Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 35 de 50 · parte 2/3

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Os Irmãos Karamázov

Capítulo 35

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Enquanto falava, tinha, à pressa, traçado as seguintes poucas linhas, em letras graúdas:

Jamais emprestei 3 000 rublos ao desditoso Dimítri Fiódorovitch Ka~

ramázov, nem hoje, nem antes! Juro-o pelo que há de mais sagrado.

Khokhlakova.

— Pronto, aqui está! — disse ela, voltando-se para Piotr Ilitch. — Vá, salve sua alma. É um grande feito que o senhor pratica.

Fêz sobre ele três vezes o sinal-da-cruz e reconduziu-o até o vestíbulo.

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— Quanto lhe sou grata! O senhor não pode imaginar como lhe sou grata por ter vindo em primeiro lugar procurar-me. Como é possível que não nos tenhamos jamais encontrado? Terei muito prazer em recebê-lo doravante. Causa-me prazer saber que o senhor serve aqui... e com tal exatidão, tanta engenhosidade... Mas devem apreciá-lo, compreendê-lo, enfim, e tudo quanto eu puder fazer pelo senhor, esteja certo... Oh! gosto da mocidade, sou doida por ela! As pessoas jovens são a esperança de nossa infeliz Rússia de hoje... Vá, vá!

Mas Piotr Ilitch já se havia escapulido, senão não o teria ela deixado partir tão depressa. Aliás, a Senhora Khokhlakova causara nele uma impressão bastante agradável, que amenizava mesmo sua apreensão de estar metido num negócio tão escabroso. Sabe-se que os gostos variam muito. "E ela não é lá tão idosa", pensava ele com satisfação, "pelo contrário, tê-la-ia tomado por sua filha."

Quanto à Senhora Khokhlakova, estava simplesmente encantada.

"Uma tal habilidade, uma tal precisão em um homem tão jovem, com suas maneiras e seu exterior... Pretende-se que os jovens de hoje não prestam para nada, eis um exemplo, etc." Tanto que ela se esqueceu até "daquele horrendo acontecimento"; uma vez deitada, somente, é que se lembrou de

"quão perto da morte estivera" e murmurou: "Ah! é horrível, horrível!"

Mas adormeceu logo num sono profundo. Não me teria, aliás, estendido sobre detalhes tão insignificantes, se esse encontro singular do jovem funcionário com uma viúva ainda frescalhota não tivesse influído, posteriormente, sobre toda a carreira daquele rapaz metódico. Recorda-se isso mesmo com espanto em nossa cidade e diremos talvez uma palavra a respeito, ao terminar a longa história dos irmãos Karamázovi.

II

O ALARMA

Nosso isprávnik Mikhail Makárovitch, tenente-coronel reformado, que se tornara conselheiro de corte, era um honrado homem. Estabelecido em nosa cidade havia três anos apenas, conseguira atrair a simpatia geral porque "sabia reunir a sociedade". Havia sempre gente em casa dele, fosse apenas uma ou duas pessoas para jantar. Não teria podido viver sem isso.

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Os pretextos mais variados motivavam os convites. A comida não era fina, mas abundante, os pastéis de peixe excelentes, a quantidade dos vinhos compensava-lhes a mediocridade. Na primeira sala encontrava-se um bilhar, com cavalos de corrida ingleses enquadrados em molduras negras nas paredes, o que constitui, como se sabe, o ornamento necessário de todo bilhar em casa dum celibatário. Todas as noites jogava-se baralho.

Mas muitas vezes a melhor sociedade de nossa cidade reunia-se para dançar, as mães com suas filhas. Mikhail Makárovitch, embora viúvo, vivia em família, com sua filha viúva e suas duas netas. Estas, que tinham terminado seus estudos, eram bastante gentis e alegres e, se bem que sem dote, atraíam para a casa de seu avô a juventude mundana. Em negócios, Mikhail Makárovitch era bastante limitado, mas exercia suas funções tão bem quanto muitos outros. Para falar a verdade, era um homem pouco instruído e até mesmo descuidado na sua maneira de compreender suas atribuições. Tinha vistas curtas a respeito de certas reformas do presente reinado, não por incapacidade, mas por indolência, não achando tempo para estudá-las. "Tenho mais alma de militar que de civil", dizia, falando de si mesmo. Não tinha ainda uma idéia nítida das bases da reforma do camponês, que aprendia a conhecer pouco a pouco, pela prática e malgrado seu; no entanto, era ele próprio proprietário rural. Piotr Ilitch estava certo de encontrar naquela noite visitas em casa de Mikhail Makárovitch. Achavam-se em casa dele, jogando baralho, o procurador e o jovem médico do ziêmstvo, Varvínski, recentemente chegado de Moscou, onde obtivera o lugar de um dos primeiros alunos da Escola de Medicina.

O procurador — isto é, o suplente, mas todos o chamavam assim — Ipolit Kirílovitch era um homem especial, ainda jovem, com 35 anos, mas predisposto à tuberculose, casado com uma mulher obesa e estéril, cheio de amor-próprio, irascível, tendo ao mesmo tempo sólidas qualidades. Por desgraça, tinha uma idéia exagerada de seus méritos, o que o fazia parecer constantemente inquieto. Tinha mesmo pendores artísticos, certa penetração psicológica aplicada aos criminosos e ao crime. Neste sentido, considerava-se como lesado e vítima de preterições, tendo sempre estado persuadido de que não o apreciavam segundo seu valor nas altas esferas e que tinha inimigos. Nas horas de desencorajamento, ameaçava mesmo tornar-se advogado criminal. O caso Karamázov galvanizou-o inteiramente: "Um caso que podia apaixonar a Rússia!" Mas estou antecipando.

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Na sala contígua achava-se, com as senhoritas, o jovem juiz de instrução Nikoíai Parfiénovitch Nieliúdov, chegado havia dois meses de Petersburgo. Causou espanto mais tarde que essas personagens se tivessem reunido como que de propósito na noite do crime, na casa do poder executivo. Entretanto, não havia nada naquilo que não fosse bastante natural: a mulher de Ipolit Kirílovitch estava com dor de dentes desde a véspera e era-lhe preciso a ele subtrair-se de suas queixas; o médico só podia passar o serão jogando baralho. Quanto a Nikolai Parfiénovitch Nieliúdov, projetara fazer visita naquela noite a Mikhail Makárovitch, como que por acaso, a fim de surpreender sua filha mais velha, Olga Mikháilovna, que fazia anos: conhecia seu segredo, porque, segundo ele, queria ela dissimulá-lo para não convidar a dançar, isto se prestava a alusões zombeteiras à idade dela, que temia revelar; amanhã falaria ele a todo mundo, etc. Aquele gentil rapaz era, a este respeito, um grande descarado, assim o tinham denominado nossas damas, e ele não se queixava disso. Pertencente à melhor sociedade, de famOia distinta, bem educado, era aquele gozador inofensivo e sempre correto. De baixa estatura e compleição delicada, trazia sempre em seus dedos delgados alguns grossos anéis. No exercício de seu cargo, tornava-se muito grave, tendo uma alta idéia de seu papel e de suas obrigações. Sabia sobretudo confundir, por ocasião dos interrogatórios, os assassinos e outros malfeitores da ralé, e suscitava neles certo espanto, senão respeito por sua pessoa.

Ao chegar em casa do isprávnik, ficou Piotr Ilitch estupefato por ver que todos estavam informados. Com efeito, tinham cessado de jogar, e discutiam a notícia, Nikolai Parfiénovitch tinha mesmo um ar belicoso.

Piotr Ilitch soube com estupor que o velho Fiódor Pávlo-vitch fora efetivamente assassinado naquela noite em sua casa, assassinado e roubado. Acabava-se de sabê-lo da maneira seguinte:

Marfa Ignátievna, a mulher de Gregório, malgrado o sono profundo em que estava mergulhada, despertou de repente, sem dúvida aos gritos de Smierdiákov, que jazia no quartinho vizinho. Jamais pudera habituar-se àqueles gritos do epiléptico, precursores da crise e que a apavoravam.

Ainda semi-adormecida, levantou-se e entrou no quarto de Smierdiákov.

No escuro, ouvia-se o doente estertorar, debater-se. Tomada de medo, chamou seu marido, mas refletiu que, ao levantar-se, não vira seu marido a seu lado na cama. Voltou a tatear o leito: estava vazio. Correu para o 462

patamar e chamou-o timidamente. Como resposta, ouviu, no silêncio noturno, gemidos distantes. Prestou atenção: os gemidos repetiram-se; partiam mesmo do jardim. "Meu Deus, parecem os gemidos de Lisavieta Smierdiáchtchaia!" Desceu e percebeu que a portinha do jardim estava aberta: "Deve estar lá, o coitado!" Aproximou-se e ouviu Gregório chamá-la distintamente: "Marfa! Marfa!", com uma voz fraca e dolorida. "Meu Deus, preservai-nos!", murmurou Marfa, que se lançou na direção de Gregório.

Encontrou-o a vinte passos da paliçada, onde ele caíra. Tendo vol-

qualquer pretexto. Não ousaram entrar com medo de atraírem complicações. Por ordem de Gregório, Maria Kondrátievna correu à casa do isprávnik a dar o alarma. Precedeu de cinco minutos Piotr Ilitch, de sorte que este chegou como testemunha ocular, confirmando pela sua narrativa as suspeitas contra o presumido autor do crime (o que havia êie recusado crer até então, no fundo de seu coração).

Resolveu-se agir energicamente. As autoridades judiciárias dirigiram-se aos locais e procederam a uma investigação. O médico do ziémstvo, um novato, ofereceu-se a acompanhá-las. Resumo os fatos: Fiódor Pávlovitch tinha a cabeça partida, mas com que arma?

Provavelmente a mesma que servira em seguida para golpear Gregório.

Este, depois de ter recebido os primeiros cuidados, fêz, malgrado sua fraqueza, um relato bastante lógico do que lhe acontecera. Procurando-se com uma lanterna perto da pai içada, encontrou-se numa aléia, bem à vista, o pilão de cobre. Não havia desordem alguma no quarto de Fiódor Pávlovitch, exceto ter-se encontrado, por trás do biombo, perto do leito, um envelope de grande formato, em papel forte, com os dizeres: "Três mil rublos para meu anjo, Grúchenhka, se ela quiser vir". Mais embaixo, Fiódor Pávlovitch acrescentara: "e para minha franguinha". O envelope, que trazia três grandes sinêtes em cera vermelha, estava rasgado e vazio.

Encontrou-se no chão a fita côr-de-rosa que o amarrava. No depoimento de Piotr Ilitch, uma coisa atraiu a atenção dos magistrados: a suposição de que Dimítri Fiódorovitch se suicidaria na manhã seguinte, segundo suas próprias palavras, a pistola carregada, o bilhete que escrevera, etc. Como Piotr Ilitch, incrédulo, o ameaçasse duma denúncia para impedi-lo disso, replicara Mítia, sorrindo: "Não terás tempo". Era preciso, pois, apressarem-se a ir a Mókroie para apanhar o criminoso antes que pusesse ele fim a seus dias. "Está claro, está claro", repetia o procurador superexcitado, "semelhantes cabeças loucas agem sempre assim: fazem a farra antes de morrer". O relato das compras de Dimítri acalorou-o ainda mais. "Lembrem-se, senhores, de que o assassino do comerciante Olsúfiev, que se apoderou de 1 500 rublos, teve como primeiro cuidado mandar frisar os cabelos, depois ir à casa das mulheres, sem se dar ao trabalho de ocultar o dinheiro." Mas o inquérito, as formalidades exigiam tempo, assim despachou-se para Mókroie o stanovói Mavríki Mavríkitch Chmiertsov, que viera à cidade receber seus vencimentos. Recebeu como instruções vigiar discretamente o "criminoso" até a chegada das 464

autoridades competentes, formar uma escolta, etc. Guardando o incógnito, pôs somente ao corrente de uma parte do caso Trifon Borísovitch, seu velho conhecido. Foi então que Mítia encontrara no alpendre o hospedeiro que o procurava e notara uma mudança na expressão e no tom de Trifon Borísovitch. Mítia e seus companheiros ignoravam pois a vigilância de que eram objeto; quanto ao estôjo das pistolas, o hospedeiro havia-o desde muito posto em lugar seguro. Às 5 horas somente, quase ao romper do dia, chegaram as autoridades, em dois carros. O médico ficara em casa de Fiódor Pávlovitch, para fazer a autópsia e sobretudo porque o estado de Smierdiákov o interessava bastante. "Crises de epilepsia tão violentas e tão prolongadas, durante dois dias, são bastante raras e pertencem à ciência",'

declarou a seus companheiros por ocasião da partida deles, e estes o felicitaram, rindo, por aquele achado. Afirmara mesmo que Smierdiákov não viveria até o amanhecer.

Depois desta digressão um tanto longa, mas necessária, retomamos nossa narrativa onde a deixamos.

III

PURGATÓRIOS DE UMA ALMA:

PRIMEIRO PURGATÓRIO

Mítia fitava os presentes com um ar estupidificado, sem compreender o que se dizia. De repente levantou-se, estendeu as mãos no ar e exclamou:

— Não sou culpado! Não derramei o sangue de meu pai... Queria matá-lo, mas sou inocente. Não fui eu!

Apenas acabava ele de falar surgiu Grúchenhka de trás das cortinas e caiu aos pés do isprávnik.

— Sou eu, maldita, que sou a culpada — gritou ela, chorando, de mãos estendidas. — Foi por minha causa que ele matou. Aquele pobre velho, que não mais existe, eu o torturei. Sou eu a principal culpada.

— Sim, és tu, criminosa! És uma desavergonhada, uma mulher depravada — vociferou o isprávnik, ameaçando-a com o punho. Fizeram-465

no calar-se imediatamente, o procurador chegou mesmo a agarrá-lo.

— Isto é desordem, Mikhail Makárovitch! 0 senhor perturba o inquérito... estraga o caso...

Estava quase sufocado.

— É precisor tomar providências... é preciso tomar providências —

gritava de seu lado Nikolai Parfiénovitch — não se pode tolerar isso.

— Julguem-nos juntos! — continuava Grúchenhka sempre de joelhos — executem-nos juntos, estou pronta a morrer com ele.

— Grucha, minha vida, meu sangue, meu tesouro sagrado! — disse Mítia, ajoelhando-se ao lado dela e abraçando-a. — Não acreditem nela, está inocente, completamente inocente!

Separaram-nos à força, levaram para fora a jovem mulher. Ele desfaleceu e só voltou a si depois, sentado à mesa e cercado das pessoas com placas de metal. Em frente, sobre o divã, achava-se Nikolai Parfiénovitch, o juiz de instrução, que o exortava, da maneira mais cortês, a beber um pouco de água: "Isto o refrescará, o acalmará, não tenha medo, não se inquiete". Mítia interessava-se bastante pelos grossos anéis dele, um com uma ametista, o outro com uma pedra amarelo-clara, dum brilho magnífico. Por muito tempo depois lembrava-se ele com espanto de que aqueles anéis o fascinavam durante as penosas horas do interrogatório e de que não podia destacar deles os olhos. À esquerda de Mítia achava-se o procurador, à direita, um jovem de jaquetao de caça bastante usado, diante de um tinteiro e papel. Era o secretário do juiz de instrução. Na outra extremidade do quarto, perto da janela, mantinham-se o isprávnik e Kolgánov.

— Beba água — repetia docemente, pela décima vez, o juiz de instrução.

— Já bebi, senhores, já bebi... Pois bem! Esmagai-me, condenai-me, decidi minha sorte! — exclamou Mítia, fixando-o.

— Com que então, afirma o senhor estar inocente da morte de seu pai, Fiódor Pávlovitch?

— Inocente! Derramei o sangue de outro velho, mas não o de meu pai. E o deploro! Matei... mas é duro ver-se acusado dum crime horrível 466

que não se cometeu. É uma acusação terrível, senhores, um verdadeiro golpe de maça! Mas quem então matou meu pai? Quem podia matá-lo, senão eu? É prodigioso, é um absurdo impossível!...

— Vou dizer-lhe... — começou o juiz, mas o procurador (chamare-mos assim o suplente), depois de ter trocado uma olhadela com ele, disse a Mítia:

— O senhor se atormenta inutilmente a respeito do velho criado Gre-gório Vassíliev. Saiba que está vivo. Recuperou os sentidos e, malgrado o golpe terrível que o senhor lhe assestou, de acordo com os depoimentos de ambos, escapará com certeza. Tal é a opinião do médico.

— Vivo? Está vivo? — exclamou Mítia, de mãos juntas, o rosto radiante. — Meu Deus, rendo-te graças por esse milagre insigne que concedes ao pecador, ao celerado que sou, à sua prece!,.. Porque rezei a noite inteira!... — E benzeu-se três vezes.

— Esse mesmo Gregório prestou a respeito do senhor um depoimento de tal gravidade que... — prosseguiu o procurador, mas Mítia levantou-se bruscamente.

— Um instante, senhores, por favor, nada mais que um instante.

Vou ter com ela...

— Com licença! É impossível agora! — exclamou Nikolai Parfiénovitch, que também se levantou. Os policiais seguraram Mítia, que tornou a sentar-se, aliás de bom grado.

— É pena. Queria somente anunciar-lhe que esse sangue que me an-gustiou a noite inteira está lavado e não sou um assassino! Senhores, é minha noiva! — disse ele, respeitosamente, olhando para todos os cir-cunstantes. — Oh! agradeço-vos! Vós me restituístes a vida... Aquele velho carregou-me nos braços, era ele quem me lavava numa tina, quando tinha eu três anos de idade, quando estava abandonado por todos. Serviu-me de pai!...

— Com que então, o senhor... — prosseguiu o juiz.

— Com licença, senhores, ainda um instante — interrompeu Mítia, pondo os cotovelos sobre a mesa, com o rosto oculto nas mãos —, dei-xai-me concentrar-me, deixai-me respirar. Tudo isso me transtorna, não se bate em cima de um homem como em cima de um tambor, senhores.

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— O senhor deveria beber um pouco de água...

Mítia descobriu o rosto e sorriu. Tinha o olhar vivo e parecia transformado. Suas maneiras também tinham mudado, sentia-se de novo igual àquelas pessoas, seus antigos conhecidos, como se se tivessem encontrado na véspera numa reunião social, antes do acontecimento. Notemos que Mítia havia a princípio sido recebido cordialmente em casa do isprávnik, mas que, posteriormente, no derradeiro mês sobretudo, quase cessara de freqüentar-lhe a casa. O isprávnik, quando o encontrava na rua, por exemplo, fechava a cara e só o cumprimentava por polidez, o que não escapava a Mítia. Conhecia ainda menos o procurador, mas visitava, sem bem saber por que, sua mulher, senhora nervosa e caprichosa; ela o recebia sempre graciosamente e testemunhava interesse por ele. Quanto ao juiz, conversara duas vezes com ele, a propósito de mulheres.

— O senhor, Nikolai Parfiénovitch, é um juiz de instrução bastante hábil, pelo que vejo — disse alegremente Mítia. — Vou ajudá-lo, aliás. Oh!

senhores, ressuscitei... não se formalizem com minha franqueza, tanto mais que estou um pouco bêbado, confesso-o. Parece-me ter tido a honra...

a honra e o prazer de tê-lo encontrado, Nikolai Parfiénovitch, em casa de meu parente Miúsov... Senhores, não pretendo igualdade, compreendo minha situação perante os senhores. Pesa sobre mim... se Gregório me acusa, pesa sobre mim, bem decerto, uma acusação terrível. Compreendo-o muito bem. Mas, de fato, senhores, estou pronto e em breve poderemos tudo terminar. Se estou seguro de minha inocência, não demorará muito, não é mesmo?

Mítia falava depressa, expansivamente, como se tomasse seus auditores por seus melhores amigos.

— De modo que, anotamos, enquanto esperamos, que o senhor nega formalmente a acusação feita contra o senhor — disse num tom grave Nikolai Parfiénovitch, e ditou a meia voz ao escrivão o necessário.

— Anotar? Quer anotar isso? Pois seja, coisinto, dou meu pleno consentimento, senhores... somente, vejam... Espere, escreva isto:

é culpado de violências, de ter assestado golpes terríveis em um pobre velho. E depois, no meu foro íntimo, no fundo do coração, sinto-me culpado, mas isto não é preciso escrever, é minha vida privada, senhores, isto não lhes diz respeito, são segredos do coração... Quanto ao assassinato de meu velho 468

pai, sou inocente! É uma idéia monstruosa!... Provar-lhes-ei, ficarão os senhores convencidos imediatamente. Rirão mesmo de suas suspeitas!...

— Acalme-se, Dimítri Fiódorovitch — disse o juiz. — Antes de prosseguir o interrogatório, quereria, se o senhor consentir em responder, que me confirmasse um fato: o senhor não gostava do defunto, parece, tinha constantes brigas com ele... Aqui, pelo menos, há um quarto de hora, declarou ter tido a intenção de matá-lo: "Não o matei", disse o senhor,

"mas quis matá-lo!"

— Disse isso? Oh! bem possível! Sim, várias vezes, quis matá-lo...

desgraçadamente!

— O senhor o queria. Consente em explicar-nos os motivos desse ódio contra seu pai?

— Que adianta explicar, senhores? — disse Mítia, com ar sombrio, erguendo os ombros. — Não ocultava meus sentimentos, toda a cidade os conhece. Não há muito tempo manifestei-os no mosteiro, na cela do stáriets Zósima... Na noite do mesmo dia, bati em meu pai e quase o matei, jurando diante de testemunhas que voltaria para matá-lo. Oh! as testemunhas não faltam, gritei isto durante um mês... O fato é patente, mas os sentimentos são outro negócio. Vejam, senhores, acho que não têm o direito de interrogar-me a respeito. Malgrado a autoridade de que estão revestidos, é um negócio íntimo, que só a mim interessa... mas uma vez que não ocultei meus sentimentos antes... falei deles a todo mundo no botequim, então... então não farei disso um mistério agora. Vejam os senhores, compreendo que há contra mim acusações esmagadoras: disse a todos que o mataria e eis que o matam: não serei eu o culpado, em semelhante caso? Ah! ah! ah! Eu os desculpo, senhores, eu os desculpo absolutamente. Eu mesmo estou estupefato. Quem é, pois, o assassino, neste caso, senão eu? Não é verdade? Se não sou eu, quem é então?

Senhores, quero saber, exijo que me digam onde foi ele morto, como, com que arma.

Olhou longamente o juiz e o procurador.

— Nós o encontramos caído no soalho, em seu gabinete, com a cabeça rebentada — disse o procurador.

— É terrível, senhores!

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Mítia estremeceu, apoiou os cotovelos na mesa, ocultou o rosto com sua mão direita.

— Continuemos — disse Nikolai Parfiénovitch. — Então, que motivos inspiraram seu ódio? O senhor, creio, declarou publicamente que ele provinha do ciúme?

— Oh! sim, o ciúme, e outra coisa mais.

— Questões de dinheiro?

— Oh! sim, o dinheiro desempenhava nisso também um papel.

— Tratava-se, creio, de 3 000 rublos que o senhor não havia recebido de sua herança?

— Como, 3 000? Mais, mais de 6 000, mais de 10 000, talvez. Disse-o a todo mundo, gritei-o por toda parte! Mas estava decidido, para pôr termo a tudo, a transigir em 3 000 rublos. Precisava deles a qualquer preço... de sorte que aquele pacote oculto debaixo de uma almof ada e destinado a Grúchenhka, considerava-o eu como propriedade minha que me tinha sido roubada, sim, senhores, como me pertencendo.

O procurador trocou uma olhadela significativa com o juiz.

— Voltaremos a isso — disse logo o juiz. — No momento, permita-nos consignar esse ponto, que o senhor considerava o dinheiro encerrado naquele envelope como propriedade sua.

— Escrevam, senhores. Compreendo que é uma nova acusação contra mim, mas isto não me causa medo, acuso-me a mim mesmo. Estão ouvindo? A mim mesmo. Vejam, senhores, creio que os senhores se enganam totalmente a meu respeito — acrescentou, com tristeza. — O

homem que lhes fala é leal; cometeu muitas baixezas, mas sempre permaneceu nobre no íntimo de si mesmo... Em uma palavra, não sei exprimir-me... Esta sede de nobreza sempre me atormentou, como a um mártir; eu a buscava com a lanterna de Diógenes, e no entanto só pratiquei vilanias, como nós todos, senhores... isto é, como somente eu, engano-me, eu só é que sou assim!... Senhores, tenho dor de cabeça. Fiquem sabendo que tudo nele me desgostava: seu exterior, não sei quê de desonesto, de gabolice e desprezo por tudo quanto é sagrado, palhaçada e irreligião.

Mas agora que ele está morto, penso diferentemente.

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— Como assim diferentemente?

— Não diferentemente, mas lamento tê-lo detestado tanto.

— Sente remorsos?

— Não, remorsos não, não anotem isto. Eu mesmo, senhores, não brilho nem pela bondade, nem pela beleza; de modo que não tinha o direito de achá-lo repugnante. Podem anotar isto.

Tendo assim falado, Mítia pareceu bastante triste. Tornava-se cada vez mais sombrio à medida que respondia às perguntas do juiz. Foi nesse momento que se desenrolou uma cena inesperada. Se bem que tivessem afastado Grúchenhka, encontrava-se ela num quarto próximo daquele onde se realizava o interrogatório, em companhia da Maksímov, abatido e aterrorizado, que se ligava a ela como a uma âncora de salvação. Um mujique com placa de metal guardava a porta. Grúchenhka chorava; de repente, incapaz de resistir a seu pesar, depois de ter gritado: "Desgraça, desgraça!", correu para fora do quarto para o seu bem-amado, tão bruscamente que ninguém teve tempo de detê-la. Mítia, que a havia ouvido, estremeceu, precipitou-se a seu encontro. Mas impediram de novo que se juntassem. Agarraram-no pelos braços; ele se debateu encarniçadamente, sendo precisos três ou quatro homens para contê-lo.

Apoderaram-se também de Grúchenhka e ele a viu a estender-lhe os braços, enquanto a levavam. Passada a cena, reencontrou-se ele no mesmo lugar, à mesa, diante do juiz.

— Por que fazê-la sofrer? — exclamou ele. — Ela é inocente!... O

procurador e o juiz esforçaram-se por acalmá-lo. Dez minutos decorreram assim.

Mikhail Makárovitch, que havia saído, tornou a entrar e disse todo comovido:

— Ela está lá embaixo. Permitem, meus senhores, que eu diga uma palavra a esse infeliz? Na presença dos senhores, bem entendido.

— Pois não, Mikhail Makárovitch, não vemos inconvenientes nisso — disse o juiz.

— Dimítri Fiódorovitch, escuta, meu pobre amigo — seu rosto exprimia uma compaixão quase paternal —, Agrafiena Alieksándrovna encontra-se lá embaixo, com as filhas do hospedeiro, o velho Maksímov não 471

a deixa. Tranqüilizei-a, fiz-lhe compreender que tu devias justificar-te, que não se devia perturbar-te, senão agravadas as acusações contra ti, compreendes? Em suma, ela compreendeu, é inteligente e boa, queria beijar-me as mãos, pedindo graça para ti. Foi ela quem me enviou para tranqüilizar-te. Preciso dizer-lhe que estás tranqüilo a teu respeito.

Acalma-te, pois. Sou culpado diante dela, é uma alma cristã, senhores, uma alma terna e inocente. Posso dizer-lhe, Dimítri Fiódorovitch, que estarás calmo?

O bom homem estava comovido pela dor de Grúchenhka, tinha mesmo lágrimas nos olhos. Mítia adiantou-se para ele.

— Perdão, senhores, com licença, peço-lhes. O senhor é um anjo, Mikhail Makárovitch, obrigado por ela. Ficarei calmo, ficarei alegre, áiga-Ihe isso na sua bondade; vou mesmo pôr-me a rir, sabendo que o senhor vela por ela. Acabarei em breve isto, assim.que ficar livre correrei para ela. Que ela tenha paciência! Senhores, vou abrir-lhes meu coração, vamos terminar tudo isto alegremente, acabaremos rindo juntos, não é? Senhores, aquela mulher é a rainha da minha alma! Oh! deixem-me dizer-lhes... Vejo que são corações nobres. Ela aclara e enobrece minha vida! Oh! se os senhores soubessem! Ouviram seus gritos: "Irei contigo à morte!" Que lhe dei eu, eu que nada tenho? Por que tal amor? Sou eu digno, eu, vil criatura, de ser amado a ponto de seguir-me ela à prisão? Ainda há pouco, arrastava-se aos pés dos senhores por minha causa, ela, tão altiva e inocente! Como não adorá-la, não correr para ela? Senhores, perdoem-me! Agora, eis-me consolado!

Caiu sobre uma cadeira e, cobrindo o rosto com as mãos, pôs-se a soluçar. Mas eram lágrimas de alegria. O velho isprávnik parecia encantado, os juizes igualmente; sentiam que o interrogatório entrava numa fase nova. Quando o isprávnik saiu, Mítia tornou-se alegre.

— Pois bem, senhores, agora estou a seu dispor. E... não fossem todos esses detalhes e já nos teríamos entendido. Senhores, a seu dispor, mas é preciso que uma confiança mútua reine entre nós, senão não acabaremos nunca. É pelos senhores que falo. Ao fato, senhores, ao fato!

Sobretudo não cascavilhem minha alma, não a torturem com bagatelas, mantenham-se no essencial e lhes darei satisfação. Ao diabo os detalhes!

Assim falou Mítia. O interrogatório recomeçou.

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IV

SEGUNDO PURGATÓRIO

— O senhor não poderia acreditar quanto sua boa-vontade nos reconforta, Dimítri Fiódorovitch — disse Nikolai Parfiénovitch. Seus olhos, de um cinzento-claro e salientes, brilhavam de satisfação. — O senhor falou com razão dessa confiança mútua, indispensável nos negócios de uma tal importância, se o acusado deseja verdadeiramente, espera e pode justificar-se. De nosso lado, faremos tudo quanto de nós depender. O

senhor já pôde ver como conduzimos este caso... Está de acordo, Ipolit Kirílovitch?

— Decerto — aprovou o procurador, todavia um pouco secamente em comparação com o outro.

Notemos uma vez por todas que Nikolai Parfiénovitch, desde sua recente entrada em funções, testemunhava profundo respeito pelo procurador, pelo qual sentia simpatia. Era quase o único a acreditar absolutamente no notável talento psicológico e oratório de Ipolit Kirílovitch, vítima de injustiças, no que acreditava piamente. Já ouvira falar dele em Petersburgo. Em compensação, o jovem Nikolai Parfiénovitch era o único homem no mundo de quem o nosso mal-aventurado procurador gostava sinceramente. Em caminho, tinham podido combinar-se a respeito do caso que se anunciava e agora o espírito agudo de Nikolai Parfiénovitch captava no ar e interpretava cada sinal, cada jogo fisionômico de seu colega.

— Senhores, deixem-me contar-lhes as coisas sem me

interromperem a propósito de bagatelas. Não será longo — continuou Mítia.

— Muito bem, mas, antes de ouvi-lo, permita-nos que constatemos este pequeno fato muito curioso para nós. O senhor pediu emprestados 10

ru-blos ontem à tardinha, às 5 horas, deixando suas pistolas como penhor a seu amigo Piotr Ilitch Pierkhótin.

— Sim, senhores, empenhei-as por 10 rublos, quando voltei de viagem. E com isso?

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— O senhor voltava de viagem? Tinha deixado a cidade?

— Fora a 40 verstas da cidade, senhores. Não sabiam disso? O

procurador e o juiz trocaram um olhar.

— O senhor faria bem começando sua narrativa pela descrição metódica de seu dia desde a manhã. Queira dizer-nos, por exemplo, por que se ausentou, o momento de sua partida, e de seu regresso...

— Deviam ter-me pedido imediatamente — disse Mítia rindo. — Se quiserem, remontarei a anteontem, então comoreenderão o sentido de meus passos. Há dois dias, fui, logo de manhã, à casa do comerciante Samsónov para lhe pedir emorestados* 3 000 rublos com seguras garantias.

Precisava dessa soma de repente e o mais depressa possível.

— Com licença — interrompeu num tom polido o procurador —, por que tinha o senhor necessidade de repente de tal soma, precisamente 3

000 rublos?

— Ah! senhores, quantos detalhes! Como, quando, por que, por qual razão tal soma e não outra? Palavrório, tudo isso. Desse jeito, nem três volumes seriam suficientes, precisaria ainda um epílogo!

Mítia falava com a bonomia familiar de um homem desejoso de dizer toda a verdade e animado das melhores intenções.

— Senhores — prosseguiu ele —, queiram desculpar minha brusquidão, estejam certos de meus sentimentos respeitosos a seu respeito. Não estou mais embriagado. Compreendo a diferença que nos separa: sou aos olhos dos senhores um criminoso que devem vigiar; não me passarão a mão pelos cabelos por causa de Gregorio, não se pode rebentar impunemente a cabeça de um velho. Isso me valerá seis meses ou um ano de prisão, mas sem privar-me de meus direitos civis, não é, senhor procurador? Compreendo tudo isso... Mas confessem que os senhores desconcertariam o próprio Deus com perguntas assim: "Aonde fôste, co-mo e quando? Por quê?"Eu me atrapalharia desta forma, os senhores anotariam imediatamente, e que resultaria disso? Nada! Afinal, se comecei a mentir, irei até o fim, e os senhores mo perdoarão, dadas sua instrução e nobreza de seus sentimentos. Para terminar, peço-lhes que renunciem a esses processos oficiais que consistem em fazer perguntas insignificantes:

"Gomo te levantaste? Que comeste? Onde cuspiste?" e, es-estando 474

adormecida a atenção do réu, perturbá-lo, perguntando-lhe: "A quem mataste? A quem roubaste?" Ah! ah! Eis o processo clássico dos senhores, eis em que se funda toda a sua astúcia! Empreguem esse ardil com os mujiques, mas não comigo, que compreendo as coisas e já servi! Ah! ah!

ah! Não se zanguem, senhores, perdoem meu atrevimento. — Olhava-os com estranha bonomia. — Pode-se ter mais indulgência por Mítia Karamázov do que por um homem de espírito, ah! ha! ah!

O juiz ria. O procurador permanecia grave, não desfitava os olhos de Mítia, observava atentamente seus menores gestos e os movimentos de sua fisionomia.

— Contudo — disse Nikolai Parfiénovitch, continuando a rir —, nós não o confundimos a princípio com questões tais como: "Como se levantou esta manhã? Que comeu?" Fomos mesmo demasiado depressa ao alvo.

— Compreendo, aprecio a bondade dos senhores. Estamos todos três de boa fé, deve reinar entre nós a confiança recíproca de pessoas do mundo ligadas pela nobreza e pela honra. Em todo o caso, deixem-me olhá-los como meus melhores amigos nestas penosas circunstâncias! Isto não os ofende, não é, senhores?

— Pelo contrário, o senhor diz muito bem, Dimítri Fiódorovitch —

aprovou o juiz.

— E os detalhes, senhores, todo esse processo chicanista, deixemo-los de lado! — exclamou Mítia muito exaltado. — Com eles não che-garemos a nenhum resultado.

— O senhor tem toda a razão — interveio o procurador —, mas mantenho minha pergunta. — É-nos indispensável saber por que tinha o senhor necessidade desses 3 000 rublos.

— Para uma coisa ou outra... que importa? Para pagar uma dívida.

— A quem?

— Isto recuso absolutamente dizer, senhores! Não é por temor ou timidez, pois se trata duma bagatela, mas por princípio. Isto diz respeito à minha vida privada e não permito que nela se toque. Sua pergunta nada tem que ver com o caso, portanto diz respeito à minha vida privada.

Queria pagar uma dívida de honra, mas não direi a quem.

475

— Permita-nos anotar isso — disse o procurador.

— Peço-lhe. Escreva que recuso dizê-lo, achando que não seria honroso fazê-lo. Vê-se bem que não lhes falta tempo para escrever!

— Permita-me, senhor, preveni-lo, lembrar-lhe ainda, se o ignora —

disse num tom severo o procurador —, que o senhor tem o direito absoluto de não responder às nossas perguntas, e que, de outra parte, não temos absolutamente o direito de exigir respostas que o senhor julgue que não deve dar. Mas devemos chamar sua atenção para o prejuízo que causa a si mesmo recusando falar. Agora, queira continuar.

— Senhores, não me estou zangando... eu... — gaguejou Mítia um pouco confuso diante daquela observação — saibam que aquele Samsónov a cuja casa fui...

Bem entendido, não reproduziremos sua narrativa dos fatos que o leitor já conhece. Na sua impaciência, queria o narrador contar tudo detalhadamente e ao mesmo tempo com rapidez. Mas tinha-se de tomar por escrito suas declarações à medida que eram feitas, donde a necessidade de fazê-lo por vezes parar. Dimítri Fiódorovitch a isso se resignava, de má vontade; exclamava por vezes: "Senhores, é de exasperar o próprio Deus", ou "Senhores, sabem que me irritam sem motivo?", mas, apesar dessas exclamações, continuava expansivo. Foi assim que contou como Samsónov o mistificara (dava-se perfeitamente conta disso agora). A venda do relógio por 6 rublos, a fim de arranjar o dinheiro da viagem, interessou bastante os magistrados, que ainda ignoravam isso; com extrema indignação de Mítia, julgou-se necessário consignar com detalhes esse fato, que estabelecia de novo que na véspera também estava ele quase sem dinheiro algum. Pouco a pouco, Mítia tornava-se sombrio. Em seguida, depois de ter descrito sua visita a Liagávi, a noite passada na isbá e o começo de asfixia, abordou seu regresso à cidade e se pôs por si mesmo a descrever suas torturas de ciúme por causa de Grúchenh-ka.

Escutavam-no em silêncio e com atenção, anotando-se sobretudo o fato de que desde muito tempo tinha ele um posto de observação no jardim de Maria Kondrátievna, para o caso de Grúchenhka ir à casa de Fiódor Pávlovitch, e que Smierdiákov lhe transmitia informações; isto foi mencionado bem devidamente. Falou longamente de seu ciúme, malgrado sua vergonha em exibir seus sentimentos mais íntimos, por assim dizer, à desonra pública, mas dominava-a a fim de ser verídico. A severidade 476

impassível dos olhares fixos nele, durante seu relato, acabou por perturbá-lo bastante fortemente: "Esse rapazola, Nikolai Parfiéno-vitch, com quem tagarelava eu a respeito de mulheres, há alguns dias, e esse procurador doentio não merecem que lhes conte isso", pensava ele tristemente. "Que vergonha!" "Suporta, resigna-te, cala-te", concluía, enquanto se fortalecia para continuar. Chegado ao ponto da visita à casa da Senhora Khokhlakova, voltou a ficar alegre e quis mesmo contar a seu respeito uma anedota recente, fora de propósito; mas o juiz interrompeu-o e convidou-o a passar ao essencial. Em seguida, tendo descrito seu desespero e falado do momento em que, ao sair da casa daquela senhora, tinha mesmo pensado em estrangular alguém para arranjar os 3 000

rublos, fizeram-no parar para que fosse isso consignado. Por fim, contou como soubera da mentira de Grúchenhka, que logo partira da casa de Samsónov, quando devia, afirmava ela, ficar em casa do velho até a meia-noite. "Se não matei então aquela Fiénia, senhores, foi unicamente porque me faltava tempo", deixou ele escapar. Isto também ficou consignado.

Mítia esperou com ar sombrio e ia explicar como entrara no jardim de seu pai, quando o juiz o interrompeu e, abrindo um grande guardanapo que se achava junto dele, em cima do divã, dali tirou um pilão de cobre.

— Conhece este objeto?

— Ah! sim. Como não? Deixe-me vê-lo... Ao diabo, é inútil!

— O senhor esqueceu-se de falar dele.

— Que diabo! Pensam que haveria de ocultar isso? Tinha-me esquecido, eis tudo.

— Quer contar-nos como arranjou esta arma?

— De boa vontade, senhores.

E Mítia contou como pegara o pilão e saíra.

— Mas qual era sua intenção apoderando-se deste objeto?

— Que intenção? Nenhuma. Peguei-o e saí correndo.

— Por que então, se não tinha intenção?

A irritação apoderava-se de Mítia. Fixava o rapazola com um mau sorriso, lamentava a franqueza que estava tendo com tal gente, a propósito de seu ciúme.

477

— Que me importa o pilão?

— No entanto...

— Pois bem, era contra os cachorros. Estava escuro... prevenia-me.

— Antes, quando o senhor saía à noite, levava também uma arma, uma vez que receava tanto a escuridão?

— Com a breoa! É impossível conversar com os senhores! — exclamou Mítia exasperado, e, dirigindo-se, rubro de cólera, ao escrivão:

— Escreva imediatamente... agora mesmo: "Pegou ele o pilão para ir matar seu pai... Fiódor Pávlovitch... para lhe rebentar a cabeça!" Estão contentes, senhores? — perguntou ele, num tom provocativo.

— Não podemos levar em conta tal depoimento, inspirado pela cólera. Nossas perguntas lhe parecem fúteis e irritam-no, quando na verdade são muito importantes — disse secamente o procurador.

— Por favor, senhores! Peguei esse pilão... Por que se pega alguma coisa em semelhante caso? Ignoro-o. Peguei-o e saí correndo. Eis tudo. Ê

vergonhoso, senhores, mas deixemos isso, senão juro-lhes que não direi mais uma palavra.

Pôs os cotovelos sobre a mesa, com a cabeça na mão. Estava sentado de lado em relação a eles e olhava a parede, esforçando-se por dominar um mau sentimento. Tinha, com efeito, grande vontade de levantar-se, de declarar que não diria mais uma palavra, ainda que tivessem de levá-lo a suplício.

— Vejam, senhores, ao ouvi-los, parece-me ter um sonho como por vezes me acontece... sonho muitas vezes que alguém me persegue, alguém de quem tenho muito medo, e me procura, nas trevas. Oculto-me vergonhosamente atrás de uma porta, atrás de um armário. O desconhecido sabe, sobretudo, perfeitamente, onde me encontro, mas finge ignorá-lo, a fim de atormentar por mais tempo, de brincar com meu terror... É o que os senhores estão fazendo agora! É a mesma coisa!

— O senhor tem tais sonhos? — perguntou o procurador.

— Sim, tenho tais sonhos... Não vão anotar?

— Não, mas o senhor tem sonhos estranhos.

478

— Agora, não é mais um sonho! É a realidade, senhores, o realismo da vida! Sou o lobo, os senhores são os caçadores!

— Sua comparação é injusta... — disse mansamente Nikolai Parf iénovitch.

— Absolutamente, senhores! — disse Mítia com irritação, se bem que aliviado por sua brusca explosão de cólera. — Os senhores podem recusar-se a crer num criminoso ou num acusado que torturam com suas perguntas, mas não num homem animado de nobres sentimentos (digo-o ousadamente). Os senhores não têm o direito. Mas Silêncio, meu coração, Suporta, résigna-te, cala-te!

— Devo continuar? — perguntou ele, áspero.

— Como não? Peço-lhe — disse Nikolai Parfiénovitch.

V

TERCEIRO PURGATÓRIO

Embora falando com brusquidao, Mítia pareceu ainda mais desejoso de não omitir nenhum detalhe. Contou como escalara a paliçada, ca-minhara até a janela e tudo quanto se passara então nele. Com precisão e clareza, expôs os sentimentos que o agitavam, quando ardia por saber se Grúchenhka estava ou não na casa. Coisa estranha, o procurador e o juiz escutavam com extrema reserva, de ar rebarbativo, não fazendo senão raras perguntas. Mítia nada podia presumir da expressão de seus rostos.

"Estão irritados e ofendidos", pensou, "tanto pior!" Quando contou que havia feito a seu pai o sinal, anunciando a chegada de Grúchenhka, os magistrados não prestaram nenhuma atenção à palavra "sinal", como se não compreendessem o alcance na circunstância. Mítia notou esse detalhe.

Chegado ao momento em que, à vista de seu pai debruçado para fora da janela, fremira de ódio e tirara o pilão de seu bolso, parou de súbito como de propósito. Olhava a parede e sentia os olhares dos juizes fixos nele.

— Pois bem! — disse Nikolai Parfiénovicth. — O senhor agarrou sua arma e... que se passou em seguida?

— Em seguida? Matei... descarreguei em meu pai um golpe de pilão 479

que lhe fendeu o crânio... Segundo os senhores, foi assim, não é mesmo?

Seus olhos cintilavam. Sua cólera acalmada reacendia-se em toda a sua violência.

— Segundo nós, mas segundo o senhor? Mítia baixou os olhos, fez uma pausa.

— No que me diz respeito, senhores, no que me diz respeito, eis o que se passou — recomeçou ele, mansamente: — Teria sido minha mãe que implorava a Deus por mim, um espírito celeste que me beijou a fronte naquele momento? Não sei, mas o diabo foi vencido. Afastei-me da janela e corri para a paliçada. Meu pai, que me avistou então, ficou com medo, lançou um grito e recuou vivamente, lembro-me bastante bem... Eu já havia trepado na barreira, quando Gregório me agarrou...

Mítia ergueu enfim os olhos para seus ouvintes, que o olhavam com ar impassível. Um frêmito de indignação percorreu-o.

— Senhores, zombam de mim!

— Donde concluiu isso? — perguntou Nikolai Parfiénovitch.

— Os senhores não acreditam uma palavra do que digo!

Compreendo muito bem que cheguei ao ponto capital; o velho jaz agora, com a cabeça fendida, e eu, depois de ter tragicamente descrito minha vontade de matá-lo, com o pilão já na mão, fujo da janela... Tema de poema a ser posto em versos! Pode-se acreditar sob palavra em tal pândego? Os senhores são uns farsantes!

Voltou-se bruscamente na cadeira, que estalou.

-— Não notou o senhor — disse o procurador, parecendo ignorar a agitação de Mítia —, quando deixou a janela, se a porta que dá acesso ao jardim, no outro extremo da fachada, estava aberta?

— Não, não estava aberta.

— Tem certeza?

— Estava, pelo contrário, fechada. Quem teria podido abri-la? Ah! a porta? Esperem! — pareceu reconsiderar e estremeceu: — Os senhores encontraram-na aberta?

— Sim.

480

— Mas quem pôde abri-la, senão os senhores?

— A porta estava aberta, o assassino de seu pai seguiu esse caminho para entrar e para sair — disse o procurador, esc and indo as palavras. —

É bastante claro para nós. O assassinato foi cometido evidentemente no quarto, e não através da janela. Isto resulta do exame dos locais e da posição do corpo. Não há nenhuma dúvida a este respeito.

Mítia estava confuso.

— Mas é impossível, senhores! — exclamou ele, totalmente transtornado. — Eu... eu não entrei... Afirmo-lhes que a porta ficou fechada durante todo o tempo em que eu estive no jardim e quando fugi... Conservava-me sob a janela e só vi meu pai do exterior... Lembro-me até o derradeiro minuto. Mesmo se não me lembrasse, estou certo disso, porque os sinais só eram conhecidos de mim, de Smierdiákov e do defunto, e sem sinais ele não teria aberto a ninguém no mundo!

— Que sinais? — perguntou com ardente curiosidade o procurador, cuja reserva desapareceu logo. Interrogava com uma espécie de hesitação, pressentindo um fato importante, e receava que Mítia se recusasse a explicá-lo.

— Ah! O senhor não sabia? — disse Mítia, piscando o olho, com um sorriso irônico. — E se eu recusasse responder? Quem os informaria? O

defundo, eu e Smierdiákov éramos os únicos a conhecer o segredo, Deus também o sabe, mas ele não o dirá aos senhores. Ora, o fato é curioso e sobre ele pode-se construir à vontade. Ah! Ah! Consolem-se, senhores, eu lhes revelarei o segredo, seus temores são vãos. Os senhores não sabem com quem têm de avir-se! O acusado depõe contra si mesmo, sim, porque sou um cavalheiro de honra, mas os senhores, não!

O procurador engolia essas pílulas na sua impaciência de conhecer o fato novo. Mítia explicou pormenorizadamente os sinais imaginados por Fiódor Pávlovitch para Smierdiákov, o sentido de cada pancada na janela; reproduziu-òs mesmo em cima da mesa. Tendo-lhe Nikolai Parfié-novitch perguntado se ele havia feito então ao velho o sinal convencionado para a chegada da Grúchenhka, Mítia respondeu afirmativamente.

— Agora, construam sobre isso uma hipótese! — cortou ele, voltando-se com desdém.

481

— De modo que seu defunto pai, o senhor e o criado Smierdiákov eram os únicos a conhecer esses sinais? — insistiu o juiz.

. — Sim, o criado Smierdiákov e depois Deus. Notem isto. Devem os senhores mesmo recorrer a Deus.

Consignou-se, bem entendido, mas naquele momento disse o procurador, como se lhe tivesse sobrevindo uma idéia:

— Neste caso, e já que o senhor afirma sua inocência, não teria sido Smierdiákov que fêz seu pai abrir a porta, dando o sinal, e em seguida... o assassinou?

Mítia lançou-lhe um olhar carregado de ironia e de ódio, fixou-o tanto tempo que o procurador bateu as pálpebras.

— Os senhores queriam ainda pegar a raposa, beliscaram-lhe a cauda, ah, ah, ah, pensavam que eu ia agarrar-me ao que os senhores insinuam e exclamar a plenos pulmões: "Ah! Sim, foi Smierdiákov, eis o assassino!" Confessem que pensaram isto, confessem, e então continuarei.

O procurador não confessou nada. Esperou em silêncio.

— Os senhores enganaram-se. Não acusarei Smierdiákov —

declarou Mítia.

— E o senhor nem mesmo suspeita dele?

— Será que os senhores suspeitam?

— Nós também suspeitamos dele. Mítia baixou os olhos.

— Basta de brincadeiras, escutem: desde o começo, quase no momento em que saí de trás daquela cortina, esta idéia já me viera: "Foi Smierdiákov!" Sentado a esta mesa, quando gritava a minha inocência, o pensamento de Smierdiákov me perseguia. Agora, por fim, pensei nele, mas por espaço de um segundo, e logo disse a mim mesmo: "Não, não foi Smierdiákov!" Esse crime não é obra dele, senhores!

— Não suspeita então de alguma outra personagem? — perguntou com precaução Nikolai Parfiénovitch.

— Não sei quem, Deus ou Satã, mas não Smierdiákov! — disse reso-lutamente Mítia.

482

— Mas por que afirma o senhor com tal insistência que não foi ele?

— Por convicção. Porque Smierdiákov é uma natureza vil e covarde, ou antes, o composto de todas as covardias caminhando em cima de dois pés. Nasceu de uma galinha. Quando me falava, tremia de medo, pensando que eu ia matá-lo, quando nem mesmo levantava a mão. Lançava-se a meus pés chorando, beijava minhas botas suplicando-me que não lhe fizesse medo. Entendem? Que não lhe fizesse medo. E eu mesmo dei-lhe presentes. É uma galinha epiléptica, um espírito fraco; um menino de oito anos surrá-lo-ia. Não, não foi Smierdiákov. Não gosta de dinheiro, recusava meus presentes... Aliás, por que teria ele matado o velho? É

talvez seu filho natural, sabem disso?

— Conhecemos esta lenda. Mas o senhor também é filho de Fiódor Pávlovitch e no entanto andou dizendo a todo mundo que queria matá-lo.

— Mais outra pedra no meu jardim! É abominável. Mas eu não tenho medo. Os senhores deviam ter vergonha de dizer-me isto em rosto!

Porque fui eu que lhes falei. Não somente quis matá-lo, mas podia tê-lo feito, eu mesmo me acusei de ter estado a ponto de matá-lo. Mas meu anjo da guarda salvou-me do crime, eis o que os senhores não podem compreender... É ignóbil da parte dos senhores, ignóbil! Porque eu não matei, não matei! Entende, procurador? Não matei!

Sufocava. Durante o interrogatório jamais estivera em semelhante agitação.

— E que lhes disse Smierdiákov? — concluiu após uma pausa. —

Posso sabê-lo?

— Ó senhor pode interrogar-nos sobre tudo quanto diga respeito aos fatos — respondeu friamente o procurador —, e repito-lhe que concor-damos em responder às suas perguntas. Encontramos o criado Smierdiákov em seu leito, sem conhecimento, presa de violenta crise de epilepsia, a décima talvez desde a véspera. O médico que nos acompanhava declarou, depois de ter examinado o doente, que não passaria ele talvez da noite.

— Então, foi o diabo que matou meu pai! — deixou Mítia escapar, como se sua derradeira dúvida desaparecesse.

— Voltaremos a este ponto — concluiu Nikolai Parfiénovitch. —

Queira continuar seu depoimento.

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Mítia pediu para repousar, o que lhe foi concedido com cortesia. Em seguida retomou seu relato, mas com esforço visível. Estava fatigado, indisposto, abalado moralmente. Além do mais, o procurador, como de propósito, irritava-o a cada instante, detendo-se em minúcias. Mítia acabava de descrever como, cavalgando a paliçada, assestara um golpe de pilão na cabeça de Gregório, que se agarrara à sua perna esquerda, depois saltara para junto do ferido, quando o procurador lhe pediu que explicasse com mais detalhes como se mantinha ele sobre a paliçada. Mítia admirou-se.

Continuar: parte 3 de 3