Os Irmãos Karamázov

Fiódor Dostoiévski · Capítulo 36 de 50 · parte 2/2

Páginas do PDF

Os Irmãos Karamázov

Capítulo 37

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

— De qual Sabaniéiev lhe falavas tu? — perguntou ele a Kólia, duvidando da resposta.

— Sei lá! Agora, vão-se descompor até de noite. Gosto de mistificar os imbecis em todas as classes sociais. Olha aquele mujique. Ali está outro simplório. Nota isto; dizem: "Não há pior tolo que um tolo francês", mas uma fisionomia russa trai-se da mesma maneira. Não está escrito na testa dele que é um imbecil, aquele mujique?

— Deixa-o, tranqüilo, Kólia, sigamos nosso caminho.

— Nunca, já comecei, agora. Hei! bom dia, mujique!

Um robusto mujique, que caminhava devagar, sem dúvida, meio tocado, de rosto redondo e ingênuo, a barba grisalhante, ergueu a cabeça e olhou o rapazola.

— Ora bem! Bom dia, se não estás brincando — respondeu ele, sem se apressar.

— E se eu estiver brincando? — disse Kólia, rindo.

— Então brinca, se quiseres, Deus te perdoe. Pode-se sempre brincar, não tem importância.

— Perdão, amigo, estava brincando.

— Pois bem, que Deus te perdoe!

— E tu, me perdoas?

— De todo o coração. Segue teu caminho.

— Tens ar de um mujique inteligente.

— Mais inteligente do que tu — respondeu ele com a mesma seriedade.

— Duvido — disse Kólia, um tanto desconcertado.

— Digo a verdade.

538

— Afinal, pode bem dar-se isso.

— Sei o que digo.

— Adeus, mujique.

— Adeus.

— Há mujiques de diferentes espécies — observou Kólia, depois de uma pausa. — Poderia eu saber que iria dar com um sujeito inteligente?

Soou meio-dia no relógio da igreja. Os rapazes apressaram o passo e não falaram quase mais durante o trajeto, ainda bastante longo, até a casa do Capitão Snieguiriov. A vinte passos da casa, Kólia parou, disse a Smúrov que fosse na frente e chamasse Karamázov.

— É preciso tomar informações previamente — disse-lhe.

— De que serve fazê-lo vir? — objetou Smúrov. — Vai duma vez, ficarão encantados ao ver-te. Por que fazer conhecimento na rua, com um frio desses?

— Sei por que o faço vir aqui no frio — replicou despòticamente Kólia (o que gostava ele muito de fazer com aqueles "pequenos"), e Smúrov correu a executar suas ordens.

IV

BESOURO

Kólia, com ar importante, encostou-se à barreira, aguardando a chegada de Aliócha. Desde muito tempo queria vê-lo. Tinha ouvido falar muito a seu respeito de parte de seus camaradas, mas, até o presente, testemunhava uma indiferença desdenhosa e criticava mesmo Aliócha, de acordo com o que lhe relatavam a seu respeito. No seu foro íntimo desejava muito conhecê-lo; havia, em tudo quanto se contava de Aliócha, algo de simpático que atraía. De modo que o momento era grave; tratava-se de manter sua dignidade, de mostrar sua independência: "Senão ele me tomará por um garoto como esses outros. Que são para ele? Perguntar-lhe-ei, quando nos tivermos conhecido. É pena que seja eu de baixa estatura. Tuzinkov é mais moço do que eu e é uma meia cabeça mais alto.

Não sou bonito, sei que meu rosto é feio, mas inteligente. Não é preciso 539

tampouco que me expanda muito, lançando-me imediatamente nos seus braços. Acreditaria ele... Ufa! que vergonha, se acreditasse..." Assim se agitava Kólia, que se esforçava por assumir um ar de desprendimento. Sobretudo sua baixa estatura o atormentava mais ainda que sua feiúra. Em casa, desde o ano passado, notara seu tamanho a lápis na parede, e de dois em dois meses, de coração a bater, media-se para ver se crescera. Ai! crescia muito lentamente, o que lhe provocava por vezes desespero. Quanto a seu rosto, não era absolutamente feio, mas, pelo contrário, bastante gentil, pálido, com sardas. Os olhos cizentos e vivos olhavam ousadamente e brilhavam muitas vezes de emoção. Tinha as maçãs do rosto um pouco largas, lábios pequenos e mais para delgados, porém muito vermelhos; o nariz nitidamente arrebitado: "Completamente chato, completamente chato!", murmurava, olhando-se no espelho, Kólia, que se retirava sempre com indignação. "E o rosto não deve ser inteligente", imaginava por vezes, duvidando mesmo disso. Aliás, não é preciso crer que a preocupação com seu rosto e sua estatura o absorvesse por completo. Pelo contrário, por mais vexatórias que fossem as estadas diante do espelho, esquecia-as em breve e por muito tempo,

"consagrando-se todo inteiro às idéias e à vida real", como ele próprio definia sua atividade.

Aliócha apareceu dentro em pouco e avançou rapidamente ao encontro de Kólia; ainda a distância notou este que mostrava ele um af radioso. "Estará realmente tão contente assim por ver-me?", pensava Kólia com satisfação. Notemos, de passagem, que Aliócha mudara muito, desde que o deixamos; abandonara a batina e trazia agora uma sobrecasaca de bom corte, um chapéu de feltro cinzento, os cabelos curtos. Ganhara com a mudança. Parecia um belo rapaz. Seu rosto gentil irradiava sempre a alegria, mas uma alegria doce e tranqüila. Kólia ficou surpreso por vê-lo sem sobretudo; saíra decerto à pressa. Estendeu a mão a Kólia.

— Ei-lo afinal, nós o esperávamos com impaciência.

— Minha demora tinha causas que o senhor saberá. Em todo o caso, tenho prazer em conhecê-lo. Esperava essa ocasião, pois me falaram muito do senhor — murmurou Kólia, constrangido.

— De qualquer maneira ter-nos-íamos conhecido. Também eu ouvi falar muito a seu respeito, mas chega aqui demasiado tarde.

540

— Diga-me, como vão as coisas aqui?

— Iliúcha vai muito mal, morrerá certamente.

— Será possível? Convenha que a medicina é uma coisa infame, Karamázov — disse Kólia com ardor.

— Iliúcha lembrou-se de você muitas vezes, no delírio. Vê-se que ele gostava muito de você antes... até aquele incidente... com o canivete. Há outra causa... Esse cachorro lhe pertence?

— Sim, é Carrilhão.

— Não é Besouro? — Aliócha fitou tristemente os olhos de Kólia. —

O outro desapareceu de verdade?

— Sei que todos estão querendo ver Besouro, contaram-me tudo —

replicou Kólia, com um sorriso enigmático. — Escute, Karamázov, vou dizer-lhe tudo, foi aliás para explicar-lhe a situação que mandei chamá-lo antes de entrar — começou ele com animação. — Na primavera, Iliúcha entrou para a classe preparatória. Sabe-se o que são os alunos dessa classe: uns fedelhos, uma criançada. Puseram-se logo a implicar com ele. Estou duas classes adiante e, bem entendido, observo de longe. Vejo um rapazinho raquítico, que não se submete, bate-se mesmo contra eles; é orgulhoso, seus olhos brilham. Gosto de tais caracteres. Os outros redobram. O pior é que tinha ele então uma roupa ordinária, umas calças que subiam nas pernas, sapatos furados. Razão demais para humilhá-lo.

Isso me desagradou, tomei logo a defesa dele e dei-lhes uma lição, porque bato neles e eles me adoram, sabe disso, Karamázov? — disse Kólia, com um orgulho expansivo. — Em geral, gosto dos meninos. Tenho agora, em casa, dois garotinhos a meu cargo, foram eles que me retiveram hoje. De modo que cessaram de bater em Iliúcha e tomei-o sob minha proteção. É

um menino altivo, asseguro-lhe, mas acabou por me ser servilmente devotado, executou minas menores ordens, obedeceu-me como a Deus, esforçando-se por imitar-me. Nos recreios, vinha procurar-me e íamos juntos, nos domingos também. No ginásio, zombam ao ver um grande ligar-se assim com um pequeno, mas é um preconceito. Tal é minha fantasia, e basta, não é? Instruo-o, desenvolvo-o, por que não posso desenvolvê-lo, diga, se me apraz? Porque o senhor, Karamázov, se se ligou a todos esses meninos, é sem dúvida porque quer influir sobre a jovem geração, desenvolvê-la, tornar-se útil, não é assim? E, confesso-o, 541

essa feição de seu caráter, que conhecia por ouvir dizer, interessou-me ainda mais. Aliás, de fato, noto que se desenvolve naquele menino não sei que sensibilidade, sentimentalidade; ora, saiba que desde minha infância sou inimigo decidido das ternuras de novilha. Além do mais, ele se contradiz; altivo e servilmente devotado — servilmente devotado e, de repente, seus olhos cintilam, não quer ficar de acordo comigo, discute, zanga-se. Expunha eu por vezes certas idéias; não que ele se opusesse a essas idéias, mas via que ele se revoltava contra mim pessoalmente, porque respondia eu a suas ternuras com frieza. A fim de educá-lo, mostrava-me tanto mais frio quanto se tornava ele mais terno; fazia-o de propósito, tal era a minha convicção. Propunha-me formar seu caráter, nivelá-lo, fazer dele um homem... afinal, o senhor me entende decerto. De repente, vejo-o vários dias seguidos perturbado, aflito, não por causa de ternuras, mas por alguma outra coisa, mais forte, superior. "Que tragédia será essa?", pensava eu. Apertando-o com perguntas, soube da coisa: travara ele conhecimento com o lacaio do falecido pai do senhor (quando ainda vivo), Smierdiákov; este ensinou-lhe uma brincadeira estúpida, isto é, cruel e covarde, pegar miolo de pão, nele enfiar um alfinete e atirá-lo a um mastim, um desses cães esfomeados que engolem dum trago, depois ficar vendo o que resultaria disso. Prepararam, pois, uma bolinha e atiraram-na a esse Besouro de pêlos compridos de que se trata agora, um cão que ninguém alimentava e que ladrava ao vento o dia inteiro. (Gosta desse estúpido ladrido, Karamazov? Eu não posso suportá-lo.) O animal atirou-se à bolinha, engoliu-a, gemeu, depois pôs-se a girar e a correr, uivando, e desapareceu, como me contou Iliúcha. Confessava-o, chorando, agarrando-me, sacudido pelos soluços: "O cão corria e gemia", era só o que repetia. Aquela cena havia-o abalado. Tinha remorsos. Levei a coisa a sério. Queria sobretudo ensiná-lo a viver de acordo com sua conduta anterior, de modo que me utilizei de astúcia, confesso-o, e fingi uma indignação que não sentia talvez absolutamente. "Cometeste uma ação vil", disse-lhe, "és um miserável, não divulgarei a coisa, está entendido, mas no momento rompo minhas relações contigo. Vou refletir e far-te-ei saber por Smúrov (acompanhou-me hoje e é-me devotado) minha decisão definitiva". Ele ficou consternado. Senti que havia ido um pouco longe, mas que fazer? Era minha idéia então. No dia seguinte, mandei dizer-lhe por Smúrov que não lhe falaria mais, é a expressão em uso, quando dois camaradas rompem as relações. Minha intenção secreta era tratá-lo com 542

rigor alguns dias, depois, à vista de seu arrependimento, estender-lhe a mão. Estava firmemente decidido a isso. Mas, acredita-o? depois de ter ouvido Smúrov, eis que seus olhos faíscam e ele exclama: "Dize a Krasótkin de minha parte que agora vou atirar a todos os cachorros bolinhas com alfinetes, a todos, a todos!" "Ah!", pensei, "ele está ficando voluntarioso, é preciso corrigi-lo", e me pus a testemunhar por ele perfeito desprezo, a desviar-me ou a sorrir ironicamente a cada encontro. E eis que sobreveio aquele incidente com o pai dele, o senhor se lembra? o esfregão de tília". Compreende o senhor que assim estava ele pronto a exasperar-se.

Vendo que eu o abandonava, os meninos puseram-se a mexer com ele cada vez mais: "Esfregão de tília, esfregão de tília!" Foi então que começaram entre eles batalhas que eu lamento enormemente, porque creio que uma vez foi ele brutalmente surrado. Aconteceu-lhe atirar-se contra os outros ao sair da aula, mantinha-me eu a dez passos e observava-o.

Não me lembro de ter rido então; pelo contrário, causava-me ele grande compaixão e estava eu a ponto de lançar-me em seu socorro. Deu ele com meu olhar, ignoro o que imaginou, mas agarrou um canivete, atirou-se sobre mim e fincou-mo na coxa direita. Não fiz um movimento, sou corajoso quando preciso, Karamazov, limitei-me a fitá-lo com desprezo, como para dizer-lhe: "Não queres recomeçar, como lembrança de nossa amizade? Estou à tua disposição". Mas não me golpeou de novo, não pôde fazê-lo, ficou com medo, atirou fora o canivete, fugiu chorando. Bem entendido, não o denunciei, ordenei a todos que se calassem, a fim de que a coisa não chegasse aos ouvidos dos professores, só falei com minha mãe depois que a ferida cicatrizou, um simples arranhão. Soube depois que no mesmo dia batera-se ele a pedradas e mordera o dedo do senhor.

Compreende em que estado se encontrava ele? Quando caiu doente, cometi a falta de não ir perdoá-lo, isto é, de me reconciliar com ele.

Lamento-o agora. Mas foi então que me veio uma idéia. Aí está toda a história... somente, creio que errei...

— Ah! que pena — disse Aliócha, comovido — que não tenha eu conhecido as relações anteriores de você com Iliúcha; há muito tempo que teria ido rogar-lhe que me acompanhasse à casa dele. Sabe que no seu delírio febril fala de você? Ignorava quanto você lhe era querido! Será possível que você não tenha tentado reencontrar esse Besouro? Seu pai e seus camaradas procuraram-no por toda a cidade. Saiba que, doente e a chorar, repetiu três vezes diante de mim: "Foi porque matei Besouro que 543

estou doente, papai. Foi Deus quem me puniu!" Não se pode tirar-lhe essa idéia da cabeça. £, se você tivesse trazido agora Besouro e provasse que ele está vivo, creio que a alegria o haveria de ressuscitar. Contamos todos com você.

— Diga-me, por que esperavam que fosse eu que deveria procurar Besouro? — perguntou Kólia com viva curiosidade. — Por que contavam comigo e não com outrem?

— Correu o boato de que você o procurava e o levaria. Smúrov falou a respeito. Esforçamo-nos todos em fazer crer a Iliúcha que Besouro está vivo, que o viram. Os meninos levaram-lhe um lebracho. Olhou-o com um fraco sorriso e pediu que lhe restituíssem a liberdade. Foi o que fizemos.

Seu pai acaba de voltar com um molosso bem novinho. Pensava consolá-lo assim, mas creio que é pior...

— Diga-me ainda, Karamázov, que espécie de homem é o pai dele?

Conheço-o, mas que pensa dele o senhor: é um palhaço, um farsante?

— Oh! não. Há pessoas de alma sensível, mas que vivem como que esmagadas. Sua palhaçada é uma espécie de ironia malévola para com aqueles a quem não ousam dizer a verdade na cara, em conseqüência da humilhação e da timidez que sentem desde muito tempo. Creia, Krasótkin, que semelhante palhaçada é por vezes das mais trágicas. Agora, Iliúcha é tudo para ele e, se morrer, seu pai perderá a razão ou se matará. Estou quase certo disso, quando o olho!

— Compreendo-o, Karamázov, vejo que o senhor conhece o homem.

— Vendo-o com um cão, pensei que era Besouro.

— Espere, Karamázov, talvez tornemos a encontrar Besouro, mas este aqui é Carrilhão. Vou deixá-lo entrar e talvez cause mais prazer a Iliúcha que o molosso novinho. Espere, Karamázov, o senhor vai saber duma coisa. Ah! meu Deus, em que pensava eu? — exclamou de repente Kólia. — O senhor está sem sobretudo num frio desses e eu a retê-lo! Veja como sou egoísta! Somos todos egoístas, Karamázov!

— Não se inquiete, faz frio, mas não sou friorento. Vamos, pois. A propósito, qual é seu nome? Sei somente que se chama Kólia.

— Nikolai, Nikolai Ivânovitch Krasótkin, ou, como se diz adminis-trativamente, Krasótkin filho. — Kólia sorriu, mas acrescentou: 544

— Naturalmente, detesto meu nome de Nikolai.

— Por quê?

— É tão vulgar.

— Tem treze anos? — perguntou Aliócha.

— Catorze dentro de quinze dias. Devo confessar-lhe uma fraqueza, Karamázov, como entrada em matéria, para que o senhor veja de relance toda a minha natureza. Detesto que me perguntem minha idade... enfim...

caluniam-me dizendo que estive brincando de bandidos com os alunos da preparatória, na semana passada. É verdade que brinquei, mas pretender que brinquei para me divertir eú mesmo, para meu próprio prazer, é uma verdadeira calúnia. Tenho razões de crer que o senhor está informado disso; ora, não brinquei por mim, mas por causa dos garotos. Porque nada sabiam imaginar sem mim. E, entre nós, contam-se sempre bobagens. É a cidade dos mexericos, posso afirmar-lhe.

— E ainda mesmo que tivesse você brincado por prazer próprio, que teria isso demais?

— Ah! para me divertir... Mas o senhor brincaria de cavalinhos?

— Você deve dizer a si mesmo isto — disse, sorrindo, Aliócha: — os adultos, por exemplo, vão ao teatro, onde representam também as aventuras de diversos heróis, por vezes também cenas de banditismo e de guerra; ora, não é isso a mesma coisa, no seu gênero, bem entendido? E

quando os jovens brincam de guerra, durante o recreio, ou de bandidos, é também a arte nascente, uma necessidade artística que se desenvolve nas almas jovens e por vezes esses brinquedos são mais perfeitos que as representações teatrais; a única diferença é que se vai ao teatro ver os atores, ao passo que a mocidade desempenha ela própria o papel de atores.

Mas é tudo natural.

— Acredita-o? Está certo disto? — perguntou Kólia, fixando-o. — O

senhor exprimiu uma idéia bastante curiosa; vou meditá-la, uma vez de volta para casa. Sabia bem que se pode aprender alguma coisa com o senhor. Vim instruir-me em sua companhia, Karamázov — disse Kólia, expansivamente.

— E eu na sua.

545

Aliócha sorriu, apertou-lhe a mão. Kólia estava encantado com Aliócha. O que o impressionava era encontrar-se num pé de igualdade perfeita com ele, que lhe falava como a um adulto.

— Vim mostrar-lhe um número, Karamázov, uma representação teatral também — disse ele com um riso nervoso. — Foi por isso que vim.

— Então, primeiro à esquerda, à casa do proprietário. Seus camaradas deixaram lá seus sobretudos, porque no quarto está-se muito apertado e faz calor.

— Oh! não ficarei muito tempo, conservarei meu sobretudo.

Carrilhao me esperará no vestíbulo. "Aqui, Carrilhao, deita-te e morre!"

Está vendo? Ele está morto. Entrarei primeiro para ver o que se está passando, depois, quando chegar o momento, assobiarei para ele: "Aqui, Carrilhao!" O senhor vê-lo-á precipitar-se. Somente, é preciso que Smúrov não sé esqueça de abrir a porta nesse momento. Darei minhas instruções e o senhor verá um número...

V

À CABECEIRA DE ILIÚCHA

No quarto ocupado pela família do capitão reformado Snieguiriov, que já conhecemos, estava-se apertado e abafava-se, em vista do número de visitantes. Se bem que os meninos que ali se encontravam estivessem prontos, como Smúrov, a negar que Aliócha os tivesse reconciliado com Iliúcha e levado à casa deste, era mesmo assim. Toda a sua habilidade consistira em levá-los um após outro, sem ternuras de novilha e como que por acaso. Isto levara grande alívio aos sofrimentos de Iliúcha. A amizade quase terna e o interesse que lhe testemunhavam seus antigos inimigos muito o comoveram. Só faltava Krasotkin e sua ausência era de todas a mais penosa. Nas tristes recordações de Iliúcha, o episódio mais amargo era o incidente com Krasotkin, seu único amigo e seu defensor, contra o qual se lançara naquela ocasião com um canivete.

Era o que pensava o jovem Smúrov, rapaz inteligente (que fora o primeiro a reconciliar-se com Iliúcha). Mas Krasótkin, sondado vagamente por Smúrov a respeito da visita de Aliócha para um negócio, cortara cerce, 546

mandando responder a Karamázov que sabia o que tinha de fazer, que não pedia conselho a ninguém e que, se fosse visitar o doente, seria idéia sua, tendo já um plano. Isto se passara duas semanas antes daquele domingo. Eis por que Aliócha não fora ele próprio ao seu encontro, como era intenção sua. Aliás, enquanto esperava, mandara Smúrov por duas vezes à casa de Krasótkin. Mas de cada vez este recusara secamente, mandando dizer a Aliócha que se ele fosse procurá-lo, ele próprio não iria jamais à casa de Iliúcha, e rogava que o deixasse tranqüilo. Até o derradeiro dia, o próprio Smúrov ignorava que Kólia tivesse decidido ir à casa de Iliúcha, e, na véspera à noite, somente, ao despedir-se dele, Kólia lhe dissera bruscamente que o esperasse em casa no dia seguinte de manhã, porque o acompanharia à casa dos Snieguiriovi, mas que evitasse falar a quem quer que fosse dessa visita, porque queria chegar de improviso. Smúrov obedeceu. Gabava-se de que Krasótkin levaria Besouro desaparecido, de acordo com certas expressões feitas por ele incidentemente de que "eram todos uns asnos pelo fato de não poderem encontrar aquele cachorro, se ainda estivesse vivo". Quando Smúrov lhe dera parte timidamente de suas conjeturas a respeito do cachorro, Krasótkin ficara rubro de raiva: "Serei bastante estúpido para procurar cachorros forasteiros pela cidade, quando tenho Carrilhão? Pode-se esperar que tal animal tenha ficado vivo depois de ter engolido um alfinete?

São ternuras de novilha, eis tudo!"

Entretanto, Iliúcha, desde duas semanas, quase não deixara seu pequeno leito, a um canto, perto das santas imagens. Não ia mais à escola desde o dia em que mordera o dedo de Aliócha. Sua doença datava de então, portanto, durante ainda um mês, pôde ele por vezes levantar-se, para andar pelo quarto e pelo vestíbulo. Por fim, suas forças abando-naram-no completamente e não podia mover-se sem a ajuda de seu pai.

Este tremia por Iliúcha, deixou mesmo de beber; o temor de perder seu filho tornava-o quase louco e muitas vezes, sobretudo depois de tê-lo sustentado através do quarto e tornado a deitar, fugia para o vestíbulo. Ali, num canto escuro, com a testa contra a parede, abafava convulsiva-mente seus soluços, para que o doentinho não os ouvisse. De volta ao quarto, punha-se comumente a divertir e consolar seu querido filho, contava-lhe histórias, anedotas cômicas, ou imitava pessoas engraçadas que tinha encontrado, imitava mesmo os gritos dos animais. Mas as caretas e as palhaçadas de seu pai desagradavam bastante a Iliúcha. Muito embora se 547

esforçasse por dissimular seu mal-estar, sentia, de coração cerrado, que seu pai era humilhado em público e a lembrança do "esfregão de tília" e daquele horrível dia perseguia-o sem cessar. A irmã doente de Iliúcha, a doce Nínotchka, não gostava tampouco das caretas de seu pai (Varvara Nikoláievna partira desde muito tempo para fazer cursos em Petersburgo); em compensação, a mamãe, fraca de espírito, divertia-se bastante, ria de todo o coração, quando seu esposo representava alguma coisa ou fazia gestos cômicos. Era sua única consolação, pois no resto do tempo queixava-se, chorando, de que todos a esqueciam, de que não a tratavam com atenção, etc. Mas, nos derradeiros dias, também ela pareceu mudar.

Olhava muitas vezes Iliúcha no seu canto e punha-se a pensar. Tornou-se mais silenciosa, acalmou-se, chorava por vezes, mas mansamente, para que não a ouvissem, O capitão notava aquela mudança com dolorosa perplexidade. As visitas dos meninos desagradavam-lhe a princípio, só faziam irritá-la, mas pouco a pouco os gritos alegres dos garotos e as histórias que contavam divertiram-na também e acabaram por agradar-lhe a ponto de ficar terrivelmente aborrecida quando não estavam eles presentes. Batia palmas, ria, vendo-os brincar, chamava alguns dentre eles para beijá-los. Gostava particularmente do jovem Smúrov. Quanto ao capitão, as visitas dos meninos que vinham distrair Ilíúcha enchiam-no de alegria e mesmo de esperança de que o pequeno cessaria agora de atormentar-se, restabelecer-se-ia talvez mais depressa. Malgrado sua inquietude, ficou persuadido até os derradeiros dias de que seu filho ia recuperar a saúde. Acolhia os jovens visitantes com respeito, pondo-se a serviço deles, pronto a carregá-los às costas, e começou mesmo a fazê-lo, mas essas brincadeiras desagradaram a Iliúcha e foram abandonadas.

Comprava para eles gulodices, bolinhos, nozes, oferecia-lhes chá com torradas. É preciso notar que não lhe faltava dinheiro. Aceitara os 200

rublos de Catarina Ivânovna, exatamente como Aliócha o previa. Em seguida, a moça, informada mais exatamente da situação deles e da doença de Iliúcha, fora visitá-los, travara conhecimento com toda a família e encontrara mesmo a pobre demente. Desde então sua generosidade não se retardara e o capitão, tremendo à idéia de perder seu filho, esquecera sua antiga altivez e recebia humildemente a caridade. Durante todo esse tempo, o Doutor Herzenstube, mandado por Catarina Ivânovna, visitara regularmente o doente de dois em dois dias, mas isto não servia de grande coisa, muito embora o enchesse de remédios. Naquele mesmo domingo, 548

esperava o capitão novo médico chegado de Moscou, onde passava por ser uma celebridade. Catarina Ivânovna mandara chamá-lo, com grandes despesas, com um fim do qual se tratará mais tarde, e na mesma ocasião pediu-lhe para visitar Iliúcha, do que fora prevenido o capitão. Não imaginava ele absolutamente que Kólia Krasótkin iria chegar, se bem que desejasse desde muito tempo a visita desse rapaz, a respeito do qual Iliúcha tanto se atormentava. Quando ele entrou, todos se aglomeravam em torno do leito do doente e examinavam um molosso pequenino, nascido na véspera, que o capitão encomendara havia uma semana para distrair e consolar Iliúcha, sempre pesaroso com a desaparição de Besouro, que devia ter morrido. Iliúcha sabia, havia três dias, que lhe fariam presente dum pãozinho, um verdadeiro molosso (o que era bastante importante) e, embora por delicadeza se mostrasse encantado, seu pai e.

seus camaradas viam bem, aquele novo cão só fazia despertar no seu coração as lembranças do desgraçado Besouro, que ele fizera sofrer. O

animalzinho mexia-se ao lado dele; com um fraco sorriso, acariciava-o com sua mão diáfana; via-se que o cão lhe agradava, mas... não era Besouro! Se tivesse os dois juntos, nada teria faltado à sua felicidade!

— Krasótkin! — gritou um dos meninos, que fora o primeiro a ver Kólia entrar. Houve certa emoção, os meninos se afastaram dos dois lados do leito, descobrindo assim Iliúcha. O capitão precipitou-se ao encontro de Kólia.

— Seja bem-vindo, caro visitante! Iliúcha, o Senhor Krasótkin veio ver-te...

Tendo-lhe estendido a mão, Krasótkin mostrou logo sua boa educação. Voltou-se, primeiro, para a esposa do capitão, sentada na sua poltrona (estava ela justamente bastante descontente e resmungava porque os meninos lhe ocultavam o leito de Iliúcha e impediam-na de olhar o cão) e fêz-lhe uma reverência cortês, depois, dirigindo-se a Nínotchka, cumprimentou-a da mesma maneira. Essa conduta impressionou favo-ravelmente a doente.

— Reconhece-se logo um jovem bem educado — disse ela, abrindo os braços. — Não é como aqueles ali; entram um por cima do outro.

— Como assim, mamãe, um por cima do outro? Que quer a senhora dizer? — balbuciou o capitão um tanto inquieto.

549

— Entram assim mesmo. No vestíbulo um monta a cavalo nos ombros do outro e assim se apresentam em casa de uma família decente. Com que é que isso se parece?

— Mas quem então, mamãe, entrou assim?

— Ali está um que carregava o outro e ainda aqueles dois ali... Mas Kólia já estava à cabeceira de Iliúcha. O doente empalidecera.

Ergueu-se, encarando fixamente Kólia. Este, que havia dois meses não via seu amiguinho, parou consternado; não esperava encontrar um rosto tão amarelo e emagrecido, olhos ardentes de febre e como que desmesuradamente aumentados, mãos tão descarnadas. Com dolorosa surpresa via que Iliúcha respirava penosa e precipitadamente, os lábios ressequidos. Aproximou-se, estendeu-lhe a mão e disse, embaraçado:

— Como é, meu velho... como vai isso?

Mas sua voz estrangulou-se, seu rosto contraiu-se, teve um ligeiro tremor perto dos lábios. Iliúcha sorria-lhe tristemente, ainda incapaz de pronunciar uma palavra. Kólia passou-lhe de repente a mão pelos cabelos.

— Não vai mal! — respondeu ele, maquinalmente. Calaram-se um instante.

— Então, tens um novo cão? — perguntou Kólia, num tom indiferente.

— Si... im — disse Iliúcha, que ofegava.

— Ele tem o focinho preto, vai ser mau — disse Kólia, num tom grave, como se não houvesse nada de mais importante. Sobretudo esforçava-se por dominar sua emoção, para não chorar como um petiz, mas não o conseguia. —. Quando ele crescer, será preciso pô-lo na corrente, tenho certeza.

— Ficará enorme! — exclamou um dos meninos.

— É coisa sabida, um molosso é enorme, do tamanho dum bezerro.

— Do tamanho dum bezerro, dum verdadeiro bezerro — interveio o capitão. — Procurei de propósito um assim, o mais feroz, seus pais também são enormes e ferozes... Sente-se no leito de Iliúcha, ou então em cima do banco. Seja bem-vindo, caro visitante, esperado desde tanto 550

tempo. Veio com Alieksiéi Fiódorovitch?

Krasótkin sentou-se no leito, aos pés de Iliúcha. Tinha talvez preparado em caminho uma entrada em assunto, mas agora perdia o fio do mesmo.

— Não... Estou com Carrilhão... Tenho um cão assim, agora, Carrilhão. Está esperando lá embaixo... eu assobio e ele vem correndo.

Tenho também um cão. — Voltou-se para Iliúcha. — Lembras-te, meu velho, de Besouro? — perguntou à queima-roupa.

O rostinho de Iliúcha contraiu-se. Olhou Kólia cheio de dor. Aliócha, que se conservava perto da porta, franziu o cenho, fez sinal às ocultas a Kólia para não falar de Besouro, mas Kólia não o notou ou não quis notá-lo.

— Onde está então... Besouro? — perguntou Iliúcha com uma voz partida.

— Ah! irmão, teu Besouro desapareceu!

Iliúcha calou-se, mas olhou de novo Kólia fixamente. Aliócha, que havia encontrado o olhar de Kólia, fêz-lhe novo sinal, mas de novo desviou ele a vista, fingindo não ter compreendido.

— Fugiu sem deixar rasto. Podia-se esperar isso mesmo, depois daquela bolinha — disse o impiedoso Kólia, que, entretanto, parecia ele próprio ofegante. — Em troca, tenho Carrilhão... Trouxe-o para ti...

— É inútil — exclamou Iliúcha.

— Não, não, pelo contrário, é preciso que o vejas... Isto te distrairá.

Trouxe-o de propósito... um animal de pêlos compridos, como o outro... A senhora permite que chame meu cachorro? — perguntou ele à Senhora Snieguiriova, com uma agitação incompreendida.

— Não é preciso, não é preciso! — gritou Iliúcha, com uma voz dilacerante. A censura brilhava em seus olhos.

— O senhor deveria ter... — o capitão levantou-se precipitadamente de cima da arca onde estava sentado, perto da parede. — O senhor deveria ter... esperado... — Mas Kólia, inflexível, gritou para Smúrov:

"Smúrov, abre a porta!" Assim que ela foi aberta, lançou ele um assobio.

Carrilhão precipitou-se para dentro do quarto.

551

— Salta, Carrilhão, banca o elegante, banca o elegante! — vociferou Kólia. — O cão, erguendo-se nas patas trazeiras, manteve-se diante do leito de Iliúcha. Algo de inesperado se passou. Iliúcha estremeceu, inclinou-se com esforço para Carrilhão e examinou-o, desfalecente.

— É... Besouro! — exclamou ele, com uma voz partida pelo sofrimento e pela felicidade.

— Quem pensavas que era? — gritou com todas as suas forças Krasótkin, radiante. Passou os braços em redor do cão e levantou-o.

— Olha, meu velho, vê, um olho cego a orelha esquerda cortada, os próprios sinais que me tinhas indicado. Procurei-o de acordo com eles.

Não demorou muito. Não pertencia, com efeito, a ninguém! a ninguém!

Refugiara-se em casa dos Fiedótovi, no quintal, mas não lhe davam comida, é um cão vadio, que fugiu duma aldeia... Vês, meu velho, não deve ter engolido a tua bolinha! Senão, estaria morto, decerto! Portanto, pôde cuspi-la de novo, uma vez que está vivo. Tu não o havias notado. No entanto, picou a língua, por isso gemia. Corria gemendo, acreditaste que ele havia engolido a bolinha. Deve ter-lhe doído muito, porque os cães têm a pele bastante sensível na boca... bem mais sensível que o homem!

Kólia falava muito alto, com ar acalorado e radiante. Iliúcha nada podia dizer. Olhava para Kólia com seus grandes olhos escancarados e tornara-se branco como linho. Se Kólia, que de nada desconfiava, tivesse sabido o mal que podia causar ao doentinho uma tal surpresa, jamais se teria decidido a preparar tal golpe teatral. Mas no quarto era talvez Aliócha o único a compreender. Quanto ao capitão, dir-se-ia um menino.

— Besouro! Então é Besouro? — gritava ele cheio de felicidade. —

Iliúcha, é Besouro, o teu Besouro! Mamãe, é Besouro! — Chorava quase.

— E eu não adivinhei! — disse tristemente Smúrov. — Bem dizia que Krasótkin encontraria Besouro. Manteve sua palavra.

— Manteve a palavra! — disse uma voz alegre.

— Bravo, Krasótkin! — disse um terceiro.

— Bravo, Krasótkin! — exclamaram todos os meninos, que se puseram a aplaudir.

— Esperem, esperem! — Krasótkin esforçava-se por dominar o tu-552

multo. — Vou contar-lhes como foi. Procurei-o e levei-o para casa e mantive-o oculto a todos os olhares até o derradeiro dia. Somente Smúrov o soube, há duas semanas, mas assegurei-lhe que era Carrilhão e ele não desconfiou de nada. No intervalo, treinei Besouro. Vocês vão ver as habilidades que ele sabe! Treinei-o, meu velho, para trazê-lo já treinado.

Não têm aí um pedaço de cozido? Ele fará um número de matar de rir.

Têm mesmo?

O capitão correu à casa dos proprietários, onde se preparava a refeição da família. Kólia, para não perder um tempo precioso, gritou logo a Carrilhão: "Faze-te de morto!" Carrilhão pôs-se a girar, deitou-se de costas, imobilizou-se, com as quatro patas no ar. Os rapazes riam, Iliúcha olhava com o mesmo sorriso doloroso, mas a mais contente era a "mamãe".

Desatou a rir à vista do cão e se pôs a estalar os dedos, chamando:

— Carrilhão! Carrilhão!

— Por coisa alguma do mundo ele se levantará —, disse Kólia, com ar triunfante e com justo orgulho —, ainda mesmo que todos o chamassem, mas à minha voz por-se-á de pé. Aqui, Carrilhão!

O cão se levantou, pôs-se a saltitar com gritos de alegria. O capitão chegou com um pedaço de cozido.

— Não está quente? — informou-se logo Kólia, com ar entendido. —

Não, está bem, porque os cães não gostam das coisas quentes. Olhem todos, Iliúcha, olha então, meu velho, em que pensas? Trouxe-o para ele e ele não olha!

A nova habilidade consistia em pôr um belo pedaço de carne sobre o focinho estendido do cão imóvel. O infeliz animal devia mantê-lo tanto tempo quanto aprouvesse a seu dono, fosse mesmo uma meia hora. A prova de Carrilhão só durou um curto minuto.

— Engole! — gritou Kólia. E num piscar de olhos o pedaço passou do focinho de Carrilhão para sua goela. O público, é claro, exprimiu viva admiração.

— Será possível que tenha você tardado tanto, unicamente para amestrar o cachorro? — exclamou Aliócha, num tom involuntário de censura.

— Isto mesmo — exclamou Kólia, com ingenuidade. — Queria mos-553

trá-lo em todo o seu brilho.

— Carrilhão! Carrilhão! — E Iliúcha estalou os dedos magros, para atrair o cão.

— Para que isso? Manda-o logo subir à tua cama. Aqui, Carrilhão! Kólia bateu sobre a cama e Carrilhão atirou-se como uma flecha para Iliúcha, que lhe pegou a cabeça com as duas mãos, em troca do que Carrilhão lambeu-lhe logo a face. Iliúcha estreitou-o contra si, estendeu-se sobre o leito e ocultou o rosto no pêlo espesso do animal.

— Meu Deus, meu Deus! — exclamou o capitão. Kólia sentou-se de novo no leito de Iliúcha.

— Iliúcha, posso mostrar-te ainda alguma coisa. Trouxe-te um canhãozinho. Lembras-te? Falei-te então e tu disseste: "Ah! como gostaria de vê-lo!" Pois bem, trouxe-o.

E Kólia tirou à pressa de sua sacola o canhãozinho de bronze. Apressava-se porque se sentia ele próprio muito feliz. Em outra ocasião, teria esperado que o efeito produzido por Carrilhão tivesse passado, mas agora apressava-se, desprezando qualquer comedimento: "Você já está feliz, pois bem, tome mais felicidade!" Ele próprio estava encantado.

— Há muito tempo que eu namorava isto em casa do funcionário Morózov, para ti, meu velho, para ti. Ele não se servia disso, vinha-lhe de seu irmão. Troquei-o por um livro da biblioteca de papai: O Parente de Maomé ou A Tolice Salutar. É uma obra libertina de há cem anos, quando não existia ainda censura em Moscou. Morózov é amador dessas coisas.

Chegou mesmo a agradecer-me... — Kólia segurava o canhão, de modo que todos pudessem vê-lo e admirá-lo. Iliúcha soergueu-se e, continuando a apertar Carrilhão com a mão direita, contemplava deliciado o brinquedo.

O efeito atingiu o cúmulo, quando Kólia declarou que tinha também pólvora e que se podia atirar, "se isto todavia não incomodar as senhoras!"

Mamãe pediu para ver o brinquedo de mais perto, o que foi logo feito. O

canhãozinho de bronze, munido de rodas, agradou-lhe de tal modo que ela se pôs a fazê-lo rodar sobre seus joelhos. Ao lhe pedirem permissão para atirar, consentiu imediatamente, sem compreender, aliás, do que se tratava. Kólia mostrou a pólvora e o chumbo. O capitão, na qualidade de antigo militar, preparou a carga, derramou um pouco de pólvora, rogando 554

que se reservasse o chumbo para outra vez. Puseram o canhão no soalho, com a boca voltada para um espaço livre, introduziram-se no ouvido alguns grãos de pólvora e acenderam-na com um fósforo. O tiro partiu muito bem. A mamãe estremeceu, mas se pôs logo a rir. Os meninos olhavam, num silêncio solene, o capitão sobretudo exultava, contemplando Iliúcha. Kólia pegou o canhão e fez dele presente imediatamente a Iliúcha, com a pólvora e o chumbo.

— É para ti, para ti! Preparei-o desde muito tempo — repetiu ele, no cúmulo da felicidade.

— Ah! dê-mo, dê o canhãozinho antes a mim — pediu de repente a mamãe, como uma criança. Estava com ar inquieto, receando uma recusa.

Kólia ficou perturbado. O capitão agitou-se.

— Mátuchka, mátuchka! ... o canhão é teu, mas Iliúcha guardá-lo-á porque foi dado a ele; é a mesma coisa. Iliúcha deixará sempre que brinques com ele, será dos dois...

— Não, não quero que ele seja de nós dois, mas só meu e não de Iliúcha — continuou a mamãe, prestes a chorar.

— Mamãe, tome-o, ei-lo aqui, tome-o! — gritou Iliúcha. — Krasótkin, posso dá-lo a mamãe? — Voltou-se com ar suplicante para Krasótkin, como se temesse ofendê-lo, dando seu presente a outrem.

— Mas decerto! — consentiu logo Krasótkin, que tomou o canhão das mãos de Iliúcha e entregou-o ele próprio à mamãe, inclinando-se com uma reverência cortês. Ela chorou de enternecimento.

— Esse querido Iliúcha! Gosta bem de sua mamãe! — exclamou ela, comovida, e se pôs de novo a fazer o canhão rodar sobre seus joelhos.

— Mámienhka, vou beijar-te a mão — disse seu marido, passando logo das palavras aos atos.

— O jovem mais gentil é esse bom rapaz — disse a dama, reconhecida, designando Krasótkin.

— Quanto à pólvora, Iliúcha, trar-te-ei tanta quanta queiras. Nós mesmos a fabricamos agora. Boróvikov aprendeu a composição: 24 partes de salitre, dez de enxofre, seis de carvão de bétula; bate-se num pilão tudo junto, junta-se água para fazer uma pasta, coa-se através duma pele de 555

asno e obtém-se pólvora.

— Smúrov já me falou da pólvora de vocês, mas papai diz que não é a verdadeira pólvora — observou Iliúcha.

— Como não a verdadeira? — Kólia corou. — Ela incendeia. Aliás, não sei...

— Não é nada — disse o capitão contrafeito. — Disse mesmo que a pólvora verdadeira tem outra composição, mas pode-se também fabricá-la dessa forma.

— O senhor sabe melhor do que eu. Pusemos fogo à nossa pólvora num pote de pomada, de pedra. Queimou bem, só ficou um pouco de fuligem. E era apenas a pasta, ao passo que se é coada através de uma pele... Aliás, o senhor conhece isso melhor do que eu... O pai de Búlkin deu-lhe uma surra por causa de nossa pólvora, sabes disso? — perguntou Kólia a Iliúcha.

— Ouvi dizê-lo — respondeu Iliúcha. Não se cansava de escutar Kólia.

— Tínhamos preparado uma garrafa de pólvora. Ele a guardava debaixo da cama. Seu pai viu-a. "Ela pode explodir", disse ele, e deu-lhe ali mesmo uma surra. Queria queixar-se de mim no ginásio. Agora, proibição de andarem comigo foi feita a ele, a Smúrov, a todos. Minha reputação está feita: dizem que sou um maluco. — Kólia mostrou um sorriso de desprezo. — Começou isso desde o caso da estrada de ferro.

— Sua proeza chegou ao nosso conhecimento — exclamou o capitão. — Será verdade que o senhor não sentiu medo nenhum, quando o trem lhe passava por cima? Era aterrorizador?

O capitão esforçava-se por lisonjear Kólia.

— Não, particularmente! — disse este, num tom displicente. — Foi sobretudo aquele pato que forjou minha reputação — e voltou-se de novo para Iliúcha. Mas se bem que afetasse, ao falar, um jeito desprendido, não estava senhor de si e não acertava o tom.

— Ah! também ouvi falar do pato! — disse Iliúcha, rindo. — Contaram-me, mas não compreendi. É mesmo verdade que compareceste ao tribunal?

556

— Uma travessura, uma bagatela, da qual fizeram uma montanha, como é de costume entre nós — começou Kólia, com desenvoltura. —

Caminhava eu pela praça, quando trouxeram patos para ali. Parei para olhá-los. Um tal Vichniakov, que é agora moço de recados na casa dos Plótnikovi, olha para mim e diz: "Por que olhas tanto para os patos?"

Examino-o: o rosto redondo e estúpido, uns vinte anos; eu, fiquem sabendo, nunca desdenho o povo. Gosto de frequentá-lo. Ficamos para trás em relação ao povo — é um axioma. O senhor, ri, creio, Karamázov?

— Não, Deus me livre, sou todo ouvidos — respondeu Aliócha, com o ar mais ingênuo.

O desconfiado Kólia retomou logo coragem.

— Minha teoria, Karamázov, é clara e simples: creio no povo e sinto-me sempre feliz em fazer-lhe justiça, mas sem mimá-lo, é o sine qua... Mas falava de um pato... Respondo àquele bobo: "É que estava perguntando a mim mesmo em que pensa o pato". Ele me fita, com um ar totalmente estúpido: "Em que pensa ele?" "Estás vendo aquela tieliega carregada de aveia? A aveia escapa-se do saco e o pato estende o pescoço até debaixo da roda para bicá-la, estás vendo?" "Estou vendo, sim. " "Pois bem", digo eu,

"se se fizer avançar um pouquinho aquela tieliega, a roda cortará o pescoço do pato, sim ou não?" "Decerto que cortará", e ele abre-se num largo sorriso. "Pois bem, meu rapaz", digo eu, "vamos a isso. "

"Vamos a isso", repete ele. Logo foi feito; colocou-se junto da brida disfarçadamente e eu ao lado para dirigir o pato. O mujique naquele momento olhava para outra parte, conversando com alguém, e não tive de intervir; o próprio pato estendeu o pescoço para bicar, por baixo da tieliega, no caminho da roda. Fiz sinal ao rapaz, ele puxou a brida e, zás! lá se foi o pescoço do pato! Por desgraça, os mujiques nos viram naquele momento e berraram:

"Tu fizeste de propósito!" "Não foi, não!" "Foi, sim!" e gritaram: "Ao juiz de paz!", e levaram-me também: 'Tu também estavas lá. Estavas combinado com ele, todo o mercado te conhece!" Com efeito, sou conhecido de todo o mercado — acrescentou Kólia com orgulho. — Fomos todos à casa do juiz de paz, não tendo sido esquecido o pato. E eis o meu rapaz, apavorado, que se põe a chorar, chorava como uma mulher. O condutor gritava:

"Desta maneira, pode-se matar quantos patos se quiser!" As testemunhas seguiam, naturalmente. O juiz de paz logo sentenciou: 1 rublo de indenização ao cocheiro, mas podia ficar com o pato. Não deveria 557

permitir-se fazer semelhantes brincadeiras no futuro. O rapaz não cessava de gemer: "Não fui eu, foi ele que me ensinou!" Respondi com grande sangue-frio que não lho ensinara, mas somente exprimira a idéia principal, não se tratava senão de um projeto. O juiz Niefiedov sorriu, mas arrependeu-se logo de haver sorrido: "Vou enviar uma comunicação a seu diretor", disse-me ele, "para que doravante não amadureça você mais tais projetos, em lugar de estudar e de aprender suas lições". Não fez nada disso, mas o caso espalhou-se e chegou, com efeito, às orelhas da diretoria; sabe-se como são elas compridas! O Professor Kolbásnikov ficou mais que qualquer outro exaltado, mas Dardaniélov tomou de novo minha defesa.

E Kolbásnikov está agora zangado com nós todos, como um burro vermelho. Ouviste dizer, Iliúcha, que ele se casou, recebendo 1 000 rublos de dote dos Mikháilovi? A noiva é um verdadeiro espantalho. Os alunos da terceira classe logo compuseram um epigrama. É engraçado, vou trazê-lo para ti depois. Nada tenho a dizer de Dardaniélov: é um homem de sólidos conhecimentos. Respeito as pessoas como ele e não é porque ele me defendeu...

— No entanto, tu lhe passaste a perna a respeito da fundação de Tróia! — observou Smúrov, todo orgulhoso de Krasótkin. A história do pato agradara-lhe bastante.

— Mas deu-se mesmo isso? — interveio servilmente o capitão. —

Trata-se da fundação de Tróia? Ouvimos falar disso. Iliúcha tinha-me contado...

— Ele sabe tudo, papai, é o mais instruído de nós todos! — disse Iliúcha. — Finge que não, mas é o primeiro em todas as matérias... Iliúcha contemplava Kólia com uma felicidade infinita.

— É uma bagatela, considero eu mesmo essa questão como fútil —

replicou Kólia com um orgulho modesto. Conseguira desinibir-se, se bem que estivesse um tanto perturbado; sentia que havia contado a história do pato com demasiado ardor, ao passo que Aliócha calara-se durante todo o relato e ficara sério; seu amor-próprio inquieto perguntava a si mesmo, pouco a pouco: "Será que se cala porque me despreza, crendo que procuro seus elogios? Se ele se permite acreditar isto, eu... " — Esta questão é para mim das mais fúteis — cortou ele, orgulhosamente.

— Eu sei quem fundou Tróia — disse de repente um menino que 558

não havia dito grande coisa até então, de ar tímido e silencioso, rosto delicado, de onze anos, chamado Kartachov. Mantinha-se perto da porta.

Kólia olhou-o com surpresa. Com efeito, a fundação de Tróia tornara-se em todas as classes um segredo que só se podia desvendar lendo Smarágdov e somente Kólia o possuía. Um dia, o jovem Kartachov aproveitou dum momento de distração de Kólia e abriu furtivamente um volume de Smarágdov que se encontrava entre os livros dele e deu diretamente na passagem em que se tratava dos fundadores de Tróia.

Havia já muito tempo que isso se dera, mas acanhava-se ele de revelar publicamente que também conhecia o segredo, temendo ser perturbado por outra pergunta de Kólia. Agora, não pudera impedir-se de falar, como o desejava desde muito tempo.

— Pois bem, quem foi? — E Kólia voltou-se arrogantemente para o lado dele, vendo pelo seu ar que Kartachov sabia-o deveras e estava pronto para todas as conseqüências. Sentiu um frio.

— Tróia foi fundada por Teucro, Dárdano, Ilo e Trós — recitou o menino, corando como uma peônia, a ponto de causar dó ver. Seus colegas fixaram-no por um minuto, depois seus olhares voltaram-se para Kólia. Este continuava a mirar de alto a baixo o audacioso, com um sangue-frio desdenhoso.

— Pois bem! Como se arranjaram eles? — dignou-se por fim proferir. — E que significa em geral fundar uma cidade ou um Estado? Será que eles foram colocar os tijolos, hein?

Riram. O temerário, de rosado tornou-se purpúreo. Calou-se, prestes a chorar. Kólia manteve-o assim um minuto.

— Para interpretar acontecimentos históricos, tais como a fundação duma nacionalidade, é preciso em primeiro lugar compreender o que isso significa — disse num tom doutorai. — Aliás, não atribuo importância a todos esses contos de comadres; em geral, não tenho grande apreço pela história universal — acrescentou, displicentemente.

— Pela história universal? — perguntou o capitão, assustado.

— Sim. É o estudo das tolices da humanidade e nada mais. Só gosto das matemáticas e das ciências naturais — disse Kólia, num tom pre-tensioso, olhando a furto para Aliocha; só receava a opinião dele. Mas 559

Aliocha permanecia grave e silencioso. Se tivesse falado então, as coisas ficariam como estavam; mas calava-se e seu silêncio podia ser desdenhoso, o que irritou completamente Kólia.

— Outra vez, vêm-nos com as línguas clássicas. Loucura e nada mais... O senhor parece não concordar comigo, Karamázov?

— Não — disse Aliocha, retendo um sorriso.

— As línguas clássicas, se quer minha opinião, são uma medida policial, eis sua única razão de ser — e pouco a pouco Kólia recomeçou a ofegar. — Instituíram-nas porque são enfadonhas e embrutecem. Como fazer para agravar o aborrecimento e a tolice que reinavam? Imaginou-se o estudo das línguas clássicas. Eis minha opinião e espero jamais mudá-la. — Corou, ligeiramente.

— É verdade — aprovou em tom convencido Smúrov, que escutara com atenção.

— Ele é o primeiro em latim — notou um dos meninos.

— Sim, papai, ele fala assim, mas é o primeiro da classe em latim —

confirmou Iliúcha.

— Pois bem! E com isso? — Kólia achou necessário defender-se, se bem que o elogio lhe fosse bastante agradável. — Cavaco o latim porque é preciso, porque prometi à mamãe acabar meus estudos e, na minha opinião, quando se empreende uma coisa, deve-se fazê-la como é preciso, mas no meu foro íntimo desprezo profundamente o classicismo e toda essa baixeza... Não está de acordo, Karamázov?

— Por que uma baixeza? — sorriu de novo Aliocha.

— Com licença, todos os clássicos foram traduzidos, portanto não é para estudá-los que se tem necessidade do latim, mas unicamente por medidas policiais e a fim de embotar as faculdades. Não será isso uma baixeza?

— Mas quem lhe ensinou tudo isso? — exclamou Aliocha, afinal surpreso.

— Em primeiro lugar, eu mesmo posso compreendê-lo, sem que mo ensinem, em seguida, saiba que o que acabo de explicar-lhe, a respeito das traduções clássicas, o próprio Professor Kolbásnikov disse-o em presença 560

de toda a terceira classe...

— Eis o doutor! — disse Nínotchka, que se havia mantido calada todo o tempo:

Com efeito, diante do portão parará um carro, pertencente à Senhora Khokhlakova. O capitão, que esperara o médico a manhã inteira, precipitou-se a seu encontro. A mamãe preparou-se, tomando um ar digno.

Aliócha aproximou-se do leito, arranjou o travesseiro do doentinho. De sua cadeira Nínotchka o observava com inquietação. Os meninos des-pediram-se rapidamente, alguns prometendo voltar à tardinha. Kólia chamou Carrilhão, que saltou para baixo do leito.

— Eu fico, eu fico! — disse ele precipitadamente a Aliócha. — Esperarei no vestíbulo e voltarei com Carrilhão, assim que o doutor se retirar.

Mas o médico já vinha entrando, uma personagem importante, de peliça, com grandes suíças e queixo rapado. Transposta a soleira, parou de repente, como que desconcertado. Acreditava ter-se enganado: — "Onde estou?", murmurou, sem tirar a peliça e conservando seu boné de pele.

Toda aquela gente, a pobreza do quarto, a roupa branca pendurada numa corda perturbavam-no. O capitão inclinou-se profundamente...

— É mesmo aqui — murmurou, obsequioso —, é a mim que o senhor procura...

— Snie-gui-riov? — pronunciou gravemente o doutor. — O Senhor Snieguiriov é o senhor?

— Sou eu!

— Ah!

O doutor lançou novo olhar de asco pelo quarto e tirou sua peliça. Uma condecoração importante brilhava no seu peito. O capitão tomou conta da peliça, o doutor retirou seu gorro.

— Onde está o paciente? — perguntou ele num tom imperioso.

561

VI

DESENVOLVIMENTO PRECOCE

— Que pensa que dirá o doutor? — disse rapidamente Kólia. — Que fisionomia repelente, não é? Não posso tolerar a medicina!

— Iliúcha morrerá. Creio que é infalível — respondeu Aliócha, muito triste.

— Os médicos são charlatães! Sinto-me contente por tê-lo conhecido, Karamázov. Há muito tempo que tinha vontade de conhecê-lo. Somente, é pena que nos encontremos em tão tristes circunstâncias...

Kólia teria bem querido dizer algo de mais caloroso, de mais expansivo, mas sentia-se constrangido. Aliócha notou isso, sorriu, estendeu-lhe a mão.

— Aprendi, desde muito tempo, a respeitar no senhor uma criatura rara — murmurou de novo Kólia, atrapalhando-se. — Disseram-me que o senhor era místico, que viveu num mosteiro... Mas isto não me deteve. O

contato da realidade curá-lo-á... É o que acontece às naturezas como a sua.

— Quem chama você místico? De que me curarei? — perguntou Aliócha, um tanto surpreso.

— Ora essa! Deus e o resto.

— Como, será que você não acredita em Deus?

— Pelo contrário, nada tenho contra Deus. Decerto, Deus não é senão uma hipótese... mas... reconheço que ele é necessário à ordem... à ordem do mundo e assim por diante... e se ele não existisse, seria preciso inventá-lo — acrescentou Kólia, ficando corado. Imaginou de súbito que Aliócha pensasse que ele queria exibir seu saber e portar-se como adulto.

"Ora, não quero absolutamente exibir meu saber diante dele", pensou Kólia com indignação. E ficou de repente muito contrariado.

— Confesso que todas essas discussões me repugnam — interrompeu-se. — Pode-se amar a humanidade sem crer em Deus, que pensa o senhor? Voltaire não acreditava em Deus mas amava a humanidade.

("Ainda, ainda!", pensou ele consigo. )

562

— Voltaire acreditava em Deus, mas fracamente, parece, e amava a humanidade da mesma maneira — respondeu Aliócha, num tom bem natural, como se conversasse com alguém da mesma idade ou mais velho do que ele. Kólia ficou impressionado com essa falta de segurança de Aliócha na sua opinião sobre Voltaire e com o fato de parecer deixar que ele, um rapazinho, resolvesse a questão.

— Será que você leu Voltaire? — concluiu Aliócha.

— Não, precisamente... Aliás, li Candide numa tradução russa... uma velha tradução, malfeita, ridícula... ("Ainda, ainda!")

— E compreendeu?

— Oh! sim, tudo... isto é... por que pensa o senhor que não compreendi? É certo que tem umas passagens salgadas... Sou capaz, certamente, de compreender que é um romance filosófico e escrito para demonstrar uma idéia... — Kólia, decididamente, se atrapalhava. — Sou socialista, Karamázov, socialista incorrigível — declarou ele, de súbito, inconsideradamente.

— Socialista? — Aliócha pôs-se a rir. — Mas quando teve tempo?

Não tem senão treze anos, creio?

Kólia sentiu vexame.

— Em primeiro lugar, não tenho treze anos, mas quatorze dentro de quinze dias — disse ele, impetuosamente. — Em seguida, não compreendo absolutamente o que tem que ver aqui a minha idade. Trata-se de minhas convicções e não de minha idade, não é verdade?

— Quando for mais idoso, verá que influência tem a idade sobre as idéias. Pareceu-me também que isso não partia de você — respondeu Aliócha, sem se comover; mas Kólia, nervoso, interrompeu-o.

— Com licença, o senhor quer a obediência e o misticismo. Convenha que o cristianismo, por exemplo, só serviu aos ricos e aos grandes para manter a classe inferior na escravidão, não é verdade?

— Ah! sei onde você leu isso. Trataram de doutriná-lo! — exclamou Aliócha.

— Permita, por que teria eu lido necessariamente isso? E ninguém me doutrinou. Posso eu mesmo... E se o senhor quer, não sou contra 563

Cristo. Era uma personalidade completamente humana, e se tivesse vivido na nossa época ter-se-ia juntado aos revolucionários, talvez tivesse desempenhado um papel de destaque... É mesmo fora de dúvida.

— Mas onde pescou você tudo isso? Com que imbecil andou às voltas? — exclamou Aliócha.

— Não se pode dissimular a verdade. Tenho muitas vezes ocasião de conversar com o Senhor Rakítin, mas... pretende-se que o velho Bielínski também disse isso.

— Bielínski? Não me lembro. Não o escreveu em parte alguma.

— Se não escreveu, disse-o, assegura-se. Ouvi alguém dizer... aliás, diabos...

— Você leu Bielínski?

— Veja o senhor... não... não o li, na verdade, mas... li o trecho a respeito de Tatiana, porque não parte ela com Oniéguin.

— Por que não parte ela com Oniéguin? Será que você... compreende já isso?

— Com licença, creio que o senhor me toma pelo jovem Smúrov! —

Kólia sorriu, irritado. — Aliás, não vá crer que sou um grande revolucionário. Estou muitas vezes em desacordo com o Senhor Rakítin.

Não sou partidário da emancipação das mulheres. Reconheço que a mulher é uma criatura inferior e deve obedecer. "Les femmes tricotent", disse Napoleão — Kólia sorriu —, e, pelo menos nisto, estou de pleno acordo com a opinião desse pseudogrande homem. Acho igualmente que é uma covardia expatriar-se para a América, pior que isso, uma tolice. Por que ir para a América, quando se pode trabalhar entre nós para bem da humanidade? Sobretudo agora, há todo um campo de atividade fecunda.

Foi o que respondi.

— Como, respondeu? A quem? Será que já lhe propuseram ir para a América?