Os Irmãos Karamázov
Capítulo 6
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Isto é, em duas palavras — disse o Padre lósif, fazendo força sobre cada palavra —, segundo certas teorias, que não fizeram senão revelar-se por demais no nosso século XIX, a Igreja deve converter-se em Estado, passar como que dum tipo inferior a um superior, a fim de absorver-se em seguida nele, depois de ter cedido à ciência, ao espírito do tempo, à civilização. Se ela se recusa a isso e resiste, não lhe reservam no Estado senão um pequeno lugar, vigiando-a, e por toda parte é esse o caso na Europa de nossos dias. Pelo contrário, segundo a concepção e a esperança russas, não é a Igreja que deve converter-se em Estado como que dum tipo inferior em um superior, é, pelo contrário, o Estado que deve finalmente mostrar-se digno de ser unicamente uma Igreja e nada mais. Assim seja! Assim seja!
— Pois bem, confesso-o, o senhor me reconfortou um pouco — disse Miúsov, sorrindo e cruzando de novo as pernas. — Tanto quanto o compreendo, é a realização dum ideal infinitamente longínquo, por ocasião do regresso do Cristo. É tudo quanto se quer. O sonho utópico do 61
desaparecimento das guerras, dos diplomatas, dos bancos, etc .. Alguma coisa que se assemelhe mesmo ao socialismo. Ora, pensava eu que tudo isso era sério, que a Igreja ia "agora", por exemplo, julgar os criminosos, condenar ao chicote, à galé e até mesmo à pena de morte.
— Se houvesse atualmente um só tribunal eclesiástico, a Igreja não enviaria agora às galés ou ao suplício. O crime e a maneira de encará-lo deveriam então seguramente modificar-se pouco a pouco, não duma só vez, mas, no entanto, bastante depressa... — declarou num tom tranqüilo Ivã Fiódorovitch.
— Fala seriamente? — interrogou Miúsov, fitando-o.
— Se a Igreja absorvesse tudo, excomungaria o criminoso e o refratário, mas não cortaria as cabeças — continuou Ivã Fiódorovitch. —
Pergunto-vos: aonde iria o excomungado? Porque deveria, então, não somente separar-se das pessoas, mas do Cristo. Pelo seu crime, insurgir-se-ia não só contra as pessoas, mas contra a Igreja do Cristo. É o caso, atualmente, sem dúvida, no sentido estrito, no entanto não é proclamado, e a consciência do criminoso de hoje transige muitas vezes: "Roubei", diz ela, "mas não vou contra a Igreja, não sou o Inimigo do Cristo". Eis o que diz freqüentemente o criminoso de hoje. Pois bem, quando a Igreja tiver substituído o Estado, ser-lhe-á difícil falar assim, a menos que negue a Igreja na terra inteira: 'Todos", diria ele, "estão no erro, todos se desviaram, a Igreja deles é falsa, somente eu, assassino e ladrão, sou a verdadeira Igreja cristã". É dificílimo manter esta linguagem, supõe isto condições extraordinárias, circunstâncias que raramente existem. Atualmente, considerai de outra parte o ponto de vista da própria Igreja para com o crime: será que não deveria modificar-se em oposição ao de hoje, que é quase pagão, e, de meio mecânico de cortar um membro gangrenado, como se pratica atualmente para preservar a sociedade, transformar-se totalmente na idéia da regeneração do homem, de sua ressurreição e de sua salvação?...
— Que quer dizer isso? Deixo de novo de compreender — interrompeu Miúsov. — Ainda um sonho. Algo de informe, de incompreensível.
Que excomunhão é essa? Creio que o senhor se diverte simplesmente, Ivã Fiódorovitch.
— Na realidade, é assim mesmo atualmente — começou o stáriets è 62
todos se voltaram para ele. —r- Se não houvesse agora a Igreja do Cristo, não haveria para o criminoso nem freio a seus crimes, nem castigo, uma vez cometidos, isto é, um castigo real, não mecânico, como o senhor acaba de dizer, e que não faz senão irritar na maior parte dos casos, mas o único eficaz, o único que amedronta e acalma e que consiste na confissão de sua própria consciência...
— Como se pode dar isso, permita-me que lho pergunte? — disse Miúsov com viva curiosidade.
— Pois vou dizer-lhe — prosseguiu o stáriets. — Todas essas depor-tações a trabalhos forçados, agravadas outrora por punições corporais, não emendam ninguém e sobretudo não atemorizam quase nenhum criminoso; o numero dos crimes não somente não diminui, mas só faz aumentar, à medida que se avança. Estarão nisto de acordo comigo.
Resulta que dessa maneira não fica a sociedade de modo algum preser-vada, porque, muito embora o membro nocivo seja mecanicamente cortado e mandado para longe, oculto à vista, outro criminoso surgiu em seu lugar, talvez mesmo dois. Se alguma coisa protege ainda a sociedade, mesmo em nossos dias, emenda o próprio criminoso e faz dele outro homem, é ainda unicamente a lei do Cristo que se manifesta pela voz de sua própria consciência. Somente depois de ter reconhecido sua falta como filho da sociedade do Cristo, isto é, da Igreja, é que a reconhecerá diante da própria sociedade, isto é, diante da Igreja. Dessa maneira, é somente diante da Igreja que o criminoso contemporâneo é capaz de reconhecer sua falta e não diante do Estado. Se a justiça pertencesse à sociedade na qualidade de Igreja, saberia então a quem revogar da excomunhão, a quem admitir em seu seio. Agora, a Igreja, não tendo nenhuma justiça efetiva, mas somente a possibilidade de uma condenação moral, renuncia ela própria a castigar efetivamente o criminoso. Não o excomunga, cerca-o de sua edificação paternal. Mais ainda, esforça-se mesmo por conservar com o criminoso todas as relações entre a Igreja e o cristão; admite-o aos ofícios, à comunhão, faz-lhe caridade e trata-o mais como transviado do que como criminoso. E que seria do criminoso, Senhor, se a sociedade crista, isto é, a Igreja, o rejeitasse como o rejeita e o exclui a lei civil? Que aconteceria, se a Igreja o excomungasse cada vez que o castiga a lei do Estado? Não poderia haver maior desespero, pelo menos para os criminosos russos, porque estes ainda têm fé. Ora, aliás, quem sabe, aconteceria talvez uma coisa terrível — a perda da fé no coração ulcerado do 63
criminoso, e, então, que haveria? Mas a Igreja, como uma mãe terna, renuncia ela mesma ao castigo efetivo, visto que sem isto o culpado já é demasiado duramente punido pelo tribunal secular e é preciso haver alguém que tenha compaixão dele. Renuncia a isso sobretudo porque a justiça da Igreja encerra em si unicamente a verdade e não pode juntar-se, por conseqüência, essencial e moralmente, a nenhuma outra, mesmo sob a forma de compromisso provisório. Aqui, é impossível transigir. O
criminoso estrangeiro, dizem, arrepende-se raramente, porque as doutrinas contemporâneas o confirmam na idéia de que seu crime não é um crime, mas somente uma revolta contra a força que o oprime injustamente. A sociedade o afasta de si mesma por meio de uma força que triunfa dele totalmente de maneira mecânica e acompanha essa exclusão de ódio (é assim, pelo menos, que se conta na Europa) — de ódio, de uma indiferença e dum esquecimento completos a respeito do destino ulterior desse homem, do ponto de vista fraternal. Dessa maneira, tudo se passa sem que a Igreja testemunhe a menor compaixão, porque em numerosos casos não há mais Igreja lá, não subsistem senão eclesiásticos e edifícios magníficos, esforçando-se as próprias Igrejas desde muito tempo por passar do tipo inferior, como Igreja, ao tipo superior, como Estado. É
assim pelo menos, parece, nos países luteranos. Em Roma, há já mil anos que em lugar da Igreja proclamou-se o Estado. Assim o próprio criminoso não se reconhece membro da Igreja e, excomungado, cai no desespero. Se volta para a sociedade, é freqüentemente com tal ódio que a própria sociedade o exclui espontaneamente de seu seio. Podeis julgar como isso acaba. Em numerosos casos, parece que o mesmo ocorre entre nós; mas o fato é que, de parte os tribunais estabelecidos, temos além disso a Igreja, que não perde jamais o contato com o criminoso, que é para ela um filho sempre caro; além do mais, existe e subsiste, ainda que apenas em idéia, a justiça da Igreja, se bem que não efetiva agora, mas viva para o futuro, mesmo em sonho, e reconhecida certamente pelo próprio criminoso, pelo instinto de sua alma. O que se acaba de dizer aqui é justo, a saber, que se a justiça da Igreja entrasse em vigor, isto é, que se a sociedade inteira se con-vertesse em Igreja, então não somente a justiça da Igreja influiria sobre a emenda do criminoso como não o faz nunca atualmente, mas os próprios crimes diminuiriam em proporção inverossímil. E a Igreja, sem dúvida alguma, compreenderia no futuro, em numerosos casos, o crime e os criminosos duma maneira toda diferente da atual; saberia converter o 64
excomungado, prevenir as intenções criminosas, regenerar o decaído. É
verdade — e o stáriets sorriu — que a sociedade cristã não está ainda preparada para isso e só repousa sobre sete justos; mas como eles não se enfraquecem, permanece ela na expectativa de sua transformação completa de associação quase paga em Igreja única, universal e reinante.
Assim será, nem que seja no fim dos séculos, porque só isto está predestinado a cumprir-se! E não há por que preocupar-se a propósito dos tempos e dos prazos, porque o mistério deles depende da sabedoria de Deus, de sua presciência, de seu amor. E o que, a vistas humanas, parece bastante afastado está talvez, pela predestinação divina, em vésperas de cumprir-se. Assim seja!
— Assim seja! — confirmou respeitosamente o Padre Paísi.
— Estranho, estranho no mais alto grau! — proferiu Miúsov, num tom de indignação contida.
— Que encontra nisso de estranho? — informou-se com precaução o Padre Iósif.
— Francamente, que é que isso significa? — exclamou Miúsov, de súbito agressivo. — O Estado é eliminado e instaura-se a Igreja em seu lugar! É ultramontanismo na segunda potência. O próprio Gregório VII não o tinha sonhado!
— Sua interpretação é o contrário da verdade! — disse severamente o Padre Paísi. — Não é a Igreja que se converte em Estado, notai-o bem, isto é Roma e seu sonho, é a terceira tentação diabólica. Pelo contrário, é o Estado que se converte em Igreja, que se eleva até ela e torna-se uma Igreja sobre a terra inteira, o que é diametralmente oposto a Roma, ao ultramontanismo, à vossa interpretação, e não é senão a missão sublime reservada à ortodoxia no mundo. É no Oriente que essa estrela começará a resplender.
Miúsov manteve um silêncio significativo. Toda a sua pessoa refletia uma dignidade extraordinária. Um sorriso de condescendência apareceu em seus lábios. Aliócha observava-o, com o coração palpitante. Toda aquela conversação havia-o emocionado extremamente. Olhou por acaso para Rakítin, imóvel no mesmo lugar, o qual escutava atento, de olhos baixos. Pelo seu rubor, adivinhou Aliócha que estava tão comovido quanto ele próprio; sabia por quê.
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— Permiti-me, senhores, que vos conte uma anedota — começou Miúsov, com ar digno e imponente. — Tive ocasião, em Paris, após o golpe de Estado de dezembro, de visitar um de meus conhecidos, personagem importante, então no poder. Encontrei em casa dele um indivíduo bastante curioso que, sem ser de todo um policial, dirigia uma brigada da polícia política, posto bastante influente. Aproveitando da ocasião, conversei com ele por curiosidade; recebido na qualidade de subalterno que apresenta um relatório, ao ver-me em bons termos com seu chefe, testemunhou-me relativa franqueza, isto é, mais polidez que franqueza, à maneira dos franceses, tanto mais quanto sabia que eu era estrangeiro. Mas compreendi-o perfeitamente. Tratava-se dos socialistas revolucionários que estavam então sendo perseguidos. Negligenciando o resto de sua conversa, contentar-me-ei em relatar uma observação muito curiosa que escapou àquela personagem: "Não tememos demais*', declarou ele, "todos esses socialistas, anarquistas, ateus e revolucionários, nós os vigiamos e estamos ao corrente de seus atos e gestos. Mas entre eles existe uma categoria particular, na verdade pouco numerosa: são os que crêem em Deus, embora sendo socialistas. Eis os que tememos mais que todos, é uma corja temível! O socialista cristão é mais perigoso que o socialista ateu". Estas palavras tinham-me abalado então, e agora, senhores, junto de vós, elas me voltam à memória...
— Quer dizer que o senhor as aplica a nós e vê em nós socialistas? — perguntou sem rebuços o Padre Paísi. Mas antes que Piotr Alieksán-drovitch tivesse encontrado uma resposta, a porta se abriu e Dimítri Fiódorovitch entrou, consideravelmente atrasado. Na verdade, não o esperavam mais e sua aparição súbita causou a princípio certa, surpresa.
VI
POR QUE TAL HOMEM EXISTE?
Dimítri Fiódorovitch, jovem homem de 28 anos, de estatura média e de presença agradável, parecia, no entanto, notavelmente mais velho. Era musculoso e adivinhava-se nele uma força física considerável; no entanto, seu rosto magro, de faces chupadas, a tez dum amarelo doentio, tinha uma expressão enfermiça. Seus olhos negros, à flor da testa, mostravam 66
um olhar vago, se bem que parecesse obstinado. Mesmo quando estava agitado e falava com irritação, seu olhar não correspondia a seu estado de alma e exprimia algo de diferente, por vezes nada em harmonia com o minuto presente. "É difícil saber em que ele pensa", costumavam dizer os que falavam com ele. Em certos dias, seu riso súbito, atestando idéias alegres e travessas, surpreendia aqueles que o acreditavam, no mesmo momento, pelos seus olhos, pensativo e tristonho. Aliás, sua expressão um pouco sofredora naquele momento nada tinha de espantoso; todo mundo estava a par de sua vida agitada e dos excessos a que se entregava naqueles últimos tempos, da mesma maneira que se conhecia a exasperação que dele se apoderava em suas discussões com seu pai, por questões de dinheiro. Circulavam na cidade anedotas a este respeito. Na verdade, era irascível por natureza, "de um espírito impetuoso e irregular", como o caracterizou numa reunião nosso juiz de paz Siemion Ivânovitch Katchálhnikov. Entrou vestido de modo elegante e irreprochável, com a sobrecasaca abotoada, de luvas pretas, a cartola na mão. Como oficial desde pouco tempo reformado, só trazia no momento os bigodes. Seus cabelos castanhos estavam cortados curtos e penteados para a frente.
Caminhava a grandes passadas, com ar decidido. Tendo parado um instante na soleira da porta, passeou o olhar pela assistência e dirigiu-se diretamente ao stáriets, adivinhando nele o dono da casa. Fez-lhe uma profunda vênia e pediu-lhe a bênção. Tendo-se levantado o stáriets para dar-lha, Dimítri Fiódorovitch beijou-lhe a mão com respeito e declarou com agitação e com um ar quase irritado:
— Queira desculpar-me por me ter feito esperar tanto. Mas como insistisse em conhecer a hora da entrevista, o criado Smierdiákov, enviado por meu pai, respondeu-me duas vezes, categoricamente, que estava marcada para 1 hora. E, agora, venho a saber...
— Não se atormente — disse o stáriets —, não é nada, o senhor está um pouco atrasado, não há mal nisso.
— Sou-lhe muito grato e não esperava menos de sua bondade.
Depois destas palavras lacônicas, Dimítri Fiódorovitch inclinou-se de novo, depois, voltando-se para o lado de seu pai, fez-lhe a mesma saudação profunda e respeitosa. Via-se que havia ele premeditado aquela saudação, com sinceridade, considerando como uma obrigação exprimir assim sua deferência e suas boas intenções. Fiódor Pávlovitch, se bem que 67
apanhado de improviso, saiu-se à sua maneira: em resposta à saudação do filho, levantou-se de sua cadeira e retribuiu-lhe igualmente. Seu rosto se tornou grave e imponente, o que não deixava de dar-lhe um aspecto mau.
Depois de ter respondido em silêncio às saudações dos presentes, Dimítri Fiódorovitch dirigiu-se com seu passo decidido para a janela e ocupou o único assento livre, não longe do Padre Paísi; inclinado sobre sua cadeira, preparou-se para escutar a continuação da conversa interrompida.
A chegada de Dimítri Fiódorovitch passara-se em dois ou três minutos e a conversação prosseguiu. Mas desta vez Piotr Alieksándrovitch não creu necessário responder à pergunta premente e quase irritada do Padre Paísi.
— Permitam-me que abandone esse assunto — declarou ele, com certa, desenvoltura mundana. — É aliás um assunto delicado. Vejam lva Fiódorovitch sorrindo para meu lado; tem provavelmente algo de curioso a dizer a esse propósito. Perguntem-lhe.
— Não de particular — respondeu logo Ivã Fiódorovitch. — Farei somente observar que, desde muito tempo já, o liberalismo europeu em geral e mesmo nosso diletantismo liberal russo confundem freqüentemente os resultados finais do socialismo com os do cristianismo. Essa conclusão extravagante é aliás um traço característico. Por outro lado, como se vê, não somente os liberais e os diletantes confundem em muitos casos o socialismo e o cristianismo, há também os gendarmes, no estrangeiro, bem entendido. A anedota parisiense do senhor é bastante característica a esse respeito, Piotr Alieksándrovitch.
— Em geral, peço de novo permissão para abandonar o assunto —
repetiu Piotr Alieksándrovitch. — Contar-lhes-ei antes outra anedota bastante interessante e bastante característica, a propósito de Ivã Fiódorovitch. Há cinco dias, numa reunião em que se achavam sobretudo senhoras, declarou ele solenemente, no curso duma discussão, que nada no mundo obrigava as pessoas a amar seus semelhantes, que não existia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade; que se o amor havia reinado até o presente sobre a terra, era isto devido não à lei natural, mas unicamente à crença das pessoas em sua imortalidade. Ivã Fiódorovitch acrescentou entre parênteses que nisso está toda a lei natural, de sorte que se destruís no homem a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também a força de 68
continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia. Não é tudo: terminou afirmando que para cada indivíduo — nós agora, por exemplo — que não acredita nem em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas reconhecido como a saída necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. De acordo com tal paradoxo, julguem o resto, senhores, julguem o que o nosso querido e excêntrico Ivã Fiódorovitch acha bom proclamar e suas intenções eventuais...
— Com licença — exclamou de súbito Dimítri Fiódorovitch. — Se bem entendi, "a perversidade deve não somente ser autorizada, mas reconhecida como a saída mais necessária e a mais razoável de cada ateu"!
É bem isto?
— É exatamente isso — disse o Padre Paísi.
— Haverei de lembrar-me!
Dito isto, Dimítri Fiódorovitch calou-se tão subitamente quanto tinha tomado parte na conversa. Todos o olharam com curiosidade.
— Será possível que o senhor encare dessa forma as conseqüências do desaparecimento nas pessoas da crença na imortalidade da alma? —
perguntou de súbito o stáriets a Ivã Fiódorovitch.
— Sim, afirmei-lo Não há virtude sem imortalidade.
— Ê feliz se assim acredita; pode-se ser muito infeliz!
— Por que infeliz? — objetou Ivã Fiódorovitch, sorrindo.
— Porque, segundo toda aparência, não crê o senhor nem na imortalidade da alma, nem mesmo no que escreveu a respeito da questão da Igreja.
— Talvez tenha o senhor razão!... No entanto, não brinquei absolutamente — confessou de modo estranho Ivã Fiódorovitch, corando imediatamente.
— O senhor não brincou absolutamente, é verdade. Essa idéia não está ainda resolvida no seu coração e tortura-o. Mas o mártir também gosta por vezes de divertir-se com seu desespero, igualmente como para 69
esquecê-lo. No momento, é por desespero que o senhor se diverte com artigos de revistas e com discussões mundanas, sem acreditar na sua dialética e zombando dela dolorosamente a sós consigo. Esta questão não está ainda resolvida no senhor, e é isso que causa seu tormento, porque reclama ela imperiosamente uma solução.
— Mas pode ela ser resolvida em mim, resolvida no sentido positivo? — perguntou ainda de modo estranho Ivã Fiódorovitch, olhando o stáriets com um sorriso inexplicável.
— Se não puder ser resolvida no sentido positivo, não o será nunca no sentido negativo; o senhor mesmo conhece essa propriedade de seu coração; é isso que o tortura. Mas agradeça ao Criador o ter-lhe dado um coração sublime, capaz de assim atormentar-se, "de meditar nas coisas celestes e procurá-las, porque nossa morada está nos céus". Que Deus lhe conceda encontrar a solução ainda aqui embaixo e abençoe os seus caminhos!
O stáriets ergueu a mão e quis, de seu lugar, fazer o sinal-da-cruz sobre Ivã Fiódorovitch. Mas este se levantou, foi até ele, recebeu sua bênção e, tendo-lhe beijado a mão, voltou a seu lugar sem dizer uma palavra. Tinha o ar firme e sério. Essa atitude e toda a sua conversa precedente com o stáriets, que não era esperada de sua parte, impressionaram a todos por não sei que de enigmático e solene; de sorte que um silêncio geral reinou por um instante e o rosto de Aliócha exprimia quase terror. Mas Miúsov ergueu os ombros ao mesmo tempo que Fiódor Pávlovitch se levantava.
— Divino e santo stáriets — exclamou ele, designando Ivã Fiódorovitch —, eis meu filho bem amado, a carne de .minha carne! É por assim dizer o meu muito reverencioso Karl Moor, mas eis meu outro filho que acaba de chegar, Dimítri Fiódorovitch, contra o qual exijo satisfação perante o senhor — é o irreverentíssimo Frantz Moor —, ambos tirados de Os Bandidos, de Schiller; e eu, nesta circunstância, sou o Regierender Graf von Moor! Julgue-nos e salve-nos! Temos necessidade não somente de suas preces, mas de seus vaticínios!
— Fale duma maneira ajuizada e não comece por ofender seus próximos — respondeu o stáriets com voz extenuada. Sua fadiga aumentava e suas forças decresciam visivelmente.
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— É uma comédia indigna que eu previa, ao vir aqui! — exclamou com indignação Dimítri Fiódorovitch, que também se havia erguido. —
Desculpe-me, reverendo padre, sou pouco instruído e ignoro mesmo como o chamam, mas enganaram-no, e foi o senhor demasiado bom para nos conceder esta entrevista em sua casa. Meu pai tinha necessidade absoluta de escândalo. Com que fim? É negócio dele. Só age calculadamente. Mas agora creio saber por quê...
— Todo mundo me acusa! — gritou por sua vez Fiódor
Pávlovitch — inclusive Piotr Alieksándrovitch. Sim, o senhor me acusou, Piotr Alieksándrovitch! — prosseguiu, voltando-se para Miúsov, se bem que este não pensasse absolutamente em interrompe-lo. — Acusam-me de ter ocultado o dinheiro de meu filho e de não lhe ter dado um vintém sequer! Mas, pergunto-lhes, não há tribunais? Ali, Dimítri Fiódorovitch, de acordo com seus recibos, de acordo com as cartas e convênios, far-se-á a conta do que você tinha, de suas despesas e do que lhe resta! Por que evita Piotr Alieksándrovitch pronunciar-se? Dimítri Fiódorovitch não lhe é estranho. É porque estão todos contra mim; ora, Dimítri Fiódorovitch continua a dever-me, não uma pequena soma, mas vários milhares de rublos, do que posso dar as provas. Seus excessos provocam conversinhas da cidade inteira. Nas suas antigas guarnições gastou mais de 1 milhar de rublos para seduzir moças honestas; nós o sabemos, Dimítri Fiódorovitch, da maneira mais circunstanciada, e demonstrá-lo-ei... Reverendo padre, acreditaria o senhor que fez com que se apaixonasse por ele uma moça das mais distintas, de excelente família com fortuna, filha de seu antigo chefe, um bravo coronel que serviu meritòriamente à pátria, condecorado com o colar de Santa Ana com gládios? Essa moça, que ele comprometeu, oferecendo-se para casar com ela, mora agora aqui, órfã, é sua noiva, e aos olhos dela freqüenta ele uma sereia. Se bem que esta última tenha vivido em união livre com um homem respeitável, mas de caráter independente, é uma fortaleza inexpugnável para todos, tal como uma mulher legítima, porque ela é virtuosa, sim, meus reverendos padres, ela é virtuosa! Ora, Dimítri Fiódorovitch quer abrir aquela fortaleza com uma chave de ouro, eis por que faz-se de bravo agora comigo, quer subtrair-me dinheiro, já gastou milhares de rublos por causa dessa sereia; além disso anda pedindo dinheiro emprestado sem cessar, e a quem, sabem os senhores?
Devo dizê-lo ou não, Mítia?
— Cale-se! — exclamou Dimítri Fiódorovitch. — Espere que eu me 71
retire, evite enodoar na minha presença a mais nobre das moças... Ê já uma vergonha para ela que tenha ousado fazer alusão a isso... Não o tolerarei!
Estava sufocado.
— Mítia, Mítia! — gritou Fiódor Pávlovitch, nervoso e fazendo força para chorar. — E a bênção paterna, que fazes dela? Se eu te amaldiçoar, que acontecerá?
— Tartufo sem-vergonha! — rugiu Dimítri Fiódorovitch.
— É assim que trata a seu pai, a seu pai! Como o fará aos outros?
Escutem, senhores, há aqui um homem pobre, mas honrado; capitão reformado, que foi dispensado em conseqüência de uma desgraça, mas não em virtude de um julgamento, de reputação intata, sobrecarregado de numerosa família. Há três semanas, o nosso Dimítri Fiódorovitch agarrou-o pela barba num botequim, arrastou-o pela rua e surrou-o em público, pela mera razão de estar esse homem secretamente encarregado de meus interesses em determinado negócio.
— Mentira tudo isso! Aparentemente é verdade, no fundo, pura mentira! — disse Dimítri Fiódorovitch, tremendo de cólera. — Meu pai, não justifico minha conduta; sim, convenho publicamente que fui brutal para com esse capitão. Agora lamento isso e minha brutalidade me causa horror, mas esse capitão, encarregado de seus negócios, foi procurar aquela pessoa que o senhor chama de sereia e lhe propôs de parte do senhor avalizar minhas promissórias, que estão em seu poder, a fim de perseguir-me e mandar-me prender, no caso de apertá-lo eu demais a propósito de nosso ajuste de contas. Se o senhor quer atirar-me na prisão é unicamente por ciúme dela, porque o senhor mesmo começou a andar em roda dessa mulher — estou ao corrente de tudo. Ela só fez rir, está ouvindo? E foi zombando do senhor que o repeliu. Tal é, meus reverendos padres, esse homem, esse pai que censura a má conduta de seu filho. Os senhores, que são testemunhas, perdoem minha cólera, mas pressentia eu que esse pérfido velho os convocara a todos aqui para provocar um escândalo. Vim na intenção de perdoar, se ele me estendesse a mão, de perdoar-lhe e de pedir-lhe perdão! Mas como acaba ele de insultar não somente a mim, mas à moça mais nobre, cujo nome não ouso pronunciar em vão, porque a respeito, decidi desmascará-lo publicamente, se bem que seja meu pai.
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Não pôde continuar. Seus olhos faiscavam, respirava com dificuldade. Todos os presentes estavam emocionados, exceto o stáriets, todos se haviam levantado, agitados. Os religiosos olhavam com olhar severo, mas aguardavam a vontade do stáriets. Este último estava pálido, não de emoção, mas de fraqueza doentia. Um sorriso suplicante desenhava-se em seus lábios; erguia por vezes a mão como para conter aqueles furiosos. Teria podido, com um só gesto, pôr fim à cena; mas parecia esperar qualquer coisa e olhava fixamente, como se quisesse ainda compreender um ponto que lhe teria escapado. Por fim, Piotr Alieksándrovitch sentiu-se definitivamente humilhado, atingido na sua dignidade.
— No escândalo que acaba de desenrolar-se, somos todos culpados! — declarou ele, apaixonadamente. — Mas não previa tudo isso vindo aqui, se bem que soubesse com quem tratava... É preciso acabar com isso sem tardar. Meu reverendo padre, fique certo de que não conhecia eu exatamente todos os detalhes revelados aqui, não queria acreditar neles e fico conhecendo-os pela primeira vez. O pai está com ciúmes de seu filho por causa de uma mulher de má vida e entende-se com essa criatura para lançá-lo na prisão... E é em semelhante companhia que me fizeram vir aqui... Enganaram-me, declaro ter sido enganado tanto quanto os outros...
— Dimítri Fiódorovitch! — gritou de súbito Fiódor Pávlovitch, com uma voz que não era a sua. — Se não fosse você meu filho, eu o desafiaria agora mesmo a um duelo... a pistola, a três passos... através de um lenço, através de um lenço — terminou ele, sapateando.
Há nos velhos mentirosos que representaram comédia a vida inteira momentos em que entram de tal maneira em seu papel que tremem e choram com verdadeira emoção, se bem que no mesmo instante possam dizer a si mesmos (ou logo depois): 'Tu mentes, velho descarado, és um ator -mesmo agora, malgrado tua santa cólera".
Dimítri Fiódorovitch ficou sombrio, mirando seu pai com um desprezo indizível. Eu pensava... — disse ele em voz baixa — eu pensava voltar ao país natal com aquele anjo, minha noiva, para cuidar da velhice dele, e que vejo? Um debochado luxurioso e um vil comediante!
— A um duelo! — gritou de novo o velho, ofegante e babando a cada palavra. — Quanto ao senhor, Piotr Alieksándrovitch Miúsov, fique 73
sabendo que em toda a sua linhagem não há talvez mulher mais nobre e mais honesta — está entendendo? —, mais honesta do que essa criatura, como se permitiu o senhor chamá-la ainda há pouco! Quanto a você, Dimítri Fiódorovitch, que substituiu sua noiva por essa "criatura*', você mesmo julgou que sua noiva não valia a sola dos sapatos dela!
— É vergonhoso! — deixou escapar o Padre Iósif.
— É vergonhoso e infame! — gritou com uma voz juvenil, trêmula de emoção, o rosto rubro, Kolgánov, que havia até então guardado silêncio.
— Por que tal homem existe? — rugiu surdamente Dimítri Fiódorovitch, a quem a cólera quase enlouquecia. Ergueu os ombros a ponto de parecer corcunda. — Não, dizei-me, pode-se permitir ainda que ele desonre a terra? — Lançou um olhar circundante e apontou para o velho com a mão. Falava num tom lento, medido.
— Estais ouvindo, monges, estais ouvindo o parricida?! — exclamou Fiódor Pávlovitch, dirigindo-se ao Padre Iósif. — Eis a resposta ao vosso
"Ê vergonhoso!" Que é que é vergonhoso? Essa "criatura", essa "mulher de má vida" é talvez mais santa que vós todos, senhores religiosos, que tratais de vossa salvação! Ela caiu talvez na sua juventude, vítima do meio, mas
"muito amou". Ora, o Cristo também perdoou aquela que muito amou...
— O Cristo não perdoou tal amor... — deixou escapar em sua impaciência o manso Padre Iósif.
— Não, foi esse amor mesmo, monges, esse mesmo. Cuidais de vossa salvação comendo couves e vos acreditais sábios. Corneis cadozes, um por dia, e pensais poder comprar Deus com cadozes.
— É intolerável, intolerável! — ouviu-se de todos os lados.
Mas essa cena escandalosa cessou da maneira mais inesperada. De súbito, o stáriets se levantou. Alieksiéi, que quase enlouquecera de medo por ele e por todos, pôde, no entanto, segurá-lo pelo braço. O stáriets dirigiu-se para o lado de Dimítri Fiódorovitch e, ao chegar bem perto, ajoelhou-se diante dele. Aliócha pensou que ele tivesse caído de fraqueza, mas não era nada disso. Uma vez de joelhos, o stáriets prosternou-se aos pés de Dimítri Fiódorovitch numa profunda saudação, precisa e consciente; sua testa aflorou mesmo a terra. Aliócha ficou de tal maneira 74
estupefato que nem mesmo o ajudou a levantar-se. Um leve sorriso pairava-lhe nos lábios.
— Perdoem, perdoem todos! — disse ele, saudando seus hóspedes para todos os lados.
Dimítri Fiódorovitch ficou alguns instantes como que petrificado: prosternar-se diante dele! Que significava aquilo? Por fim exclamou: "Ô
Deus!", cobriu o rosto com as mãos e lançou-se para fora do quarto. Todos os hóspedes seguiram-no em fila, tão perturbados que se esqueceram de despedir-se do dono da casa e de cumprimentá-lo. Somente os religiosos se aproximaram para receber-lhe a bênção.
— Por que se prosternou ele? Será algum símbolo? — Fiódor Pávlovitch, de súbito acalmado, procurava assim travar uma conversa, não ousando, aliás, dirigir-se a alguém em particular. Transpunham naquele momento a cerca do eremitério.
— Não respondo por alienados — respondeu logo Piotr
Alieksándrovitch, com aspereza. — Mas, em compensação, desembaraço-me de sua companhia, Fiódor Pávlovitch, e acredite que é para sempre.
Onde está aquele monge de há pouco?...
"Aquele monge", isto é, o que os havia convidado a jantar com o padre abade, não se fizera esperar. Encontrara os hóspedes a tempo, no momento em que estes desciam o patamar, como se tivesse estado todo o tempo à espera deles.
— Tenha a bondade, reverendo padre, de assegurar ao padre abade o meu profundo respeito e apresentar-lhe minhas desculpas; em conseqüência de circunstâncias imprevistas, é-me impossível, malgrado todo o meu desejo, aceitar o convite — declarou Piotr Alieksándrovitch ao monge, com irritação. —
— A circunstância imprevista sou eu! — interveio logo Fiódor Pávlovitch. — Escute, meu padre, é que Piotr Alieksándrovitch não quer ficar a meu lado, senão iria agora mesmo. Vá, Piotr Alieksándrovitch, não deixe de ir à casa do padre abade, e bom apetite! Fique sabendo que sou eu que me escapulo e não o senhor. Volto para casa, lá poderei comer, aqui, sinto-me incapaz, meu bem-amado parente.
— Não sou seu parente, jamais o fui, vil indivíduo.
75
— Disse isto de propósito para fazer-lhe raiva, porque o senhor repudia este parentesco embora seja meu parente, malgrado seus ares de importância, provar-lhe-ei pelo almanaque eclesiástico; enviar-te-ei o carro, Ivã, fica também, se quiseres. Piotr Alieksándrovitch, as conveniências lhe ordenam que se apresente em casa do padre abade; é preciso pedir desculpas das tolices que cometemos lá.
— É verdade que se vai embora? Não está mentindo?
— Piotr Alieksándrovitch, como o ousaria eu depois do que se passou? Deixei-me arrebatar, senhores, perdoem-me. Além disso, estou transtornado! E tenho vergonha. Senhores, pode-se ter o coração de Alexandre da Macedônia ou o de um cãozinho. Eu me assemelho ao cãozinho Fidelhka. Tornei-me tímido. Pois bem! Como ir ainda jantar depois de tal leviandade, encher-me dos assados do-mosteiro? Tenho vergonha, não posso, desculpem-me!
"O diabo sabe de que é ele capaz! Não terá ele a intenção de nos enganar?" Miúsov parou, irresoluto, seguindo com um olhar perplexo o palhaço que se afastava. Este voltou-se e, vendo que Piotr Alieksándrovitch o observava, enviou-lhe com a mão um beijo.
— Vai à casa do padre abade? — perguntou Miúsov a Ivã Fiódorovitch, num tom brusco.
— Por que não? Ele mandou convidar-me especialmente desde ontem.
— Por desgraça, sinto-me verdadeiramente quase obrigado a comparecer a esse maldito jantar — continuou Miúsov no mesmo tom de irritação amarga, sem mesmo tomar cuidado com o mongezinho que o ouvia. — Ê preciso pelo menos desculpar-nos do que se passou e explicar que não fomos nós... Que pensa disto?
— Sim, é preciso explicar que não fomos nós. Além disso, meu pai não estará lá — observou Ivã Fiódorovitch.
— Era só o que faltava que seu pai estivesse lá! Maldito jantar.
No entanto todos para ele se dirigiam. O mongezinho escutava em silêncio. Ao atravessar o bosque, fez notar que o padre abade esperava desde muito tempo e estava atrasado mais de meia hora. Não lhe responderam. Miúsov mirava Ivã Fiódorovitch com um ar cheio de ódio.
76
"Ele vai ao jantar como se nada se tivesse passado", pensava ele.
"Uma testa de bronze e uma consciência de Karamázov!"
VII
UM SEMINARISTA AMBICIOSO
Aliócha conduziu o stáríets ao seu quarto de dormir e fê-lo sentar no leito. Era uma peça muito pequena, com o mobiliário indispensável; a cama de ferro estreita tinha apenas uma almofada de feltro à guisa de colchão. A um canto, sobre uma estante, perto dos ícones, repousavam a cruz e o Evangelho. O stáriets deixou-se cair, extenuado. Seus olhos brilhavam, resfolegava. Uma vez sentado olhou fixamente Aliócha, como se meditasse em alguma coisa.
— Vai, meu caro, vai, Porfíri me basta, apressa-te. Têm necessidade de ti em casa do padre abade, servirás à mesa.
— Permita-me ficar aqui — disse Aliócha, com voz suplicante.
— És mais necessário lá. A paz não reina ali. Servirás e tornar-te-ás útil. Vêm os maus espíritos, recita uma oração. Fica sabendo, meu filho (o stáriets gostava de chamá-lo assim), que no futuro teu lugar não será aqui.
Lembra-te disto, rapaz. Assim que Deus me tiver julgado digno de comparecer perante ele, deixa o mosteiro. Parte imediatamente.
Aliócha estremeceu.
— Que tens? Teu lugar não é aqui no momento. Abençôo-te tendo em vista uma grande tarefa a cumprir no mundo. Peregrinarás muito tempo. Deveras casar-te, é preciso. Deveras suportar tudo até voltares.
Haverá muito que fazer. Mas não duvido de ti. Eis por que te envio. Que o Cristo seja contigo! Guarda-o e ele te guardará. Experimentarás uma grande dor e ao mesmo tempo serás feliz. Tal é tua vocação: procurar a felicidade na dor. Trabalha, trabalha sem cessar. Lembra-te de minhas palavras, doravante, porque entreter-me-ei ainda contigo, mas meus dias e mesmo minhas horas estão contados.
Viva agitação pintou-se no rosto de Aliócha. Seus lábios tremiam.
— Que tens de novo? — sorriu docemente o stáriets. — Que os 77
mundanos chorem seus mortos; aqui nos regozijamos quando um padre agoniza. Nós nos rejubilamos e rezamos por ele. Deixa-me. Tenho de rezar.
Vai, despacha-te. Fica junto de teus irmãos, e não somente junto de um, mas de ambos.
O stáriets ergueu a mão para abençoá-lo. Era impossível fazer objeções, muito embora Aliócha tivesse grande vontade de ficar. Queria também perguntar-lhe, estava mesmo com a pergunta nos lábios, o que significava aquela prosternação diante de seu irmão Dimítri, mas não ousou. Sabia que o stáriets lho teria ele próprio explicado, se tivesse podido. Portanto, não o queria. Ora, aquela saudação até o chão havia enchido Aliócha de estupefação; havia naquilo um sentido misterioso.
Misterioso e talvez terrível. Uma vez fora da cerca do eremitério, para chegar ao mosteiro no começo da refeição em casa do padre abade (devia servir à mesa), seu coração se fechou e teve de deter-se: parecia-lhe ouvir de novo as palavras do stáriets predizendo seu fim próximo. O que tinha predito o stáriets com tal exatidão devia cumprir-se sem nenhuma dúvida.
Aliócha acreditava naquilo cegamente. Mas como ficaria sem ele, sem vê-lo, nem ouvi-lo? E aonde iria? Ordenavam-lhe que não chorasse e que deixasse o mosteiro. Senhor! Desde muito tempo não sentia Aliócha semelhante angústia. Atravessou rapidamente o bosque que separava o eremitério do mosteiro e, incapaz de suportar os pensamentos que o acabrunhavam, pôs-se a contemplar os pinheiros seculares que orlavam o caminho. O trajeto não era longo, quinhentos passos no máximo; não se podia encontrar ninguém àquela hora, mas à primeira volta avistou Rakítin. Este esperava alguém.
— Seria a mim que esperavas? — perguntou Aliócha, quando o alcançou.
— Justamente — respondeu Rakítin, sorrindo. — Apressas-te em ir à casa do padre abade. Sei; oferece um jantar. Desde o dia em que recebeu o bispo e o General Parkhátov — lembras-te? — não houve jantar igual. Lá não estarei, mas tu vais para lá, servirás os pratos. Dize-me, Aliócha, que significa esse sonho? Queria perguntar-te.
— Que sonho?
— Mas aquela prosternação diante de teu irmão Dimítri Fiódorovitch. Bateu até com a cabeça no chão!
78
— Falas do Padre Zósima?
— Sim, dele.
— A testa?
— Ah! exprimi-me irreverentemente! Não tem importância. Pois bem, que significa aquele sonho?
— Ignoro, Micha, o que ele significa!
— Estava certo de que ele não to explicaria. Isto nada tem de espantoso, são sempre as mesmas santas frioleiras. Mas o truque foi jogado de propósito. Agora vão os beatos falar na cidade e espalhar na província: "Que significa esse sonho?" Na minha opinião, o velho é perspicaz; farejou um crime. Isso lá na tua casa está de feder.
Que crime?
Rakítin queria evidentemente dizer alguma coisa.
— Será na tua família que ele ocorrerá, esse crime. Entre teus irmãos e teu rico papai. Eis por que o Padre Zósima bateu com a testa para qualquer eventualidade. Depois, que acontecerá? "Ah! Isto fora predito pelo santo eremita, ele profetizou." No entanto, que profecia há nisso de bater com a cabeça? Não, dirão, é um símbolo, uma alegoria, e Deus sabe o quê! Será divulgado e lembrado: ele adivinhou o crime, designou o criminoso. Os "inocentes" agem sempre assim; fazem sobre o botequim o sinal-da-cruz e atiram pedras no templo. Da mesma maneira o teu stáriets: para um sábio, pauladas, mas diante de una assassino curva a cabeça.
— Que crime? Diante de qual assassino? Que é que estás contando?
Aliócha ficou como que pregado no lugar. Rakítin também parou.
— Que crime? Como se não o soubesses! Aposto que já pensaste nisso. A propósito, é curioso; escuta, Aliócha, tu dizes sempre a verdade, se bem que te assentes sempre entre duas cadeiras; pensaste nisso ou não?
Responde.
— Pensei nisso — respondeu Aliócha em voz baixa. Rakítin perturbou-se.
— Como, também tu já pensaste nisso? — exclamou ele.
— Eu... não é que tenha pensado precisamente nisso — murmurou 79
Aliócha —, mas acabas de falar tão' estranhamente a esse respeito que me pareceu tê-lo pensado eu mesmo.
— Estás vendo? (E como o exprimiste claramente!) Estás vendo? Hoje, ao veres teu pai e teu irmão Mítia, pensaste em um crime. Portanto, não me engano.
— Espera, espera um pouco — interrompeu-o Aliócha,
perturbado. — Donde tiras tudo isso? E, em primeiro lugar, por que isso tanto te interessa?
— Duas perguntas diferentes, mas naturais. Responderei a cada uma separadamente. Donde tiro tudo isso? De nenhuma parte o teria tirado, se não tivesse compreendido hoje Dimítri Fiódorovitch, teu irmão, dum relance e totalmente, tal como ele é, segundo certa linha. Entre essas pessoas muito honestas, mas sensuais, há uma linha que não se deve transpor. De outro modo, golpeará seu pai até mesmo com uma faca. Ora, seu pai é um bêbedo e um debochado desenfreado, que jamais conheceu a medida em coisa alguma; nenhum dos dois se conterá, e pronto, eis todos dois no fosso.
— Não, Micha, se é só isso, reconfortas-me. Isso não chegará a esse ponto.
— Mas por que tremes tanto? Sabes por quê? Pode ele ser um homem honesto, Mítia (é estúpido, mas honesto), apenas é um sensual. Eis sua definição e o fundo de sua natureza. Foi seu pai quem lhe transmitiu sua abjeta sensualidade. A respeito de ti, somente, Aliócha, é que me espanto; como se dá que sejas virgem? És, no entanto, um Karamázov! Na família de vocês, a sensualidade chega até o frenesi. Ora, esses três seres sensuais espiam-se agora... de faca no bolso. Três deram cabeçadas, podes ser o quarto.
— Enganas-te certamente a respeito daquela mulher. Dimítri a...
despreza — disse Aliócha, fremente.
— Grúchenhka? Não, irmão, ele não a despreza. Já que abandonou publicamente sua noiva por causa dela, não a despreza. Aqui, irmão, aqui há qualquer coisa que não compreendes agora. Que um homem se apaixone por uma beldade qualquer, por um corpo de mulher, até mesmo somente por uma parte desse corpo (um voluptuoso me compreenderia 80
imediatamente), entregará por causa dela seus próprios filhos, venderá pai e mãe, a Rússia e a pátria; honesto, irá roubar; manso, assassinará; fiel, trairá. O cantor dos pés femininos, Púchkin, celebrou-os em versos; outros não os cantam, mas não podem olhá-los a sangue frio. Mas não há somente os pés... Aqui, irmão, o desprezo é impotente. Ele despreza Grúchenhka, mas não pode destacar-se dela.
— Compreendo isso — disse, de repente, Aliócha.
— Deveras? E tu o compreendes, na verdade, para que o confesses desde a primeira palavra — declarou Rakítin com uma alegria maldosa. — Isso escapou-te por acaso. Nem por isso deixa a confissão de ser mais preciosa; por conseqüência, a sensualidade é para ti um assunto conhecido, já pensaste nela! Ah! o santinho! Tu és santo, Aliócha, convenho, mas és um santinho, e o diabo sabe em que é que já não pensaste, o diabo sabe o que já conheces! És virgem, mas já penetraste bastantes coisas, observo-te desde muito tempo. És tu mesmo um Karamázov, és um completo; portanto, a raça e a seleção significam alguma coisa. És sensual por teu pai e "inocente" por tua mãe. Por que tremes? Será verdade o que digo? Sabes? Grúchenhka me pediu: "Trá-lo aqui (isto é, tu) e eu lhe arrancarei a batina". E como tivesse insistido: "Trá-lo, trá-lo!", disse a mim mesmo: por que está ela tão curiosa dele? Sabes, ela também é uma mulher extraordinária!
— Dir-lhe-ás que não irei, jura-mo — disse Aliócha, com um sorriso constrangido. — Acaba, Mikhail, o que começaste, dir-te-ei em seguida o que penso. Para que acabar? Tudo é claro. Tudo isso, irmão, é uma velha canção. Se tu mesmo tens um temperamento sensual, que será de teu irmão Ivã, filho da mesma mãe? Porque também ele é um Karamázov. Ora, a natureza dos Karamázovi se resume assim: sensuais, ávidos no ganho e malucos! Teu irmão Ivã distrai-se agora escrevendo artigos de teologia por um cálculo estúpido que se ignora, sendo ele próprio ateu, e confessa essa baixeza. Além disso, está a ponto de conquistar a noiva de seu irmão Mítia e parece perto de seu fim. De que maneira? Com o consentimento do próprio Mítia, porque este lhe cede a noiva com o único fim de se desembaraçar dela e ir juntar-se a Grúchenhka. £ tudo isso não obstante sua nobreza e seu desinteresse, nota-o. Tais indivíduos são os mais fatais.
Como entendê-los, afinal? Tendo plena consciência de sua baixeza, comportam-se baixamente. Escuta agora: um velho barra o caminho a 81
Mítia, seu próprio pai. Porque este está loucamente apaixonado por Grúchenhka, fica com a boca cheia de água somente ao vê-la. Foi unicamente por causa dela que provocou tal escândalo, somente porque Miusov tinha ousado chamá-la de criatura depravada. Está mais amoroso do que um gato. Antes, estava ela somente a seu serviço para certos negócios equívocos e nas suas tavernas; agora, depois de tê-la bem examinado, percebeu ele que ela lhe agradava, encarniça-se após ela e faz-lhe propostas desonestas naturalmente; pois bem, o pai e o filho encontram-se nesta estrada. Mas Grúchenhka reserva-se, hesita ainda e mexe com os dois, examina qual é o mais vantajoso, porque se se pode arrancar muito dinheiro do pai, em compensação ele não se casará, tornar-se-á talvez avarento para o fim e fechará sua bolsa. Em semelhante caso, Mítia também tem seu valor; não tem dinheiro mas pode casar-se. Sim, é capaz disso! Abandonará sua noiva, uma beldade incomparável, Catarina Ivânovna, rica, nobre e filha de coronel, para se casar com Grúchenhka, outrora mantida por Samsonov, um velho comerciante, mujique depravado e prefeito da cidade. De tudo isso, podem verdadeiramente resultar um conflito e um crime. Ora, é o que espera teu irmão Ivã. Dá ele assim um golpe duplo: toma posse de Catarina Ivânovna, pela qual morre de amores, e se apropria de seu dote de 60 000 rublos. Para um pobre-diabo como ele, um pobretão, não é coisa de desdenhar, no começo. E nota bem! Não somente não ofenderá Mítia, mas este lhe será grato até a morte.
Porque sei de boa fonte que, na última semana, achando-se Mítia embriagado num restaurante com ciganos, exclamou que era indigno de Catarina, sua noiva, mas que seu irmão Ivã era digno dela. A própria Catarina Ivânovna acabará não repelindo um homem encantador como Ivã Fiódorovitch; já hesita entre eles. Mas como pode esse Ivã seduzir-vos para que estejais todos em êxtase diante dele? Ri-se de vós. Estou extasiado, diz ele, e festejo às vossas custas.
— Donde sabes tudo isso? Por que falas com tal segurança? —
perguntou bruscamente Aliócha, franzindo o cenho.
— Mas por que me interrogas, temendo de antemão a resposta? Isto significa que reconheces que disse a verdade.
— Não gostas de Ivã. Ivã não se deixa seduzir pelo dinheiro.
— Deveras? E a beleza de Catarina Ivânovna? Não se trata somente de dinheiro, muito embora 60 000 rublos sejam bastante atraentes.
82
— Ivã olha mais alto. Milhares de rublos não o deslumbrariam. Não é nem o dinheiro nem a tranqüilidade que ele procura. Ivã procura talvez o sofrimento.
— Que sonho é esse ainda? Ah! vós outros... os nobres!
Ora! Micha, sua alma é impetuosa. Seu espírito é cativo. Tem ele um grande pensamento ainda não resolvido. É daqueles que não têm necessidade de milhões, mas de resolver seu pensamento,
— Ê um plágio. Alióeha, parafraseias o teu stárieis. Ora! Ivã propôs-vos um enigma! — gritou com visível animosidade Rakítin, cujo rosto se alterou e cujos lábios se contraíram. — E um enigma estúpido, não há nele nada a adivinhar. Faze um pequeno esforço e compreenderás. Seu artigo é ridículo e inepto. Ouvi ainda há pouco sua absurda teoria: "Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é permitido". Lembras-te de como teu irmão Mítia gritou: "Lembrar-me-ei disso!" É uma teoria sedutora para os tratantes... Mas estou insultando, é uma estupidez... não os tratantes, mas os fanfarrões da escola com "uma profundeza de pensamento insolúvel". É um falastraz e isto quer dizer simplesmente no fundo: "Boné branco e branco boné". Toda a sua teoria não passa duma infâmia! A humanidade encontra em si mesma a força de viver para a virtude, mesmo sem crer na imortalidade da alma! Tira-a do amor à liberdade, à igualdade e à fraternidade...
Rakítin acalorara-se, tinha dificuldade em conter-se. Mas de repente parou, como se se lembrasse de alguma coisa.
— Pois bem, basta! — disse ele, com um sorriso ainda mais forçado. — Por que ris? Pensas que sou um casca-grossa?
— Não, nem mesmo tinha idéia de pensá-lo. És inteligente, mas...
deixemos isso. Sorri por estupidez. Compreendo que possas acalorar-te, Micha. Adivinhei pelo teu arrebatamento que tu mesmo não ^s indiferente para com Catarina Ivânovna. Há muito tempo que duvidava disso, irmão. Eis por que não gostas de Ivã. Tens ciúmes dele.
— E também do dinheiro dela? Vai até o fim.
— Não, não falarei do dinheiro, não quero ofender-te.
— Creio-o, porque o disseste, mas que o diabo vos leve, a ti e a teu irmão Ivã! Nenhum de vós compreende que, mesmo posta de parte 83
Catarina Ivânovna, ele é muito pouco simpático. Que razão terei para gostar dele, com a breca! Ele me faz a honra de injuriar-me, Não terei o direito de retribuir-lhe?
— Jamais o ouvi dizer bem ou mal de ti. Não fala absolutamente de ti.
— Pois bem, contaram-me que anteontem, em casa de Catarina Ivânovna, disse boas de mim, tanto se interessava por este teu criado.
Depois disso, ignoro qual irmão tem ciúme do outro. Houve ele por bem insinuar que, se eu não resignar à carreira de arkhimandrit e não largar a batina num futuro bem próximo, partirei para Petersburgo, entrarei para uma grande revista na qualidade de crítico, escreverei por uma dezena de anos e acabarei por tornar-me proprietário da revista. Publicá-la-ei então com orientação liberal e ateia, com uma tintura socialista, certo verniz mesmo de socialismo, mas tomando minhas precauções, isto é, nadando entre duas águas e ludibriando os imbecis. Sempre segundo o teu irmão, malgrado essa tintura de socialismo, colocarei minhas rendas em conta-corrente, pondo-as no momento em circulação, sob a direção dum judeuzinho qualquer, até que eu consiga construir um grande imóvel em Petersburgo; meus escritórios ocuparão um andar e alugarei os outros.
Designou mesmo o local da casa, perto da nova ponte de pedra que se projeta, parece, entre a Rua Litiéinaia e Travessa Vibórskaia...
— Ah! Micha, isto se realizará talvez de ponta a ponta! — exclamou Alióeha, que não pôde conter um riso jovial.
— E você também zomba, Alieksiéi Fiódorovitch?
— Não, não, estou brincando, desculpa-me. Pensava em outra coisa bem diversa. Mas, dize-me, quem pôde comunicar-te tais detalhes, de quem os terias sabido? Porque não estavas em casa de Catarina Ivânovna, quando ele falava de ti.
— É verdade, mas Dimítri Fiódorovitch ali se achava e ouvi-o repetir isso, isto é, escutei contra a minha vontade, oculto no quarto de dormir de Grúchenhka, donde não podia sair em sua presença.
— Ah! sim, esquecia-me de que é tua parenta.
— Minha parenta? Essa Gruchka seria minha parenta? — exclamou Rakítin, todo vermelho. — Perdeste a razão? Tens o cérebro desarranjado.
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— Como? Não é tua parenta? Ouvi dizer isto.
— Onde pudeste ouvi-lo? Ah! Senhores Karamazovi, tomais ares de alta e velha nobreza, quando teu pai bancava o palhaço na mesa alheia e figurava por favor na cozinha. Admitamos, não passo de filho de pope, um vil plebeu, ao lado de vós, nobres, mas não me insulteis com tão alegre sem-cerimônia. Tenho também minha honra, Alieksiéi Fiódorovitch. Não posso ser parente de Gruchka, uma mulher pública, compreende pois!
Rakítin estava violentamente superexcitado.
— Desculpa-me, pelo amor de Deus, não o teria nunca acreditado, aliás. É ela verdadeiramente... uma mulher pública? — Aliócha ficou completamente rubro. —Repito-te, disseram-me mesmo que era tua parenta. Vais muitas vezes à casa dela e tu mesmo me disseste que não tinhas ligação com ela... Jamais teria crido que a desprezasses tanto!
Merece-o ela verdadeiramente?
— Se a freqüento, tenho talvez minhas razões para isso, mas basta.
Quanto ao parentesco, será antes teu irmão ou mesmo teu pai que a fará entrar na tua família e não na minha. Mas eis-nos chegados. Vai antes à cozinha... Ora! Que é que há? Que está acontecendo? Estaríamos atrasados?
Mas não é possível que já tenham acabado de jantar! A menos que os Karamazovi não tenham feito das suas. Deve ser isto. Eis teu pai e Ivã Fiódorovitch que o segue. Fugiram da casa do padre abade. Eis o Padre Isidoro no patamar a gritar alguma coisa na direção deles. E teu pai, que grita, agitando os braços. Decerto está descompondo. Eis Miúsov que parte de caleça, não o vês correr? O proprietário Maksímov corre; é um verdadeiro escândalo,' o jantar não se realizou! Teriam eles batido no padre abade? Ou então foram surrados! Teriam bem merecido uma surra!...