto no caixão e transportado para o primeiro quarto, alguém perguntou se era preciso abrir as janelas. Mas esta pergunta, feita incidentemente, ficou sem resposta e quase não foi percebida, exceto por alguns. A idéia de que tal morto pudesse corromper-se e cheirar mal pareceu-lhes absurda e desagradável (senão cômica), por causa do pouco de fé e da frivolidade que revelava, porque se esperava justamente o contrário. Pouco depois do meio-dia começou uma coisa, a princípio notada em silêncio por aqueles que iam e vinham, cada qual temendo visivelmente dar parte aos outros do que pensava; cerca das 3 horas, foi aquilo verificado com tal evidência que a notícia se espalhou entre todos os visitantes do eremitério, alcançou o mosteiro, onde mergulhou toda gente em espanto e logo depois atingiu a cidade, agitando crentes e incréus. Estes se rejubilaram; quanto aos crentes, houve entre eles quem se rejubilasse inda mais, porque "a queda do justo e de sua honra causam prazer", como dizia o defunto numa de suas lições. O fato é que o ataúde pôs-se a exalar um odor deletério, que foi aumentando. Procurar-se-ia em vão nos anais de nosso mosteiro um escândalo semelhante àquele que se desenrolou entre os próprios religiosos, logo após a comprovação do fato, e que teria sido impossível em outras circunstâncias. Bem muitos anos depois, alguns dentre eles, lembrando-se dos incidentes daquele dia, perguntavam a si mesmos com horror como pudera o escândalo atingir tais proporções. Porque, já antes, religiosos irreprocháveis, duma santidade reconhecida, stártsi piedosos tinham morrido e seus caixões haviam espalhado um odor deletério que se manifestava naturalmente, como no caso de todos os mortos, mas sem causar escândalo, nem mesmo emoção alguma. Sem dúvida, segundo a tradição, os restos de outros religiosos, mortos desde muito tempo, tinham escapado à corrupção, coisa de que a comunidade conservava uma recordação comovida e misteriosa, vendo naquilo um fato miraculoso e a promessa duma glória ainda maior provinha de seus túmulos, se tal fosse a vontade divina. Entre eles, guardava-se sobretudo a memória do stáriets Jó, morto cerca de 1810, na idade de 105 anos, famoso asceta, grande 340

jejuador e taciturno, cujo túmulo era mostrado com veneração a todos os fiéis que chegavam pela primeira vez ao mosteiro, com alusões misteriosas às grandes esperanças que ele suscitava. (Era o túmulo onde o Padre Paísi encontrara Aliócha pela manhã. ) Além desse, citava-se igualmente o Padre Varsonófi, o stáriets ao qual havia sucedido o Padre Zósima, o qual, quando vivo, todos os fiéis que freqüentavam o mosteiro tinham por "inocente". A tradição pretendia que aquelas duas personagens jaziam nos seus ataúdes como se estivessem vivas, que as tinham enterrado intactas, que seus rostos mesmos estavam de certa forma luminosos. Outros relembravam com insistência que seus corpos exalavam um odor suave. No entanto, malgrado lembranças tão sugestivas, seria difícil explicar exatamente como uma cena tão absurda e chocante pôde passar-se junto ao caixão do Padre Zósima. Quanto a mim, atribuo-a a diferentes causas que agiram todas juntas. Assim, aquele ódio inveterado ao "starietismo", tido como uma inovação perniciosa, que existia ainda entre numerosos monges. Em seguida, havia sobretudo a inveja que se tinha à santidade do defunto, tão solidamente estabelecida quando era ele vivo que se tornara como que proibido discuti-la. Porque, muito embora o stáriets conquistasse uma multidão de corações mais pelo amor que pelos milagres e tivesse constituído como que uma falange com aqueles que o amavam, atraíra, no entanto, por isso mesmo, invejosos, depois inimigos encarniçados, declarados e ocultos, não somente no mosteiro, mas entre os leigos. Se bem que não houvesse causado dano a ninguém, dizia-se: "Por que passa ele por santo a tal ponto?" E somente esta pergunta, à força de repetida, acabara por engendrar um ódio inextinguível. De modo que, penso que muitos, ao saber que ele cheirava mal ao fim de tão pouco tempo — pois ainda não se passara um dia que ele morrera —, ficaram encantados; da mesma maneira, aquele acontecimento foi quase um ultraje e uma ofensa pessoal para alguns dos partidários do síáriets que até então o haviam reverenciado. Eis em que ordem se sucederam as coisas.

Desde que se declarou a corrupção, bastava ver o aspecto dos religiosos que entravam na cela, podia-se adivinhar o motivo que os levava.

O que entrava, tornava a sair ao fim de um momento para confirmar a notícia à multidão dos outros que o esperavam. Uns abanavam a cabeça com tristeza, outros não dissimulavam sua alegria, que explodia em seus olhares maliciosos. E ninguém lhes fazia censuras, ninguém elevava a voz 341

em favor do defunto, o que era mesmo estranho, porque seus partidários formavam a maioria no mosteiro; mas via-se que o Senhor mesmo permitia que a maioria triunfasse provisoriamente. Em breve, apareceram na cela, também como emissários, leigos, na maior parte pessoas instruídas. O baixo povo não entrava, muito embora se comprimisse em multidão às portas do eremitério. É incontestável que a afluência dos leigos aumentou notavelmente, após três horas, em conseqüência daquela notícia escandalosa. Os que não teriam talvez vindo naquele dia chegavam agora de propósito e entre eles algumas pessoas duma posição notável. Aliás, o decoro não fora ainda abertamente perturbado e o Padre Paísi, com olhar severo, continuava a ler o Evangelho à parte, com firmeza, como se não notasse nada do que se passava, se bem que já tivesse observado algo de insólito. Mas vozes a princípio tímidas, que se firmaram pouco a pouco e tomaram certa audácia, chegaram até seus ouvidos. "De modo que o julgamento de Deus não é'o dos homens!", ouviu de repente o Padre Paísi. Esta reflexão foi formulada a princípio por um leigo, funcionário da cidade, homem de certa idade, que passava por muito piedoso; não fez, aliás, senão repetir em voz alta o que os religiosos diziam entre si ao ouvido desde muito tempo. O pior é que proferiam essas palavras pessimistas com uma espécie de satisfação que ia aumentando. Em breve, começou o decoro a ser perturbado, dir-se-ia que todos se sentiam autorizados a agir assim; "Como pôde ocorrer isso?", diziam alguns, a princípio como se lamentando, "ele não era corpulento, só tinha a pele e os ossos, por que haveria de feder?" "É uma advertência de Deus", apressavam-se em acrescentar outros, cuja opinião prevalecia, porque indicavam que, se o odor tivesse sido natural, como para todo pecador, ter-se-ia manifestado mais tarde, após 24 horas pelo menos, mas

"isso adiantou-se à natureza", portanto deve-se ver nisso o dedo de Deus.

Este raciocínio era irrefutável. O manso Padre Iósif, o bibliotecário, favorito do defunto, pôs-se a objetar contra certos maldizentes que "não era em toda parte assim", que a incorruptibilidade do corpo dos justos não era um dogma da ortodoxia, mas apenas uma opinião, e que nas regiões mais ortodoxas, no Monte Atos, por exemplo, liga-se menos importância ao odor deletério; não é a incorruptibilidade física que passa lá como o principal sinal da glorificação dos redimidos, mas a cor de seus ossos, depois que seus corpos permaneceram longos anos sob a terra: "Se os ossos se tornarem amarelos como a cera, significa isto que o Senhor 342

glorificou um justo; mas se ficarem negros, é que o Senhor não o julgou digno. Eis como se procede no Monte Atos, santuário onde se conservam em toda a sua pureza as tradições da ortodoxia", concluiu o Padre Iósif.

Mas as palavras do humilde padre não causaram impressão e provocaram mesmo réplicas irônicas: "Tudo isso é erudição e novidades, não adianta ouvi-lo", decidiram entre si os religiosos. "Mantemos os antigos usos; seria preciso imitar todas as novidades que apareçam?", acrescentavam outros.

'Temos tantos santos quanto eles. No Monte Atos, sob o jugo turco, esqueceram tudo. A ortodoxia alterou-se entre eles desde muito tempo, nem sinos têm", encareciam os mais irônicos. O Padre Iósif retirou-se cheio de pesar, tanto mais quanto exprimira sua opinião com pouca segurança e sem ajuntar-lhe muita fé. Previa, na sua perturbação, uma cena chocante e um começo de insubordinação. Pouco a pouco, em seguida à do Padre Iósif, todas as vozes prudentes se calaram. Como por uma espécie de acordo, todos aqueles que haviam amado o defunto e aceitado com terna submissão a instituição do "starietismo" foram de súbito tomados de pavor e limitavam-se a trocar olhares tímidos quando se encontravam. Os inimigos do "starietismo", a que consideravam novidade, erguiam altivamente a cabeça: "Não somente o Padre Varsonófi não fedia, mas espalhava um odor suave", recordavam eles com uma alegria maligna. "Seus méritos e não sua posição lhe tinham valido essa justificação. " Em seguida, a censura e até mesmo as acusações não foram poupadas contra o defunto: "Ensinava erradamente que a vida é uma grande alegria e não uma humilhação dolorosa", diziam alguns entre os mais obtusos. "Cria segundo a nova moda, não admitia o fogo material no inferno", acrescentavam outros ainda mais obtusos. "Não jejuava rigorosamente, permitia-se o uso de doces, tomava mesmo docinhos de cereja com chá, de que gostava muito e que lhe eram enviados pelas senhoras. Convém a um asceta beber chá?", diziam outros invejosos.

"Pontificava cheio de orgulho", lembravam com encarniçamento os mais malévolos, "acreditando-se um santo, ajoelhavam-se diante dele, que aceitava isso como coisa devida. " "Abusava do sacramento da confissão", cochichavam malignamente os mais fogosos adversários do "starietismo" e entre eles religiosos idosos, de uma devoção rigorosa, verdadeiros jejuadores taciturnos, que haviam guardado silêncio durante a vida do defunto, mas abriam agora a boca, coisa deplorável, porque suas palavras influíam fortemente sobre os jovens religiosos, ainda hesitantes. O monge 343

de São Silvestre, vindo de Obdorsk, era todo ouvidos, suspirava profundamente, abanava a cabeça: "O Padre Fierapont tinha razão ontem", pensava ele consigo, e justamente naquele momento apareceu este, como para redobrar a confusão. Já dissemos que ele raramente deixava sua cela de madeira no apiário, ficava mesmo muito tempo sem ir à igreja, e que não ligavam a essas fantasias atribuídas à sua maluquice, desobrigando-o do regulamento. Mas, para falar toda a verdade, viam-se seus superiores obrigados a mostrar-se tolerantes para com ele. Porque teriam escrúpulo em impor formalmente a regra comum a tão grande jejuador e taciturno, que rezava dia e noite, adormecendo mesmo de joelhos. "É mais santo que nós todos e suas austeridades ultrapassam a regra", teriam dito então os religiosos; "se não vai à igreja, sabe ele mesmo quando é preciso ir, segue sua própria regra. " Era para evitar esses murmúrios prováveis e o escândalo que se deixava em paz o Padre Fierapont. Como todos o sabiam, sentia ele verdadeira aversão pelo Padre Zósima e de repente soube na sua cela que "o julgamento de Deus não era o dos homens e havia-se adiantado à natureza". Pode-se crer que o monge de Obdorsk, que voltara cheio de medo de sua visita da véspera, tivesse sido um dos primeiros a correr para dar-lhe a notícia. Mencionei também que o Padre Paísi, que lia impassível o Evangelho diante do ataúde, sem ver nem ouvir o que se passava lá fora, havia, no entanto, pressentido o essencial, porque conhecia a fundo o seu meio. Não estava perturbado e, pronto para qualquer eventualidade, observava com um olhar penetrante a agitação cujo resultado já previa. De repente, um rumor insólito e inconveniente, no vestíbulo, feriu-lhe os ouvidos. A porta escancarou-se e o Padre Fierapont apareceu no limiar.

Da cela, distinguiam-se "nitidamente numerosos monges que o tinham acompanhado e se comprimiam nó pé do patamar e entre eles leigos. No entanto, não entraram, mas esperaram o que diria e faria o Padre Fierapont, porque previam, não sem temor, malgrado sua ousadia, que por algum motivo comparecera ele ali. Parando no limiar, o Padre Fierapont ergueu as mãos, e por baixo de seu braço direito assomaram os olhos agudos e curiosos do visitante de Obdorsk, incapaz de conter-se, tendo subido sozinho atrás dele por causa de sua extrema curiosidade. Os outros, uma vez que a porta se abriu com estrondo, recuaram, pelo contrário, presas dum medo súbito. De braços erguidos, o Padre Fierapont vociferou:

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— Eu afugento os demônios! — E pôs-se logo, voltando-se sucessivamente para os quatro cantos da cela, a fazer o sinal-da-cruz. Os que o acompanhavam compreenderam imediatamente o sentido de seu ato, sabendo que, não importa aonde ele fosse, antes de sentar-se e de falar, exorcismava o maligno.

— Fora daqui, Satanás, fora daqui! — repetia ele a cada sinal-da-cruz. — Afugento os demônios! — vociferou de novo. Sua batina grosseira estava cingida por uma corda, sua camisa de cânhamo deixava ver seu peito cabeludo. Tinha os pés inteiramente nus.

Assim que agitou os braços, ouviu-se o tinir das pesadas correntes que trazia sob o hábito. O Padre Paísi parou de ler, adiantou-se e ficou diante dele na expectativa.

— Por que vieste, reverendo padre? Por que perturbar a ordem? Por que escandalizar o rebanho humilde? — proferiu ele afinal, olhando-o com severidade.

— Por que vim? Que perguntas tu? Que crês tu? — gritou o Padre Fierapont com ar desvairado. — Vim afugentar vossos hóspedes, os demônios impuros. Verei se vós abrigastes muitos na minha ausência.

Quero varrê-los daqui.

— Afugentas o maligno e talvez tu mesmo o sirvas — prosseguiu intrepidamente o Padre Paísi —, e quem pode dizer de si mesmo: "Sou santo"? És tu, meu padre?

— Sou manchado e não santo. Não me sento numa cadeira e não quero ser adorado como um ídolo! — trovejou o Padre Fierapont. —

Agora, os homens arruinam a santa fé. O defunto, vosso santo — e voltou-se para a multidão, apontando com o dedo o caixão —, rejeitava os demônios. Dava uma droga contra eles. E ei-los que pululam em vossa casa, como as aranhas nos cantos. Agora, ele próprio fede. Vemos nisso uma séria advertência do Senhor.

Era uma alusão a um fato real. O maligno aparecera a um dos religiosos, a princípio em sonho, depois em estado de vigília. Apavorado, relatou a coisa ao stáriets Zósima, que lhe prescreveu um jejum rigoroso e orações fervorosas. Como nada desse jeito, aconselhou-o a tomar um remédio, sem renunciar às suas práticas piedosas. Muitos então ficaram chocados e discorriam entre si, abanando a cabeça, sobretudo o Padre Fierapont, ao qual certos detratores se tinham apressado em ir contar 345

aquela prescrição "insólita" do stáriets.

— Vai-te embora, padre! — disse imperiosamente o Padre Paísi. —

Não cabe aos homens julgar, mas a Deus. Talvez vejamos aqui uma

"advertência" que ninguém é capaz de compreender, nem tu nem eu. Vai-te embora, padre, e não escandalizes o rebanho! — repetiu ele num tom firme.

— Não observava ele o jejum prescrito aos professos, eis donde vem essa advertência. Isto é claro, é um pecado dissimulá-lo! — prosseguiu o fanático, deixando-se arrebatar pelo seu zelo extravagante. — Adorava os bombons que as senhoras lhe traziam em seus bolsos; sacrificava a seu ventre, enchia-se de doçuras, nutria seu espírito de pensamentos arrogantes... De modo que está sofrendo esta ignomínia...

— Tuas palavras são fúteis, padre. Admiro teu jejum e teu ascetismo, mas tuas palavras são fúteis, tais como as que pronunciaria no mundo um rapazola inconstante e estouvado. Vai-te, padre, ordeno-te! — concluiu o Padre Paísi, com voz trovejante.

— Ir-me-ei! — proferiu o Padre Fierapont, como que desconcertado, mas sempre cheio de cólera. — Vós vos orgulhais de vossa ciência diante de minha nulidade. Cheguei aqui pouco instruído, aqui esqueci o que sabia, o Senhor mesmo me preservou, a mim, mesquinho que sou, de vossa grande sabedoria...

Imóvel diante dele, o Padre Paísi esperava com firmeza.

O Padre Fierapont calou-se alguns instantes e de súbito ensombreceu-se, levou a mão direita à face, e pronunciou com voz arrastada, olhando o caixão do stáriets:

— Amanhã cantar-se-á para ele: "Ajuda e Protetor", hino glorioso, e para mim, quando eu rebentar, apenas: "Que vida bem-aventurada", medíocre versículo — disse ele, num tom de pesar. — Vós vos orgulhastes e inchastes, este lugar está deserto! — berrou ele como um insensato, e, agitando os braços, voltou-se rapidamente e desceu à pressa os degraus do patamar. A multidão que o esperava hesitou; alguns o seguiram imediatamente, outros demoraram, porque a cela continuava aberta e o Padre Paísi, que saíra para o patamar, observava, imóvel. Mas o velho fanático não acabara: a vinte passos, voltou-se para o sol poente, ergueu os 346

braços no ar e — como que ceifado — desabou no chão, gritando:

— Meu Senhor venceu! O Cristo venceu o sol poente! — urrava ele como um possesso, os braços estendidos para o sol e caído com o rosto contra o chão; chorava como uma criancinha, sacudido pelos soluços, afastando os braços por terra. Todos então lançaram-se para ele, reper-cutiram exclamações, soluços... Uma espécie de delírio apoderara-se de todos eles.

— Eis um santo! Eis um justo! — exclamava-se sem temor. — Merece ser stáriets — acrescentavam outros com arrebatamento.

— Ele não quererá ser stáriets... ele próprio recusará... não servirá a essa novidade maldita... não irá imitar as loucuras deles — continuaram outras vozes.

É difícil imaginar o que teria acontecido, mas justamente naquele momento o sino tocou chamando ao serviço divino. Todos se benzeram. O

Padre Fierapont levantou-se e fez o mesmo, depois dirigiu-se para sua cela sem se voltar, pronunciando palavras incoerentes. Pequeno número de pessoas o seguiu, mas a maior parte se dispersou, com pressa de ir à cerimônia. O Padre Paísi cedeu o lugar ao Padre Iósif e saiu. Os clamores dos fanáticos não podiam abalá-lo, mas sentiu de súbito uma tristeza e uma angústia singulares invadirem-lhe o coração. Perguntou a si mesmo donde lhe vinha essa tristeza que chegava até o abatimento e compreendeu que provinha, ao que parecia, duma causa insignificante. O

fato é que, na multidão que se apertava à entrada da cela, avistara Aliócha entre os agitados e lembrava-se de ter experimentado então uma espécie de sofrimento. "Esse rapaz manteria agora tal lugar em meu coração?", perguntou a si mesmo, com surpresa. Naquele instante, passou Aliócha ao lado dele, apressando-se não se sabe para onde, mas não para a igreja.

Seus olhares encontraram-se. Aliócha desviou os olhos e baixou-os; somente pelo seu aspecto adivinhou o Padre Paísi a profunda mudança que se operava nele naquele momento.

— Foste também seduzido? — exclamou o Padre Paísi. — Estarias também com as pessoas de pouca fé? — acrescentou, tristemente.

Aliócha parou, olhou-o vagamente, depois de novo desviou os olhos e baixou-os. Mantinha-se de lado, sem encarar seu interlocutor. O Padre Paísi observava-o atentamente.

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— Aonde vais tão depressa? Tocam para o ofício — disse ele ainda, mas Aliócha não respondeu.

— Deixarias o eremitério sem autorização, sem receber a bênção? De repente Aliócha sorriu constrangidamente, lançou um olhar dos mais estranhos ao Padre Paísi, que o interrogava, aquele padre ao qual o confiara, antes de morrer, seu antigo diretor, o mestre de seu coração e de seu espírito, seu stáriets bem-amado; depois, sempre sem responder, agitou a mão como se já nem cuidasse do respeito devido e dirigiu-se a passos rápidos para a saída do eremitério.

— Tu voltarás! — murmurou o Padre Paísi, acompanhando-o com os olhos e com dolorosa surpresa.

II

MOMENTO CRÍTICO

O Padre Paísi não se enganava ao decidir que seu "caro rapaz"

voltaria; talvez mesmo compreendera, senão totalmente, pelo menos com sagacidade, o verdadeiro estado de alma de Aliócha. Não obstante, confesso que me seria agora muito difícil definir exatamente aquele momento estranho da vida do jovem e simpático herói de minha narrativa.

À pergunta entristecida que o Padre Paísi fazia a Aliócha: "Estarias também com as pessoas de pouca fé?", poderia eu decerto responder com firmeza em lugar dele: "Não, não está com elas". Mais ainda, era até muito pelo contrário: sua perturbação provinha precisamente de sua fé ardente.

Existia, contudo, essa perturbação, e tão dolorosa que mesmo muito tempo depois considerava Aliócha aquele triste dia como um dos mais penosos e dos mais funestos de sua vida. Se se perguntar: "É possível que experimentasse ele tanta angústia e agitação unicamente porque o corpo de seu stáriets, em lugar de operar milagres, se havia pelo contrário rapidamente decomposto?", responderei sem rebuços: "Sim, é bem isso".

Rogarei todavia ao leitor que não se apresse em rir da simplicidade de meu rapaz. Não somente não tenho a intenção de pedir perdão por ele, ou de desculpar e de justificar sua fé ingênua atribuindo-a à sua juventude, por exemplo, ou aos fracos progressos realizados em seus estudos, etc, mas declaro, pelo contrário, sentir sincero respeito pela natureza de seu 348

coração. Seguramente, outro rapaz, acolhendo com reserva as impressões do coração, morno e não ardente nas suas afeições, leal, mas de espírito por demais judicioso para sua idade, tal rapaz, digo eu, teria evitado o que aconteceu ao meu; mas em certos casos é mais honroso ceder por inteiro ao impulso, ainda que pouco sensato, provocado por um grande amor, que a ele resistir. Com mais forte razão na juventude, porque um rapaz constantemente judicioso é suspeito e não vale grande coisa, eis minha opinião! "Mas", dirão talvez as pessoas sensatas, "todo rapaz não pode crer em tal preconceito e o vosso não é um modelo para os outros. " Ao que responderei: "Sim, meu rapaz acreditava com fervor, totalmente, mas não pedirei perdão para ele".

Muito embora haja eu declarado mais acima (talvez com demasiada pressa) não querer desculpar nem justificar meu herói, vejo que uma explicação é necessária para a compreensão ulterior da narrativa. Não se tratava aqui de esperar milagres com uma impaciência frívola. E não é para o triunfo de certas convicções que Aliócha tinha então necessidade de milagres, nem pelo de alguma idéia preconcebida sobre alguma outra, de maneira alguma; antes de tudo, no primeiro plano, surgia diante dele uma figura que absorvia tudo, a figura de seu stáriets bem-amado, do justo a quem tanto venerava. Era sobre ele, sobre ele só, que se concentrava por vezes, pelo menos nos seus mais vivos impulsos, todo o amor que ele trazia em seu jovem coração "por todos e por tudo", agora e no ano anterior. Na verdade, aquele ser encarnava desde tanto tempo a seus olhos o ideal absoluto, que a ele aspirava com todas as forças de sua juventude, exclusivamente, até a esquecer, por momentos "todos e tudo".

(Lembrou-se mais tarde ter completamente esquecido, naquele penoso dia, seu irmão Dimítri, como o qual tanto se preocupava na véspera; esquecera-se também de levar os 200 rublos ao pai de Iliúcha, como prometera a si mesmo fazê-lo. ) Não era de milagres que necessitava, mas somente da justiça suprema, violada a seus olhos, o que o magoava profundamente. Que importava que aquela justiça esperada por Aliócha tomasse pela força das coisas a forma de milagres operados imediatamente pelos despojos de seu antigo diretor, a quem adorava? Era o que pensava e esperava todo mundo, no mosteiro, mesmo aqueles diante dos quais ele se inclinava, o Padre Paísi, por exemplo; Aliócha, sem se deixar perturbar pela dúvida, pensava da mesma maneira que eles. Um ano inteiro de vida monástica o havia preparado para isso, seu coração 349

estava acostumado àquela expectativa. Mas tinha sede de justiça e não somente de milagres! E aquele que deveria ter sido, segundo sua esperança, elevado acima de todos, achava-se rebaixado e coberto de vergonha! Por que isso? Quem era juiz? Essas questões atormentavam seu coração inocente. Fora ofendido e mesmo irritado por ver o justo entre os justos entregue às zombarias malévolas da multidão frívola, tão inferior a ele. Que nenhum milagre se houvesse realizado, que a expectativa geral tivesse sido iludida, ainda passava! Mas por que aquele opróbrio, aquela decomposição apressada que "se adiantava à natureza", como diziam os monges malévolos? Por que aquela "advertência" com que triunfavam em companhia do Padre Fierapont, por que se criam autorizados a isso? Onde estava, pois, a Providência? Com que fim se havia ela retirado "no momento decisivo" (pensava Aliócha), parecendo submeter-se às leis cegas e impiedosas da natureza?

De modo que o coração de Aliócha sangrava; como já o dissemos, tratava-se do ser a quem ele mais amava no mundo e que ficara "coberto de ignomínia e de infâmia!" Queixas fúteis e insensatas, mas, repito-o pela terceira vez (e talvez com frivolidade, concordo): causa-me satisfação não se ter meu rapaz mostrado discreto em semelhante momento, porque a discrição vem sempre a seu tempo, quando não se é tolo; ao passo que se num momento como aquele não tivesse havido amor no coração do rapaz, quando teria havido? É preciso mencionar, no entanto, um fenômeno estranho, mas passageiro, que se manifestou no espírito de Aliócha naquele instante crítico. Era, a intervalos, uma impressão dolorosa resultante da conversa da véspera com seu irmão Ivã, que o obsedava agora. Não que suas crenças fundamentais estivessem de algum modo abaladas: amava seu Deus e nele cria firmemente, se bem que houvesse murmurado subitamente contra ele. No entanto, uma impressão confusa, mas penosa e má, proveniente daquela conversa, surgiu em sua alma, tendendo a impor-se cada vez mais. Ao cair da noite, Rakítin, que atravessava o bosque de pinheiros para ir ao mosteiro, avistou Aliócha, estendido sob uma árvore, o rosto contra a terra, imóvel e parecendo dormir. Aproximou-se e interpelou-o.

— És tu, Alieksiéi? Será possível que tu... — proferiu ele, admirado, mas não terminou. Queria dizer: "Será possível que hajas chegado a esse ponto?" Aliócha não voltou a cabeça, mas, segundo um movimento que ele fez, adivinhou Rakítin que ele o ouvia e compreendia.

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— Que tens, afinal? — prosseguiu ele, surpreso, mas um sorriso irônico aparecia já em seus lábios. — Escuta, procuro-te há mais de duas horas. Desapareceste de repente. Que fazes, pois, aqui? Olha-me, pelo menos!

Aliócha ergueu a cabeça, sentou-se, encostando-se à árvore. Não chorava, mas seu rosto exprimia o sofrimento. Lia-se a irritação em seus olhos. Aliás, não olhava Rakítin, mas para o lado.

— Mas não tens mais o mesmo rosto! Tua famosa doçura desapareceu. Zangaste-te contra alguém? Ofenderam-te?

— Deixa-me! — disse de súbito Aliócha, sem olhá-lo, com um gesto de lassidão.

— Oh! oh!, eis como estamos! Um anjo, gritar como os simples mortais! Ora essa, Aliócha, francamente, tu me surpreendes, a mim que de nada me espanto. Acreditava que fosses um homem instruído.

Aliócha olhou para ele afinal, mas com um ar distraído, como se o compreendesse mal.

— E tudo isso porque o teu velho cheira mal! Acreditavas seriamente que ele ia fazer milagres? — exclamou Rakítin, com sincero espanto.

— Acreditei-o, acredito-o, quero acreditá-lo sempre! Que precisas mais? — perguntou Aliócha, com irritação.

— Nada absolutamente, meu caro. Que diabo! os escolares de treze anos não crêem mais nisso! Então, tu te zangaste, eis-te agora revoltado contra Deus: nada de pagamento, nada de condecoração! Que miséria!

Aliócha olhou-o longamente, com os olhos semicerrados, um clarão passou neles... mas não era de cólera contra Rakítin.

— Não me revolto contra meu Deus, apenas não aceito seu universo

— disse ele, com um sorriso constrangido.

— Como, não aceitas o universo? — E Rakítin refletiu um instante.

— Que trapalhada é essa? Aliócha não respondeu.

— Deixemos essas bagatelas; ao fato! Comeste hoje?

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— Não me lembro... Creio que sim.

— Deves restaurar-te, tens ar de esgotamento, faz pena ver. Não dormiste esta noite, ao que parece, tiveste uma sessão. Em seguida toda essa barafunda, essas palhaçadas. Com certeza não te empanturraste senão de pão bento. Tenho no bolso um salsichão que trouxe inda há pouco da cidade, por prevenção, mas não haverias de querer...

— Dá-mo.

— Ah! ah! Então, é a revolta franca, as barricadas! Pois bem, irmão, não percamos tempo. Vem à minha casa... Beberei de boa vontade vodca, estou fatigadíssimo. A vodca, decerto, não te tenta... Gostarias?

— Dá-me vodca também.